O nada onde tudo pode acontecer

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Canvy Mockups on Pexels.com

Terra arrasada. Vazio. Falta.

Quando erguemos o olhar e vemos um terreno em que nada há: não há o namoro; não há mais o emprego; o dinheiro acabou; o casamento desmoronou … a autoestima inexiste.

Há momentos na vida que parecem filme de guerra: tragédia atrás de tragédia, recursos esgotados, tristeza profunda. Tudo cinza(s).

Há momentos em que parece não haver vida. Como pode dar tanta coisa errada? O que fazer com esse desespero e essa desesperança?

Onde nada há, pode existir tudo.

Quando não temos mais o que perder, podemos olhar para dentro de nós e fazer a pergunta: como seguir daqui pra frente?

Reflexões que nos ajudam: quem são as pessoas que ainda estão do meu lado (são aquelas que eu imaginava que permaneceriam)? O que antes eu odiava e que não quero voltar a suportar? Como posso construir uma rotina que não seja um inferno ou uma prisão sufocante?

Claro, nem sempre cabe tudo o que desejamos, queremos. Mas sempre cabe algo de bom, melhor que antes. Um hábito novo que fazemos só porque é gostoso, ainda que “não sirva pra nada”; um descanso em um momento do dia que “deixar tudo arrumado” era obrigação; o distanciamento de alguém que nos fazia tanto mal.

Está aí: o nada traz a permissão de refazer, reescolher, redecidir.

O que você quer de novo para sua vida? O que você pode incluir no seu dia a dia que te fará mais leve, mais alegre, com mais energia para sentir, pensar e agir?

Então — nessa sua terra arrasada — que castelo você construirá? Que história você contará e viverá?

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

De nada

 

Por Maria Lucia Solla
De nada

 

Tem vezes que nem dá tempo de sentar para escrever, que uma cachoeira de ideias se atira

 

louc
a busca
ndo
olhar a
tento
ou
vido a
finado
cor
ação
a
berto

 

E quem é que não está em busca de olhar, ouvido e coração… cada um do seu jeito, na medida do momento, mas é o que buscamos. Sermos vistos, ouvidos e reconhecidos.

 

no
fundo
e na
superfície
é a oportunidade de nos reconhecermos
olhando no sentido inverso

 

Tem vezes que a inspiração preenche o vazio deixado pela expiração do que não dava mais para segurar

 

e
tem vezes que é assim
plenitude
de vazio
nada
a dizer.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De nada

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Comecei a escrever sobre saquinho de supermercado, mas acabei dando num beco escuro, que atiçava as borboletas no meu estômago, e parei. Fui pensar e fazer coisas que também estavam na lista de urgência, e que me davam prazer. Criei, cozinhei, fotografei, dei uma olhada na logística dos meus planos, e recomecei a escrever no dia seguinte.

 

Estação de chuvas, você sabe, fica difícil desviar o pensamento. Para onde você olha está cinza, nebuloso, ameaçador, ou despejando água e soprando ventania que dá medo. A gente vê, lê e ouve sobre muita gente desabrigada e dolorida; gente que tenta não perder o pouco que acredita ter, enquanto a Natureza tenta reaver o que é seu de origem. Dizer o quê? Repetir a ladainha? Que a malha de canos que mora sob o solo já vem pipocando há muito tempo, mas outras prioridades mais cintilantes tomam o lugar da necessidade básica? Somos um país de terceiro mundo e novo rico. Fazemos plástica e implante de silicone, mas não cuidamos do que não é visível. Casaco de veludo e bunda de fora, como sabiamente diz a minha sogra, a dona Ruth.

 

Mas sabe como é o pensamento, você pensa que já espantou, e vem ele de volta querendo ser pensado. Me recusando a voltar à história do saquinho plástico, peguei um atalho e me dei conta de que no passado, nem tão passado assim, já que eu consigo me lembrar, a gente levava duas cesta de vime para as compras e vinha faceira da feira, do fruteiro, ou do armazém, com as cestas cheias e coloridas. Duas cestas porque temos dois braços. A gente comprava o que podia carregar.

 

Mas falar sobre o quê? Ligo a tevê e fico sabendo de uma pesquisa que diz que nós jogamos fora metade dos alimentos, in natura, processados e muitos ainda enraizados. Dizem que muitas vezes nem vale a pena colher o que não tem boa aparência porque o público alvo só compra o produto bonito. Vai fora um tanto tão escandaloso que poderia alimentar toda a população que passa fome no mundo.

 

Então pensei: vou falar sobre nada. Só que acabei me lembrando de um padre de Hamburgo Velho, no Rio Grande do Sul, perto de Porto Alegre, que eu não cheguei a conhecer, mas sobre o qual sempre falavam os meus sogros. Contavam que ele tinha um forte sotaque alemão e que nos enterros, quando jogava a terra sobre o caixão, dizia pô, pô, têra, têra, falando de morte e vida; da terra de onde vem o nosso corpo, e que nos alimenta e abriga, e da nossa volta a ela, literalmente em pó, para alimentá-la em retribuição. Eu acredito.

 

Acredito no ciclo da vida. Acredito que assim na terra como no céu, que assim fora como dentro. É só prestar atenção. Ou a gente presta atenção, ou não… e até a semana que vem.

 

Em tempo: Alguém sabe me explicar por que mulato virou pardo?

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung