Mundo Corporativo: Samuel Campos, da Vega, mostra como a tecnologia e o compliance ambiental transformam o Agronegócio

“Quem não tiver, não acompanhar esse movimento, não vai conseguir escoar o seu produto e não vai conseguir ter acesso, nem a prêmios ou investimentos, financiamentos de bancos que têm linha de crédito verde com juros diferenciados no mercado; e para ter acesso a isso você tem que mudar o seu modelo”

Samuel Campos, Vega

O conceito de compliance ambiental abrange as práticas e o manejo agrícola, buscando entender a interação da produção do imóvel rural com aspectos ambientais relevantes, como o combate ao desmatamento, sobreposições com terras indígenas, povos e comunidades tradicionais e unidades de conservação. A implementação dessas práticas sustentáveis é essencial para que o produtor atenda aos principais protocolos internacionais, como os da União Europeia, garantindo a aplicação desse conceito em toda a cadeia de suprimentos. Sobre o tema, o Mundo Corporativo entrevistou Samuel Campos, da Vega, uma empresa que especializada em monitorar a produção agrícola e testar a sustentabilidade das práticas na cadeia produtiva do agronegócio.

Rastreabilidade e Avaliação de Fornecedores

A rastreabilidade dos produtos agrícolas é fundamental para garantir a procedência sustentável da matéria-prima. Empresas como a Vega monitoram toda a produção desde a origem até a chegada na indústria, aplicando certificações e selos de sustentabilidade que atestam a conformidade com os protocolos ambientais. A avaliação de fornecedores desempenha um papel crucial nesse processo, e muitas empresas têm regras bem definidas para aceitar ou barrar a compra de produtos com origem não sustentável.

Tecnologia e Desafios para a Sustentabilidade no Agronegócio

A tecnologia tem papel fundamental no desenvolvimento sustentável do agronegócio. Samuel explica que a Vega usa técnicas de Inteligência Artificial e Big Data para processar e analisar dados de mais de 48 milhões de hectares de terras agrícolas no Brasil, buscando formas de integrar lavoura, pecuária e floresta para otimizar a produção e reduzir emissões de CO2. Os desafios incluem a conscientização dos produtores, a regularização ambiental, o monitoramento em tempo real e a transparência de toda a cadeia produtiva.

“O produtor rural às vezes quer estar dentro de um modelo mais produtivo, mas ele não encontra ainda as alternativas de saída: como é que ele vai regularizar o seu passivo? Como é que ele vai trabalhar com o estado no programa de regularização ambiental? Como é que a gente vai trabalhar esse monitoramento dessa transição? Esse para mim é um grande desafio na conscientização e na mudança desse modelo de produção brasileira”

Potenciais Impactos Negativos e Incentivos para a Sustentabilidade

Os produtores que não se adaptarem aos protocolos de compliance ambiental podem enfrentar restrições na venda de suas commodities em mercados internacionais, reduzindo a liquidez de seus produtos, de acordo com Samuel. Por outro lado, aqueles que adotam práticas sustentáveis têm a oportunidade de receber prêmios financeiros pela sua produção, além de acesso a linhas de crédito verde com juros diferenciados. A conscientização e a transparência na cadeia de suprimentos são cruciais para que a sustentabilidade se torne um ativo e não um passivo para os produtores. Além disso, lembra Samuel, os produtores ao aplicarem em tecnologia podem ampliar a variedade de safras e melhorar a produtividade:

“A gente costuma dizer que quando a gente conseguir mudar o mindset do produtor rural, que ele pode ter uma safra, uma safrinha, uma terceira safra ambiental, conectada a rastreabilidade da produção sustentável dele, a gente vai mudar toda a cadeia”.

Samuel destaca que o agronegócio está passando por uma grande transformação, impulsionada pela tecnologia e pelo compliance ambiental. O futuro do agronegócio está na conscientização dos produtores, na transparência da cadeia produtiva e no investimento em tecnologias inovadoras que permitam uma produção mais eficiente e sustentável. O desafio é grande, mas as oportunidades para profissionais qualificados no campo da tecnologia e da inovação são igualmente promissoras.

“Hoje, o mercado ele precisa  cada vez mais pessoas que enxerguem essa visão de sustentabilidade, que tem noção dessas questões de  ESG, de compliance; e quando você traz isso munido ali de conhecimento de inovação de tecnologia, você hoje é um profissional diferenciado no mercado”. 

Assista à entrevista completa com Samuel Campos, da Vega, ao Mundo Corporativo que tem a colaboração de Renato Barcellos, Letícia Valente, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: maior velocidade na transformação digital acrescentaria ao PIB mais de R$ 1 trilhão, diz Tatiana Ribeiro, do MBC

“Transformação digital é todo o processo desde a digitalização mesmo, acessos a negócios, utilização de ferramentas para isso e, também, tem todo o lado que está relacionado à mudança de cultura” 

Tatiana Ribeiro, Movimento Brasil Competitivo

A grande indústria que estuda a implantação da inteligência artificial,  a startup que nasce no ambiente virtual ou o armarinho do bairro que se relaciona com seus clientes pelo WhatsApp. Cada um a seu modo e do seu tamanho enfrenta os desafios da transformação digital, tema que motivou o Movimento Brasil Competitivo a convidar a Fundação Getúlio Vargas para estudar o impacto dessas mudanças na produtividade e no crescimento econômico. Tatiana Ribeiro, diretora executiva do movimento,  em entrevista ao Mundo Corporativo, foi quem nos apresentou o potencial que o país têm a medida que entenda a importância de criar condições para o investimento em transformação digital se acelere:

“É desafiador! A gente precisa avançar com mais velocidade, e isso poderia trazer para o Brasil um acréscimo de R$ 1,1 trilhão ao  PIB. Então, acho que isso é um indicador bastante importante para mostrar o potencial que isso tem de agregar pra economia”

A projeção tem como referência os resultados alcançados nos Estados Unidos, onde a ampliação da oferta digital nos últimos cinco anos, em média, foi de 7,1%. Aqui no Brasil, ficou em 5.7%. Ou seja teríamos de pisar fundo no acelerador. Para ficar com o pé mais no chão, a persistirem os atuais patamares brasileiros, conseguiríamos agregar coisa de R$ 300 bilhões no PIB — o que já é um bom dinheiro. 

Considerando os exemplos do primeiro parágrafo desse texto, percebe-se que a desigualdade digital brasileira se equipara a desigualdade social. Há um fosso que separa as indústrias que estão em estágios bastante avançados e outros tantos setores. A mesma FGV que atuou ao lado do Movimento Brasil Competitivo havia, anteriormente, realizado pesquisa em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial na qual mediu o nível de maturidade digital das micro e pequenas empresas: 

“Numa pontuação de até 100 pontos, elas estão ali na casa de 40 pontos. Inclusive já tem uma série histórica porque eles fizeram a mesma pesquisa em 2021 e 2022 e a evolução é muito pequena. Então, esse é um setor que a gente precisa olhar” 

Oportunidade de crescimento a vista. De emprego, também. De acordo com a pesquisa “Transformação digital, produtividade e crescimento econômico”, nos últimos cinco anos o número de empregos digitais teve crescimento de 4,9% em comparação às demais ocupações. Nem crise nem mudanças socioeconômicas foram suficientes para impedir, por exemplo, remuneração acima da média e melhor produtividade de trabalho. 

Só não avança mais porque falta gente bem preparada. Para ter ideia: a Confederação Nacional da Indústria identificou que serão abertas 700 mil vagas no setor de tecnologia até 2025. Tatiana explica que, considerando ensino profissional, técnico e superior, o Brasil forma, atualmente, apenas 50 mil pessoas por ano. Para os interessados, a dirigente sugere a presença em cursos de curta duração, de três a seis meses; o ensino técnico profissional; e, em uma terceira janela de oportunidade, a implementação do novo ensino médio que tem um itinerário formativo técnico e profissional.

A formação e a capacitação, percebendo as necessidades do mercado, com o governo interagindo localmente com o setor produtivo para entender as demandas regionais é uma das ações necessárias para que o Brasil aproveite o potencial de crescimento que a transformação digital nos oferece. Em um segundo passo é preciso trabalhar políticas estruturantes de suporte aos pequenos negócios, explica Tatiana:

“Eles são 99% das empresas do país e representam 30% da nossa economia, são responsáveis massivamente pela geração de empregos, e a gente precisa entender como apoiá-los de forma que realmente possam transformar e trazer muito mais eficiência para os negócios”.

Finalmente, há necessidade de políticas coordenadas do ponto de vista do setor público, a medida que temos uma série de atores e interlocutores que muitas vezes se sobrepõem ou duplicam esforços. Uma ação nesse sentido poderia minimizar um dos riscos que a transformação digital gera que é o abismo digital:

“A gente pensa por exemplo na conectividade. É fundamental que essa conectividade seja ampliada; que as escolas brasileiras de todo o país tenham acesso de qualidade para que os alunos possam usar isso como uma ferramenta de aprendizado”.

Para conhecer mais sobre o estudo realizado pelo Movimento Brasil Competitivo e FGV assista à entrevista completa de Tatiana Ribeiro:

O Mundo Corporativo tem as participação de Renato Barcellos, Letícia Valente, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Julia Maggion, da Ateha, explica como negócios verdes podem fazer do Brasil uma potência regenerativa

“A gente precisa como país se apropriar desse lugar. Realmente, entender que os negócios podem ser uma ferramenta para se colocar nessa posição de uma potência regenerativa mesmo” 

Julia Maggion, Ateha
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O Brasil tem a possibilidade de se transformar em uma potência regenerativa, a partir de uma série de ações que valorizem seus principais biomas, aproveitando-se da riqueza que oferecem para desenvolver novos negócios sustentáveis. Essa não é apenas uma visão otimista do que podemos fazer no país, é realidade que se enxerga a partir de projetos que estão em andamento, alguns dos quais sob o olhar da empreendedora Julia Maggion, uma das fundadoras da Ateha, empresa criada para apoiar empreendedores com ideias de impacto para as soluções climáticas, em 2021.

Na entrevista ao programa Mundo Corporativo, Julia esbanjou entusiamo ao falar do empreendedorismo verde e das possibilidades que existem no Brasil. A existência de matas nativas e biomas diversificados — Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa, Pantanal e Bioma Marinho —permite ao país a liderança desse movimento de regeneração e o surgimento de fontes de renda para comunidades locais.

Após passagem em uma série de grandes empresas e no sistema bancário, nos quais aprendeu lições importantes na área corporativa, Julia descobriu-se em projetos de impacto social e ambiental. A ideia da Ateha surgiu nesse novo momento, quando então ela se juntou a parceiros de negócios no setor financeiro: Raymundo Magliano Neto, ex-CEO da Magliano Corretora e co-fundador da Expo Money e Humberto Matsuda, co-fundador da Performa Investimentos e fundador da Matsuda Invest. Uma combinação que para ela foi perfeita: 

“A Ateha faz investimentos sementes nas empresas, mas a gente entra muito no negócio, botando a mão na massa. É o que eu gosto de fazer. Eu adoro pegar o negócio no começo, a ideia e desenvolver. E o nosso papel também é fazer a ponte com o universo do investimento, haja vista a experiência dos meus sócios”.

Os projetos de impacto ambiental e regenerativos tem inúmeros benefícios e permitem que se atue no âmbito local, entendendo os limites territoriais, as fronteiras de crescimento e as características próprias de cada população.  Da mesma forma, exigem do empreendedor visão diferente daquela que costumamos ter nas grandes empresas, em que o lucro é a meta:

“Aprender com essa lógica (a da sustentabilidade) exige desconstruir muito do que a gente aprendeu no mundo convencional dos negócios, exige a criação de um arcabouço de novos valores e, principalmente, no sentido de a gente saber trabalhar conectado, entendendo os ritmos da natureza”.

Na nossa conversa, Julia destacou que um dos negócios que estão sendo fomentados pela Ateha é o Ekuia Food Lab, um laboratório que pretende valorizar a biodiversidade da Amazônia e regenerar florestas, impulsionando negócios e fortalecendo uma nova economia com a criação de produtos alimentícios. Também em desenvolvimento está a Ateha Escola do Clima que pretende disseminar conhecimento, formando mão de obra mais bem preparada e empreendedores que tenham a visão de negócios regenerativos.

Pensar em soluções ambientais não é função apenas para empreendedores verdes ou startups que nasceram com essa intenção. É responsabilidade, também, de todas as empresas e seus líderes que precisam entender quais são os mecanismos de impacto que podem ser desenvolvidos dentro de seu negócio. Uma preocupação posta por uma das nossas ouvintes no Mundo Corporativo foi quanto ao risco de o empreendedorismo verde em lugar de proteger se transformar em explorador do meio ambiente:

“A gente precisa criar os mecanismos justamente para que isso não aconteça. Isso tem a ver com políticas públicas, com associações de empresários e de empresas que têm esse pacto de não gerar o impacto negativo. Porque como eu falei, a empresa acaba muitas vezes fazendo um projetinho que está gerando um impacto positivo, mas na sua atividade principal gera um impacto negativo absurdo. Então, a sociedade, principalmente, tem que estar muito atenta”.

Um das formas de atuar para impedir esse desvio de conduta é ter informação e conhecer os instrumentos de fiscalização e proteção ambiental. No site da Ateha existem vários documentos e artigos, disponíveis de graça, que podem ajudar você a estar mais bem informado sobre o assunto. 

Antes, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo, com Julia Maggion, CEO e cofundadora da Ateha:

O Mundo Corporativo tem a participação de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: aluga-se tudo 

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“Vale estudar um pouco seu mercado e avaliar se há uma oportunidade dentro da economia compartilhada”

Jaime Troiano

De casa a carro, de roupa a lava-roupa. Aluga-se de tudo e um pouco mais em um sistema bastante antigo que ganhou roupagem nova com o conceito da economia compartilhada. Diante da era da escassez, tomar por empréstimo alguma coisa faz sentido além de tornar acessíveis bens que seriam financeiramente inviáveis. Com isso, surgiram oportunidades para que as marcas construam nova imagem frente ao consumidor.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília Russo revelou seu otimismo com o sistema de aluguel que, além de estar se expandindo aos mais diversos setores da economia, têm surgido de forma renovada em segmentos onde o modelo já existia, como o de automóveis. Se no passado alugava-se carros por dias ou semanas —- e necessariamente em agências especializadas —, hoje é bastante comum, o aluguel por hora e de veículos que estão estacionados nos mais diversos pontos da cidade.

“Vejo que a modalidade do aluguel tem muito espaço para crescer e muitas marcas novas poderão surgir nessa tendência”

Cecília Russo

A economia compartilhada democratiza o uso de produtos e serviços assim como reduz o impacto no meio ambiente. No caso de carros, por exemplo, troca-se a lógica de um carro por pessoa para um mesmo carro para várias pessoas. 

A consolidação deste modelo passa pelo amadurecimento do consumidor que vê com menos preconceito a possibilidade de dividir produtos com outras pessoas e se desprende da ideia de posse. As vantagens são muitas, como relacionou Jaime Troiano:

  1. Comodidade: locar um carro, por exemplo, alivia o consumidor de várias tarefas. Já vem com seguro, não tem de pagar IPVA e a manutenção é desnecessária. Se houver algum problema, devolve e troca de carro. 
  2. Variedade: alugar roupas é ter um armário ilimitado, com todas as cores, modelos e estilos disponíveis sem lotar o seu armário em casa.
  3. Acesso: aluguel, é óbvio, custa bem menos do que comprar um bem, na maior parte dos casos. Dessa forma, pode-se ter acesso a uma bolsa de uma grife para usar no fim de semana, sem desembolsar o valor de uma compra.

Queremos ouvir a sua opinião:

O que você pensa sobre a locação dos mais diversos produtos? 

Qual foi a sua experiência nessa área? 

Que oportunidades você vê para o seu negócio?

Para saber mais sobre o mercado de aluguel e como as marcas devem aproveitar essas oportunidades, ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. 

Mundo Corporativo: Gustavo Narciso, do Instituto C&A, diz como os ativistas corporativos transformam empresas

“A gente traz pra pra lógica da empresa as discussões sociais a gente traz pra lógica da empresa as inquietudes da sociedade”.

Gustavo Narciso, C&A
Trabalho voluntário com empreendedorismo social Foto: divulgação C&A

Queria ser jornalista, os pais preferiam que fosse doutor, formou-se engenheiro bioquímico e, hoje, se apresenta como ativista corporativo, apesar de, formalmente, ser diretor-executivo do Instituo C&A. Gustavo Narciso, entrevistado do Mundo Corporativo da CBN, aproveitou-se de sua história de vida para ilustrar o tema central de nossa conversa: a importância da diversidade nas empresas. Sim, voltamos a esse assunto — que havia sido tratado na semana passada, com Eduardo Migliano, da 99Jobs.com, e em outros episódios do programa —  devido a sua relevância e, como percebi em comentários deixados em publicações anteriores, da intolerância que é resistente.

Foi quando chegou à C&A, antes de assumir o cargo executivo no instituto, que Gustavo encontrou espaço para expressar sua identidade. Na consultoria em que atuava anteriormente era o único negro no escritório, situação que, segundo ele, causava estranheza, em especial diante dos clientes, pois não tinha o perfil que eles esperavam. Quando migrou para o setor de varejo, dividiu lugar com outros negros e, especialmente, foi quando se encorajou a assumir para seus pares de que era homossexual:

“Era uma outra questão que eu escondia. E gastava muita energia para esconder isso. Então, eu encontrei um ambiente um pouco mais inclusivo e  isso permitiu com que eu me desenvolvesse, com que eu criasse mais vínculo com as pessoas e isso fez com que minha carreira deslanchasse”.

A partir daquele momento, Gustavo conheceu outros ativistas corporativos que falavam sobre o tema da diversidade e inclusão no mercado de trabalho; e isso o inspirou a sugerir a criação do comitê de diversidade na C&A, o qual liderou, a partir de 2017. Uma de suas tarefas foi entender como conectar as discussões sociais e as inquietudes da sociedade com a dinâmica do negócio. Uma rede de varejo como a C&A atende cerca de 1 milhão de clientes diariamente, em todo o Brasil, portanto, perceber se a atenção oferecida a pessoas com deficiência está a altura da necessidade delas, se os consumidores são valorizados pela intenção de compra que têm ou se o respeito é igualitário no serviço prestado, têm um impacto enorme na sociedade. 

Uma das mudanças propostas por Gustavo foi redirecionar o trabalho voluntário que os cerca de 16 mil funcionários são incentivados a realizar — com dias de trabalho que podem ser dedicados a essas ações. Em lugar de atuar nos programas voltados à educação das crianças —- o que ocorria até então — decidiram focar no tema do empreendedorismo social para mulheres em situação de vulnerabilidade, aproveitando a expertise da C&A na área do varejo:

“Criamos uma oficina de costura no meio da Cracolândia, em São Paulo, com coletivo de mulheres dependentes químicas que produzem brindes corporativo e outros itens de moda, para gerar renda. Além disso, elas têm atendimento psicossocial com a intenção de tirá-las da situação de rua e da dependência química”.

Outra medida de impacto foi incentivar a moda autoral brasileira conectando empreendedores LGBTQIA+ e periféricos com o negócio da C&A e oferecendo espaço em seu marketplace, com isenção de taxas e contratos competitivos, dando-lhes acesso ao mercado de consumo. 

Mesmo que tenha encontrado um ambiente que lhe permitiu se expressar e se desenvolver profissionalmente, Gustavo diz que há muitos desafios a serem vencidos no tema da diversidade e inclusão dentro da C&A. Apesar de haver na empresa um número considerável de negros, ele é o único a ocupar cargo executivo. A ideia é incentivar novos líderes negros para assumirem outras áreas. Assim como proporcionar oportunidades a mulheres que atualmente estão em cargos de média gestão a ascenderem na hierarquia do grupo. Avançar na inclusão de pessoas transgêneras e com deficiência é o que Gilberto identifica como “desafio gigantesco”. 

No programa Mundo Corporativo, Gustavo Narciso trouxe outros exemplos de projetos em desenvolvimento no instituto visando a inclusão, abordou o conceito do aquilombamento e respondeu a dúvidas de ouvintes. Assista à entrevista completa:

O Mundo Corporativo tem a participação de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen. 

Mundo Corporativo: descubra a sua essência e defina sua carreira, sugere o consultor Emerson Dias

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“Será que aquela escolha é norteadora para o resto da minha vida, será que eu preciso ficar nela?”

Emerson Dias, Consultor

As transformações no mundo do trabalho são inexoráveis e se aceleram a cada instante. Diante desse cenário, os profissionais precisam se adaptar e encontrar novas formas de atuação. Acima da forma, porém, está nossa essência que precisa ser respeitada para que se alcance aquilo que é nosso maior objetivo: a busca da felicidade. É o que defende Emerson Dias, consultor, doutor e mestre em administração, em entrevista ao programa Mundo Corporativo da CBN.

Autor do livro “Carreira, a essência sobre a forma”, Emerson ilustra sua ideia a partir de situações enfrentadas por atletas de alta performance, como é o caso de Usain Bolt —- um esportista de talento extraordinário que na pista conquistou os maiores prêmios e recordes até o momento que seu corpo permitiu. Sem as condições físicas necessárias para seguir carreira de atleta, Usain Bolt precisou se adaptar às novas exigências. Deixou as pistas, mas, provavelmente, jamais deixará o esporte, que é a sua essência. É a partir dela que o ex-velocista seguirá sua jornada profissional em busca da felicidade.

Como poucos são Bolt, ter consciência do que é a sua essência torna-se ainda mais importante a medida que é, a partir dela, que você avaliará se as escolhas feitas no início da sua carreira profissional ainda fazem sentido:

“Quanto mais eu me conheço, quanto mais eu sei a minha essência, as minhas inclinações, eu consigo abrir mão de coisas que não façam sentido para mim. Então. eu acho que o caminho, dada a nossa limitação de recursos, é buscar a se conhecer”.

Ao realizar um trabalho que tenha maior significado, as dificuldades são enfrentadas com mais suavidade, aumenta-se a tolerância ao estresse e a tensão, e se alcança segurança psicológica. Verdade que a situação sócio-econômica nem sempre permite que as pessoas façam escolhas apropriadas, mas desenvolver o autoconhecimento permitirá que, no instante em que houver uma estabilidade financeira, o profissional esteja preparado para redesenhar sua trajetória.

“Muitas vezes, eu escolho aquilo que está diante de mim, da minha possibilidade, do meu acesso, mas não, necessariamente, eu deveria escolher aquilo se eu tivesse possibilidades de acessar outros lugares, outros espaços, e aí sim falar ‘nossa, isso aqui é mais legal do que aquilo que eu tinha’. Então, acho que o contexto social também influencia nas nossas escolhas”.

Das mudanças que a pandemia prometia deixar no ambiente de trabalho, talvez a mais evidente, na opinião de Emerson, seja a necessidade de as pessoas discutirem temas que não eram bem-vindos no passado, como o da saúde mental. Percebe-se agora que as relações humanas são extremamente importantes e mesmo os líderes demonstram maior interesse em escutar sobre o assunto. A eles (os líderes), aliás, o consultor deixa um recado:

“Se o seu papel é liderar, você nunca pode esquecer que você tem que produzir resultados. Agora, para produzir resultados, se fosse só a parte técnica, o Google resolvia. Não é! É a parte da coesão social. É a parte do desafio, do desenvolvimento do indivíduo, de você estabelecer objetivos e de você apoiar um indivíduo na construção desse objetivo”.

Assista ao vídeo com a entrevista completa com Emerson Dias em que falamos, também, de estratégias para nos prepararmos para as mudanças no mercado de trabalho e para realizarmos melhores escolhas na nossa jornada:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscilla Gubiotti e Rafael Furugen. 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: economia circular está na moda

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“A tendência da sustentabilidade é irreversível, não apenas na moda. Devemos ter essa ideia no radar. Não quer dizer colocar todas as fichas nisso, tampouco virar as costas para ela”

Cecília Russo

Dos setores que mais perderam durante a pandemia, está o da moda. Segundo a McKinsey, a queda nas vendas, em Março de 2020, logo após o início da crise sanitária, foi de 81%, quando comparado ao ano anterior. Em 2021, também em Março, a queda estava em 49%, E, em Janeiro deste ano, as perdas estavam próximas de 20%. Apesar disso, há sinais positivos no horizonte.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo trouxeram dados de pesquisa da Globo, publicada no portal Gente, da Globosat, de que a intenção de compras de roupas aparece em 1o lugar, à frente de  smartphones, outros eletrônicos e perfumes. Ou seja, recuperação à vista. O importante é que as marcas entendam quais os caminhos a serem trilhados diante das experiências e expectativas dos consumidores. Que saibam interpretar as tendências:

“Vale sempre lembrar que quando falamos de tendência, estamos falando de um segmento pequeno da população que puxa esses comportamentos, não podemos generalizar, está longe de ser uma demanda plena e de massa”.

Cecília Russo

Uma das tendências é a moda circular: um produto que vem de fontes renováveis ou recicladas, que também seja reciclado de alguma forma após o consumo, fechando esse ciclo de 360 graus. Essa tem sido pauta de muitas marcas. Segundo dados americanos, 60% dos executivos de moda planejam investir ou já investiram em economia circular. O consumidor mais jovem gosta da ideia:  40% da geração Z — hoje com menos de 25 anos — e 30% dos Millennials já compraram em sites ou aplicativos de roupas usadas

“Pensar em economia circular ainda é para uma parcela pequena da população. Pessoas que já estão abastecidas de roupa e hoje passam a questionar o impacto que tal consumo pode gerar ao planeta. De toda forma, aqui no Brasil, vemos algumas iniciativas interessantes”

Jaime Troiano

Das marcas que estão aproveitando essa jornada, aqui no Brasil, Jaime e Cecília destacam o trabalho realizado pelo “Enjoei” e pela “Repassa”, comprada pela Renner, em 2021:

“A empresa faz a curadoria das peças, recicla, precifica, vende e entrega. Firmou, inclusive, uma parceria com a Levis que dá desconto quando o cliente recicla suas roupas usadas na plataforma da Repassa”.

Jaime Troiano

Mesmo que as iniciativas ainda sejam incipientes, diante do enorme volume de roupas produzidas e vendidas no modelo tradicional, essa tendência é importante porque pode impactar um segmento que é responsável por 4% das emissões de carbono mundiais. 

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo que vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: Fabíola Meira, advogada, fala da transição de carreira para profissionais liberais

Foto divulgação

“Não dá para ter medo, porque o medo tem dois lados: dá aquela aquela sensação gostosa, ao mesmo tempo que te trava. Não dá para ter medo, mas você precisa saber onde você tá pisando. Não dá para ir de olhos fechados”. 

Fabiola Meira, advogada

A secretária falta, o funcionário se atrasa, os boletos do escritório não param de chegar, o aluguel aumenta e os clientes sempre querem mais e mais. É o que você ganha quando decide ser protagonista do seu próprio negócio em lugar de seguir prestando serviço a outras empresas e empregadores. 

Foi esse o desafio que a advogada Fabíola Meira decidiu encarar em um dos momentos mais sensíveis para uma mulher: o nascimento do primeiro filho. Desconfia que o puerpério — esse estágio na vida de todas as mães, no qual enfrentam transformações hormonais, físicas e emocionais  — tenha influenciado na decisão de deixar um emprego seguro para tocar o próprio escritório de advocacia. Uma desconfiança que se expressa em tom de brincadeira porque Fabíola sabe que tinha outros ótimos argumentos para deixar o escritório em que trabalhava há 15 anos:

“Eu queria alguma coisa bem especializada para os clientes. Que eles sentissem que estavam sendo acolhidos, cuidados, com alguma coisa muito específica”.

Diante disso, vem a primeira lição para profissionais liberais que pretendam seguir carreira própria. Fabíola conversou com muita gente do mercado em que atua, fez várias reuniões com escritórios de advocacia e elencou argumentos antes de tomar sua decisão. O segundo passo foi entender se seria seguida por sua equipe no escritório em que já atuava e por seus clientes —- já que tinha uma carteira bastante robusta na área de direito do consumidor, que foi na qual se especializou. Não dá para começar do zero.

A terceira lição que se tira da experiência da Fabíola é que, mesmo não sendo a “dona” desenvolveu uma visão empreendedora — especialmente, quando sugeriu que a área dela fosse administrada de forma independente no escritório que atuava no modelo “full service”, ou seja, prestava serviços jurídicos com a oferta de especializações nas diversas áreas do direito. 

Nossa entrevistada no programa Mundo Corporativo também contou com uma ajuda extra e importante em momentos decisivos de nossas carreiras: o da família. Seja pela experiência que o pai tinha em escritório próprio seja no impulso que o marido dela ofereceu, incentivando-a a abrir o seu. Fabíola que, na frase que abre este texto, pede para não se ter medo, confessa que teve. E para superá-lo, pesou dores e prazeres:

“Apesar das preocupações, tem um lado gostoso de você ver que as coisas estão acontecendo da sua forma, que você está crescendo, que você está desenvolvendo outras pessoas na carreira, que tem um toque seu nas coisas. Tem as dores, mas também tem um lado muito positivo”.

Acho que você, caro e raro leitor deste blog, já percebeu que a Fabíola tomou a decisão de ser “dona do seu próprio nariz” ao mesmo tempo em que teve o primeiro filho. O que não contei ainda para você é que este filho nasce depois dela ter completado 40 anos —- uma decisão que muitas mulheres têm adotado ou pensam em adotar atualmente, com a intenção de, antes de ser mãe, garantir estabilidade profissional e financeira. 

Assim como nos ensina sobre como se transformar em uma profissional liberal e abrir negócio próprio, Fabíola também usa nossa conversa para orientar outras mulheres que queiram aproveitar a maternidade com maturidade: congelem seus óvulos. Um alerta que só foi ouvir — e de amigas — quando estava com 38 ou 39 anos, motivo que lhe causou angústia. Entende que é preciso falar desse tema, porque muitas mães têm filhos aos 44 ou 45 anos e não contam que o tiveram a partir da fertilização in vitro e não em uma fecundação natural:

“Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer isso, até porque eu acho que isso a gente precisa falar para outras mulheres. É um assunto que muitas mulheres escondem e isso acaba atrapalhando. Tenho amigas que engravidaram naturalmente depois dos 40 anos. Mas não é a regra”.

Assista à entrevista completa com a advogada Fabíola Meira na qual conta, também, sobre as mudanças que as empresas tiveram de fazer para atender as demandas do consumidor diante da pandemia do coronavírus.

O Mundo Corporativo tem as colaborações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: as lições de empreendedorismo de Flávio Augusto, da Wiser

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“É importante ter um plano, sim, mas é importante a gente estar sempre sensível para novas oportunidades” 

Flávio Augusto da Silva, empresário 

Nem o Estado nem as multinacionais. O maior empregador no Brasil é o pequeno e o médio empreendedor, responsável pela contratação de 70% dos profissionais que ocupam uma vaga de trabalho de maneira formal. Isso significa  que quanto mais a mentalidade empreendedora se espalhar mais empregos serão gerados. Apesar disso, é bem provável que você não encontre na área da educação, escolas dispostas a levar para o currículo essa mentalidade —- seja por preconceito seja por falta de visão seja por total desconexão com as possibilidades que a vida oferece aos jovens. Para o empresário Flávio Augusto Silva, entrevistado do Mundo Corporativo da CBN, o ensino tem de ir além dos caminhos convencionais:

“Não existe apenas um caminho, existem vários caminhos. Nossos jovens podem ser um atleta, um sacerdote, um artista, e, também, ser um empreendedor. Ele pode também no futuro ser aquele cara que vai investir o seu o dinheiro, o dinheiro dele, que ele economizou com muito sacrifício, com o objetivo de realizar um sonho e com isso gerar emprego”.

Flávio Augusto tem uma história que vai além do clichê “o vendedor de curso que virou dono do curso”, apesar de ter iniciado assim sua trajetória quando fundou a rede de idiomas Wise Up, em 1995. Quatro anos antes começou a trabalhar “casualmente” como vendedor de um curso de inglês, no Rio de Janeiro e, graças aos bons resultados, logo ascendeu na empresa, até entender que havia uma enorme oportunidade no ensino do idioma para adultos. Arriscou ao usar o cheque especial e os juros de 12% ao mês para abrir 24 escolas próprias nos primeiros três anos — o que não recomenda para ninguém. Em 18 anos, a rede se expandiu para 396 escolas. Um sucesso que foi vendido para a Abril Educação por R$ 877 milhões, em 2013. E recomprado, dois anos depois, pela metade do preço. Sim, ele voltou a ser o dono da Wise Up.

Antes de seguir nessa história, é bom saber o que leva um empresário a vender um negócio que está dando certo. Flávio Augusto recorre a metáfora do construtor de prédio: 

“Não é muito da cultura brasileira entender que um construtor constrói um prédio para vender os apartamentos. Você não vai ver um construtor de repente olhar para o prédio e pensar: ‘eu vou ficar com esses 200 apartamentos para mim porque eu gostei muito’. O ápice do sucesso de um empreendedor é quando ele constrói um negócio a ponto do mercado desejar aquele negócio e pagar por ele. A venda de um negócio, é uma métrica de sucesso de um empreendedor”.

Para o empresário existem três possíveis destinos para uma empresa, dois deles deveriam ser evitados. O primeiro é o negócio quebrar; o segundo, o dono morrer;  e o terceiro é ser vendido. Por isso, diz que, sempre quando tem um negócio, tem um plano de saída. Não entramos no tema, mas reportagens em sites de finanças e negócios dizem que Flávio Augusto estaria preparando a Wiser, empresa que comanda e investe na área da educação e da tecnologia, para um movimento estratégico que poderia ser tanto um IPO quanto a venda do grupo — plano de saída ou de expansão?

Verdade que, nos últimos anos, apesar e por causa da pandemia, Flávio Augusto e a Wiser têm se dedicado muito mais a entrar em novos negócios. Para ter ideia, comprou a Conquer, escola de negócios, e a AprovaTotal, plataforma que prepara estudantes para o vestibular, entre outros investimentos. Ter percebido o movimento que o mercado fazia em direção ao ensino online, antes do fechamento das escolas físicas, por causa da crise sanitária, permitiu que a Wiser se fortalecesse e se colocasse no mercado como “compradora”. 

De volta as lições que aprendemos ao ouvir a entrevista de Flávio Augusto ao Mundo Corporativo. Ele recomenda muito cuidado na elaboração do plano de negócios da empresa, que pode ser impactado por questões tributárias, fiscais e trabalhistas. 

“O erro mais comum que cometemos quando entramos no mundo do empreendedorismo é não fazer o plano de negócio ou subestimar o plano ou superestimar o plano, porque o plano vem com a necessidade de se ter um capital junto. E aí se você subdimensionar o capital no seu plano e demorar demais para chegar no seu ponto de equilíbrio, vai te faltar o capital de giro. Essa é aquela hora que o empresário, às vezes, começa a se endividar mais do que deveria. Ou aquele momento que ele vai ficar desesperado procurando um sócio. E de repente pode falir”.

Alerta aos novos empreendedores, que a empresa não é apenas uma planilha de Excel, transações financeiras ou desenvolvimento de produto. Antes de qualquer coisa —- palavras dele —  é preciso saber gerir pessoas, se é que o empreendedor tenha a intenção de expandir seu negócio. 

“Gente tem suas contradições, tem suas dificuldades, tem suas traições, tem um pouco de dor de cabeça, tem! Mas, também, gente tem muita alegria. Tem gente boa, tem gente talentosa, gente que quer crescer, gente que vai contribuir com você. Então, tem os dois lados da moeda. Agora, uma coisa é necessária, você tem que aprender a gerir pessoas e, infelizmente, isso não se aprende na escola”. 

E como não se aprende nas escola formais, claro, Flávio Augusto foi lá e transformou isso em mais uma oportunidade.  

Ouça a entrevista completa de Flávio Augusto, fundador da rede de idiomas Wise Up e CEO da Wiser, no Mundo Corporativo: 

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscilla Gubiotti e Rafael Furugen. 

Mundo Corporativo: Gilson Magalhães, da Red Hat, defende que a colaboração produz mais que a competição

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“A nossa cultura é inacreditavelmente diferenciada justamente por isso, porque todos temos a liberdade de opinar em qualquer nível. E a colaboração acaba acontecendo e a inovação vem também acompanhando toda essa dinâmica” 

Gilson Magalhães, Red Hat Brasil

O surgimento dos smartphones, que mudaram a sociedade, permitindo que a tecnologia da informação chegasse às mãos de bilhões de pessoas, foi o impulsionador das soluções em código aberto. A opinião é de Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, líder internacional no desenvolvimento de software open source —- perdão, é assim, em inglês, que a turma costuma se referir ao tipo de produto criado em um regime descentralizado em que a empresa não é a única responsável por sua produção.

“A gente não entende, talvez, a dimensão do impacto dessa tecnologia no nosso dia a dia e como ela veio com escala muito maior. Saímos da escala de milhões de pessoas que usavam Tecnologia de Informação para bilhões de pessoas. Foi necessário o uso de novas tecnologias e um dos casos importantes nesse avanço foi justamente a participação das soluções de código aberto como um fomentador da inovação e crescimento da escala”.

Gilson foi criado no ambiente do código proprietário, ou seja, cada um é dono do seu próprio nariz e ninguém põe a mão. Foi há oito anos que se descobriu um apaixonado pelo código aberto provocado pelo que identificou ser um tendência de mercado e se ofereceu para trabalhar na Red Hat Brasil:

“Não só não me arrependo da decisão, como acho que esse é o caminho para as novas gerações, porque é o caminho que garante que haja, na evolução dessa grande indústria, a possibilidade da colaboração das pessoas participarem da estruturação de como vão ser as entregas, as soluções de TI”

Em uma indústria em que a colaboração é a chave que aciona a inovação, a gestão de pessoas tem de ser pautada por essa mesma ideia. As relações têm de ser abertas como os códigos-fontes e o conceito precisa ser exercitado na dinâmica de trabalho das empresas. Para Gilson, o sucesso desse negócio depende de se ter uma cultura que ofereça espaço para a colaboração espontânea. O método tradicional do comando-controle, do “eu mando e você obedece” ou hierarquizado não funciona nessa indústria. Gilson diz que na Red Hat não adianta mandar fazer, porque se a pessoa não concordar com o caminho proposto, não o seguirá. E isso não é um problema. É a solução.

“Nós temos que fazer e trabalhar com convencimento. O poder de influência é muito mais importante nesse sentido. Isso contamina o líder que tem que ser um exemplo a ser seguido e não ser uma eminência a ser satisfeita”.

A pandemia — não seria diferente nesta indústria — tornou-se um desafio a parte na busca da criação de ambientes colaborativos, porque a ideia de ambiente, muitas vezes relacionada ao espaço físico da empresa, deixou de existir. O que falamos ser ambiente — e no meu caso, escrevo muito aqui no blog — na realidade é cultura da empresa. Agora imagine levar essa cultura a todos os colaboradores quando cerca de 30% deles chegaram nos últimos dois anos, ou seja, já dentro do modelo de trabalho à distância. 

Uma das formas de simplificar a adaptação dos colaboradores que chegam é identificar já no recrutamento perfis que estejam de acordo com o pensamento colaborativo e aberto. Essa cultura também impacta nas decisões de promoção que não consideram a senioridade, mas a contribuição ou o poder de influenciar e levar os outros a caminhar em uma direção significativa para o cliente. 

“Aqui é uma outra dinâmica. A gente costuma dizer que nós não temos portas abertas,  nós simplesmente não temos portas. Não tem como dizer que o chefe é intocável. O chefe precisa estar lidando com qualquer questão, da limpeza do escritório a decisão de novos produtos”.

O presidente da Red Hot Brasil diz que essa forma de trabalhar leva à escuta ativa, o que se fazia com maior simplicidade quando todos compartilhavam o mesmo espaço fisico, mas que agora, com o trabalho à distância, exigiu a criação de novos métodos e hábitos como encontros informais e cafés com os líderes. Nessas e nas demais atividades de relacionamento, Gilson afirma que todos são estimulados a falar o que quiserem e sem restrições ou retaliações. 

Provocado por um dos nossos ouvintes, que queria entender se em ambientes colaborativos também haveria espaço para a competição que sempre foi vista como indutora do desenvolvimento e da melhor produtividade, Gilson preferiu colocar essa questão de uma maneira diferente. Começou lembrando que parte dos colaboradores da Red Hat decidiu tatuar a marca da empresa em uma demonstração da admiração por aquilo que fazem; e explicou:

“O que acontece quando a pessoa faz uma tatuagem é que ela está demonstrando que tem um vínculo, uma paixão por aqui. Então, a motivação está mais em fazer parte de alguma coisa transformadora do que você ser melhor do que a outra”. 

Ouça o programa Mundo Corporativo com Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, que também falou sobre oportunidade de emprego nesse setor de soluções de código-aberto e o tipo de profissional que mais buscam no mercado:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.