Expressividade: pausa é silêncio, complementa a palavra ou muda seu sentido

 

Leia a sexta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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SILÊNCIO RODRIGUIANO

 

A importância da palavra é inquestionável. Quem a domina, comanda. Haja vista a preocupação com a formação de monopólios do setor de comunicação. Nos regimes totalitários as emissoras de televisão, os transmissores de rádios e as oficinas dos jornais são alvos preferenciais. Não há democracia sem liberdade de expressão. No Brasil, um dos pioneiros desta luta pelo direito do cidadão expressar opinião foi Nélson Rodrigues que, em 1943, revolucionou a dramaturgia com a peça Vestido de Noiva. Pernambucano, nascido em 1912, este jornalista e romancista transformou-se no mais importante autor do teatro contemporâneo. Morto aos 68 anos, forjou um legado de conceitos e ideias batizado pela crítica de “rodriguianos”. Ironicamente, um dos homens que mais souberam manejar as palavras era, também, um apreciador do silêncio:

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

Pausa é silêncio. E, por assim ser, gera expectativa de quem ouve, motivo pelo qual deve ser usada como parte da mensagem para chamar atenção do receptor seja pela quebra de ritmo, seja pelo próprio vazio em si. Se palavras têm diferentes significados, não-dizer também ganha razão dentro do contexto. Pode ser insatisfação ou respeito. Leva à reflexão ou provoca indignação. É complemento da palavra ou muda seu sentido.

 

Na locução do texto, o silêncio leva o ouvinte a compreender a mensagem desde que feito de forma natural e no momento certo. Exclamação, vírgula e ponto são marcas de um discurso que devem ser respeitadas e permitem a retomada do fôlego do orador. No processo de comunicação, em que os interlocutores estão focados na compreensão do sentido das palavras e orações, a pausa não é menos importante, mesmo que o ouvinte não as perceba conscientemente.

 

Valorizar o silêncio foi a primeira recomendação que ouvi ao ser convidado para um desafio inédito na minha carreira profissional: narrar futebol na televisão. Faço questão de ressaltar o veículo no qual iria exercer a função porque, fosse no rádio, não caberia neste capítulo e sequer mereceria tal destaque. O diretor de jornalismo da Rede TV!, na época de fundação da emissora, era Albertico Souza Cruz que, motivado pela ideia do jornalista Juca Kfouri, passou a defender mudança substancial na cobertura dos jogos de futebol. Ambos entendiam que a exuberância e a qualidade das imagem que fazem parte de uma transmissão televisiva, eram suficientes para atender as necessidades do telespectador, cabendo ao locutor o papel de coadjuvante. No que, no meu entender, tinham plena razão, a tal ponto que aceitei o trabalho, apesar da minha inexperiência como narrador esportivo (as brincadeiras em torno da mesa de futebol de botão, ainda na infância, nunca constaram do meu currículo).

 

Hoje em dia, as emissoras de televisão oferecem à audiência uma quantidade enorme de imagens de um mesmo jogo com a presença, nos estádios, de um sem-número de câmeras. Somam-se a isso todos os recursos técnicos de reprodução, câmera lenta e computação gráfica à disposição do público. De casa, munido de um controle remoto, é possível selecionar a cena a que se pretende assistir e escolher o melhor ângulo para rever aquele lance duvidoso. Do lado de fora do campo, às vezes até dentro do gol, microfones captam todo e qualquer barulho. O grito quase impublicável do torcedor, o choro do craque machucado, a orientação do técnico, que tenta organizar seu time, o chute na bola e até o barulho da chuva. Seja qual for o som que fizer parte do espetáculo, chega até os aparelhos de televisão, capazes de amplificá-lo em equipamentos ainda mais potentes.

 

Em meio ao espetáculo de som e imagem que se transformou a transmissão esportiva, o narrador precisa encontrar o lugar dele. Deixar de lado a participação emotiva e quase histérica que ocupa, atualmente, nas principais emissoras de televisão. “Valorizar o silêncio”, como repetia Alberico a todo momento no ponto eletrônico que me acompanhava nas coberturas dos jogos de futebol. Atender a esta exigência significava me limitar as informações básicas, como o nome de quem estava com a bola ou o que sinalizava o árbitro. Abrir mão do “óbvio ululante” —- apenas para usar mais uma referência rodriguiana. Ou será que o telespectador, depois de todas as imagens à sua frente, ainda precisa ser informado que “o chute foi com o pé direito, no canto esquerdo do goleiro”?

 

O silêncio, confesso, incomodava a mim — que desde o início defendi a proposta, mas tinha dúvidas de como seria recebida e de minha própria capacidade profissional para a função — e aos telespectadores — acostumados a gritaria que reina nas transmissões esportivas. Somente os mais refinados se deram conta de imediato que ali se quebrava um paradigma do telejornalismo esportivo. Saía o “animador de auditório”, entrava o “narrador de futebol de televisão” —- papel que espero possa, um dia, ser desempenhado por alguém mais bem preparado do que eu.

 

O momento mais significativo desta experiência foi durante a partida entre Bayer de Munique, da Alemanha, e Real Madrid, da Espanha. O jogo, válido pela Copa dos Campeões da Europa, marcava a despedida do craque alemão Lothar Matheus. Faltando cinco minutos para a partida se encerrar, o técnico do Bayer decidiu fazer uma homenagem a Matheus e promoveu a substituição dele. O árbitro parou o jogo para que esta fosse realizada. Juca Kfouri, que comentava, e eu, apenas trocamos olhares e silenciamos. Durante oito minutos, o telespectador em casa teve o direito de assistir ao adeus de um dos mais interessantes jogadores do futebol internacional, sendo cumprimentado por colegas, adversários e árbitro, aplaudido em pé por todos que estavam no estádio, e, finalmente, caminhando, já solitário, até o fim de um corredor onde estava a porta do vestiário, sem a interferência do locutor e comentarista. Nenhuma palavra substituiria aquelas cenas. Valorizamos o silêncio e a inteligência do telespectador.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Das gravações de Nixon ao alerta de Nelson Rodrigues

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O Partido Republicano, de Richard Nixon, em 17 de junho de 1972, invadiu a sede do Partido Democrata, no Edifício Watergate, em Washington, para grampear telefones e buscar informações que pudessem beneficiar a campanha para a sua reeleição. O episódio, de notório conhecimento, tendo gerado inclusive o filme “Todos os homens do presidente”, indicado para oito Oscars, contêm ingredientes altamente qualificados, como o jornalismo investigativo dos repórteres do Washington Post. Entretanto, um fato marcante é a questão das fitas gravadas pelo próprio Nixon, no salão Oval da Casa Branca.

 

É inacreditável que ao saber da denúncia – dos cinco invasores, dois eram ex-funcionários da CIA e do FBI, e um cheque de 25 mil dólares do comitê do Partido Republicano foi depositado na conta de um dos invasores – , Nixon manteve a fita de gravação no escritório oficial do Presidente, mesmo durante as reuniões para analisar os fatos e a tomada de decisões sobre Watergate, comandada por ele.

 

Quando foi obrigado a enviar estas suas fitas à justiça americana, Nixon renunciou. Em 9 de agosto de 1974.

 

É também inacreditável, que passados 42 anos, os homens no poder ainda não consigam se controlar em relação às gravações. Gravando ou falando.
Tudo indica que é o poder que os embala em uma imaginária blindagem.

 

Em outro tema, Nelson Rodrigues já alertava aos incautos políticos que se aventuravam aos estádios de futebol, do risco que corriam. Era frequente o seu aviso de que o Maracanã vaiava até minuto de silêncio.

 

Da mesma forma, políticos não são bons entendedores, pois as manifestações atuais são da mesma espécie que plateias de torcedores, e certamente estarão vaiando oportunistas de aplausos ou de votos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

O complexo de “vira-lata”

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Nelson Rodrigues, em 31 de maio de 1958, na última crônica antes da estreia da seleção brasileira de futebol na copa do mundo na Suécia titulou sua coluna “Personagem da Semana”, na revista Manchete, com o provocativo: “Complexo de vira-latas”. E explicou: “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”. Ainda assim apostou na vitória, e, como sabemos, veio o primeiro título mundial. Nelson só não acertou nas consequências: “Só imagino uma coisa – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício”.

 

Nem hospício, nem a fé se tornaram referência. Ganhamos cinco copas, temos o maior número de campeonatos mundiais, exportamos enxurradas de craques. Na América Latina o domínio é tanto que decidiram proibir final de campeonatos continentais entre nossos times. Mas, o complexo voltou. Nas vésperas de sediar o próximo mundial, Ronaldo o Fenômeno, legítimo produto nacional, o maior goleador de mundiais, eleito três vezes o melhor do mundo, e hoje Diretor do COL, consegue fora dos gramados o que nunca tinha feito dentro deles, pisar na bola: “O futebol brasileiro não vive o seu melhor momento. Talvez até esteja no seu pior momento da Historia”.

 

Fora do Brasil, o pessoal do futebol se aproveita. Breitner, alemão campeão do mundo em 1974, na Soccerex do Rio disse que ficamos fora das mudanças do futebol mundial nos últimos anos. E, em relação ao mundial de clubes, a fala em algumas ocasiões é míope ao avaliar o campeonato da FIFA. Quando não é, é até de desprezo. Atitude que alguns conterrâneos nossos tem endossado ingenuamente, pois a simples observação do comportamento dos europeus após os jogos finais no mundial de clubes constata que a fala dos homens precisa sempre ser reavaliada. Explosões dos europeus de alegria ou tristeza relacionadas com vitória e derrota são visíveis a olho nu.

 

O velho e sábio Nelson Rodrigues viveria hoje uma assertividade invejável, pois enquanto o complexo ainda persiste a paixão também explode. No tricolor campeão que tanto amou e nos “loucos” que chegam amanhã em Tókio.

 

Felipão tem mesmo que levar este espírito dos clubes à Seleção.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung