Como economistas que ganharam Nobel encontram respostas para combater a pobreza

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer

 

O momento mundial em que os movimentos políticos refletem posições direitistas e os números apontam para o crescimento das diferenças socioeconômicas, onde os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres, o Nobel premiou a Economia do Desenvolvimento. E obteve excepcional difusão — inclusive neste espaço, pois na segunda-feira passada, Mílton Jung conversou com Miriam Leitão, e na quarta-feira entrevistou a Diretora do Laboratório de Ação Contra a Pobreza J-PAL para a América Latina do MIT, Paula Pedro, sobre essa premiação.

 

A área econômica que abrange a pobreza aliada a presença da segunda mulher premiada acumular o fato de ser a pessoa mais jovem a receber o Nobel explicam em parte a extraordinária repercussão que obteve. A outra parte é devido ao sucesso do trabalho realizado para indicar as melhores práticas na diminuição da pobreza, através de métodos de medições de campo, que se convencionou denominar de economia do desenvolvimento.

 

Se nos países mais pobres nos últimos 20 anos o PIB per capita dobrou, a mortalidade infantil caiu pela metade e 80% das crianças frequentam a escola, em contrapartida, ainda 700 milhões de pessoas vivem com rendimento abaixo do suportável, cinco milhões de crianças morrem antes dos cinco anos de idade, e metade das crianças do mundo saem da escola sem alfabetização suficiente e aritmética necessária.

 

Com perguntas simples no campo experimental projetado, focando em grupos ou individualmente, esses economistas desvendaram informações suficientes para melhorar a aplicação dos recursos escassos existentes.

 

Por exemplo, num estudo de campo se descobriu que a redução de alunos por professor não teve mudança no resultado dos estudantes. Entretanto, se a contratação do professor era por período ao invés de permanente o resultado mudou para melhor.

 

Ao focar atenção nos alunos fracos houve significativa melhora nos resultados, e este método foi aplicado em mais de 100 mil escolas na Índia.

 

A inadequação entre os currículos e o ensino que não correspondem às necessidades dos alunos foi um dos fatores geradores do absenteísmo de alunos e professores.

 

Na área da saúde, um medicamento de desparasitação para infecções parasitárias foi oferecido de graça e 75% dos pais aplicaram em seus filhos. Quando se cobrou 1 dólar apenas 18% o fizeram. Foram feitos experimentos similares que obtiveram a mesma resposta, concluindo-se que as pessoas pobres não respondem ao preventivo na saúde.

 

Através de pesquisa na vacinação, se descobriu que a qualidade do serviço e a disponibilidade contribuem para a baixa atenção das pessoas pobres à saúde. Ao disponibilizar equipes volantes e atenciosas em um experimento de campo a taxa de vacinação subiu de 6% para 18%. Subiu para 39% quando ofereceram um saco de lentilha para vacinarem os filhos. Como se vê, surge aqui um problema pois 61% ficam sem vacina.

 

Em virtude do viés presente, que faz as pessoas pobres postergarem investimento para o futuro em função de racionalidade limitada, a OMS recomendou a distribuição gratuita a mais de 800 milhões de crianças em idade escolar do medicamento de desparasitação.

 

Em uma pesquisa sobre benefícios para o uso de fertilizantes se identificou que se tornam mais eficazes quando distribuídos de forma temporária, pois os de forma permanente vão perdendo eficácia.

 

Enfim, vale ressaltar que parte dessas pesquisas de campo podem ser aplicadas em outras regiões, o que confere ao sistema da economia do desenvolvimento um aspecto político importante. Ao mesmo tempo os investimentos futuros nessa área da economia do desenvolvimento deverão considerar a pesquisa de campo como uma importante ferramenta.

 

Como disse Miriam Leitão: “o comitê acertou em cheio na escolha desse prêmio”

 

Salve aos laureados:

Abhijit Banerjee, 57, MIT
Esther Duflo, 46, MIT
Michael Kremer, 54, Harvard

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

A história do médico brasileiro que defendeu o “monopólio” do leite materno em favor da saúde dos bebês

 

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Dr Cesar Victora, em foto da UFPEL

 

Os bebês alimentados apenas com leite materno até os seis meses têm risco de morrer por diarreia 14 vezes menor do que as demais crianças. A possibilidade de morte por infecções respiratórias cai 3,6 vezes. A mortalidade infantil aumenta se os recém-nascidos receberam, além do leite materno, água, chás ou sucos.

 

Foi a partir de dados como esses que o médico Cesar Victora convenceu a Organização Mundial de Saúde, seus colegas de medicina e, especialmente, mães e pais da importância do “monopólio do leite materno” até os seis meses de vida.

 

O estudos dele se iniciaram nos anos de 1980, no Rio Grande do Sul, e, nesta semana, foram reconhecidos com o Prêmio Gairdner 2017, o principal prêmio científico do Canadá, o que o coloca em uma lista de profissionais de saúde de onde saíram centenas de indicações para o prêmio Nobel.

 

Orgulhoso pelo prêmio mas sem ilusão. Assim, Victora, que é professor emérito da Universidade Federal de Pelotas, se apresentou em entrevista que foi ao ar nesta manhã, Jornal da CBN, direto da Colombia, onde participa de congresso que estuda a relação entre saúde pública e redução da desigualdade social. Ele não acredita na possibilidade de conquistar o Nobel de Medicina por que “eu não inventei nada, o leite materno sempre existiu”.

 

Na conversa que tivemos, Victora contou que, em breve, apresentará dados de pesquisa que se estende por 30 anos, para provar os benefícios do leite materno na vida adulta, também. Segundo ele, já é possível identificar nesses bebês, agora trintões, que a amamentação materna exclusiva até os seis meses trouxe ganhos intelectuais relevantes a essas pessoas.

 

As pesquisas desenvolvidas por ele, que levaram outros médicos pelo mundo a estudar essa área, também, colaboraram para o aumento da licença maternidade para as mulheres em boa parte do mundo.

 

Na entrevista, Victoria fez um alerta sobre a amamentação materna diante do desafio das mulheres que têm bebês e precisam trabalhar: “o mais importante da amamentação é que ela não é uma responsabilidade somente da mulher, é uma responsabilidade de toda a sociedade”.

 

Ouça a entrevista completa com o professor e doutor Cesar Victora, no Jornal da CBN:

 

O Nobel de Economia e o resultado nas Olimpíadas

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A repetição dos movimentos nos treinamentos, a competência na escolha das ações nas competições, o acúmulo de experiências vitoriosas sucessivas em competições esportivas, são premissas inquestionáveis para a manutenção de um campeão.

 

Cielo, Murer e Hypólito, detentores destes requisitos, atletas campeões consagrados internacionalmente, não fizeram jua à bagagem competitiva que levaram para Londres. As metas traçadas não alcançadas foram devidas certamente a decisões tomadas erroneamente.

 

Se o esperado ouro não veio, não deixa de ser de ouro o momento para se iniciar a preparação para a RIO 2016, que pode vir de um vencedor na academia da ciência.

 

Há uma semana o psicólogo Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia pelo seu trabalho na área de Economia Comportamental, lançou o livro “Rápido e Devagar”, que aborda os aspectos psicológicos das tomadas de decisões.

 

Kahneman divide o processo decisório em dois Sistemas:

 

1.Rápido, é automático e emotivo,

 

2.Devagar é o controlado e racional.

 

Da otimização na relação entre os dois é que resultará a melhor decisão. Mas, não é fácil. E, Daniel Kahneman explica: “Por que temos tanta dificuldade de pensar estatisticamente? Há uma limitação desconcertante de nossa mente: nossa confiança excessiva no que acreditamos saber, e nossa aparente incapacidade de admitir a verdadeira extensão da nossa ignorância e a incerteza do mundo em que vivemos. Somos obrigados a superestimar quanto compreendemos sobre o mundo e subestimar o papel do acaso nos eventos”.

 

Cesar Cielo repetiu os 100m e se deu mal. Fabiana Murer vivenciou o stress do sumiço anterior do seu equipamento com o forte vento de agora e desistiu. Daniel Hypolito renovou a mesma queda.

 

Se na Economia a tomada de decisões é crucial, como argumenta Kahneman, a ponto de poder quebrar um país se todos decidirem errado sobre investimentos e compras. Na área do esporte de alto rendimento, as decisões são tão importantes quanto. E, tanto na esfera preparatória quanto na fase de competição. O emocional, a estatística e a sorte, devem ser levados em consideração, com a ressalva de que a pessoa não consegue analisar a si própria. Precisa ser ajudada por outra para uma análise sem viés.

 

Agora, talvez o melhor mesmo seja mergulharmos nas questões levantadas por Daniel Kahneman em seu instigante trabalho sobre as decisões. Ou, procurar um psicólogo.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Desemprego ganha Nobel

 

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Por Carlos Magno Gibrail


À sabedoria da natureza, que demonstra em seus sistemas que a cura do mal pode ser feita pelo próprio mal, alia-se agora o Prêmio Nobel de Economia.

O Modelo DMP de Peter Diamond do MIT, de Dale Mortensen da Northwestern University e de Christopher Pissarides da London School of Economics, desenvolveu a teoria econômica que apontou a flexibilização do mercado de trabalho para estimular e melhorar a geração de empregos. Isto é, facilitar as demissões irá facilitar as admissões, principalmente se o desemprego não for estimulado com auxílios duradouros.

É um prato e tanto para ser saboreado por Dilma e Serra neste momento de obscurantismo em que o debate presidencial está se encaminhando.
Um pouco amargo talvez para o senador republicano Richard Shelby que impediu a nomeação de Peter Diamond para o FED Federal Reserve, feita por Obama.

O presidente americano certamente buscou Diamond para um dos sete postos do conselho de diretores do Fed e de seu Comitê Federal, que define as taxas básicas de juros, influenciando a atividade econômica e a inflação, porque já sabia o que o economista Paulo Krugman escreveu em sua coluna no The New York Times sobre o trabalho de Diamond: “Trabalho fundamental sobre todo o tema da relação entre o desemprego e a taxa de emprego”.

Uma das conclusões dos premiados do Nobel, é que o mercado de trabalho não funciona como o de produtos, pois oferta e procura não atuam como no caso clássico. Não se encontram na mesma velocidade e com os mesmos custos. Não se amolda também da mesma forma, pois os trabalhadores não estão dispostos a baixar salários na mesma medida que os produtos. Além disso, a mão de obra está sujeita a desmotivação e quando se reemprega pode não desempenhar o suficiente para preencher a necessidade da função.

Na Europa, John Van Reenen, chefe de Pissarides na London School, relata que “ele demonstrou que as regulações do mercado de trabalho, as barreiras ao ingresso no mercado de novas empresas de serviços, as políticas fiscais e previdenciárias afetam as disparidades do emprego em todo o mundo”.
Pissarides defendeu normas mais flexíveis a serem implantadas na Europa e ganhou. Mas não levou, pois segundo Van Reenen: “Essas normas se baseiam nos princípios econômicos corretos, mas que as maiores barreiras à sua implementação decorrem da ausência de vontade política”.

O jornalista econômico Philip Inman do The Guardian reproduzido no Estadão de ontem, discorda: “Esses princípios econômicos “corretos” foram abandonados porque afetam os eleitores comuns”.

A observação importante para os BRICS é que ficam mais fáceis mudanças em início de desenvolvimento do que com estruturas antigas estabelecidas. É uma área em que temos chance de ficar em melhor posição que Rússia, Índia e China. Ou vamos continuar discutindo crenças e normas religiosas?

Obs. A Dinamarca (veja artigo de 17/12/08) comprova a possibilidade da flexibilização.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Imagem de Timothy Vogel do álbum digigital no Flickr