Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cicerones da cidade

Vera Lucia Curtu

Ouvinte da CBN

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São Paulo era sempre cinza… a vida sempre acontecendo sob uma garoa fina… Os táxis eram grandes e todos pretos, de portas pesadas, daqueles carros antigos como dos filmes. Duraram pouco, para mim… fiquei menina e logo todos viraram fuscas, por dentro e por fora geralmente assustadores: velhos, quebrados, sujos, barulhentos que davam medo. 

Há tempos são carros novos, todos brancos e com motoristas profissionais e educados: conhecem a cidade, perguntam qual caminho preferimos, os carros sempre limpos e fazem o que for preciso para te deixar, com calma, pertinho e não do outro lado da calçada. 

Se tem uma classe paulistana que é “dez” é a dos motoristas de táxis. Não são apenas motoristas, são verdadeiros cicerones da cidade. 

Quanto aos ônibus? Você acha os de hoje são lotados? Ah! isso é porque você nunca tomou um Penha-Lapa nos anos 1970… o pior é que a gente achava normal! 

Bom, é muita coisa para uma sexagenária contar sobre sua cidade na sua rádio preferida, a CBN. Mas, fica aqui esse registro sobre uma pequenina parte de nossa “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil”. Ops, desculpa aí, Rio !

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vera Lúcia Curtu é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: transportes são nossas metáforas coletivas

Por Fabio Monastero

Ouvinte da CBN

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Um táxi ou um caminhão de mudanças; um ônibus, um trem ou mesmo uma pequena motoneta, não parecem ser capazes de nos transmitir ideias muito complexas; entretanto – a aceitar o que me disse um nativo grego, amigo com nome de um deus – são verdadeiras e bem concretas metáforas; isto se dá porque, em sua língua milenar, essa palavra indica – entre outras coisas  e simplesmente – a condução ou o transporte diário de conceitos, coisas ou pessoas de um lado para o outro, um levar além…

Os gregos, portanto, usam metáforas diariamente e, mais, os transportes coletivos são suas metáforas coletivas. Com essa informação na cabeça, torna-se quase impossível entrar num vagão de metrô em São Paulo, por exemplo, sem uma atitude respeitosa, pois, afinal, estamos penetrando parte de uma enorme metáfora das grandes cidades.

O moderno Metropolitano paulistano corre, surreal, nas profundezas…

Dentro do casco metálico, a mente viaja para dimensões inesperadas; o trem é realmente uma grande metáfora da vida – as pessoas nele entram e saem sem que as demais tenham a menor ideia se, porque ou quando isto se dará.

Cada vagão, em cada composição, pode ser uma vida ou uma vila, cidade ou país, onde cada um sabe apenas de si.

Cenas que se repetem por toda a cidade.

Nas várias paradas, existem ansiosos quase arrombando as portas, querendo fazer parte da viagem ou dela sair a qualquer custo.

Para entrar, uns vem a passos lentos e seguros, aparentando jogar com o tempo, atentos, entretanto, ao rápido fechamento das portas. Raros bloqueiam ou reabrem – com ou sem ajuda – as portas logo que estas se fecham, ainda com o trem parado e entram à força na vida, quero dizer, no trem. Quando o trem demora a partir, os apressados tornam-se prematuros; pode ocorrer que alguém se sinta desconfortável e saia antes do que previra.

Se alguma gente passa a viagem em paz, umas outras evidenciam algum tipo de sofrimento na alma e por vezes no corpo – aqui tem uma dor de cabeça; ali, cólicas.

Devaneios…

Velhos serenos e jovens angustiados; deficientes corajosos e pessoas normais e covardes; há mesquinhos, heróis, santos, dementes e gênios, de tudo nessa vida.

Lá na frente, um casal se beija como se o trem estivesse vazio e congelado pela eternidade. Prestando mais atenção, poderemos ouvir uma família coreana discutindo um assunto misterioso; talvez, ainda, observar duas meninas surdas-mudas, conversando e rindo animadamente numa alucinante e eloquente dança de gestos.

Um policial barrigudo boceja, calmo e tranquilo, pois, neste momento, sua vida não corre os riscos baratos que corre na vida exterior; um raro padre de batina, incoerente com os chamados novos tempos, parece orar baixinho, feliz com seus sedativos alienantes. Aqui ao lado, um senhor grisalho, com um sugestivo perfil grego, com certeza, nem está pensando nas metáforas da eventual terra ancestral.

As mulheres misturam seus perfumes e suas cores, avaliadas e desejadas em sonhos ou evocando mães, filhas ou amantes distantes; os homens, em geral menos exuberantes, mexem com a imaginação dessas mulheres da mesma forma.

A cada parada, o quadro muda, dinâmico, sem deixar vestígios do fotograma anterior; tudo recomeça a cada momento.

Um súbito tumulto lá longe, na frente do vagão, assusta os que não sabem do que se trata; um jovem tenta puxar a cordinha de emergência, mas só consegue entreabrir a porta, com um pequeno solavanco no trem; logo se vê, no espaço aberto pelas pessoas agitadas, um homem se levantando, constrangido, depois do que pareceu um rápido ataque epiléptico. Na parada, alguém desce com ele, decidindo interromper a própria viagem para ajudá-lo.

Numa percepção extrema, podemos até entender as manoplas das saídas de emergência como alavancas de suicídio, pois uma vez acionadas, deve haver a saída imediata – dessa vida metroviária.

A implacável composição prossegue veloz, indiferente, firme em seus trilhos de aço – completamente fria. Não interessa ao trem quem nele entra ou sai; aparenta conduzido por uma entidade invisível que, periodicamente, projeta sua voz dos céus ou do teto de um salão de Ezequiel – por vezes ininteligível, pelo menos aos não-iniciados. Essa entidade superior, em sua desconhecida sabedoria, determina condições como paradas, tempos e velocidades – desde que o grande computador central o permita. Essa divindade maior está em local desconhecido pelos passageiros e sabe coisas que eles ignoram existir; só a grande máquina conhece o que vai acontecer, o passado, o presente e o futuro, a cada minuto da viagem.

É possível cogitar se existe vida em outras linhas, ainda que, por definição suprema e para que não se destruam – paralelas euclidianas, gregas – as linhas, planos e dimensões dos trens nunca poderão se cruzar sob pena de mútua extinção. Tudo correrá de acordo com o planejado, desde que os sacerdotes do templo – os funcionários – continuem seu rígido culto diário.

Surpreendentemente, não existe condutor…

Enfim, a pergunta: Existirá outra vida no além-metáfora?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Monastero é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Claudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você também pode participar: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer conhecer outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a cidade vista através dos relatos de uma amiga


Muita gente diz que São Paulo é uma cidade fria, onde relacionamentos duradouros são raros. Meu filho reclama que amigos de infância, escola ou trabalho estão longe – em outras cidades, países ou até em bairros distantes. Ele mantém contato com alguns pela internet, mas sabe que não é o mesmo que estar junto. E repete uma queixa comum: os amigos que temos são mais “meus” que “dele”. Isso é algo que ouço frequentemente, até em revistas e jornais. Parece ser uma reclamação geral: conversamos mais pelo celular do que pessoalmente.

Será São Paulo mesmo uma cidade fria?

Em certos aspectos, talvez, mas há cenas tão humanas que podem passar despercebidas por quem vive com pressa ou simplesmente alheio ao que acontece ao redor.

Minha amiga Lígia sempre volta para casa com histórias para me contar, já que pouco saio. Em uma ocasião, alguém parou para lhe dar uma informação; em outra, uma senhora ofereceu carona depois de descobrir que moravam perto. Há ainda o caso do motoboy que devolveu a bolsa de uma amiga que ela havia perdido no estacionamento. A vida segue, cheia desses momentos.

Esta semana, Lígia me contou duas histórias que achei especialmente bonitas.

Em um dia, ela subiu em um ônibus lotado. Os assentos para deficientes e idosos estavam ocupados, então ela se segurou pacientemente. Mas uma jovem se levantou e lhe ofereceu o lugar. Lígia agradeceu e disse:

– Por favor, não se levante. Você deve estar cansada depois do trabalho. Eu passei o dia inteiro descansando.

A moça insistiu, e Lígia, observadora como é, notou que ela conversava com um rapaz sobre “nossa mãe”. Aproveitando a liberdade de seus 83 anos e cabelos brancos, perguntou:

– Vocês são casados?

– Não, somos irmãos – responderam, rindo. Só então ela percebeu a semelhança nos traços e a cumplicidade entre eles.

– Vocês se amam? – perguntou ela.

– Muito! – responderam. E a moça ainda acrescentou:

– Eu sempre digo a ele que quero partir antes, porque não suportaria ficar sozinha.

Lígia sentiu um aperto e comentou:

– Eu dizia o mesmo ao meu irmão, mas ele se foi há um ano e meio.

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Quando olhou para eles, viu que também estavam emocionados. Em silêncio, trocaram um olhar de compreensão. Pouco depois, eles se despediram, dizendo:

– Boa semana!

– Foi um prazer conhecê-la – disse o rapaz, com um sorriso e o apoio da irmã.

Cidade fria?

Mais tarde, Lígia foi para o metrô. Sentou-se no banco da estação e notou que o único lugar vago era ao seu lado. Um jovem, de uns 14 ou 15 anos, aproximou-se, com cabelos compridos, roupas simples e uma mochila nas costas, segurando a mão de uma garotinha de uns cinco anos, com trancinhas e vestida de modo simples como ele. Ele a colocou no banco e ficou de cócoras ao lado dela. Mas a menina preferiu sentar-se entre as pernas do rapaz, ao invés do banco. Ele, sorrindo, sentou-se no chão, cruzando as pernas na posição de lótus, como vemos nos filmes.

Ela, radiante, acomodou-se em seu colo, e então ele tirou um livro infantil da mochila e começou a ler para ela, que escutava, atenta.

– Que beleza, irmãos tão jovens e unidos! – comentei.

– Não, pai e filha – corrigiu Lígia. – Ele parecia muito jovem, mas, observando melhor, vi que talvez fosse estudante da USP. Um pai dedicado.

Fiquei em silêncio, absorvendo a beleza dessas cenas.

São Paulo, uma cidade fria? Às vezes sim, outras vezes acolhedora. É uma cidade de mil ou milhões de facetas. Basta saber olhar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo


Edith Suli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os caminhos que me levaram a entrar na vida adulta

Por Sergio Damião

Ouvinte da CBN

Foto de Mert Kaya

Sou profissional da área comercial há mais de 40 anos, 63 de vida. Autor do livro “Se Vira! Você não é quadrado! Surpreenda, atenda bem, venda mais”

(Livraria Books). Sou paulista de Santo André, descendente de nordestinos. Apaixonado loucamente por São Paulo.

Minhas maiores lembranças de Sampa vêm do tempo do meu início de trabalho, aos 18 anos, quando me formei em técnico em artes gráficas, na Escola Senai Theobaldo de Nigris, na rua Bresser.

Traço um paralelo direto com o clima. Como era bom saber que passaríamos três meses seguidos em um outono, com neblina — a verdadeira São Paulo da Garoa. Minha mãe, Dona Toca, acordava cedo para fazer o café e preparar minha marmita. Ela sempre recomendava:

– Serginho, não esquece da blusa, do guarda chuva. É outono!

Eu pegava o busão da CMTC azul e creme, às 5 horas, daqueles monoblocos com  motor atrás, que quando lotava dava até para sentar sobre ele, escondido do motorista e do cobrador. Fazia o trajeto  São Matheus-Praca da Sé entre cochilos e conversa com os Dinos, um grupo de amigos que conhecemos desde de 1965 e até hoje nos encontramos.

Eu atravessava da Praca da Sé, via rua Direita, viaduto do Chá, 24 de maio, cruzando o Teatro Municipal, o Mappin, a Peter, a Casa Los Angeles e aquelas vitrines bonitas. De chamar atenção. Estar com aquela gente madrugadora toda manhã era o primeiro sinal de que entrara na vida adulta.

Em um primeiro momento de estágio e depois contratado, com carteira assinada, eu seguia até o Largo Paissandu  e embarcava em outro busão, em direção a Rua do Bosque. Passava a Avenida Celestino Bourroul e a rua do Estadão, no bairro do Limão. Esse  trajeto, ida e volta, fiz durante dois anos, tempo que me fez apaixonar ainda mais pelo centro da cidade e no qual testemunhava aquela febre diária das pessoas se movimentando seja no início seja no fim do dia.

Nesse período assisti às manifestações dos bancários, à presença da Polícia Militar e seus cavalos cruzando as ruas e avenidas, aos camelôs e vendedores de calças Lee, Levis, Gledson e Soft Machine

Dar um giro no Mappin, comer um cachorro quente com salsicha viena no Largo do Café, ir no segundo MC Donalds da Libero Badaró, me deliciar com o sanduíche grego. Momentos que jamais sairão da minha memória afetiva.

Após tantos anos mudei de empresa, trabalhei com grupos de outros estados, migrei para área comercial, tive novas oportunidades para conhecer a capital e o interior. Há 20 anos, estou em uma empresa de Campo Bom, no Rio Grande do Sul, a Box Print. 

Há alguns dias, vindo fazer uma visita no centro, na Brigadeiro Luiz Antonio, cruzei a Praca Duque de Caxias, a avenida Rio Branco, a Ipiranga, a  São Luis e, com saudade e tristeza, senti o que todos devem sentir ao encontrarem essa região degradada pelo crack: um enorme pesar, além de uma nostalgia do tempo que cruzávamos esses caminhos com segurança e não como hoje vendo o “avesso do avesso”, que Caetano canta no clássico Sampa.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Sérgio Damião é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Conte você também a sua história: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Greve de ônibus expõe, mais uma vez, falhas das empresas que exploram transporte por aplicativo

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A greve de motoristas e cobradores, em São Paulo, nesta quarta-feira, revelou mais do que os desafios constantes de um sistema de transporte caro e problemático. Expôs a fragilidade da relação entre usuários do transporte por aplicativo e as empresas que exploram esse serviço, especialmente Uber e 99. Enquanto a dificuldade de as partes entrarem em acordo, remunerando e oferecendo benefícios aos trabalhadores e conseguindo conter o custo do transporte de massa na cidade, deixou mais de um milhão e meio de passageiros a pé, o modelo de negócio dos ‘aplicativos’ voltou a prestar um desserviço à população.

Sem muitas alternativas, os passageiros de ônibus recorreram ao celular em busca dos “aplicativos” e foram surpreendidos, seja pela ausência de motoristas seja pelo alto custo. Foi enorme a quantidade de ouvintes da CBN reclamando do fato de terem tido uma série de corridas negadas pelos motoristas, mesmo depois de a viagem ter sido aceita — claramente, ato tomado pelos motoristas que perceberam que a remuneração seria bem menor do que o custo daquela viagem. Os passageiros que tiveram sucesso na chamada, se sentiram explorados pelo valor pago — resultado da tarifa dinâmica. 

Por coincidência ou não, ao mesmo tempo que ouvia as reclamações, ao vivo ou por mensagens dos ouvintes, recebi texto do meu colega de programa Jaime Troiano, um dos apresentadores do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Dos maiores conhecedores na área da gestão de marcas do Brasil, Jaime, baseado na frustrante experiência que teve com o Uber, ditou: 

“Como cidadãos, fomos espoliados. Como profissional de mercado, que pensa em Branding, pensei em outra coisa: que oportunidade maravilhosa o Uber perdeu!”.

Jaime Troiano

Em um cenário ideal, Uber, 99 e as demais empresas que exploram o serviço de transporte por aplicativo — e aqui o verbo pode simbolizar sua pior versão — teriam se colocado ao lado dos cidadãos, oferecendo vantagens aos passageiros e remunerando de forma decente seus motoristas. Não foi o que aconteceu. E assim a receita adicional obtida nesta paralisação dos ônibus jamais cobrirá o “mal-estar provocado nos seus potenciais clientes e os respingos na imagem institucional”, como escreveu Jaime. 

Chantagear o cliente em momentos de dificuldade tende a cobrar um alto preço nas organizações. E torna um desperdício o dinheiro investido nas campanhas que assistimos estampadas em painéis eletrônicos pela cidade nas quais os “aplicativos” forjam uma sintonia com seus clientes, ao transmitirem mensagens de apoio às mais diversas causas. 

Forçam a mão no storytelling e desdenham do storydoing que no fim das contas é o que interessa às pessoas.

Por curiosidade: o texto que recebi de Jaime Troiano era uma referência a greve de ônibus anterior, ocorrida no dia 14 de junho, em São Paulo, e se encerrava com a esperança de que a lição seria aprendida:

“Torço para que ela (Uber) não perca outras oportunidades como a do dia 14 para demonstrar suas autênticas convicções e valores. Os mesmos que ela professa publicamente”.

Lamento dizer, Jaime, perdeu! Perderam!

Conte Sua História de São Paulo: sonhava ser o motorista do “Papa Fila”

Ismael Medeiros

ismaelmedeitos@outlook.com

Nasci em 13 de julho de 1946, no Hospital Umberto Primo, o Matarazzo, próximo de onde meus pais moravam, na rua Herculano de Freitas, na Bela Vista. Aos dois anos mudamos para São Miguel Paulista, onde a economia girava em torno da Nitro Química, fábrica da Votorantim.  Meus avós maternos seguiram morando nos velhos sobrados da Nove de Julho, ao lado do túnel — o que nos levava a visitar frequentes ao Bexiga.

Sair dos limites da zona leste era uma saga. Pegávamos um ônibus até a Penha. Era o ônibus do Toninho, seu proprietário. Depois de passar pela curva da morte, na Ponte Rasa, desembarcávamos na praça Sete de Setembro para, em seguida, subirmos no bonde —  ou o Camarão,  de cor alaranjada, ou o aberto. Na Praça Clóvis Beviláqua, saltávamos de um bonde para outro, para chegar na rua Manoel Dutra, próximo a praça 14 Bis.

Nos bondes, havia propaganda de produtos no alto. Uma das que não esquece tinha um careca correndo atrás do macaquinho que lhe roubara o vidro da loção capilar: “vem cá Simão! Traga a minha loção”.

O ouvinte Ismael é o menino menor desta foto feita na Praça 14 Bis em 1948

Na praça 14 Bis tinha um jardim que seguia até o túnel, com espaços onde andava de bicicleta com o primo Joãozinho. Havia bancos de assentos para apreciar o movimento de carros, geralmente Ford e Chevrolet. Eu e ele apostávamos se passariam mais carros verdes ou pretos. Ainda por lá, ao lado do túnel, tinham dois chafarizes que davam uma vontade louca de mergulhar. 

Ainda lembro do retorno a São Miguel, no fim da tarde, início da noite, quando a cidade virava uma festa de luminosos, colorindo e encantando as pessoas. O meu preferido era o Elmo do Banco Auxiliar de São Paulo que eu avistava do ponto de ônibus, no parque Dom Pedro II – já era época em que os bondes começavam a ser substituídos. Do lançamento do ônibus ‘Papa Fila’,  uma espécie de carreta da CMTC, guardo a lembrança do motorista que ficava isolado no cavalo mecânico, enquanto os passageiros vinham na parte articulada de trás. 

Sonhava ser o motorista daquele ônibus. Fazia do contorno do assento meu voltante. Com a boca, imitava o ronco do motor. Trocava marchas imaginárias. E seguia conduzindo meus passageiros pela Rangel Pestana, Celso Garcia, Penha e de volta a São Miguel Paulista. 

Ismael Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha primeira e única viagem de bonde, para entrar na história

Por Fátima M.R.F. Antunes

Ouvinte da CBN

 

 

No fim dos anos 1960, o prefeito Faria Lima começou a retirar os bondes de circulação. A desativação do bonde Fábrica, que fazia o trajeto Praça João Mendes e Sacomã, no Ipiranga, foi anunciada para janeiro de 1967. O nome Fábrica se referia à indústria que havia no início da linha, Estabelecimento Cerâmico Saccoman-Frèresa, onde trabalharam o vovô João e o tio José. 

 

Desde 1900, os bondes elétricos eram o meio de transporte popular na cidade. Grandes e pesados, correndo sobre trilhos e dependendo de fiação elétrica aérea, destoavam dos ágeis e maleáveis ônibus, que apareceram décadas depois. Naqueles anos 1960, os bondes estavam sendo substituídos por ônibus.  Ao longo da década, as linhas foram sendo suprimidas. A última viagem de um bonde passou pelas avenidas Ibirapuera, Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro até Santo Amaro — em 27 de março de 1968.

 

De nada serviriam os lamentos da população. A hora tinha chegando. E o bonde Fábrica, que rasgava o bairro do Ipiranga pela rua Silva Bueno, seria desativada. Tia Tereza, irmã caçula de minha mãe, assim como outros milhões de paulistanos, estava agitada com a mudança. Afinal, o famoso bonde Fábrica, presença constante nas boas e más ocasiões, sempre estivera ali, companheiro e solidário. 

 

A família de minha mãe morara no Ipiranga. Primeiro na Rua Lima e Silva; depois na das Juntas Provisórias. Tia Tereza tomava o bonde na Silva Bueno para ir às compras no centro e à infinidade de salas de cinema que havia nas avenidas São João e Ipiranga. No Fábrica, ela, mamãe e vovó visitavam os parentes no Pari, com baldeação na Praça João Mendes. No Fábrica, se ia ao médico; até o Sacomã, aos sábados e domingo, para o footing, ou o“vai e vem”: os rapazes ficavam parados nas calçadas, enquanto as moças caminhavam pra lá e pra cá, de olho num pretendente. 

 

Os velhos bondes atravancavam o trânsito. Retirá-los das ruas parecia uma medida drástica, mas diziam que era necessária para a melhoria da circulação urbana.

 

Tia Tereza sempre foi uma entusiasta do progresso e da renovação, mas lá no fundo, sabia que os bondes deixariam saudade. Em janeiro de 1967, ela decidiu:  

 

“Vou levar a Fatima para um paseio no Fábrica antes que ele pare de rodas. Essa menina nunca andou de bonde! Quando for moça, vai poder dizer que andou de bonde em São Paulo.

 

Na Vila das Mercês, zona Sul, onde morávamos, só havia ônibus — eram pintados de amarelo clarinho, com faixas vermelhas na parte inferior.  Tia Tereza planejou com detalhes a aventura. Ajudou-me a escolher um vestido bem bonito. Do portão de casa, na antiga Rua B  — hoje Rua Caloji — nos acenavam a avó Dolores e minha mãe, Rafaela, com meu irmão Vanderlei no colo, enquanto íamos para o ponto.  Junto com a gente, foi a prima Eliana, filha da Tia Tereza, que sequer tinha completado um ano.

 

Descemos do ônibus no Sacomã e logo pegamos o bonde no ponto inicial. Sentei num daqueles bancos compridos, que ficavam nas laterais —- eram de madeira envernizada, duros, que faziam a gente escorregar, quando o freio era acionado. Confesso que achei escuro o interior do bonde, desconfortável. 

 

Antes do bonde deixar a Silva Bueno, descemos, atravessamos a rua e tomamos o ônibus de volta pra casa.  Eu tinha apenas quatro anos e jamais esqueci desse passeio. Mais do que a lembrança do bonde, ficou o carinho de minha tia. Penso que tia Tereza era uma mulher de visão. Ela já sabia, lá em 1967, que 53 anos depois, minha única e última viagem de bonde seria um capítulo do Conte Sua História de São Paulo. 

 

Fatima Martin R. F. Antunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para o contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça também em podcast.

A lição do Seu Paulo a oportunistas de plantão

 

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A imagem do apoio do pai de uma refém à mãe do sequestrador é de  Pedro Teixeira/Agência O Globo

 

Foram cerca de quatro horas de transmissão, ao vivo, descrevendo as cenas de um homem que mantinha reféns o motorista de um ônibus e 38 passageiros. No seu entorno, forte aparato policial, agentes especializados em negociação de risco, atiradores de elite e uma quantidade enorme de gente que teve seu caminho para o trabalho bloqueado. A história que monopolizou os programas matutinos —- incluindo o Jornal da CBN —, nessa terça-feira, e tinha a ponte Rio-Niterói como cenário nos trouxe de volta à memória o sequestro do ônibus 147, que resultou na morte do sequestrador e de uma refém, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em 2000.

 

 

Cada momento da negociação, a liberação dos primeiros reféns, o atendimento médico, a movimentação estratégica dos policias, a angústia do trabalhador que estava preso no congestionamento ou do motoboy que teve entrega interrompida foi contada minuto a minuto. A participação de repórteres que levantavam as informações possíveis no local ou à distância, assim como a palavra de porta-vozes oficiais e especialistas em segurança pública e gerenciamento de crise colaboravam na construção daquela crônica de uma cidade tensionada pelo medo e a violência.

 

Os tiros que deram fim a atuação do sequestrador —- que se soube depois ser um rapaz de apenas 20 anos —- não puderam ser registrados pelas câmeras, mas foram ouvidos e relatados pelos jornalistas que estavam próximos. Tiros seguidos de gestos de comemoração expressados por pessoas transformadas em plateia viva daquele drama, em uma reação expontânea de um público acuado e já incomodado com a demora para o desfecho do caso. Nada que estivesse a altura do espetáculo grotesco proporcionado na sequência pelo governador do Rio, Wilson Witzel, que desceu saltitante do helicóptero, com um sorriso no rosto, braços erguidos e punhos cerrados como se comemorasse a vitória da barbárie. Tudo devidamente registrado pelo celular de um aspone que buscava o melhor ângulo para as redes sociais —- não se tem notícia onde foram parar aquelas imagens, após a repercussão negativa do comportamento do governador. 

 

Nas declarações que se seguiram, Witzel tentou recuar e disse que estava comemorando a vida salva dos 39 reféns, jamais festejando a morte do sequestrador. Agora já fala em ajudar a família do rapaz, oferecendo apoio psicológico. Difícil acreditar nessa retratação, especialmente se levarmos em consideração o histórico do governador —— “a polícia vai mirar na cabecinha”, declarou logo após eleito ao definir a política de segurança pública que colocaria em vigor no Estado. De lá até agora, o que assistimos foram muitos jovens inocentes sendo mortos com esses tiros a esmo disparados em confrontos entre policiais e bandidos nas comunidades mais pobres do Rio.

 

Após os diversos relatos ouvidos ao longo do dia, nos deparamos com o gesto do pai de uma das reféns em solidariedade a mãe do sequestrador morto. Paulo César Leal, de 54 anos, ainda tinha o coração dolorido pelo drama que enfrentou durante as quase quatro horas em que temeu pela vida da filha, Raiane, de 24. Todos os dias ele a deixava no ponto de ônibus para embarcar na linha Alcântara x Estácio e não demorou muito para saber que a jovem estava entre os 39 reféns. Nada disso foi tão forte que o impedisse de dar um abraço na mulher que havia acabado de ver seu filho ser morto por ter protagonizado aquelas cenas de ameaça e violência.

 

“Como ser humano, fui ajudar, porque naquele momento a dor é dos dois lados. Eu não tenho poder de julgar nem falar qualquer coisa que seja boa. Só falei para ela ter calma e confiar. O que eu vou dizer para ela, de conforto? Não tem o que dizer”, declarou aos jornalistas que se aproximaram dele. 

 

Obrigado, Seu Paulo. Seu gesto não apenas apaziguou o coração daquela mãe como nos serviu de lição de que ainda é possível acreditar na generosidade do ser humano. Que nossas autoridades, perturbadas pelo populismo, um dia aprendam com o senhor.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: até o último bonde que passou em Santo Amaro

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

rcm.rhda.sp@gmail.com

 

 

Eu, um anônimo passageiro

 

Entro no túnel do meu tempo. E retrocedo de uns 60 anos. Eis-me, então, moleque de dez! Quando minha mãe dizia que, eu, molequinho de colo, dedinho esticado apontando para um deles, na rua… dizia que a primeira palavra que balbuciei foi um substantivo que rolava pesadão nos trilhos, rangendo ferragens e madeira, soltando azuis faíscas da roldana contra o fio trólei; e embaixo, entre as rodas dos truques.

 

“Bon-de” —- foi o que disse.

 

Lembro, sim! Vinha um adulto e dizia. Ah, que os bondes, anterior à cê-eme-tê-cê, eles tinham sido da Light: –- “Você sabia, menino?”. Eu? Sabia… que da Light –- meu pai era lighteano do Cambuci – eram postes e lâmpadas. Postes de ferro, de cimento e uns remanescentes de toras de eucalipto. Lâmpadas de filamento, e que acendiam em série, notava-se fácil, iluminando ruas de paralelepípedos, as asfaltadas e as ruas de terra que – claro! – sob chuva, eram de lama!

 

Ah,eu adorava bondes e ônibus! E a própria Companhia Municipal de Transportes Coletivos – aquela, de entre os anos 1950 e 1960. Nossa! Quantas garagens! Que enorme frota! Quantos muitos funcionários! Diziam, lembro, “a CMTC é da Prefeitura”, referindo que a municipalidade a gerenciava – instituída que houvera sido em 1947. Eu gostava do vermelhão dos bondes e ônibus, embelezado por singular e indefectível logotipo, que eu chamava “emblema”.

 

Eu? Ora, nunca trabalhei na CMTC – que pena! Fui somente um anônimo passageiro. De bondes que circularam nas minhas infância e adolescência; de ônibus como os sacolejantes ACLO, de mecânica inglesa e que davam tranquinhos mudando marchas “semiautomáticas” –- nas linhas 11, 12 e 13. Ou 47 e 48. Que saudadizinha!

 

Quando, em 1961 – lembro bem – Adhemar de Barros cedeu lugar para Prestes Maia, então o vigoroso vermelho da CMTC virou – bondes e ônibus – um apático laranja clarinho… anêmico.

 

Os velhos bondes – obsoletos, de há muito – a cor laranja lhes era a da própria agonia. Pois, sabemos, o último camarão deu seu suspiro final em Santo Amaro, em 1968, numa viagem ironicamente festiva. Nela, o prefeito Faria Lima, que tornou de um azul escuro a cor da “Nova CMTC”.

 

Olha, bem melhor que eu… que o diga um ex-ceemeteceano: quão imponente, a CMTC! Que reformava bondes, na Araguaia; montava carrocerias de ônibus na colossal Santa Rita e mantinha uma Escola Senai, na Ponte Pequena! Oficinas e garagens? Eram muitas: Jabaquara, Santo Amaro e Lapa; Sumaré, Barra Funda, Cambuci. Depois, enorme, Vila Leopoldina. Uma, exclusiva de ônibus elétrico, na Machado de Assis. Era pouco? Era muito!

 

Os bondes? Lembro, igual. Três gares – herdadas da Light – curiosamente denominadas de “estações de bondes”: Vila Mariana, Brás e Alameda Glete. Exagero, dizer da CMTC, “imponente”?

 

Que o amanhecer de 25 de janeiro, em que Piratininga soprará 465 velinhas … que a efeméride traga consigo, tal qual um ônibus traz um passageiro, uma lembrança! Ao mesmo tempo, reconhecimento e gratidão de nós, concidadãos. Enfim, uma homenagem à CMTC, digo melhor, às gerações de paulistanos que por meio século a conduziram! E, assim, nos conduziram! A CMTC é uma história de São Paulo: nada é mais paulistano que ela! Uma nostalgia vermelhona.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a flor no ponto de ônibus

 

Por Pina Seminara Boffa

 

 

Eu nasci e fui criada em São Paulo, filha de imigrantes italianos. A minha infância toda, vi meus pais levantando cedo e voltando tarde do trabalho. Assim sendo, para mim era muito natural se dedicar ao trabalho com muito afinco. Eu mesma comecei a trabalhar aos 15 anos e modéstia à parte era muito responsável no meu trabalho: não faltava, não me atrasava nem mesmo quando tinha alguma indisposição. Isso era normal, todos que trabalhavam naquela época tinham esse senso de responsabilidade, afinal, estávamos na terra no trabalho.

 

Tudo isso para explicar, ou talvez justificar minha reação ao que me aconteceu há 37 anos, quando eu tinha 19 anos de idade. Eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade à noite. Minha vida era uma correria. Mal tinha tempo de me olhar no espelho.

 

Um dia, eu aguardava um ônibus em frente ao cemitério da Lapa, para ir ao trabalho, no Jaguaré. Ansiosa pela demora, não me dei conta da aproximação de crianças que vendiam rosas. Quando a risada do grupo despertou minha atenção, observei então que se tratava de um grupo de cinco meninos de 12 a 15 anos , que vendiam rosas para as pessoas que entravam no cemitério a fim de visitar o túmulo de seus entes queridos .

 

De repente, um deles se aproximou de mim, ofereceu-me uma rosa e eu, sem sequer olhar para ele, respondi: “não, não vou entrar no cemitério, estou esperando meu ônibus”. Foi bem no momento em que o meu ônibus surgiu lá no início da rua para onde meu olhar se voltava. Foi então que ouvi a voz daquele menino: “não estou te vendendo essa rosa, não, estou te oferecendo uma rosa”.

 

Meu rosto queimou de vergonha. Olhei para aquele garoto magro, maltrapilho, nem sei ao certo qual era sua idade, pedi desculpas, me ofereci para pagar a rosa mas ele não aceitou. Disse-me que era para alegrar o dia de uma moça bonita. Aceitei e subi no ônibus segurando firme minha rosa. Enquanto o ônibus se afastava, eu pude ver as outros meninos do grupo brincando com ele, enquanto ele ainda acenava para mim com um sorriso lindo.

 

Senti as lágrimas rolarem nos meus olhos e pensei como um gesto de amor pode mudar nosso dia, pode nos deixar mais humanos, menos robôs. Como um garoto de rua pode me ensinar sobre o amor. Desde então meu comportamento mudou: passei a observar mais as árvores da cidade, os jardins floridos, o riso das crianças com suas mães, os pássaros que cantam e brincam e até mesmo os pedintes que perambulam pelas ruas de São Paulo em busca de uns trocados.

 

Viver em São Paulo é correria, sim, mas nunca devemos perder a ternura.

 


Pina Seminara Boffa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie seu texto para milton@cbn.com.br