As estrelas da mostra de antiguidades

 

Por Adamo Bazani

Exposição Viver, Ver e Rever reunirá ônibus do início do século passado que, preservados, ajudam a contar a história do desenvolvimento urbano e do transporte de passageiros

Jardineira de 1923

Serão dezenas de ônibus de diferentes anos que “contarão histórias” para o público que participar da exposição V.V.R – Viver, Ver e Rever – organizada pelo primeiro Clube do Ônibus Antigo, uma criação de Antônio C. Kaio Castro (conheça a história dele acessando aqui). Algumas dessas estrelas chamam atenção desde a primeira edição do evento.

Na foto que abre este post você vê o tataravô dos ônibus: uma Jardineira, de madeira, mantida pela Viação Capriolli, do ano de 1923 – uma das mais velhas em boas condições de todo o País.

JARDINEIRA DA CAPRIOLI DE 1928-1

Será possível também conhecer uma estrela de novela, que recepcionará o público. Quem, com mais de 25 anos, não se lembra de Tieta, da Rede Globo de Televisão, nos anos 80 ? Pois é, na pequena “Santana do Agreste”, lugar fictício onde se desenvolveu a trama havia uma jardineira azul, simpática, chamada Marinete, o único ônibus da cidade, dirigido por Jairo, interpretado por Elias Gleizer. Essa jardineira também pertence a Viação Capriolli e foi locada para as gravações.

Um papa fila, uma espécie de ônibus gigante tracionado por caminhão, também chamou a atenção nas edições anteriores. Kaio conta que a história da vinda desse exemplar para a Exposição no ano passado foi bem peculiar. Um empresário do interior de São Paulo, do setor plástico, soube da exposição e disse que ia mandar um Papa Fila. Como até então não havia registro de veículos desse tipo conservados (eles foram muito comuns nos anos 50 e 60 nas grandes cidades do País), ele não acreditou muito, mas aceitou a vinda do empresário, que é um apaixonado por ônibus. “Quando vi aquela carroceria Cermava enorme chegando ao pátio do Memorial me impressionei e me emocionei. Temos um Papa Fila no Brasil ainda inteiro” – disse Kaio. A importância do Papa Fila na história dos transportes é marcante. Isso porque, apesar de não muito bem sucedida, pelo desconforto, foi a primeira experiência de um ônibus de alta capacidade de passageiros (mais de 100 em alguns casos). “O Papa Fila foi precursor do ônibus articulado” – afirma Kaio.

Ônibus GMPD Coach

Há uma estrela internacional também. A Viação Santa Rita, que ao lado da Capriolli possui um dos maiores acervos de veículos antigos restaurados e bem conservados, conseguiu importar uma preciosidade: um GMPD Coach de 1956. O veículo, bastante mal conservado, pertencia a Congregação Batista dos Estados Unidos para transporte de religiosos. Um amigo do dono da empresa viu o veículo lá e o proprietário da Santa Rita não teve dúvidas: importou o ônibus, que se destaca pelas chapas de alumínio polido, que brilham a luz do sol ou a luzes artificiais.

E para os mais jovens, porém não menos nostálgicos, a estrela é um gigante Nielson Diplomata 380, com cerca de 4 metros de altura, de 1984, motor potente, Scania BR 116, que mostra que desde os anos 80, o Brasil tem condições de fazer “aviões de estrada”. O ônibus da Expresso Brasileiro Viação toda foi um dos principais marcos da glamourização e aumento dos serviços de luxo na ligação rodoviária entre Rio e São Paulo.

O Grassi da Itapemirim, um ônibus simples e pequeno, todo prateado também, de alumínio polido, mostra o quanto as viagens entre Sudeste e Nordeste eram difíceis, estafantes e não muito confortáveis. O espaço interno pequeno e o motor na frente chamavam motoristas e passageiros a uma missão corajosa. Mas o veículo tem beleza por conta disso, de suas linhas e foi por causa de veículos assim, que depois foram desenvolvidos e modernizados que hoje os ônibus rodoviários brasileiros são considerados os melhores do mundo.

Todas estas atrações estão a sua espera nos dias 21 e 22 de novembro na maior amostra de ônibus antigos do país, que se realizará no Memorial da América Latina, em São Paulo.


Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças-feiras escreve no Blog do Mílton Jung.

Viver, Ver e Rever a História dos Transportes

 

Por Adamo Bazani

Exposição reunirá “personagens de aço, ferro e lata” que contribuíram para o desenvolvimento dos transportes, cidades e País, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Kaio Castro, do Clube do Ônibus antigo

Máquinas tem alma ? Elas podem contar histórias ? Veículos feitos de ferro, aço lata e até madeira podem emocionar ? O gerente de empresa de ônibus aposentado Antônio C. Kaio Castro, fundador e presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo no Brasil, garante que sim e muito mais. “Cada um que vê os ônibus antigos, desde as Jardineiras dos anos 20 até carros dos anos 80 e 90 tem uma sensação diferente e é muito gostoso”.

Desde 2004, Antônio Castro organiza a Exposição V.V.R – Viver, Ver e Rever – que reúne diversos modelos de ônibus antigos que não só contam a história dos transportes e exibem suas belezas de linhas antigas, simples e ao mesmo tempo complexas para época, mas que mostram como era o transporte nas cidades. Muitos destes veículos, belos pela sua rusticidade, demonstram a dificuldade nos deslocamentos entre bairros, cidades e até estados, e como não era fácil trabalhar no setor, já que muitos deles, de madeira, não ofereciam o mínimo conforto e segurança.

Mesmo assim, estes ônibus antigos dão um ar de robustez e são provas (para muitos, vivas) de que o desenvolvimento do Brasil se deu através de braços fortes de humildes trabalhadores e empreendedores (muitos considerados loucos sonhadores) que vendo uma oportunidade de negócios, ligavam lugares e tentavam encurtar distâncias.

E neste ano será possível ver tudo isso de perto novamente. A edição da Exposição V.V.R. será realizada nos dias 21 e 22 de novembro na Praça da Sombra (o pátio aberto) do Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona Oeste de São Paulo. O evento, com entrada franca, não é só para busólogos (como eu), mas para todo aquele que quer sair da mesmice dos programas de fim de semana e assistir a algo diferente (para os jovens) ou relembrar de uma época na qual as coisas eram mais simples e difíceis.

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Ônibus roda com restos do óleo da batata frita

 

Por Adamo Bazani

Experiência em Indaiatuba, motor de ônibus é abastecido com biodiesel desenvolvido a partir do óleo de cozinha. O combustível também é usado em veículos na Europa.

Ônibus movido a óleo de cozinha

O que aquele fast food, nem sempre muito saudável tem a ver com o transporte de passageiros ? Além de o fato de muita gente ter de comer rápido na rua para não perder o ônibus, pouca coisa. Dentre as poucas, porém, uma delas tem objetivo bastante nobre: preservar o meio ambiente.

Depois de três anos de pesquisas, uma parceria entre a Unicamp (Universidade de Campinas) e a prefeitura de Indaiatuba-SP transformou em combustível a sobra do óleo de cozinha. A iniciativa faz com que se tenha uma nova opção para substituir os veículos movidos a diesel como, também, protege o córrego Barnabé. O afluente do Rio Jundiaí recebe boa parte do óleo descartado pelas cozinhas residenciais e industriais.

De acordo com os estudos da Unicamp, um litro de óleo de cozinha lançado no rio pode contaminar cerca de 1 milhão de litros de água.

Todo processo para transformar o óleo da batatinha, do hambúrguer ou do pastel da feira em fonte de energia para os ônibus, começa em postos de coleta, onde os moradores depositam o óleo e em doações de restaurantes de Jundiaí.

O óleo de cozinha recolhido vai para um galpão e passa por um processo chamado de transesterificação, que nada mais é que transformar o óleo em biodiesel. Nesta etapa, o óleo é filtrado, limpo, depois misturado a álcool e solventes, purificado mais uma vez e pronto, já pode mover um ônibus.

Motor brasileiro movio a óleo de cozinhaOs técnicos da Unicamp garantem que o desempenho do ônibus é o mesmo que o alcançado com o diesel comum e não há necessidade de mistura, ou seja, é possível abastecer o ônibus 100 % com o biodiesel feito de óleo de cozinha. Não precisa sequer mudanças drásticas no motor do ônibus. Além do meio ambiente, os cofres públicos agradecem, pois a economia com a redução do uso do diesel cobre os custos para produção de biosiesel, calculam os técnicos.

Indaiatuba é uma das pioneiras no Brasil neste processo, tendo alcançado resultados práticos. E o mundo já volta os olhos para o óleo – sem trocadilho.

Em Bristol, na Inglaterra, o Bus Chipper, prepara serviços de transportes comerciais. O veículo de porte convencional roda as ruas da cidade e os técnicos dizem que o veículo não cheira a fritura, pois o combustível é limpo antes de ser produzido. Eles avaliam o desempenho quanto a velocidade e consumo dos veículos e se for positivo a prefeitura financiará mais unidades.

“Ônibus fast food” devem percorrer o mundo. Ativistas ambientais europeus também desenvolveram um micro-ônibus movido a óleo de cozinha. Mas a ambição deles é maior: percorrer o mundo com o veículo. O micro-ônibus funciona após o óleo passar pelo processo de transesterificação, aos mesmos moldes de Indaiatuba.

A expedição “Biotruck” é liderada pelo ativista Andy Pág e partiu de Londres no dia 19 de setembro, percorrendo vários países europeus. O grupo quer chegar a América após parte do trajeto ser feita num navio. A ideia é provar a resistência de um veículo ecologicamente correto. As adaptações foram realizadas num micro-ônibus Mercedes Benz. Até agora não foram detectados problemas graves de funcionamento no ônibus que é totalmente ecológico, já que até seu sistema elétrico é abastecido por captadores de energia solar.

Para acompanhar a expedição você pode acessar o site oficial da Biotruck.

Adamo Bazani é jornalista da CBN, busólogo e não dispensa uma batata frita, ainda mais agora que o óleo da fritura pode mover ônibus. Ele escreve toda terça no Blog do Milton Jung

Foto-ouvinte: Acidente grave na Inajar

 

Acidente na Inajar de Souza

Nesta manhã, um acidente grave envolvendo um carro, uma moto e dois ônibus na avenida Inajar de Souza, na zona norte de São Paulo, foi registrado pelo ouvinte-internauta Màssao Uéhara. De acordo com a repórter Mônica Pocker, o motorista foi jogado para fora do carro devido a violência do choque e está em estado grave. O motoqueiro também está hospitalizado.

Empresa de ônibus abastece 100% da frota com biodiesel

 

Por Adamo Bazani

Viação Vaz, no ABC Paulista, se antecipa a lei e investe em combustível mais limpo para transportar passageiros em Santo André

Ônibus a biodiesel

O uso de diesel mais limpo na frota de ônibus das cidades da Região Metropolitana de São Paulo será obrigatório a partir de janeiro de 2010, mas algumas empresas decidiram se antecipar ao acordo proposto pelo Ministério Público Federal e assinado pelo Ministério do Meio Ambiente, Ibama, Petrobrás, Anfavea, Governo do Estado de São Paulo e Cetesb, em outubro do ano passado. É o caso da da Viação Vaz que circula em Santo André, no ABC Paulista.

Um novo cronograma foi elaborado depois do descumprimento da resolução 315 do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente – que previa a produção e utilização de diesel com menos partículas de enxofre e maior concentração de combustíveis alternativos. As cidades de São Paulo e Rio passaram a abastecer a frota de ônibus com este combustível em janeiro. Em maio foi a vez das regiões metropolitanas de Belém, Fortaleza e Recife. Em agosto, Curitiba. E no início do ano que vem, além das cidades do entorno de São Paulo, serão obrigados a usar o diesel S 50 as cidades de Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre.

O S50 é um diesel produzido com 50 partes de enxofre por milhão e substitui o combustível ainda produzido e usado em boa parte do país que tem 500 partículas do poluente.

De acordo com o diretor da Viação Vaz, Gustavo Augusto Vaz, toda a frota, inclusive os carros mais antigos já rodam com biodiesel. “Firmamos uma parceria com a BR Distribuidora e a frota 100% operada com biodiesel mostra que hoje parte dos empresários sabe que, para continuar operando, tendo lucro e servindo bem a população, cumprindo seu papel de transportar, ele deve olhar em volta: para o impacto que sua atividade traz ao meio ambiente e colaborar também. Este ano renovamos 25% de nossa frota, pois ônibus novo também é melhor para o meio ambiente”.

A empresa comprou mais cinco ônibus preparados para rodar com o diesel que segue os padrões exigidos na Europa, bem mais rigorosos do que o brasileiro. Além disso, os novos carros seguem os padrões de acessibilidade universal. A Viação vaz foi a primeira de Santo André a ter veículos com acesso para passageiros com deficiência.

Os novos modelos com elevadores para cadeirantes, balaústres com relevo para deficiente visual e bancos especiais para idosos, pessoas com mobilidade reduzida e obesos já estão em operação: são cinco Comil Svelto Midi de nova linha (micrão), com motor Mercedes Benz OF 1418.

“Creio que pensar no meio ambiente, além de obrigatoriedade, será uma tendência do setor”, conclui Gustavo

Adamo Bazani, jornalista da CBN e busólogo. Toda terça-feira escreve no Blog do Mílton Jung.

Uiraquitan, inovação nos anos 70

 

Por Adamo Bazani

Modelo desenvolvido em São Bernardo do Campo para Curitiba, que tinha motorista em “mirante” sobre os passageiros, assustou indústria na época, mas deu importantes lições para novos modelos e sistemas de ônibus

Uiraquitan. Você já ouviu falar deste modelo de ônibus? Pois, foi uma das oportunidades da cidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, ter tido influência direta na implementação do sistema de ônibus expresso Segregado, de Curitiba, inédito no País. Mas as inovações propostas na época pelo DEPV – Departamento de Pesquisa de Veículos, da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial da Fundação Educacional Inaciana de São Bernardo do Campo assustaram e o modelo não passou de uma miniatura e vários desenhos. O projeto foi encomendado pelo IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), no início dos anos 70, que na contramão dos investimentos ferroviários, decidiu, de maneira bem sucedida, investir em linhas de ônibus de grande demanda, troncais, em corredores exclusivos, e linhas alimentadoras, que serviram de modelo até para outros países, como a Colômbia que implantou o Transmilênio.

O Uiraquitan, desenvolvido pelos engenheiros da FEI, de São Bernardo do Campo, já revolucionava pela posição do motorista, que ficava numa alta cúpula de vidro, acima dos passageiros. Isso mesmo, se hoje, vemos alguns ônibus panorâmicos com o salão de passageiros sobre os motoristas, no projeto do ABC para Curitiba, o motorista que ficava em cima do passageiro. O objetivo do “mirante” era oferecer maior visibilidade tanto para motorista como para passageiros.

Não bastasse essa inovação, a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, que hoje é obrigatória em todas as carrocerias produzidas desde julho de 2009, já foi preocupação dos engenheiros da época, que planejaram o Uiraquitan para que o salão de passageiros ficasse a 20 centímetros de altura em relação ao solo.

O modelo, projetado em 1973, teria também painel eletrônico (algo adotado recentemente nos ônibus urbanos), que informava, além de itinerário e número de linha, quantos assentos estavam desocupados. Os engenheiros da FEI também tinham preocupação ambiental. Projetaram uma série de filtros no motor que já nos anos 70 reduziriam em até 50 por cento os níveis de poluentes.

A capacidade para transportar passageiros sentados, de acordo com o projeto, seria maior que um articulado de hoje: 80 sentados. Os articulados tem, aproximadamente, 60. Isso seria possível porque o posto do motorista ficaria acima do salão de passageiros e pelo fato de os bancos serem longitudinais. Os corredores também seriam mais largos.

No entanto, o ônibus não saiu da fase de miniatura, por vários motivos, entre eles, o desenho inovador para época, dificuldade de fabricação de alguns equipamentos e necessidade de uma barra de direção muito longa, por conta do “mirante do motorista”

Fracasso? Não, apesar de o Uiraquitan não ter sido fabricado. Assim como no mundo da moda, onde vemos roupas inimagináveis de serem encontradas nas ruas, mas que ditam tendências, o Uiraquitan apontou caminhos que depois de adaptados à realidade da indústria nacional de carrocerias viriam solucionar vários problemas, alguns ainda recorrentes, como a necessidade de ônibus acessíveis e menos poluentes.

De pronto, o Uiraquitan deixou a herança da maior visibilidade para motoristas e passageiros e de um salão de passageiros com melhor aproveitamento. Logo após a recusa do Uiraquitan, depois de analisar projetos de encarroçadoras como Nimbus, Marcopolo e Caio, o Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba, escolheu o modelo Marcopolo Veneza Expresso, com grande área envidraçada na carroceria. O IPPUC fez questão de exigir algumas características do Uiraquitan, como a visibilidade, o desenho diferenciado e o motor mais silencioso, traseiro, com no mínimo 200 cavalos de potência.

Com um pouco do Uiraquitan, em 22 de setembro de 1974, começam a circular os Marcopolo Veneza Expresso trazendo ao setor, o conceito de BRT – Bus Rapid Transit -, os ônibus rápidos de corredor segregado, termo usado em todo o mundo.

As propostas do Uiraquitan também foram usadas por outras encarroçadoras que aos poucos vinham assimilando os conceitos apresentados pela FEI. Alguns destes conceitos viraram obrigação por órgãos concedentes e fiscalizadores e opção de modelo de encarroçadoras, que o desenvolveram.

Por isso, dizer que o Uiraquitan foi um fracasso da engenharia do setor de transportes é um equívoco. Talvez, sem as idéias, consideradas loucuras na época, de seus projetistas, a indústria de ônibus nacional, uma das mais respeitadas do mundo, não teria chegado ao atual patamar.

O Uiraquitan pode ser visto apenas em miniatura, como na foto de nosso acervo publicada na abertura deste post. Já o Veneza Expresso, deixado de lado nos anos 80, por conta da maior demanda de passageiros e novas necessidades, teve um exemplar restaurado em 1999, com o uso de três carrocerias abandonadas, achadas em ferro velho de Curitiba e vários dias de trabalho.

Adamo Bazani é jornalista da CBN e busólogo. Toda terça-feira, escreve no Blog do Milton Jung

Acidente com ônibus: Eu já sabia, dizem ouvintes

 

Do helicóptero, com o Paulo Henrique Souza, veio a primeira informação de que o acidente de trânsito aparentava ser grave, dado o número de ambulâncias e a presença de um helicóptero do resgate no local. Do alto dava para ver que um micro-ônibus havia batido na traseira de um ônibus, na avenida Raimundo Pereira Magalhães, no Jaraguá, zona norte da capital paulista. De baixo, no serviço de apuração, começaram a chegar os detalhes como o número de pessoas feridas, 32 no total, e os motivos do acidente. O ônibus parou fora do ponto e o micro-ônibus estava em alta velocidade, disseram algumas pessoas próximas e passageiros. Do local, com a Luciana Marinho, registramos a imagem da imprudência – ou uma delas: o pneu liso, impróprio para circular, sustentava o micro-ônibus lotado de passageiros.

Desta ação da reportagem da CBN à reação dos ouvintes-internautas. O Luiz Alexandre escreveu que o problema é da falta de educação dos motoristas das cooperativas “que andam com ônibus (pneus) carecas, em excesso de velocidade, param no meio da rua e deixam um careca de cabelo em pé”. A Maria Aparecida reproduziu mensagem enviada duas semanas atrás na qual alertava para o desrespeito dos motoristas de lotação no local onde houve o acidente desta terça-feira. Em outro ponto da cidade, o Antônio Carlos Vianna comentou que “principalmente no horário de pico” os motoristas profissionais desrespeitam as rotatórias e põe em risco a segurança dos passageiros e pedestres, na Vila Madalena. E o Daniel Lescano diz que “os ônibus da linha Guarulhos-Estação Armênia desviam o trajeto pelas ruas residenciais de Vila Maria, cansei de denunciar a EMTU mas nada mudou até agora”.

À SPTrans, que deve fiscalizar a atuação de ônibus e micros na capital paulista, restou a constatação de que foi enganada, pois o micro com os pneus carecas havia passado pela vistoria dia 29.09: “Na ocasião apresentou todos os ítens de segurança em perfeito estado, inclusive pneus novos. A fiscalização da SPTrans vai abrir um processo para investigar a responsabilidade pela troca dos pneus do veículo, que agora, segundo observações da reportagem, apresenta pneus carecas ou sem condições de uso”.

Vamos aguardar !

Agora o outro lado

O motorista do micro-ônibus que se acidenteo na Raimundo Pereita de Magalhães foi afastado da função e passará por treinamento e avaliação física e psicológica, segundo informa a SMT em nota divulgada no fim da tarde desta quarta-feira, 14.09:

“A Secretaria Municipal de Transporte informa que afastou os dois motoristas de ônibus envolvidos em acidentes ontem e na segunda-feira. Um deles dirigia o micro-ônibus que colidiu na Avenida Aricanduva, na segunda-feira, deixando quatro feridos. O outro é o motorista do micro-ônibus que se chocou contra um ônibus, ontem, na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães. Ambos estão impedidos de dirigir e passarão por processo de reciclagem e avaliação de saúde física e psicológica, enquanto a Secretaria Municipal de Transportes aguarda a apuração de responsabilidade pelos acidentes, a ser feita por sindicância e por inquérito policial”.

Mudou muito, mas ônibus já transportaram porco e galinha

 

Por Adamo Bazani

Dois amigos unidos pelo ônibus relembram passagens curiosas e falam das mudanças profundas que ocorreram no transporte de passageiros, na segunda parte desta reportagem

SÃO CAMILO 147

Lázaro Barbosa da Silva, 44, e Márcio Antônio Capucho, o Miranda, 37, se dizem testemunha ocular da evolução do transporte de passageiros, tanto em relação aos modelos dos ônibus, como às cidades e às operações.

Na Viação Cacique, tinha uma linha que ia até um bairro de São Bernardo do Campo, chamado Represa. “Era praticamente uma zona rural dentro da cidade grande. O ônibus ia até uma rua asfaltada, o restante do bairro era de ruas de terra e lama quando chovia. Os passageiros, educados, diferentemente de muitos de hoje, iam com um sapato até o ponto de ônibus. Lá, eles trocavam de calçado, sujo de barro, para entrar no ônibus. Muitos trocavam até as roupas de cima. Parecia um passageiro até o ponto e outro dentro do ônibus. Mas era inevitável, os ônibus sempre acabavam ficando sujos por dentro”, conta Lázaro.

E na época das festas de fim de ano ?

“O pessoal ia com animais vivos dentro do ônibus, para depois servirem de almoço nas festas. Quantas vezes eu trabalhei com cacarejo de galinhas na minha orelha. Um dia, me lembro como hoje, um passageiro entrou com um porco dentro, isso no início dos anos 80. O bicho se soltou, começou a correr no veículo e os passageiros também. Foi uma bagunça só, o porco no chão e os passageiros subindo nos bancos. Fora a sujeira e o cheiro dentro do carro” , diverte-se Lázaro.

O que faz Miranda lembrar as dificuldades da região do ABC Paulista no início da sua carreira eram as ruas de terra e cascalho, desafios para os motoristas. “Eu ainda novo, quis pegar o ônibus de um motorista chamado Marcondes. Então, ele ficou ao meu lado enquanto eu dirigia. Numa ladeira de terra, no Jardim Itapoá, região do Parque Capuava, em Santo André, me desesperei. Simplesmente o carro, um Caio Amélia, começou a deslizar na ladeira. Eu queria devolver a direção para o Marcondes, mas ele, dizia: ‘Não dá, não dá pra parar, agora você tem de ir até o final da ladeira’. A traseira puxava para um lado e a frente para o outro, os pneus não seguravam na via, mas no final, depois de muito susto, deu certo”

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Foto-ouvinte: Jardineira no ônibus

 

Foto e recado do ouvinte-internauta Tiago Cheregati:

Se não me falha a memória, costumava-se limpar as janelas dos ônibus todos os dias, não? As fotos que tirei não são de ônibus rurais que andam por estradas de terra: são aqui da Mooca mesmo. E já faz tempo que a coisa está assim.

Milton, pergunte ao busólogo Ádamo Basani e diga se estou errado: Em nenhuma outra década tivemos janelas tão sujas quanto agora.

Daqui a pouco, não vai dar mais pra saber se está perto de descer… Vamos ter que usar o GPS do celular do colega ao lado. Às vezes parece que a nossa força de vontade pra piorar a situação é maior do que a de evoluir…

Ei, Kassab, coloca no Edital uma ducha pra cada coletivo todo dia!

O lado bom da história:

Antigamente as janelas de ônibus não tinham floreiras como hoje em dia. Vão crescendo plantinhas pra gente olhar, cuidar, e pra filtrar o ar que a gente respira no busão.