Avalanche Tricolor: risco calculado

 

 

Palmeiras 1×0 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu

 

IMG_7890

Grêmio e torcida têm suas prioridades na temporada

 

Nem tanto pelo histórico no Pacaembu, muito mais pelas escolhas feitas. Perder na tarde deste sábado, em São Paulo, era o risco calculado, diante do verdadeiro desafio que temos na temporada. O time escalado era mais qualificado do que aquele que colocamos em campo bem no começo do campeonato, quando também buscávamos outros objetivos e perdemos. Porém, da mesma maneira que antes, o placar de agora se justifica pelo que almejamos amanhã – mais precisamente, terça-feira, na Libertadores.

 

Dia desses, em entrevista ao jornalista Cléber Grabauska, da Rádio Gaúcha, fui perguntado sobre qual deveria ser a prioridade do Grêmio a medida que está tão bem no Campeonato Brasileiro (estamos em segundo), encaminhando classificação na Copa do Brasil (quase na semifinal) e em plena forma na Libertadores (temos a melhor campanha). Respondi que para mim, torcedor nada enrustido, o sonho é a tríplice coroa. Falei sabendo da impossibilidade da tarefa, afinal as competições nesta temporada estão intercaladas e mais longas, exigindo esforço desumano dos jogadores. 

 

Se tivessem me perguntado sobre quem escalar neste sábado, claro que adoraria ver os titulares em campo, até porque a partida era em São Paulo, onde moro e todo revés gremista é comemorado em dobro pelos amigos, colegas e vizinhos – todos torcedores adversários. Quero ganhar sempre, quero ganhar de todos e de qualquer maneira.

 


Como escrevi dois parágrafos acima, porém, eu falo como torcedor; e como tal, tenho o direito de me deslumbrar com o impossível. Renato, que torcedor também o é, tem a responsabilidade de pensar como estrategista, ao lado da comissão técnica, e baseado nos relatórios de desempenho e performance dos jogadores que fazem parte do plantel. Nosso técnico tem consciência que o grupo mesmo reforçado precisa ser revezado, o que torna impraticável a manutenção da qualidade do futebol que tem encantando críticos. O jeito intenso, de velocidade, com passe preciso e domínio da bola exige esforço e jogadores em momento técnico precioso. Nenhum time do Brasil conseguiria manter esse desempenho de alto nível com tantas mudanças de jogadores na equipe escalada.

 

Pagamos nosso preço nesta décima primeira rodada do Brasileiro, assim como já havíamos feito na terceira rodada, também jogando fora de casa. Porém, dependendo do que trouxermos da Argentina, contra o Godoy Cruz, terça-feira, o placar deste sábado pode entrar no balanço final como lucro. Até porque para ser campeão da Libertadores vale qualquer sacrifício.

Conte Sua História de SP: os ambulantes da minha travessa

 

Por Walter W. Harris
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

O fim da Avenida Paulista, antes da descida para o Pacaembu, é completamente diferente da aparência que tinha no começo dos anos 50. Não havia viadutos e várias ruas que afluíam para a avenida, já não existem mais. Lembro-me perfeitamente bem do ponto de táxi na esquina da Rua Minas Gerais com a Paulista. Quando ia passear com meu pai, gostava de parar lá para admirar aqueles automóveis Ford, Buick, Chevrolet … que eram tão usados como carros de praça.

 

Bem naquela região e conservada até hoje, porém com outro nome, está a rua sem saída — chamada de travessa — onde morávamos na época. Era uma vila bastante reservada, no sentido de que poucas pessoas costumavam entrar ali. Não obstante, foi lá que travei conhecimento com os primeiros ambulantes de minha vida.

 

Todas as manhãs eu era acordado pelo som de cascos nos paralelepípedos e descia correndo as escadas para, junto com minha mãe, comprar pão (e principalmente pão doce) do padeiro, que trazia seus produtos numa carrocinha fechada. O engraçado é que eu não dava a mínima atenção para seu cavalo, um interesse infantil comum; tudo que queria mesmo era que o padeiro abrisse a porta na parte de trás da carrocinha, para que pudesse inalar o delicioso aroma de pão fresco. O pão doce era comido ali mesmo.

 

Frequentemente, minhas atividades infantis eram interrompidas por um sujeito que andava por toda a travessa, entoando caracteristicamente: “Roupa velha! Roupa velha!”. Passavam-se menos de 30 segundos e ouvia-se novamente o mesmo adágio: “Roupa velha! Roupa velha!”. Sua aparição foi uma constante nos anos em que vivemos naquela rua e, em nenhuma ocasião vi alguém vendendo-lhe qualquer peça de vestuário. Era um judeu baixinho, de nariz adunco, que estava sempre de terno e chapéu, meio puídos, e ainda carregando outro paletó dobrado no braço esquerdo.

 

Outro personagem que invade minhas recordações daqueles tempos também me distraía de meus afazeres. Este, no entanto, parecia fazer negócios melhores com os moradores da vila do que o comprador de roupa velha. Ele entrava na travessa, fazendo sua presença sentida ao cantar: “Jornal, revista, garrafeiro! Jornal, revista, garrafeiro!”. Puxava um carrinho que, normalmente, encontrava-se apinhado com suas aquisições. Este ambulante vinha regularmente, e minha mãe sempre tinha alguma coisa para lhe vender. Foi a primeira vez que vi um dinamômetro, que o cidadão utilizava para pesar os jornais. Pagava uma ninharia por eles, porém era um trabalho digno e honesto.

 

Esses três ambulantes ficaram marcados em minha memória, talvez porque fossem habitués de nossa travessa onde, como crianças, passávamos grande parte do dia brincando em relativa segurança, pelo isolamento daquela ruela sem saída.

 

Todavia, seria injusto deixar de pelo menos mencionar aqui, outros ambulantes que presenciei naquela época, alguns dos quais existem até hoje: o realejo, com seu periquito e os bilhetes da sorte; o fotógrafo da Praça da República, mais conhecido como “lambe-lambe”; e o doceiro na porta da escola, com seu famoso “quebra-queixo”, e a “raspadinha”.

 

Walter W. Harris é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha contar mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP:o hino que cantei na inauguração do Pacaembu

 

Por Elmira Pasquini

 

 

São Paulo, que pena que seus filhos hoje não entendem de patriotismo, que deixou de ser ensinado nas suas escolas públicas. Deixou de lado o respeito aos professores que  sabiam despertar os corações para amar a pátria que aos poucos foi perdendo  seu valor.

 

Hino Nacional, Hino à Bandeira, Hino da Proclamação da Republica e outros eram ensinados e cantados com todo o respeito e amor.

 

No ano de 1940 quando foi inaugurado nosso Estádio do Pacaembu, lá estávamos como estudantes, outros como atletas, uniformizados e perfilados, esbanjando nosso amor pela pátria, através do respeito à nossa bandeira, e aos hinos entoados com vibração e alegria.

 

Depois de desfilarmos na volta ao estádio, fomos colocados perfilados  no campo de futebol, bem em frente ao local do hasteamento da bandeira. A alegria não poderia ser maior, demonstrando o que aprendíamos no lar, nas escolas, nos clubes e em nossa vida diária.

 

Que pena São Paulo chegamos a um saudoso sofrimento, mas com orgulho podemos dizer: somos felizes que, como antigos, muitos ainda podemos afirmar que  nos orgulhamos deste São Paulo que apesar de não ter  continuado a ser o exemplo de amor, dedicação e dignidade muitos ainda tem coração e lágrimas nos olhos ao entoar o Hino Nacional, assistir ao hasteamento da bandeira, etc.

 

Deixamos aqui um apelo àqueles que ainda sentem este amor pela pátria: não desanimem, levantem suas vozes com seus corações cheios de esperança e amor para que nossos descendentes ainda possam continuar a se orgulhar deste São Paulo tão sofrido.

 

Tenho orgulho de ser nascida neste torrão de terra.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: uma vida centenária na capital paulista

 

Por Jacob Pomerancblum

 

 

Tenho 100 anos. Nasci no dia 12 de setembro de 1914, numa pequena aldeia na Polônia. Assim que completei 13 anos, eu e meu irmão de 10 fomos colocados num navio, sozinhos, a caminho do Brasil. Cheguei em São Paulo em 1927 e cada vez que ando pelas ruas da cidade que me recebeu e onde construí minha vida lembro como era nos anos da minha juventude.

 

Vivi no Bom Retiro a maior parte da minha vida. Caminhei pelas ruas iluminadas por lampiões de gás e lembro que nas ruas laterais do Colégio Santa Inês sempre eram quebrados para manter as ruas escurinhas. Assisti a muitos filmes mudos nos “poleiros” dos cinemas de bairro.

 

Estive na inauguração do Estádio do Pacaembu e do Jóquei Clube. A avenida Pacaembu nem estava asfaltada ainda e ia-se ao Jóquei de bonde. Não havia nenhuma construção no entorno.

 

Depois que casei fui morar por uns anos no bairro do Tremembé. A estação do trem Maria Fumaça ficava no centro do bairro e muitas vezes a família ia para o centro de trem.

 

São 87 anos vividos nesta cidade que se tornou “minha cidade”, onde tive muitos e bons amigos com quem vivi muitas aventuras e alegrias e onde criei minha família. Só lamento que todos amigos tenham decidido “ir embora” e me deixaram sozinho com minhas lembranças, guardadas e vívidas na minha memória.

 

Jacob Pomerancblum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: sentindo as emoções do Museu do Futebol

 

Nesta semana, o Conte Sua História de São Paulo tem edição especial, em homenagem aos 459 anos da nossa cidade, com novos capítulos contados pelos ouvintes-internautas e lidos às 7h10, no Jornal da CBN. Os textos serão publicados aqui no Blog e você, se gostar, é convidado a compartilhar este momento nas redes sociais. Vamos ao primeiro texto da série:

 

Regina Fátima Caldeira de Oliveira
Ouvinte-internauta CBN

 

Museu do Futebol

 

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio, no Jornal da CBN

 

Sou uma paulistaníssima que nasceu na Parada Inglesa ainda a tempo de fazer algumas viagens no Trenzinho da Cantareira. Não posso dizer que tenho minha terra natal guardada na retina. Nasci com um glaucoma que me fez perder por completo a visão aos sete anos de idade. Mas posso afirmar que São Paulo está impressa na minha pele, gravada nos meus ouvidos e impregnada nas minhas narinas.

 

Acho que a minha história com São Paulo começou muito antes do meu nascimento porque sinto um prazer indescritível quando leio romances de Maria José Dupré, Dinah Silveira de Queiroz, Zélia Gattai e tantos outros escritores que retratam a vila bandeirante do século 18, a cidade colonial do século 19, percorrida a cavalo, a promessa de megalópole do início do século 20 em cujas avenidas circulavam bondes barulhentos.

 

Muitos são os fatos marcantes no meu relacionamento com Sampa e se eu tivesse tempo e inspiração talvez também pudesse escrever um lindo romance para homenageá-la. São Paulo tem muitos problemas, mas tem a melhor gastronomia do mundo e, principalmente, tem um povo maravilhoso que recebe de braços abertos todos os que aqui chegam. Tem também coisas grandiosas que enchem de orgulho o meu coração. Tem a Cidade Universitária, o Autódromo de Interlagos, o Mercado da Cantareira; tem o Memorial da América Latina, o Hospital das Clínicas, o Parque do Ibirapuera; e tem … ah!, tem tanta coisa boa e bonita que seriam necessárias muitas páginas para contá-las!

 

Mas hoje, para ajudar a celebrar os 459 anos de fundação dessa minha terra querida, vou falar de um momento muito agradável que vivi há cerca de quatro meses no Museu do Futebol. Ao contrário de todos os museus, este já foi concebido prevendo a visita de pessoas com deficiência. Éramos um grupo de aproximadamente 40 pessoas, entre as quais havia cinco cegos. Logo na entrada, as monitoras que vieram nos receber explicaram que a visita seria voltada para os interesses das pessoas cegas.

 

A primeira emoção veio ao tatear a maquete do Estádio do Pacaembu, concretizando formas e locais que desde a infância eu apenas imaginava. Depois, a surpresa de, tocando uma estatueta, saber exatamente em que posição fica o corpo de um jogador para fazer um gol de bicicleta.

 

Em outra sala, tocando botões em um grande painel, pude ouvir gravações de gols em diferentes épocas, feitas por narradores que foram ídolos de meu saudoso pai e meus também. E o que dizer da emoção de ouvir o ruído das diversas torcidas como se estivéssemos, de fato, presentes nos grandes clássicos!?

 

Tudo isso, acompanhado de textos em braille e das explições claras, objetivas e delicadas das monitoras, fez daquela tarde de setembro um momento inesquecível! E o Museu do Futebol está aqui, nessa São Paulo tão querida, para a qual sempre volto cheia de saudade mesmo depois de uma viagem de apenas alguns dias!

 


Regina Fátima Caldeira de Oliveira foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Envie seu texto para milton@cbn.com.br e vamos comemorar juntos os 459 anos de São Paulo.

Avalanche Tricolor: Éramos 20, éramos muitos

 

Palmeiras 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu (SP)

 

Foto que ilustra o site Grêmio.net

 

Forjado nas dificuldades que impomos a nós mesmos ou que nos foram impostas, construímos nossa história. O desafio desse sábado, suportar a pressão de um time desesperado, na casa do adversário e com um jogador a menos desde os 15 minutos do primeiro tempo, parece surgir no momento certo para provarmos que merecemos a conquista que o destino haverá de nos oferecer, nesta temporada. Imagine o que será para “os feitos da tua história”, estes cantados com amor pelo Rio Grande, como escrito em nosso hino, ser campeão brasileiro dentro do Olímpico Monumental, no momento em que nos despedimos deste templo. Para tanto, teremos que mostrar a cada jogo que somos capazes. E, ontem, foi o que fizemos ao sairmos vitoriosos com um empate.

 

Fiquei impressionado – e não sei porque ainda me impressiono – com a quantidade de jogadores gremistas dentro de campo, após a expulsão de Kleber. Os locutores paulistas que narravam a partida pareciam não acreditar no que traduziam como “raça e determinação’, quando bastava chamar aquele espírito que emanava de cada um de nossos jogadores de imortalidade. Um fenômeno tão impressionante que é capaz de transformar o mais contestado de nossos zagueiros, Naldo, em um gigante dentro da área, eliminando qualquer possibilidade de os atacantes adversários chutarem no gol, despachando bola para longe da área de cabeça, com o pé, com o dedão do pé ou com o que mais encontrar de recursos em seu limitado cardápio.

 

O que dizer, então, dos demais jogadores: eram dois Fernandos, dois Andersons, dois Souzas, dois Wesleys, muitos Zés, dezenas de Marcelo Grohe fechando o gol, tirando de soco, espalmando para fora, marcando firme, tocando bola, tentando jogar quando possível. Não éramos apenas dez em campo, éramos 20, éramos muitos somados aos que lotavam o pequeno espaço cedido a torcida gremista no Pacaembu e a todos aqueles que, diante da televisão, assistiam à mais um passo firme de um time predestinado a ser campeão, a ser Imortal.

Anonimato contribui para destruição da Calçada da Fama

 

A memória esportiva do Brasil está sendo pisoteada com a falta de conservação de um espaço que poucos paulistanos talvez conheçam: a Calçada da Fama, na praça Charles Miller, há alguns passos da entrada do estádio do Pacaembu, em São Paulo. O alerta encontrei no Blog São Paulo Antiga em post publicado por Glaucia Garcia de Carvalho:

Fixada a menos de 20 metros da entrada do Museu do Futebol, a calçada da fama do Pacaembu agoniza e vê sua história sendo dilapidada cada vez mais a cada dia que passa. Uma parte do concreto de sustentação está quebrada, partes das assinaturas dos atletas já estão irreconhecíveis e parte do cimento onde já estiveram fincadas as mãos dos atletas já não existe mais.
….

Durante a edificação do Museu do Futebol, a calçada serviu de apoio para material de construção. O resultado não poderia ter sido pior, o respeito à memória dos atletas que contribuíram para fortalecer diversas categorias saiu perdendo e a calçada que já não estava bem conservada, piorou.

O nosso querido Museu do Futebol é reconhecido internacionalmente. Um museu totalmente tecnológico e moderno onde o visitante interage com a história dos clubes, dos jogadores e com os diversos campeonatos, mas nenhuma tecnologia substitui a emoção de colocar sua mão na marca de outra, exposta nesta singela calçada por décadas.

Leia a reportagem completa e veja outras imagens no Blog São Paulo Antiga

Avalanche Tricolor: Carta à Dona Dirma

 

 

Corinthians 0 x 1 Grêmio

Brasileiro – Pacaembu (SP)

gremio_news

Dona Dirma,

Como está a senhora ? Imagino que tenha tido um sábado bastante agradável, apesar da chuva forte em Porto Alegre.

Confesso que eu andava preocupado com a senhora, desde que seu filho me encontrou há pouco mais de uma semana e falou de um telefonema que a senhora havia feito para ele. Disse que não estava muito bem, voz baixa, um pouco triste, incomodada com o desempenho do nosso time.

Seu filho também não parecia muito legal. O baixo astral da mãe e os resultados do time dele – que não é o mesmo que o nosso – estavam deixando-o cabisbaixo, apesar do sucesso no trabalho que realiza aqui em São Paulo.

Em meio a um encontro de autoridades e especialistas, ele interrompeu o almoço e veio até minha mesa. Pegou-me pelo braço e me perguntou: “O que eu digo pra minha mãe ? O que está acontecendo com o Grêmio ?”. Nem tanto pela surpresa da pergunta, muito mais pelas coisas que aconteciam em campo (e fora dele), fiquei sem resposta. Ao menos, sem resposta convincente.

Lembro que ensaiei algumas possibilidades como a falta de organização do time, jogadores pouco engajados, gente não muito preparada para tomar as decisões e crença de mais na mística de nossa camisa. Nenhuma delas, porém, foi apresentada com a segurança que o momento solene exigia.

Saí daquele encontro pensando na senhora e no seu filho. É triste a gente não ter uma palavra de consolo para a mãe, ou um pensamento animador, ou um gesto capaz de oferecer esperanças de melhora.

Cheguei a começar uma carta para lhe explicar o que vinha acontecendo. Ou o que eu achava que vinha acontecendo. Deletei antes do primeiro parágrafo nas duas vezes. É Dona Dirma, agora as cartas são deletadas, não mais rasgadas como antigamente.

Pensei comigo: tem que haver algum sinal, um momento mágico capaz de virar as coisas a nosso favor; quem sabe um lance que me anime a escrever para a senhora sem que meus olhos fujam dos seus como fazem os meninos que contam lorota.

Fim de semana passado, quando fizemos o gol de empate contra o Botafogo no finzinho do jogo, cheguei a me entusiasmar. Mas resolvi esperar um pouco mais. Nesse meio de semana quando vencemos o Guarani em casa, achei que estava bom, mas ainda não era o ideal.

Hoje, Dona Dirma, a magia se realizou diante de nós. E logo aqui em São Paulo, onde seu filho trabalha há tanto tempo. Bem pertinho dele, para que tivesse oportunidade de pegar o telefone e contar à senhora de viva voz: “Mãe, eu vi !”. Sei lá se ele já teve tempo para ligar para sua casa nesta noite de sábado. Ou vai esperar o Palmeiras dele jogar amanhã.

Mas eu não tive dúvida de que o momento para lhe escrever era esse.

E comecei a pensar nestas linhas no momento em que Douglas carregou a bola em direção a defesa corintiana. A forma como ele conduziu a jogada, a maneira como se deslocou e apareceu diante do gol adversário, o movimento que fez para chutar longe do alcance do goleiro e a rede estufando no estádio do Pacaembu foram demais para mim.

Comemorei como nos tempos de menino, sozinho no meu quarto, com uma satisfação quase rídicula, distante de todos da casa, mas pensando na forma como a senhora deveria estar feliz, também, aí em Porto Alegre. Repeti os gestos e sentimentos ao assistir ao Vitor se esticar todo naquele cobrança de penâlti. E guardada suas dimensões, festejei cada despachada de bola de nossa área para segurar um time centenário e forte como é o Corinthians com apenas 10 em campo.

No apito final de um jogo interminável corri para o computador para lhe escrever. Hoje eu teria algo verdadeiro para lhe dizer. Uma resposta sincera, encorajadora, que a levasse a continuar acreditando no nosso Grêmio.

Pois agora que estou diante do computador fico pensando se ainda preciso lhe dar alguma explicação ou se seu filho precisa telefonar para lhe contar como foi esta vitória heróica, depois de tudo que o rádio já contou.

A senhora e seus 87 anos de torcedora gremista sabem mais do que ninguém o que acontece com o nosso time, o que nos leva a sofrer tanto um dia e vibrarmos como loucos no outro. Sabe quantos momentos de provação tivemos de enfrentar nestes 107 anos de história.

Dona Dirma, como a senhora mesmo já deve ter dito para tantas outras pessoas – inclusive para seu filho – isto só acontece com a gente porque somos o Imortal Tricolor!

Com carinho e respeito,

Mílton Jung

Pacaembu corre risco de virar mico em 2014

Direto da Cidade do Cabo

São Paulo não ficará fora da Copa do Mundo de 2014. Pode perder a festa de abertura, mas não as partidas. A cidade é a maior, mais rica e mais importante do País – ok, não é a mais bonita – e capital do Estado que abriga boa parte das empresas e investidores com dinheiro para a construção de estádios e infraestrutura urbana. Nem aos cartolas do futebol interessaria a ausência paulistana, o que não significa que estejam preocupados com o fato de a abertura da competição ser feita em outro lugar – no próprio Rio, talvez, onde se planeja a final da Copa.

A cidade, porém, corre outro sério risco com a confirmação da notícia de que o projeto de reforma do estádio do Morumbi foi rejeitado pela “Famiglia Fifa”, conforme noticiamos no programa Arena Terra, do Portal Terra, nessa quarta-feira. O Pacaembu, estádio municipal, se transformaria em um enorme, grande, gordo e caro elefante branco.

O estádio seria uma alternativa, precisaria de reforma, ampliação dos atuais 40 mil lugares, rebaixamento do campo para criação de camarotes, cobertura e muito cuidado para não mexer na arquitetura protegida pelo patrimônio histórico. A Arena do Palmeiras também teria alguma chance, segundo o coordenador local do Comitê Paulistano da Copa 2014, Caio Carvalho. É ele, aliás, quem tem ressaltado que colocar dinheiro público em estádio novo é crime.

Porém, a pressão para a construção de uma arena multiuso aumentará e muito, com o Morumbi descartado. O plano B, negado até a morte pelas autoridades do município, talvez tenha de sair do papel, e se concretizar em terreno no bairro de Pirituba, na zona norte da capital. A arena teria capacidade de até 50 mil lugares, não chegando aos 65 mil que a Fifa exige para que a festa da abertura da Copa ocorra na capital. Dependendo de quem fizer a conta, o custo deste estádio pode variar de R$ 500 mi a R$ 1bi. A intenção é torná-lo parte de um complexo com centro de convenções, exposições e hotéis, onde seria realizada a Expo Mundial de 2020 (a cidade é candidata séria para o evento).

Há quem aposte que com dinheiro em caixa, o estádio estaria pronto em 30 meses, mesmo levando em consideração licenciamento, projeto, licitação, construção e outras necessidades. Porém, não se pode esquecer do desenvolvimento daquela região com ampliação do sistema de transporte, saneamento e comunicação, por exemplo. Ou seja, muito recurso público teria de aparecer.

Empurrando a ideia do Piritubão – apelido que, por si só, não contribui para a imagem do projeto – estaria o Corinthians, haja vista o esforço de Andrés Sanches em espalhar pelos bastidores a informação da falência da reforma do Morumbi desde que desembarcou na África como chefe da delegação brasileira. O novo estádio na zona norte seria construído com o meu, o seu, o nosso dinheiro para depois da Copa de 2014 ser negociado com o Corinthias nos mesmos moldes do Engenhão, no Rio de Janeiro, que hoje está sob o comando do Botafogo.

A encrenca que mais me preocupa, porém, está longe da zona norte paulistana.

A cidade precisará arrumar os R$ 5 mi necessários para manter em pé o Complexo Municipal do Pacaembu – estádio, ginásio, piscina e demais instalações, descontando o Museu do Futebol. Boa parte do dinheiro, atualmente, vem do aluguel para o Corinthians que paga entre R$ 17 mil e R$ 20 mil ou até 15% da renda do jogo, dependendo o que for maior. Mesmo com a participação do clube paulista, o prejuízo que a cidade tem como o Pacaembu é de aproximadamente R$ 1,5 mi por ano.

A prefeitura, ano passado, retomou a discussão com objetivo de negociar a concessão pública para o Corinthians ou qualquer outro clube disposto a encarar a conta de R$ 200 mi para administrar a casa, nos próximos 30 anos. E o fez porque sabe das dificuldades que tem para manter o local, considerado patrimônio público do município.

Sem o Morumbi na Copa 2014, com dinheiro sendo colocado no Piritubão para depois ser entregue ao Corinthians, a cidade terá de arcar sozinha com os custos de manutenção do Pacaembu que se transformará em estádio para ‘barrigudo’ jogar nos fins de semana. A conta vai ficar gorda, e nós – contribuintes – teremos de carregar nas costas este peso.

O Pacaembu pode ruir se o Piritubão for construído.

Canto da Cátia: Marronzinho de bicicleta

 

Marronzinho de bicicleta

Esta é uma das duas bicicletas da CET que circulam pela área do estádio do Pacaembu, de segunda a sábado. No Ibirapuera, há cerca de 15 fiscais-ciclistas pedalando para controlar movimento de carros e pessoas. E bicicletas, também.

Ter marronzinhos pedalando ajuda os fiscais a passarem a enxergar as bicicletas como meio de transporte neste enorme aglomerado urbano que vivemos.