“Dou conforto na passagem e não tormento”

Dra. Isadora Jochims

reumatologista, artista visual

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Guerra / Não estou em uma guerra /

Cuido de vidas, não ceifo /

Dou conforto na passagem / E não tormento /

Não sou movida a ódio / Mas a amor e afeto /

Não quero ganhar / Quero empate /

Minhas bombas são de infusão / Elas seguram almas /

Seus barulhos são de alerta / E não de explosão e morte /

Não sou um soldado /

Minha vida vale / Não sou um número /

Sou a ponte / Para o outro lado /

Não julgo / Não quero saber seu passado /

Apenas da sua vida /

Agora / O ato / A cura /

Não tenho armas / Nem balas /

Tenho a ciência / O conhecimento das medicinas /

Das prevenções / Do cuidado /

As vacinas /

Estou na linha de frente / E não escondido em uma trincheira /

Na linha da frente / Da vida e da morte /

Não obedeço ordens / Tenho autonomia /

Penso / Existo /

Trato precocemente a loucura / Da disputa e do poder /

Por isso não esqueça / Não estamos em uma guerra! /

A vida é mais do que perder / E ganhar /

Nem tudo vale! /

Me paramento / Se paramente / De amor /

Para a esperança enfim / Renascer em nós!”

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Estudo mostra risco de colapso no atendimento a Covid-19 em cidades brasileiras

 

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Ouvi agora há pouco, a informação de repórter da CBN que o Rio não tem mais vagas de UTI na rede estadual e os único leitos disponíveis estão no Sul do Estado, havendo mais de 350 pacientes a espera de atendimento. A notícia desta manhã vai ao encontro dos dados que divulgamos mais cedo, no Jornal da CBN, a partir de estudo que mostra a capacidade de atendimento a pacientes com COVID-19, em leitos de enfermaria, leitos de UTI e respiradores mecânicos, nas principais capitais brasileiras. A simulação tem como base o ritmo de crescimento no número de pacientes infectados e necessitando atendimento, registrado em 19 de abril, pelo Ministério da Saúde —- esse trabalho tem sido atualizado a cada três dias.

 

São apresentados três cenários para cada uma das cidades analisadas. A taxa de ocupação tem como base 2019 — em dois cenários essa taxa de 2019 é reduzida em 50% e toda a oferta é destinada para pacientes com COVID-19; no terceiro cenário, toda a taxa de ocupação de leitos e respiradores é destinada às pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

 

Nas simulações se prevê que de 5% a 12% dos infectados tenham de receber atendimento hospitalar. Em um dos casos, o atendimento ocorre pelos serviços público e privado, conforme a cobertura dos planos de saúde; e nos outros dois, considera-se que o coronavírus atinja as populações mais pobres e aí a demanda aumenta na rede pública, com 80% dos atendimentos.

 

O trabalho foi realizado pela doutora Márcia Castro, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard e chefe do departamento de Saúde Global e População. Na entrevista ao Jornal da CBN, ela comentou que a atual pandemia ‘expõe as desigualdades locais da população’, já que se verifica a inexistência de infraestrutura em algumas regiões, o que deixa as pessoas mais expostas. Conforme essa exposição ocorre, maior é a pressão do sistema de saúde, especialmente no setor público, onde leitos e respiradores provavelmente não esteja mais à disposição nas primeiras semanas de maio, conforme a cidade analisada.

 

miltonjung · Jornal da CBN entrevisa Dra Márcia Castro, da Universidade de Harvard

 

RIO DE JANEIRO

 

Conforme o estudo, no Rio de Janeiro, o melhor cenário prevê que a rede pública alcançará o seu limite no dia 2 de maio, ou seja, em oito dias, com a ocupação de todos os leitos de enfermaria e de UTI; se houver leitos extras, esse limite será alcançado no dia 4 de maio — em qualquer uma das duas situações, o número de respiradores mecânicos é capaz de atender os pacientes até o dia 14 de maio. Ou seja, teremos respiradores, mas não teremos leitos, já na primeira semana do mês.

 

O pior cenário para o Rio, aquele que prevê uma quantidade bem maior de atendimento na rede pública, e com 12% dos infectados precisando de leitos, o colapso se dará agora na UTI; dia 28 de abril, nas enfermarias; e, na primeira semana de maio, no caso de ventiladores mecânicos.

 

O Rio, em todas as simulações até tem respiradores por um tempo considerável, mas faltarão leitos.

 

FORTALEZA

 

Em Fortaleza, a persistirem os sintomas, o colapso no atendimento está prestes a acontecer. No melhor cenário, já estará faltando leito de UTI; no dia seis de maio, não se terá mais leito de enfermaria; e no dia 8 de maio, chega-se ao limite de uso de respiradores. Ou seja, em Fortaleza, mesmo com leitos extras e hospital de campanha, não haverá mais espaço em UTI. As enfermarias e os respiradores serão suficientes apenas para a primeira semana de maio.

 

DISTRITO FEDERAL

 

No Distrito Federal, a falta de UTIs já será sentida agora e de enfermarias, nos dias 5 ou 6 de maio. Os ventiladores são suficientes para atender os pacientes até os dias 11 de maio. Na pior hipótese até o fim da próxima semana. Há um risco, portanto, de o colapso ocorrer já na semana que vem. De uma maneira geral, haverá respiradores para os pacientes de COVID-19, mas será necessário a criação urgente de leitos de UTI.

 

MANAUS

 

Manaus é um caso dramático: o sistema entra em completo colapso em duas semanas se não forem criados novos leitos de enfermaria e UTI e colocados à disposição mais respiradores mecânicos. No melhor cenário, dia 26 agora chega-se ao limite das UTIs; no dia cinco de maio, chega-se ao limite das enfermarias, e no dia 9 de maio, o número de respiradores não será mais suficiente para as pessoas.

 

Ainda durante a entrevista, a Dra Márcia fez questão de ressaltar que a única forma de se conseguir conter esse colapso em algumas das principais cidades brasileiras é com isolamento social acirrado, evitando circulação e aglomeração de pessoas e respeitando distanciamento. Maior será o caos quanto menor for o isolamento e as medidas restritivas. E diante disso, ela lamenta que falte um discurso único e focado neste sentido, no Brasil.

Mundo Corporativo: Paulo Chapchap, do Sírio Libanês fala de gestão hospitalar

 

 

Tecnologia e infraestrutura são fundamentais para que hospitais e serviços de saúde possam oferecer serviço qualificado a seus clientes, porém nenhum investimento nestas áreas terá o resultado alcançado se os funcionários, dos diferentes setores, não estiverem preparados para atender os pacientes e seus familiares. Diante disto, o treinamento dos seus 6.500 colaboradores, seja do departamento de limpeza e segurança seja do corpo clínico, é primordial na opinião do doutor Paulo Chapchap, superintendente de estratégia corporativa do Hospital Sírio Libanês, entrevistado pelo jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Chapchap fala da estratégia que foi implementada no grupo para ampliação das dependências e modernização dos equipamentos disponíveis nas cinco unidades, em São Paulo e Brasília. Além disso, mostra como as instituições privadas podem colaborar no desenvolvimento do setor público, através de parcerias e troca de experiência.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br. E os ouvintes-internautas participam com perguntas no e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Sistema de saúde em estado crítico

 


Por Milton Ferretti Jung

 

O Sistema Único de Saúde,conforme imagino, não goza da simpatia da maioria dos brasileiros que dele precisam, não só para se tratar de pequenos males,mas até dos capazes de pôr em risco a sobrevivência dos doentes. Nós,jornalistas,estamos mais acostumados a criticar o SUS do que a o elogiar. Aliás,chego a duvidar se poderíamos achar alguma coisa partida dele merecedora de louvor. Nesta semana,os jornais de Porto Alegre,com repique nos noticiários televisivos e radiofônicos,informaram que,em protesto,hospitais que atendem pelo famigerado Sistema,cancelaram esse tipo de serviço. Pensei, de imediato,nos inúmeros brasileiros que seriam prejudicados em consequência da interrupção.

 

Apenas aqui no Rio Grande do Sul,a previsão era de que 5 mil procedimentos, no mínimo,deixariam de ser efetuados. Terão sido todos os pacientes avisados com antecedência acerca da remarcação das consultas,exames e cirurgias já agendados? Talvez sim,talvez não. Só no RS, a Federação das Santas Casas e hospitais Beneficentes,Filantrópicos, afetadas pela desmobilização pontual, reúne 245 estabelecimentos. O “consolo” é que as pessoas necessitadas de auxílio emergencial serão atendidas.

 

Desta vez,porém,não há como colocar a culpa pela ausência de atendimento nos hospitais. A paralisação faz sentido. Como sobreviver atuando em defesa da saúde pública se,para cada R$100 gastos por esses estabelecimentos,o repasse recebido do SUS,leia-se Governo,é de R$65? Estados e municípios,com R$35,cobrem o restante,de acordo com as instituições. Convém não esquecer que os médicos são mal pagos,tanto os que servem ao SUS quanto os que trabalham para os planos de saúde. A propósito,recomendo aos leitores do blog do Mílton (os que não leram a edição de terça-feira),que deem uma olhada no texto em que ele escreve sobre um médico cardiologista que conheceu em Nova Iorque,o Dr.Evan Levine. Os doutores americanos,segundo Levine,também se queixam dos planos de saúde. Mas leiam a história contada pelo Dr.Levine ao meu filho. Eu fico por aqui.

 

Clique aqui para ler o artigo “Nos EUA, seu cão rende mais ao médico do que o ser humano”

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Nos EUA, seu cão rende mais ao médico do que o ser humano

 

 

O doutor Evan Levine é cardiologista em Nova Iorque e vive no estado americano de Connecticut, onde tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Algumas vezes, tenho oportunidade de receber, por e-mail, a coluna que escreve com o sugestivo nome de ”O que seu médico não vai(ou não pode) dizer”. Nesta semana, em seu texto, tenta mostrar como a medicina está mais viável para os médicos que atendem animais do que os que tentam curar o ser humano, ao menos nos Estados Unidos (no Brasil seria diferente?). A crítica tem um alvo: a remuneração proporcionada pelo sistema de saúde americano – algo que me lembra muito a situação enfrentada por profissionais brasileiros de medicina muito mal pagos pelas operadoras de plano de saúde e pelo próprio SUS.

 

Leveni começa o artigo lembrando episódio do seriado Seinfeld, no qual Kramer, o amigo alucinado, leva ao veterinário o cão de um conhecido, alegando que animal de estimação está doente. Ao chegar no consultório, descreve ao médico os sintomas dele e não do cachorro, calculando que seria indiretamente medicado e a um custo bem menor (o vídeo está acima). Do ponto de vista do humor, a estratégia estava correta, mas distante da realidade americana, segundo constata o dr. Levine:

 

“Nesta semana, um colega (cardiologista) contou-me a história de seu cão e os custos para tratá-lo. Infelizmente, seu melhor amigo morreu em consequência de insuficiência cardíaca congestiva, depois de ser submetido a um ecocardiograma que lhe custou US$800, pagamento feito no ato. O tratamento incluiu, ainda, uma ecografia abdominal, que me pareceu desnecessária, e foi realizada pelo veterinário que não é especialista em doenças do coração. A máquina utilizada para realizar o teste foi provavelmente um modelo mais antigo, usado antigamente em seres humanos, que custa uma fração dos equipamentos de eco existentes hoje nos consultórios de medicina. Se ele ou qualquer outro cardiologista tivesse realizado o mesmo tipo de ecocardiograma em um paciente, com uma máquina nova e muita mais cara, teria direito a receber US$250 através da seguradora dentro de um mês. A “eco” para cachorros custou-lhe mais do que o dobro do que ele receberia para a realização de um ecocardiograma em seres humanos! E ele teve que pagar em dinheiro, antecipadamente! Muitos cardiologistas, hoje em dia, têm que pedir autorização da seguradora do paciente e oferecer razões detalhadas para ter direito ao valor cobrado, preferindo arriscar e fazer o exame antes mesmo da instituição assumir este custo.”

 

Dr.Levine diz que gostaria de ser ressarcido pelas seguradoras da mesma forma que os veterinários estão sendo pagos pelos donos de cães. E faz um ótimo trocadilho com mais sentido em inglês do que em português: “I do hope that medicine is going to the dogs”. Brinca, assim, com a expressão “going to the dogs” que ao pé da letra seria “indo para os cachorros”, mas que, em português, significa “ir de mal a pior”.

O sistema é único, a saúde é lamentável

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Nós, brasileiros, já nos acostumamos a ler, ver na televisão e ouvir nas emissoras de rádio, com indesejável frequência, críticas aos mal afamados serviços do SUS. Muitas pessoas, embora necessitem deles às vezes com urgência, nem sequer sabem o significado da sigla. Permitam-me reproduzir o que a Wikipedia, a enciclopédia livre, postou sobre o meu assunto desta quinta-feira:

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) é a denominação do sistema público de saúde brasileiro, considerado um dos maiores sistemas público de saúde do mundo, segundo informações do Conselho Nacional de Saúde. Foi instituído pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 196, como forma de efetivar o mandamento constitucional do direito à saúde como “um direito de todos” e “dever do Estado” e está regulado pela Lei nº8.080/1990, a qual operacionaliza o atendimento público da saúde.

 

O SUS, porém, não é bem o que está escrito acima. Quem se obriga a aguardar até por mais de ano por uma consulta, quem precisa ser internado, mas depende para tal da existência de vaga, quem frequentemente precisa de cirurgia, quem, afinal, não dispõe de planos de saúde particulares,que são caríssimo, necessita contar com a sorte para atingir o objetivo que deveria estar, de fato e de direito, ao alcance de todos.

 

Nesta semana, um cidadão idoso, cardiopata, buscou atendimento do SUS. E morreu na fila de um hospital. Outro exemplo de péssimo atendimento foi o de Alex Gabriel Labres, 23 anos, internado desde 3 de janeiro no Hospital Bruno Born, em Lajeado, no Rio Grande do Sul. Espera por cirurgia porque, em acidente de moto, perdeu parte do osso do joelho da perna direita. O hospital lajeadense não possui traumatologista e Labres teve de aguardar por decisão judicial que possibilitará sua internação em estabelecimento capaz de realizar a operação, sem a qual o jovem pode perder a perna.

 

Episódios lamentáveis como os relatados demonstram que a lei, em se tratando do SUS, é descumprida descaradamente. É, pelo jeito, mais fácil fazer demagogia com bolsas disso e daquilo do que cuidar da saúde dos pobres.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De sangue, xixi e cocô

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Semana passada fiquei boa parte da tarde num dia, e boa parte da tarde dois dias depois, num laboratório de análises clínicas, desses que têm equipamento para ver do avesso e de frente para trás, passando por um processador de gente que me fez esperar por mais de hora e meia, atendida por meias-indicações enquanto pedem para que o paciente – e haja paciência – chegue com meia hora de antecedência ao local, em jejum, etc e etc. Tortura também foi preencher um questionário minucioso e esperar, esperar, esperar, depois de efetuar o pagamento, é claro. Por pagar também fui penalizada. Tive que subir dois lances de escada porque as máquinas para pagamento com cartão ficam bem acomodadas dois lances de escada acima, e é o paciente quem tem que se mexer. Dois dias e mais um grave aborrecimento e meio depois, voltei para retirar o resultado de uma ressonância magnética. Antes de mais nada era necessário que eu ao menos reportasse comportamento anti-ético, agressivo e desrespeitoso de uma das atendentes técnicas. Foi quando fiquei sabendo que, para isso, deveria me dirigir à sala vip do laboratório, para conversar com a responsável pelo setor. Sala vip? Nem sabia que existia uma aqui. Sim, era uma sala enorme e triste que estava às moscas. Rica e vazia. Gelada, como toda sala vip, e impessoal. Uma sala reservada a pacientes pagantes, independentes ou carentes de plano de saúde. Indiscriminadamente, daí para frente.Você é pagante? Então não pega senha e não espera na fila. É só pagar sem acionar o plano de saúde. Na sala vip do Diners você é premiado por ter um cartão. Ali, por não ter. Enigmas da vida.

 

Agora, vamos combinar que quem chega a um lugar como esse, onde você vai ter o braço furado, onde vão literalmente tirar teu sangue, examinar teu xixi e teu cocô, tem maior probabilidade de estar sofrendo do que de estar feliz. Para cada anúncio da chegada de um nenê desejado, quanto fígado, quanto pulmão, quanto cérebro, hormônio e osso e músculo e sangue e rim e pele em desequilíbrio, botando em risco não a ida a uma festa, a compra de um vestido ou uma unha quebrada, mas ameaçando a continuidade da vida. Para cada anúncio de está tudo bem, quanta notícia de desesperança, de dor e de solidão. Não é uma sala onde abunda energia de alegria. O ambiente é pesado e, por falar nisso, toda a decoração, cor, iluminação, é tudo triste e te convida a sair dali o mais depressa possível.

 

E foi o que fiz. Saí dali o mais rapidamente que consegui, mas já me sentindo tão desesperançada, tão triste que nem sei dizer. Aquele é um lugar que só existe porque tem gente doente que precisa de ajuda, de acolhimento de atenção, de compaixão, sem falar em respeito e consideração, qualidades que são fáceis de reconhecer no primeiro olhar, no sorriso da chegada, não só no cabelo uniformizadamente puxado para trás e as unhas feitas. É preciso nos refazermos. Todos.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung