Dois heróis: Meu pai e Eurico Lara

 


Por Airton Gontow
Jornalista e gremista

Nunca tive qualquer empatia por esses super-heróis dos desenhos – fortes, destemidos e invencíveis. Ao contrário, lembro-me de que desde a minha infância minha mente e meu coração só tinham espaço para os personagens reais que habitam ou não o cotidiano da gente.

Herói era meu pai. Juntos fomos a todos os jogos do Grêmio no Rio Grande do Sul durante sete anos. Quando a gente voltava pela estrada, ia em uma espécie de comboio, com vários carros de torcedores e, no meio de nós, o ônibus dos jogadores e o ônibus da TV Gaúcha trazendo o vídeo-taipe do jogo, já que naquele tempo o “via-satélite” mal existia!!!! Fazia geralmente muito frio e quando entrávamos na cidade, o ônibus da Gaúcha seguia em direção ao morro Santa Tereza e nosso carro percorria a neblina porto-alegrense até o porto seguro de nosso apartamento lá na av. Protásio Alves. E aí eu ficava assistindo ao jogo do Grêmio que a TV Gaúcha (Canal 12) estava começando a exibir….aquele mesmo que eu havia visto quatro horas antes.

Meu pai ia até meu quarto, fazia minha cama e depois se deitava, com aquele corpo grande de pai da gente, e derrotava a frieza dos lençóis e, depois, eu o via surgindo, cada vez maior, até que me pegava no colo e me conduzia pelo corredor até o meu quarto e me deitava naquela cama mágica e já aquecida pelo calor do pai. Talvez por isso, mesmo quando meu pai fez um monte de bobagens na vida e a vida fez graça de mau humorista com a gente, eu não consegui nunca deixar meu coração amargurado e a alma sem esperanças, porque eu sabia que ele era meu herói e os heróis não são necessariamente vencedores, mas são aqueles que sempre acalentam a alma da gente!!!!

Heróis, Heróis, Heróis; sim, tenho meus heróis! Alguns da vida cotidiana. Outros como Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio! De Eurico Lara, eu aprendi a história ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com turberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol.

No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

Na verdade, a primeira história, sobre meu pai, é verídica, mas esta segunda não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio precisa vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….

Avalanche Tricolor: Programa especial

 

Palmeiras 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Canindé (SP)

 

Uma semana depois do aniversário e uma antes do Dia dos Pais, este fim de semana teria tudo para ser apenas mais um no calendário. Foi especial, porém. Nem tanto pelas coisas do futebol, motivo desta coluna sempre escrita na sequência de alguma partida. Até poderia ser, afinal havia em campo, na noite de sábado, dois times que fizeram alguns dos mais emocionantes embates do futebol brasileiro. Lembro de partidas memoráveis na história do Grêmio contra o Palmeiras, de quanto sofri e sorri quando estas duas equipes se enfrentaram principalmente lá na década de 90. Os dois times, contudo, não estão com esta bola toda. No Canindé, também, havia a expectativa pela estreia do novo-velho técnico Celso Roth, recém-chegado ao clube após mais uma aventura da diretoria gremista em pleno voo. Confesso, porém, que não esperava tanto quanto alguns torcedores amigos, já que o treinador havia tido pouco tempo para ajeitar a casa.

Foi especial o fim de semana pela visita ilustre que recebi na minha casa. Esteve por aqui aquele que acendeu meu interesse pelo Grêmio, mostrando-me o caminho certo a seguir. É provável que você saiba que quando se nasce no Rio Grande do Sul tem-se apenas uma chance de acertar na escolha do time pelo qual se decide torcer. Eu tive todo o direito de escolher. Pelo Grêmio, lógico. Assim como meu irmão, o Christian, e minha irmã, Jacque. Lá na Saldanha Marinho, onde vivi meus primeiros muitos anos de vida, todos éramos adeptos do azul, preto e branco. Primeiro por “sugestão”, depois por razão e, finalmente, por paixão.

A esta altura do campeonato, você já deve ter ideia de que o visitante que tornou estes dias de folga diferentes foi meu pai, que você lê às quintas neste blog. E de quem já escrevi muitas vezes. Tê-lo em São Paulo não é comum, porém. Faz tempo que não gosta das viagens de avião, após a overdose que as jornadas esportivas o impuseram. Assim, a oportunidade de tomar café pela manhã, almoçar, jantar, passear e – claro – assistir ao jogo do Grêmio pela televisão ao lado dele, em São Paulo, é, sem dúvida, um programa especial – mesmo que na tela a bola continue rolando “quadrada”.

Aos pais modernos e interessados

 

Por Dora Estevam

Já que estamos na semana que antecede o Dia dos Pais achei interessante mostrar algumas novidades da moda masculina.

Para começar um curta da grife Jill Sander que apresenta a moda masculina. Para os adeptos da marca, oportunidade de atualizar o closet Verão 2012.

A coleção está mais voltada para o minimalismo dos anos 90, mas sem perder o entusiasmo de criar algo, sem se prender exatamente a uma moda marcada pelo tempo. Bermudas e blazers se tornaram elementos importantes na coleção, como você acabou de ver.

Se eu for colocar todos os vídeos aqui, páginas e páginas vão rolar, então, para simplificar, decidi postar um da Style.com, no qual o editor (maravilhoso) Tim Blanks, que  entrevistou muitos dos melhores editores de moda masculina, fez um balanço das ultimas tendências e perspectivas apresentadas para a próxima estação.

Influência fashion, luxo, celebridades, efeitos, bastidores e imagens da primeira fila dos melhores desfiles das mais importantes marcas internacionais, peças incríveis.. com direito até a saia masculina. Técnicas e tecnologias misturadas nas coleções para você apreciar. Uma verdadeira provocação.

Como todas as coleções começam nas passarelas e terminam nas ruas, também separei algumas fotos de street style para ver como os homens estão encarando a moda quente…senhores e boys, diferentes estilos, executivos ou casuais, tudo absolutamente fantástico.

 

Eu adoro estes modelos, são coloridos, jovens. De um mundo completamente diferente do que estamos acostumados. Parece coisa de gringo, mas tudo isso é possível se você tem vontade de mudar algo na sua vida. E se notar, tem até uns barrigudinhos que não perderam a vontade de misturar os tecidos e peças contemporâneas. Sinta-se a vontade para entrar na estação completamente diferente. Lugar é que não falta para você desfilar suas produções diferentes, especiais, marcantes e livres.

Absolutamente sexy e tudo muito moderno.

Dora Estevam é jornalista e escreve de moda e estilo de vida no Blog do Mílton Jung

De pai e mãe

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pai e mãe” na voz e sonorizado pela autora

Somos dependentes de deuses, da mesma forma que são dependentes de nós, os filhos. Somos dependentes, cada um na sua medida, de objetos, sensações, hábitos, entidades, crenças. Não resistimos ao invisível, intocável, inatingível, impensável. E lhes conferimos poder. Nas suas mãos depositamos a responsabilidade que deveria ser nossa.

Há deuses para todos os gostos: os que exigem algumas coisas, os que são contra outras, os que têm emoções humanas como ira, vingança, preferência; e todos têm seus inimigos também. Como nós.

Não sei como são os teus deuses, nem qual é o grau da tua dependência. Nem você sabe, mas vou enfrentar a minha, com tudo; com minhas células, meu sangue, meus músculos. Com a consciência.

Quando digo: Deus! – Criador, Pai, Mãe, Grande Ser – me dirijo a uma entidade desconhecida, raras vezes intuída, questionada, idolatrada, traduzida nas mais diversas línguas, pelos mais diversos corações.

E digo: Pai! – Mãe – dá-me força para que eu não bata o pé feito criança mimada, sempre que alguma coisa não toma o rumo que eu esperava que tomasse. Pai! – Mãe, Irmãos invisíveis, Anjos, Arcanjos, Entidades de todas as raças, de todos os credos, Devas da Natureza, Natureza – olha para mim que sou pequena, frágil, solitária e que vivo em busca do ponto de origem que mora em mim, e que é a fagulha que faz existir tudo o que deve existir. Eu sei que está ali, em algum lugar, em mim, no outro, em tudo o que é; um ponto mágico para ligar e desligar, aqui e ali, para que eu me equilibre, que possa oferecer amor, respeito, consideração, solidariedade, e para que eu aprenda a atrair para mim, o mesmo, e mais.

Pai! – Mãe, Senhor dos Mares dos Ares, da Terra, Ondinas, Fadas Silfos, Senhor da Lua e do Sol – ilumina minha consciência, para que eu, de algum modo, encontre o que procuro. Ilumina minha consciência para que ela perceba quanto ainda é pequena, e quanto espaço ainda precisa ocupar.

Mãe! – Pai, invisíveis, visíveis, faz o mesmo a todo aquele que demonstrar no coração, que busca o mesmo que eu. Mesmo que não saiba expressar esse desejo. E o mesmo a todos os outros, à minha esquerda, à minha direita, que vão lá na frente e aqueles de quem ouço os passos, ali atrás.

Você ouve? você pensa nisso? ou não…

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De 11 de setembro

 




Por Maria Lucia Solla

Hoje é 11 de setembro.

Nunca mais, 11 de setembro, será um dia como outro qualquer; para ninguém; no mundo. Há quem veja de um ângulo, há quem veja de outro, mas de ângulo nenhum cabe o sorriso; a leveza. É um dia que chega bonito, claro, ensolarado, porque assim é a vida; se renova. Mas, de início, a memória investe o dia de uma atmosfera grave, cinza, triste; de pesada energia de dor, de incompreensão, de tudo que serve para inquietar sem trazer resposta, deixando em nós mais incompreensão, mais inquietação e, consequentemente, dor.

A noite do dia 10 nem tinha terminado, a meia-noite do relógio estava longe de chegar, mas ele, o 11, já se insinuava. E chegava arqueado, abarrotado de lembrança que não se quer lembrar. Vinha carregado de historia interrompida, de cama vazia, de coração partido.

Há nove anos, quando me mudei para o apartamento onde moro, vi, no meu primeiro dia aqui, o último de tantos; ao vivo, a morte deles.

Mas nem tudo está perdido. Ao contrário! é daí que nasce a oportunidade de mudar de canal e transformar a gravidade em responsabilidade, de pintar o cinza do que restou, com cores vibrantes, de fazer, da tristeza, aliada que alavanca determinação. Excelente oportunidade para, na carona da inquietação, partir para a reflexão e buscar respostas no coração, e na certeza de que eu sou tua; e você, meu irmão. Oportunidade de nos interessarmos pela beleza e pelo mistério de nossos irmãos muçulmanos, judeus, africanos, americanos, chineses, japoneses, orientais e ocidentais, nortistas e sulistas. Detalhes.

Oportunidade para peneirarmos os nossos sentimentos e nos liberarmos da intransigência com costumes diferentes, da impaciência com o ritmo do outro. Todos nós: maria, sara, yasser, irina, mary, annette, yasmin, cheng, naomi, aysha, manuel, jose.

Que tal um pouco de silêncio, hoje, em respeito à tragédia daqueles que a causaram e daqueles que foram vítimas físicas dela. Na verdade, somos todos vítimas do preconceito que alimentamos, dia a dia, palavra a palavra, pensamento a pensamento.

Pobres de nós que, cega e preguiçosamente, permitimos que outros homens nos levem pela mão, ao encontro de Deus. Que cremos nos seus poderes, que seguimos cegamente suas receitas, mesmo que para isso tenhamos que abrir mão da paz, da alegria, do bem-estar; mesmo que tenhamos que abrir mão da própria vida.
Esses homens, esses líderes, são vampiros de almas; se alimentam de você e de mim.

Sobram líderes, abundam regras e dogmas, de leste a oeste, de norte a sul; e falta Deus.

Pai, que ao respirar nos dá a vida, tenha piedade de nós.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Autonomia de vôo

 

Por Christian Jung
Do Blog Mac Fuca

Foto do álbum digital de Rayani no Flickr (http://www.flickr.com/photos/rayani/)

Foto do álbum digital de Rayani no Flickr (http://www.flickr.com/photos/rayani/)

Hoje, fui surpreendido com um aviãozinho de papel cruzando em céu de brigadeiro pela minha sala de estar, bem dizer dando uma rasante na mesa da cozinha. Depois, claro, lá estava o piloto, todo bobo me mostrando que tinha aprendido a fazer um avião de papel. Era o “Ajudante Nota Dez”, Fernando, meu filho. Já não precisou mais da ajuda do pai para dobrar a folha de papel e transformar material reciclável em um meio de transporte. Tá certo, de brinquedo, porém com poder e deslocamento.

(Hoje, li uma boa dele na prova do colégio. Perguntado sobre qual seria um meio de transporte que carrega carga, ele respondeu: “O Correio!”)

Apreciada a engenhoca de bom acabamento, vi um bom número de vôos para chegar à conclusão que Fernando já adquiriu autonomia. A liberdade de não precisar mais da ajuda do velho (nem tão velho, pai). E, assim como dobrar uma folha de papel, a vida vai tomando liberdade e cumprindo o ritual de se ver independente. Primeiro, os gestos; depois, os sons; o controle dos membros; a independência das fraldas, permitindo que o cocô e o xixi passem a ser administrados da forma que o ser humano quiser, guardar pra mais tarde e ficar soltando puns, fazer pontaria com o pinto pra urinar onde quiser, enfim esse tipo de coisas tão simples e complexas ao mesmo tempo, as quais, quando envelhecemos, temos pavor de perder. E pior perdemos mesmo.

Mas o fato em questão está no crescimento. Depois destes controles, vem a conjunção das palavras e, claro, as perguntas, e como tem perguntas, algumas até nem tenho a resposta e sequer parei pra pensar um dia. Depois, a autonomia das frases escritas, palavras que eram difíceis de escrever vão fluindo com alguns erros, por incrível que pareça não muito diferente dos meus neste texto.

É a autonomia de vôo com toda a certeza.

Tenho a partir daquela passagem do aviãozinho de papel a noção complexa de que o meu “Ajudante Nota Dez” cada vez precisa menos de mim e eu muito mais dele (que ele não saiba). É a vida que não se cansa de se repetir. Fez me lembrar os tempos em que acompanhava meu pai na leitura de seu Correspondente Renner na Rádio Guaíba, sábados à noite, e naqueles 10 minutos de noticiários que ele lia (e ainda lê tão bem que em 50 anos não apareceu um que fosse melhor, aliás, só pioram). Eu ia pra sacada do prédio na Caldas Júnior arremessar minhas engenhocas voadoras na cabeça dos que formavam fila para entrarem no cinema Cacique. Era um vôo lindo, duas ou três voltas e a esperança de que acertasse alguém bem na cabeça, de preferência. Espírito de porco quando se é criança sempre tem outra conotação, não é mesmo ? É sempre mais engraçado até porque era só uma folha de papel com um piloto Kamikaze ilusório que ao cair no chão já era. Corria novamente e pegava mais uma lauda (porque a sala ficava na redação da rádio) pra virar um super jato imaginário.

Viram, só ? A vida se repete mesmo, menos mal que o “Ajudante Nota Dez” ainda não descobriu a maravilha de se jogar um aviãozinho bem na calva de alguém, porque com certeza a minha seria a primeira.

E com isso vou assistindo às aquisições e a liberdade que aquele serzinho pequenino que dependia tanto de mim, querendo mais saber das minhas experiências passadas do que as que lhe vão servir para conduzir o futuro. Na verdade, para saber do futuro se pergunta aos jovens porque eles sabem o que irá acontecer de verdade. Os velhos sabem o que fazer, mas não como vai ser. Pra se saber exatamente o que não vai acontecer no futuro, escute uma projeção estatística dos mais velhos. É sempre o contrário!

Bom, me estendi muito hoje, mas senti a necessidade de reproduzir o meu sentimento que se encontra, se perde e se expande com a mesma autonomia de vôo do “Ajudante Nota Dez”!

Christian Jung é mestre de cerimônia, pai e meu irmão. Este texto foi escrito originalmente no Blog Mac Fuca do qual ele é o autor

Avalanche Tricolor: Jogão de bola

 

Grêmio 1 x 1 Vitória

Brasileiro – Olímpico Monumental


No aeroporto, as primeiras camisas tricolores desfilavam no saguão. No caminho para casa, voltaram a aparecer, cada vez em maior número. Na padaria da esquina, de onde se avista o estádio, casais de namorados de mãos dadas seguiam para o jogo. Faltavam ainda duas ou três horas para o início da partida. Sentado a mesa, enquanto o café era servido, lembrava das muitas caminhadas que fiz entre minha casa de infância e o Olímpico. Boa parte delas acompanhada de meu pai. Naquela época, creio que as namoradas não gostavam de futebol como as de hoje.

Hoje, porém, meu caminho era outro. Segui na direção contrária a do estádio. Deixei para trás aqueles torcedores que andam apressados a espera de uma vitória. Dei as costas para o que foi meu destino, quase obrigação, durante a infância, a adolescência e parte da minha vida adulta. Não que não tivesse vontade de ir ao estádio, ocupar as cadeiras azuis e geladas que me abrigaram durante muitos anos, cantar e cantar com todos que lá estivessem, sempre acreditando que a arrancada vai se iniciar.

Minha obrigação era outra neste sábado de temperatura amena em Porto Alegre. Obrigação e desejo. Iria dividir a sala de estar com meu pai e meu irmão, sentaríamos diante da televisão de tela enorme para assistir ao Grêmio jogar. Confortáveis, iríamos falar da família, de boas lembranças e da saúde que nos permite viver e recordar. Falaríamos do Grêmio, também, por que não ? E foi o que fizemos durante mais do que os 90 minutos de bola rolando. Mesmo porque nosso prazer de estarmos juntos outra vez jamais será refém do tempo destinado ao futebol. Nem da alegria que, por ventura, este possa nos proporcionar.

Foi um ótimo jogo este que joguei ao lado deles. E não falo do futebol, é óbvio.

Conte Sua História de São Paulo: A escrivaninha de meu pai

 

Por Cyro Del Nero
Ouvinte-internauta

Ouça o texto ‘A escrivaninha do meu pai’ com sonorização do Cláudio Antônio

Levei até meu analista um fato – e eu já tinha 40 anos – ocorrido em minha juventude.

Foi o seguinte. Eu sempre estive curioso pela escrivaninha de meu pai. Era uma daquelas que têm um tampo de madeira que corre e fecha a mesa e seus escaninhos. Sempre tive curiosidade pelo conteúdo que eu apenas entrevia e que meu pai defendia abrindo a escrivaninha para um rápido trabalho e então ele imediatamente, a fechava .

Não resistindo, compulsivamente, um dia resolvi violar a escrivaninha secreta de meu pai. Com uma faca levantei com facilidade o seu trinco e fiz correr a tampa abrindo para mim os seus segredos. Descobri que os ricos escaninhos guardavam além de cartões, fotos e papéis, pequenos objetos que me pareciam fantásticos, como meia dúzia de cartuchos vazios de balas de rifle que certamente ele guardara desde a revolução de 32 quando saíra fardado para uma aventura nunca imaginada. Havia ainda pequenos objetos como um estranho anel, caixinhas apenas recheadas de agulhas e grampos, um pente feminino de marfim com um ornato barroco, cartas com selos de impérios que eu desconhecia, estampilhas, um velho canivete, uma pedra, uma espátula dourada, um broche antigo, cartões-postais com imagens da França e Portugal, uma moeda chinesa, um pequeno frasco de um líquido azul com um rótulo em alemão.
Afinal, que relação amorosa meu pai tinha com aquela coleção? Por que o segredo?

Contei isso para meu analista, Horus Vital Brasil e ele me perguntou algo que resume a aventura humana.
– Cyro, você queria saber se havia amor antes de você?

Todas as circunstâncias nos são inéditas e é necessário saber a origem e o porquê desse desconhecido que chamamos Destino ou simplesmente Existência e se há amor que os sustente. Isto resume a aventura humana.

Imagino o homem primitivo sem uma sociedade na qual espelhar-se ou poder inquirir. O ineditismo das revoluções físicas da terra – explosões vulcânicas, maremotos, raios e relâmpagos durante os quais no primeiro momento esse homem deve ter feito gestos nascidos da ignorância e do susto. Gritou em diversos tons – e gerou para os séculos vindouros a música; saltou e correu de medo – gerando para o futuro a dança e criou uma liturgia quando sentiu que Alguém anterior a ele, devia estar por trás de todas as coisas.

E imagino que muitas vezes atônito, se perguntou se tudo aquilo continha uma salvação, um prêmio, um calor afetivo, se tudo aquilo continha nos seus gestos sinais mensageiros de amor por ele.

Talvez ele tenha reconhecido alguns sinais… durante a Primavera.

Uma de nossas essências é o ineditismo de nossa existência e muitas vezes na juventude até duvidamos ter nascido daquele casal que se diz ser nossos pais. Muitos duvidaram e procuraram o que supunham ser um destino correto onde houvesse amor.
Édipo o fez e estava certo: eles não eram seus pais e em sua procura foi castigado mesmo sem ter culpa. A falta de amor que estava em sua origem, colocou-se contra ele.

É necessário sentir que diante de tudo e apesar de tudo, havia amor antes de nós. Isto é uma alegria perene, uma bagagem feliz.

O aparecimento de uma imprevista Primavera, prêmio amoroso universal, pode nos ajudar a receber e distribuir amor durante a nossa existência.

Creio-me abençoado e, em muitos momentos difíceis ou gratificantes, lembro-me disso, e tenho a certeza de que essa idéia ou lembrança me envolve cosmicamente. E imediatamente sinto uma confirmação, uma resposta.

Sim, sou herdeiro: havia amor antes de mim.

Há atitudes até mesmo profissionais de alguém – por exemplo – que se torna um Antiquário e busca no passado das coisas belas o amor que as criou. O que então se torna a resposta à pergunta que ele faz sobre a existência do amor antes dele.
Nota-se muitas vezes que a escolha de um ofício é uma herança amorosa ou a procura dela e muitas vezes podemos declarar essa herança em uma obra poética – ou reclamá-la.

O amor herdado é algo muito mais rubro e tépido do que o sangue. E também pode ser nosso testamento.

Eu procurei saber dele na escrivaninha de meu pai.

22 de Agosto de 2009
Quando se comemoraria o 109º Aniversário de meu falecido pai.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você pode participar enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: Dia dos pais

 

Barueri 1 x 0 Grêmio
Brasileiro – Barueri/SP

O domingo do Dia dos Pais foi de extremos: começou em Porto Alegre e se encerrou em São Paulo. Na primeira parte, frio, vento e chuva, marcas dessa última semana na capital gaúcha. Na segunda, temperatura pouco acima do esperado para este fim de inverno paulista. Lá era filho homenageando o pai, enquanto aqui fui pai homenageado pelos filhos

Foi lá, por sinal, que vi anúncio de jornal, assinado pelo Grêmio, no qual apareciam pai e filho abraçados envolvidos em uma bandeira e assistindo ao jogo do tricolor. Na mensagem, destaque para o objetivo de todo o pai que é ver seu filho vencedor. No que concordo plenamente. Apenas não limitaria este sentimento a escolha clubística, mesmo porque o conceito de vitória muda de família para família.

Sempre entendi que aos pais cabe oferecer oportunidade para que seus filhos se transformem em cidadãos. Que sejam pautados pela ética e o respeito. Saibam que a conquista não é meta a ser alcançada a qualquer custo, mas com todo o esforço. Não sou obcecado em ver meus filhos com o “canudo” na mão. De nada adiantará tê-los doutor se o forem da maracutaia.

Este domingo, aliás, me reservou momento raro desde que mudei para São Paulo, em 1991. Por quatro horas seguidas, praticamente sem interrupção, eu e meu pai conversamos sobre “Deus e todo mundo”. Naquele quarto, estava evidente que o orgulho era mútuo. Compartilhamos idéias sobre família, saúde, jornalismo e futebol, é claro. Afinal, foi com ele que aprendi a importância do esporte na vida. E dele conquistei a paixão pelo Grêmio.

A propósito de futebol, pai, fique tranquilo pois nada do que tenha ocorrido neste domingo, em Barueri, será suficiente para que eu me arrependa de ter seguido seus conselhos. Orgulho-me das escolhas que fizemos juntos, mesmo que algumas vezes nosso time não o faça por merecer.

Avalanche Tricolor: Merecemos mais

 

São Paulo 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – São Paulo

 

Hospitais costumam ser frios e brancos. Nunca encontraremos neles, por mais que seus administradores se esforcem, o aconchego de nossas casas, não bastasse o fato de jamais estarmos lá por um bom motivo. A meta é nobre, sem dúvida: sairmos pela porta da frente com mais saúde do que entramos. Mas só vamos para lá por razões no mínimo desconfortáveis.

Nesta noite de quinta, um gremistão de quatro costados de quem tenho orgulho de ser filho esteve sentado em uma grande poltrona bege diante de um computador se esforçando para assistir ao seu time de coração. A TV pendurada na parede a frente da cama móvel, infelizmente deu preferência a outras partidas do Campeonato Brasileiro. Nunca entendi bem o critério das emissoras para escolher qual jogo iriam transmitir, principalmente os canais a cabo. E ‘pagar-para-ver’ não é opção oferecida nos estabelecimentos hospitalares, ainda. Tem mais com que se preocupar.

A conexão não é boa, a imagem também não. O radinho de pilha sintonizado na Rádio Guaíba, da qual é funcionário há mais de 50 anos, é a salvação para este momento de angústia (esportiva). Tentei amenizar a situação, dizendo que mais interessante do que a partida são os bons resultados nos exames médicos, mas ele não se convenceu: “sei disso, mas para mim é importante, também”.

Conseguiu ver parte da partida e ouvir toda ela, mas tenho certeza de que se a pressão foi medida logo após o jogo apresentou forte variação. Ver o Grêmio perder mais uma vez fora de casa, mesmo contra um time como o São Paulo, causa alterações no humor e no coração. Principalmente, quando o árbitro é tão incompetente quanto alguns jogadores que vestem a camisa do clube que você ama.

Assisti de maneira bem mais confortável ao jogo desta noite. Aliás, assisti bem pouco ao jogo, pois estava muito mais atento a melhoria nos índices medidos pelos aparelhos médicos do que nas estatísticas anunciadas pelos comentaristas. E de todas as certezas que tive após os 90 e poucos minutos disputados, é que o meu pai merecia bem mais do que o Grêmio, o árbitro e a vida nos ofereceu nesta noite de quinta-feira.

O que me tranquiliza é saber que nós seremos – como sempre fomos – capazes de vencer mais esta etapa.