Conte Sua História de São Paulo: o rádio “penhorado” do Sílvio Santos

Nilson Bonadeu

Ouvinte da CBN

Photo by Brett Sayles on Pexels.com

Morava em Curitiba e vim trabalhar na prefeitura de São Paulo, em 1992. No Edifício Martinelli, no centro. Prédio histórico, belíssimo! Me hospedei em uma pensão, na Duque de Caxias, perto do trabalho: a Pensão Maria Teresa. Era um casarão antigo, histórico, muito charmoso, pé direito alto, portas bipartidas nos quartos, assoalho de madeira nobre. 

No corredor do andar de cima, onde ficava meu quarto, tinha uma prateleira com um rádio antigo de madeira, bem grande. Me chamava atenção porque meu avô tinha um igual. Um dia tomei coragem e perguntei ao dono da pensão se ele me vendia aquele rádio. Disse que jamais venderia. Segundo ele, o avô que era o dono original da pensão, havia pegado o rádio como garantia porque o Peru não pagava as mensalidades. 

–   Peru? Que Peru? 

– Você não sabe quem é o Peru! 

– Não, não sei. 

– Peru é o Silvio Santos! 

    Lembrei dessa história, verídica, ao menos na parte que me toca, agora, no dia 17 de agosto quando Sílvio partiu. Tem-se notícia que Senor Abravanel morou naquela pensão logo que chegou do Rio de Janeiro. Salvo engano, na história dele, fala-se apenas de outra pensão no Bixiga, a Pensão da Dona Gina, onde morou para ficar perto de sua namorada, que veio a ser sua primeira esposa, a Cidinha, filha da proprietária. 

    Seja como for, com tristeza e nostalgia, lembrei-me também de uma das célebres frases do Sílvio que ouvimos em uma de suas músicas: “Do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar”. 

    De volta à pensão: posso dizer que não mais existe, porém, o prédio segue. Agora, está restaurado com novos donos. E o rádio? Ah! O rádio que era bonito, mas não funcionava, não sei o que aconteceu com ele.  Seja lá o que tenha lhe acontecido, o certo é que o Senor não o levou deste mundo, se é que aqule rádio ainda exista de alguma forma; se é que aquele rádio pertenceu mesmo a esse Abravanel notável. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Nilson Bonadeu é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: o Cine Bijou dos meus sonhos

    Ailton Santos

    Ouvinte da CBN

    Fotógrafo Aurélio Becherini, Acervo da Casa da Image de São Paulo

    Das montanhas de Minas para as “montanhas de luzes” de São Paulo, entrei de ônibus na Pauliceia, numa noite de janeiro de 1970. Deixava o curso de direito na federal, em Belo Horizonte, para fazer teatro. Só desafios. Tudo novo. Sem limites.

    A primeira noite, sono agitado num hotelzinho perto da antiga rodoviária. Depois, a pensão de uma prima. Quarto com dois beliches e uma cama de campanha. Cinco primos cheios de sonhos. E muita agitação.

    O dinheiro curto. No domingo, só almoço. E bananas e mais bananas para todos até o dia seguinte.

    O primeiro emprego, na revisão de O Estado de São Paulo. Das dez da noite às seis da manhã. 

    Só descobertas! Tumultos. E muito barulho. No jornal, no quarto, na casa, nas ruas. Como dormir? Quando dormir? Me pegava dormindo no ônibus, de pé, segurando o pegador que pendia do teto. O joelho falhava, eu quase caia. No elevador do Estadão, um vaivém do andar da revisão ao andar do restaurante. E eu dormindo, ainda em pé, pra baixo e pra cima, no intervalo da jornada.

    Certa tarde, em desespero, com a dor aguda de semanas sem dormir, passei diante do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Filmes de arte, para driblar a ditadura. Que descoberta!

    Sessões do meio-dia até a madrugada. “Gaviões e passarinhos”, de Pasolini. Nem pensei. Entrei. E mal joguei o corpo na poltrona vermelha, já estava de olhos fechados. Acordei no fim da primeira sessão. No meio da outra, com o personagem Totó caminhando por uma estrada sem fim, com uma gralha falante e um garoto. E de novo só despertei – dormido e descansado – antes da sessão das dez. Pronto para o trabalho.

    Dias e noites, a penumbra encantada do Cine Bijou embalava meu sono e meus sonhos, até a hora de trabalhar. Não sem antes saborear o imortal sanduíche de pernil acebolado no bar de frente do jornal.

    Outros filmes vieram, para salvar-me da tortura dos barulhos da pensão. E do mundo. Continuei fiel ao berço do Bijou. Até que Carlitos  recebeu-me com as luzes encantadas do seu “Circo”. A angústia de Totó dá lugar ao lirismo de Carlitos, dançando na sala de espelhos, perseguido por um policial. 

    Durmo, sonho. E acordo ainda sonhando com aquela magia. Dias e noites. Noites e dias. Até hoje.

    Agora que o cinema foi reinaugurado, reacendeu suas luzes, espero reencontrar Totó e Carlitos nas telas do Bijou ou caminhando pelas calçada da Praça Rosevelt. Porque eu continuo a sonhar. Agora com o sono (e os sonhos) em dia.

    Ailton Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer texto, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Aborto e pensão: é prá já a indagação

     

    Por Carlos Magno Gibrail

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    A fragilidade com que as mulheres são vistas pela nação brasileira no caso do aborto e das pensões alimentícias é flagrantemente desatualizada. Se a equiparação de fato e de direito entre homens e mulheres ainda não foi alcançada, é visível que evoluímos bastante na busca da igualdade. Tudo indica inclusive que teremos por mais quatro anos uma mulher como presidente, atestando que o sexo feminino no Brasil não precisa mais de tratamentos especiais e preconceituosos. Portanto, é chegada a hora de dar ao sexo feminino as condições adultas, deixando as decisões pessoais ao seu arbítrio na questão mais íntima da gravidez. E revendo também a função do provisionamento do lar. Afinal a mulher de hoje não tem nada a ver com aquela que foi base para a lei da pensão alimentícia.

     

    Não é possível continuarmos a conviver com 600 mil a 700 mil mulheres criminalizadas anualmente por causa dos abortos. Tampouco prender indiscriminadamente maridos desempregados e algumas vezes idosos, por falta de pagamento de pensões alimentícias. Como sabemos a lei não discrimina sexo, mas na realidade as prisões convergem nos homens.

     

    No aborto, uma legislação consistente irá tirar da marginalidade uma situação de alto risco, trazendo-a para controle oficial. Certamente o acompanhamento estatístico e a análise médica identificarão as resultantes. De acordo com Levitt e Dubner, autores de Freakonomics, Ceausescu proibiu o aborto quando na Romênia seu índice era de 20%, e foi vítima dos bebês nascidos indevidamente. Enquanto nos Estados Unidos a legalização do aborto foi o melhor de todos os métodos para a diminuição da criminalidade. Fato que Giuliani se beneficiou em New York.

     

    No pagamento da pensão é irreal considerar como padrão que o marido trabalha e a esposa fica em casa. E é surreal aprisionar o devedor tirando a chance de ele trabalhar para cumprir o pagamento.

     

    Se Dilma ou Marina dirigir o país, conforme indicam as pesquisas eleitorais, é hora de perguntar o que pensam sobre temas tão pertinentes às mulheres. Não importa crenças religiosas ou plebiscitos, o que precisamos saber é como elas encaram o tratamento que as mulheres devem ter. Qual autonomia deve ser dada ao sexo feminino, e quais as suas responsabilidades. Esperamos apenas que não façam como as do Congresso que mantiveram a pena de prisão na reformulação da lei da pensão alimentar. Puro corporativismo. Ou machismo feminista?

     

    Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

    Zé Elias e a pensão alimentícia

     

    Por Carlos Magno Gibrail

    Há 50 anos, entrei pela primeira vez em uma delegacia de polícia, quando tive que acompanhar minha mãe como vítima de um roubo. Deste episódio ficou a imagem da gritaria e maus tratos que o delegado dava a um senhor que estava sendo preso por falta de pagamento de pensão alimentícia à ex-mulher.

    Passados os 50 anos, mesmo com a espetacular evolução do espaço das mulheres no competitivo mundo masculino, e conseqüente necessidade de atualização do equilíbrio de forças, parece que as decisões judiciais continuam desconsiderando tais mudanças.

    Zé Elias, 34 anos, ídolo corintiano da década de 90, ex-jogador do Santos, da seleção brasileira e de grandes times internacionais como a Internazionale de Milão, quando atuou com Ronaldo o Fenômeno, do Olympiakos, um dos grandes times gregos, e da tradicional equipe alemã Bayer Leverkusen, deixou de brilhar em 2006. Neste ano pediu a redução da pensão de R$ 25 mil mensais estabelecida por ocasião do divórcio consensual em 2005, quando a ex-esposa recebeu R$ 10 milhões de reais.

    A justiça não aceitou os argumentos de Zé Elias, e mesmo sem emprego fixo obrigou-o a continuar pagando os R$ 25 mil mensais além da dívida hoje acumulada de quase R$ 1milhão.
    Era pagar ou ser preso.

    Zé Elias informando falta de condições financeiras se apresentou então à justiça na quinta-feira e foi preso. Onde ficará por 30 dias, se os pedidos de habeas corpus continuarem a serem negados, o que parece o mais provável.

    Sem entrar no mérito das partes e das decisões judiciais, gostaria entender a praticidade do encarceramento de alguém que precisa cumprir obrigações pecuniárias e fica cerceado de trabalhar por 30 dias. Além da perda de 30 dias de capacidade produtiva, certamente o reflexo da prisão reduzirá o potencial de remuneração ou mesmo de trabalho afetado pela imagem de ex-presidiário.

    Ao Zé Elias é hora de pedir ajuda aos “universitários”.
    Aos demais, se estiverem empregados, as chances de perda do emprego serão enormes, enquanto que os desempregados diminuirão em muito a possibilidade de encontrar trabalho convencional.

    Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung