Dez Por Cento Mais: Irene Vucovix transforma a dor pelo filho perdido em uma conversa sobre culpa e esperança

“É deixar a culpa e deixar a vergonha de lado. E colocar esse assunto em discussão na sociedade porque é muito importante.”

Durante 19 anos, Irene Vucovix acompanhou à distância a vida do filho, Marcelo, depois de decidir interromper uma convivência marcada pela dependência química, pela violência e pelo medo. Ela só voltaria a vê-lo quando ele morreu, aos 39 anos, vítima de uma overdose. Jornalista e escritora, Irene contou como enfrentou a culpa, o silêncio e um luto iniciado muito antes da morte — assunto de sua entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Marcelo começou a usar drogas por volta dos 12 anos e logo passou da maconha para o crack. Antes disso, alguns comportamentos já preocupavam a família. Ele era agressivo, envolvia-se em brigas e cometia pequenas transgressões, como tirar dinheiro da carteira do avô e levar objetos de casa.

Naquele momento, esses episódios eram vistos como problemas da infância. Anos depois, ao reler avaliações escolares guardadas, Irene percebeu que alguns comportamentos se repetiam.

A família procurou diferentes formas de tratamento. Houve psicólogos, psiquiatras, terapias, internações e clínicas de recuperação. Irene também buscava reportagens sobre dependência química e entrava em contato com famílias que diziam ter encontrado um caminho.

“Eu tentei de tudo que me diziam que podia funcionar, eu tentei”, afirmou.

Cada internação alimentava a expectativa de mudança. Marcelo recuperava o peso, aparentava estar saudável e deixava a família novamente confiante. A recuperação, porém, não se sustentava. Ele abandonava os tratamentos, fugia das clínicas e voltava a usar drogas.

“Todas as vezes você tem essa impressão”, contou Irene, ao recordar o pensamento que se repetia nesses períodos: “Gente, agora, ele tá muito bem.”

Quando o amor convive com o medo

Com o agravamento da dependência, Irene passou a temer o próprio filho. Marcelo tinha 1,93 metro, praticava luta e se tornava agressivo quando era contrariado. Aos 16 ou 17 anos, ela dormia com a porta do quarto trancada e uma cadeira segurando a maçaneta.

Em um dos episódios relatados, o filho apareceu em casa com um pé de maconha e anunciou que faria uma pequena plantação no apartamento. Irene recusou e jogou a planta fora. Quando voltou do trabalho, na véspera do Dia das Mães, encontrou a porta do quarto pichada com a frase: “Que você tenha um péssimo Dia das Mães”. Marcelo também levou a televisão, o videocassete e outros objetos.

A dependência passou a se misturar com prisões, dívidas com traficantes, roubos e falsidade ideológica. Irene pagava terapeutas, advogados e, algumas vezes, traficantes, por temer que o filho fosse morto.

Aos 20 anos, Marcelo recebeu uma avaliação que destruiu parte das esperanças da mãe. Depois de analisar os exames, um profissional disse que ele dificilmente chegaria à vida adulta. Para que o rapaz tivesse alguma possibilidade de assumir as consequências das próprias escolhas, Irene teria de estabelecer limites.

A orientação foi resumida em uma imagem: ela precisaria “virar uma parede”. Dizer não, suportar as tentativas de manipulação e deixar de resolver os problemas criados pelo filho.

“Era para virar uma parede. Então vou virar uma parede”, recordou.

Irene se afastou radicalmente. Não atendia aos telefonemas, não entregava dinheiro e não pagava mais as dívidas. Marcelo tinha 20 anos. Ela só o veria novamente depois de sua morte, aos 39.

“Eu brinco que tinha um não na minha testa”, afirmou.

O afastamento não rompeu o vínculo

A distância física não significou indiferença. A irmã de Irene passou a manter contato com Marcelo e levava notícias à família. Algumas vezes, dizia que ele estava trabalhando, namorando e vivendo no interior de São Paulo. Pouco tempo depois, chegava a informação de que havia sido preso novamente.

A esperança mudava de tamanho. Irene já não esperava que o filho cursasse uma faculdade ou seguisse o futuro imaginado durante a infância. Desejava apenas que ele conseguisse trabalhar, respeitar os outros e levar uma vida que definiu como “minimamente digna”.

Mesmo afastada, procurava saber se ele estava seguro. Quando Marcelo foi preso por envolvimento com uma caminhonete roubada, Irene decidiu não contratar um advogado para tirá-lo da cadeia. Diante da notícia de que ele poderia correr risco de vida, pediu a um jornalista que visitasse o presídio e verificasse a situação.

A contradição foi resumida por ela em uma frase: “Eu larguei, mas não larguei.”

O afastamento também veio acompanhado de culpa e tristeza. Irene escondia a situação dos amigos. Quando perguntavam pelo filho, respondia que ele estava bem e morava no interior. Dentro da família, a dependência química tornou-se um assunto difícil de pronunciar.

“Virou um tabu esse assunto. Um negócio louco, é um silêncio. Ainda hoje, com o livro publicado, a gente tem dificuldade de falar”, disse.

Segundo Irene, a vergonha era mais intensa no início. Com o agravamento dos problemas, ela se sentiu cada vez mais fragilizada e vulnerável. A experiência permaneceu guardada durante anos, mesmo depois da morte do filho, em dezembro de 2017.

Da oficina literária ao livro

A escrita surgiu dois anos depois. Irene participava de uma oficina literária quando leu o conto “Onze filhos”, de Franz Kafka. No dia seguinte, escreveu cerca de 30 linhas sobre a infância de Marcelo. Deu ao texto o título “Um filho” e encerrou a narrativa informando que ele havia morrido por overdose.

O professor considerou o texto apenas um embrião. Irene decidiu, então, contar a história da relação com o filho. O processo exigiu que revisitasse escolhas, medos e lembranças.

“Eu tava meio como espectadora de mim mesma. Tava me escrevendo”, explicou.

A experiência deu origem ao livro O filho perdido. O título foi sugerido pelo editor. Irene resistiu porque considerava a expressão dura. Com o tempo, reconheceu que as palavras sintetizavam sua história: “Eu perdi meu filho.”

Entre as poucas lembranças materiais de Marcelo, ela conserva desenhos, avaliações escolares, fotografias e a cópia da mão do menino feita em uma máquina de xerox na redação do jornal em que trabalhava. Irene costumava levá-lo ao trabalho durante os plantões de sábado.

A escrita não alterou o desfecho, mas mudou a relação da autora com o passado.

“Hoje eu me sinto assim, me sinto em paz”, afirmou. “Eu acho que eu fiz o que foi possível. Não sei se eu fiz o certo, eu não me cobro mais.”

A esperança depois da perda

Durante os anos de afastamento, cada aniversário de Marcelo representava uma vitória contra a previsão de que ele não chegaria à vida adulta. Mesmo de longe, Irene comemorava: “Mais um ano, ele tá vivo.”

A morte interrompeu essa contagem e deixou uma sensação de vazio. Questionada sobre o significado atual da esperança, respondeu: “Eu acho que ela muda de forma. Porque até para a gente sobreviver, você precisa acreditar em alguma coisa.”

A publicação do livro abriu outra possibilidade. Irene passou a receber mensagens de mães, filhas e irmãos que convivem com a dependência química dentro da família. Muitas procuram conforto e relatam histórias semelhantes, marcadas pelo isolamento, pelo medo e pela culpa.

Ela procura responder, embora deixe claro que não oferece um caminho pronto.

“Eu não tenho nenhuma receita”, afirmou. “O que eu fiz foi porque eu acreditei. Foi o que eu pude fazer e eu acreditei que podia dar certo.”

Para Irene, o silêncio torna a experiência ainda mais pesada. A vergonha isola a família e mantém o sofrimento escondido dentro de casa. Ao contar a própria história, ela espera ajudar outras pessoas a perceber que não estão sozinhas.

“Tem muita gente sofrendo com isso. Não é justo”, disse. “Queria que essas mães sentissem aqui um pouquinho de alento com o meu livro, um mínimo de conforto talvez.”

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O sentimento de perda

Por Beatriz Breves

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O sentimento de perda pode ser compreendido por muitos ângulos, pois se estende por um amplo espectro de experiências humanas. Entretanto, quando descemos às suas profundezas, encontramos uma dor muito particular: a perda nos lembra, de forma quase brutal, que não somos donos de nada. Ela escancara nossa condição transitória na vida. Hoje acreditamos possuir algo — uma pessoa, um trabalho, um sonho, uma posição social ou até mesmo uma rotina — e, por vezes, muito rapidamente, tudo isso se desfaz.

Existem muitos tipos de perda. A mais evidente é a perda de alguém querido. Mas também podemos perder um emprego, um relacionamento, a dignidade, um projeto de vida, uma condição física ou o afeto de alguém que deixa de nos amar. Cada uma dessas situações costuma despertar outros sentimentos: tristeza, desespero, carência, solidão, insegurança ou luto. O sentimento de perda nunca vem sozinho. Ele agrega um conjunto de sentimentos que pode conduzir tanto ao crescimento pessoal quanto ao sofrimento profundo, dependendo da forma como a pessoa consegue elaborá-lo.

Contudo, é importante diferenciar o fato da perda do sentimento de perda. Nem toda perda produz sofrimento. O que realmente importa não é aquilo que foi perdido em si, mas o valor que a pessoa atribuía ao que perdeu. Muitas vezes, acredita-se que a questão central está no acontecimento objetivo. Não está. O elemento decisivo é o investimento afetivo realizado naquilo que se perdeu.

Um exemplo simples ajuda a compreender essa diferença. Uma pessoa obesa, ao perder peso, dificilmente experimentará tristeza por essa perda. Ao contrário, poderá sentir alegria, esperança, satisfação ou alívio. Nesse caso, houve uma perda concreta, mas não um sentimento de perda. Isso mostra que o sofrimento não decorre automaticamente do desaparecimento de algo, mas do significado que esse algo possuía para quem o perdeu.

Essa distinção revela um aspecto fundamental no campo dos sentimentos: acontecimentos não são sentimentos. Perder é um fato; sentir a perda é uma experiência subjetiva. Muitas vezes, as pessoas confundem o acontecimento com o sentimento correspondente, como se um determinasse, necessariamente, o outro. Não determina. O que produz o sentimento não é o fato em si, mas o significado que lhe é atribuído. É por isso que uma mesma situação pode gerar tristeza em uma pessoa, alívio em outra e até alegria em uma terceira. O acontecimento pertence à realidade objetiva; o sentimento pertence à forma como cada pessoa experiencia essa realidade.

Há também perdas que surpreendem. Uma pessoa pode ganhar na loteria e, algum tempo depois, sentir saudade da vida que levava antes. Pode mudar de carreira em busca de realização pessoal e, mais tarde, perceber que sente falta da antiga rotina, dos colegas ou da identidade construída ao longo dos anos. Em certas situações, aquilo que parecia representar um ganho traz consigo a sensação de que uma parte de si ficou para trás.

Entre todas as formas de perda, uma das mais dolorosas talvez seja a perda do tempo. O sofrimento surge quando a pessoa olha para trás e percebe que não realizou aquilo que desejava ou acreditava poder realizar, sentindo que as oportunidades passaram e não retornarão. Trata-se de uma dor profunda, difícil de elaborar, porque está associada à própria percepção da finitude da existência.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como lidar com a perda?

A resposta, embora pareça simples, é uma das tarefas mais difíceis de realizar: aceitar. Aceitar que nada nos pertence definitivamente, que tudo é transitório, que a vida é constituída por um movimento contínuo de encontros e despedidas, de conquistas e renúncias, de ganhos e perdas.

Esse processo de aceitação exige recursos internos importantes. Fé, esperança, confiança, paciência e capacidade de suportar a dor fazem parte do caminho. Não existe uma fórmula universal. Cada pessoa encontrará sua própria maneira de atravessar aquilo que perdeu e de reconstruir sua relação com a vida.

Mas a perda também pode se tornar um ponto de transformação. Quando a pessoa possui recursos internos para enfrentar o sofrimento, ela não fica aprisionada na revolta, na vingança ou no vazio da desesperança. Aos poucos, consegue transformar a experiência em aprendizado. Aquilo que inicialmente parecia apenas destruição pode revelar-se uma oportunidade de crescimento, amadurecimento e renovação.

Talvez seja por isso que a vida esteja continuamente nos ensinando que perder e ganhar são movimentos inseparáveis. O tempo todo, algo se encerra enquanto algo novo começa. O tempo todo, deixamos partes de nós para trás e construímos novas formas de ser e existir.

No fim das contas, é a aceitação que nos permite seguir adiante. A vida é feita desse movimento permanente entre perdas e conquistas. E é justamente nesse movimento que aprendemos, pouco a pouco, a viver.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Sobre o sentimento do ciúmes

Por Beatriz Breves

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O ciúme é um daqueles sentimentos que todo mundo conhece, mas que raramente é compreendido em profundidade. Ele aparece como um aperto no peito, um desconforto, uma sensação de ameaça e, no fundo, nasce do desejo de manter o outro por perto e do medo de perdê-lo.

Há uma crença popular de que “quem ama, sente ciúme”. Mas amor e ciúme não são necessariamente dependentes. É possível amar e sentir ciúme, como também amar sem sentir ciúme. Ainda assim, é raro que o ciúme não apareça em algum grau. Ele funciona como sal na comida: se em excesso, estraga; se em falta, empobrece; na medida certa, deixa a comida saborosa. Uma pitada de ciúme pode até fazer bem, por revelar cuidado e presença.

Outra ilusão comum é imaginar que o ciúme envolve somente duas pessoas. Na verdade, ele sempre forma um triângulo: eu com alguém e mais alguma outra pessoa ou coisa. Sim, até coisas. Há quem sinta ciúme de um trabalho, de um automóvel, de um celular. O ponto central é sempre o mesmo: a sensação ameaçadora de perda.

O ciúme nunca vem sozinho. Ele se mistura a outros sentimentos. Quando caminha ao lado, por exemplo, do amor, da solidariedade e do companheirismo, tende a ser leve. Quando se alia ao desespero, à angústia ou ao medo intenso, pode se tornar controlador e sufocante. E, ainda, quando se junta ao desejo de dominar, ao impulso cruel ou à violência, a pessoa tende a perder o controle de si mesma. Portanto, a questão principal não é o ciúme na sua condição isolada, mas os sentimentos que se agregam a ele.

Por isso, a pergunta mais importante não seria “por que sinto ciúme?”, mas “com quais sentimentos o meu ciúme está andando?”. É essa combinação que irá diferenciar um incômodo passageiro de um sofrimento profundo.

Pode-se dizer com uma certa segurança que o ciúme vai aparecer em algum momento da vida, e ainda bem. Ele é um sentimento que mostra onde dói, onde há falta de segurança, onde existe o desejo, onde há amor. O problema surge quando não se sabe o que fazer com o que se sente.

Fato é que o ciúme é somente a ponta de um iceberg no oceano dos sentimentos. Quando alguém consegue enxergar o que está se aliando a ele — inseguranças, desejos, medos, necessidades afetivas, etc — o ciúme passa a ser compreendido como um mensageiro de fragilidades, desejos e necessidades afetivas. É justamente a partir desse reconhecimento que se torna possível construir relações mais maduras.

A dificuldade, para muitos, está em administrar os próprios sentimentos. Seja por desconhecimento, seja por receio, poucas pessoas têm a oportunidade de falar sobre o que sentem sem, de alguma forma, se censurar ou ser censuradas. E, quando não se pode expressar o que se sente, o ciúme e os sentimentos a ele agregados, como qualquer outro sentimento, tendem a se distorcer.

Portanto, falar sobre os próprios sentimentos, sobre o que se está sentindo, é uma das atitudes mais saudáveis que alguém pode ter. Guardar tudo para si é como se afogar no mar dos sentimentos. Quando uma pessoa pode compartilhar a sua insegurança com alguém em que haja reciprocidade no gostar, seja parceiro(a) ou amigo(a), cria um espaço externo e interno para acolhimento, compreensão e conexão.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.