O encontro de Alois Alzheimer e Karl Popper

Dr Renan Domingues

@renandominguesneurologia

“Várias vezes ao dia, ela diz:

Eu perdi a mim mesma’.”

Alois Alzheimer, sobre sua paciente Auguste Deter,

o primeiro caso descrito da Doença de Alzheimer

“Se uma teoria lhe parece ser a única possível,

tome isso como um sinal de que você não entendeu

nem a teoria nem o problema que ela pretendia resolver”

Karl Popper, filósofo da ciência

Alois Alzheimer (1864–1915) foi um médico psiquiatra e neurologista alemão que contribuiu decisivamente para os primórdios da neurociência moderna. Em 1906, durante uma conferência, apresentou o caso de Auguste Deter, uma paciente com perda progressiva de memória, desorientação, dificuldades de linguagem e comportamento, além de um declínio cognitivo que avançava sem trégua. Após o falecimento de Auguste, Alzheimer analisou seu cérebro e descobriu três alterações patológicas inéditas até então: placas fora das células, denominadas amiloides; depósitos dentro dos neurônios, conhecidos como emaranhados neurofibrilares; e uma perda neuronal generalizada. As alterações descritas por ele foram consideradas responsáveis pelo quadro de demência observado e, posteriormente, a doença passou a levar seu nome.

Mais tarde, descobriu-se que as placas amiloides são compostas por uma proteína anormal, a beta amiloide 42, que parece ter um papel central nos estágios iniciais da Doença de Alzheimer. O acúmulo dessa substância no cérebro parece iniciar uma sequência de eventos patológicos, a chamada cascata amiloide, que inclui a formação dos emaranhados neurofibrilares, levando à morte neuronal e, com o tempo, à atrofia cerebral. Esse acúmulo da beta amiloide 42 pode ocorrer em função de mutações genéticas que aumentam sua produção, ou por falhas nos seus mecanismos naturais de eliminação.

Com base na teoria da cascata amiloide, recentemente desenvolveram-se anticorpos monoclonais capazes de remover a beta amiloide 42 acumulada. E de fato, os estudos mostraram uma redução eficaz das placas amiloide com estes medicamentos. A lógica parecia infalível: remover a causa, deter a doença. Mas a clínica frustrou a expectativa e os benefícios cognitivos para os pacientes foram modestos, quase sempre abaixo do impacto esperado.

É nesse ponto que o conhecimento iniciado por Alois Alzheimer se encontra com a filosofia de Karl Popper (1902–1994). Um dos maiores pensadores da ciência no século XX, Popper argumentava que o conhecimento científico não avança por confirmações, mas sim por tentativas de refutação. Uma teoria só é científica se ela é testável. Se ela resiste a esses testes, ela é provisoriamente aceita, mas jamais considerada definitiva. A ciência, para Popper, é feita de hipóteses ousadas que precisam ser colocadas à prova, sempre com a consciência de que toda explicação é temporária.

Aplicando esse olhar à teoria da cascata amiloide, a constatação de que os pacientes não melhoram, mesmo após a remoção da proteína anormal, poderia ser interpretada como uma refutação da hipótese. Mas Popper adverte: “A ciência será sempre uma busca e jamais uma descoberta. É uma viagem, nunca uma chegada. O conhecimento é uma aventura em aberto.” Em outras palavras: calma! A ausência de melhora clínica não encerra a questão, pode apenas indicar que chegamos tarde demais. Talvez o acúmulo de beta amiloide 42 ocorra décadas antes dos primeiros sintomas, e sua remoção, uma vez iniciada a cascata degenerativa, seja insuficiente para reverter os danos. Ou talvez existam outros processos igualmente importantes em ação, como a inflamação, o papel de outras proteínas e fatores ainda desconhecidos.

A lição de Popper permanece atual: a certeza é inimiga do pensamento científico. A verdade não é algo que se possui, mas algo que se persegue com humildade e abertura ao erro. Se estamos convencidos de que a teoria da cascata amiloide é a única explicação possível, talvez já tenhamos caído na armadilha. E como sair, diante dos dados que agora desafiam aquilo em que acreditamos com convicção?

É justamente quando temos certeza demais que, como Auguste Deter, corremos o risco de nos perder. Porque lucidez, no fim das contas, não é saber exatamente onde estamos, mas é reconhecer o que não sabemos e, ao mesmo tempo, formular as perguntas certas para mais adiante estarmos um pouco menos perdidos.

Renan Domingues é neurologista e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA, e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como as marcas atravessam o tempo com relevância

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Manter-se relevante ao longo de décadas é um desafio que poucas marcas conseguem superar. Esse foi o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. Com base em uma metodologia desenvolvida e aplicada há mais de 30 anos, os especialistas analisaram como algumas marcas conseguem atravessar o tempo e se manter no topo.

O estudo Marcas Mais, em parceria com o jornal O Estado de São Paulo avalia o grau de envolvimento emocional e funcional que as marcas estabelecem com seus consumidores. A metodologia, descrita como pioneira e única no Brasil, busca identificar as práticas consistentes que fazem com que essas marcas não apenas sobrevivam, mas se mantenham relevantes e ocupem as primeiras posições nos rankings anuais. “Imaginem vocês o que significa manter uma relação de envolvimento, afeto e preferência por tanto tempo!”, destacou Jaime Troiano. Ele comparou o processo, que acompanhou mais de 500 marcas ao longo de três décadas, a uma arqueologia do branding, explicando que poucas marcas conseguem manter esse nível de conexão ao longo dos anos.

Os quatro pilares do sucesso

Cecília Russo explicou os critérios principais que sustentam as marcas mais fortes do estudo. Esses pilares são fundamentais para entender por que algumas empresas se destacam em mercados tão competitivos:

  1. Consistência: “Elas não abandonam seu passado para traçar o futuro. Preservam o essencial na busca do novo.”
  2. Humildade: “Elas ouvem sempre a voz das ruas, o que o mercado e as pessoas estão dizendo, seja bom ou ruim.”
  3. Qualidade: “Não há marca forte que resista a produto ruim.” Cecília ainda citou uma frase do publicitário Washington Olivetto: “O pior que pode acontecer a um produto ruim é ter uma propaganda boa. É dinheiro jogado fora.”
  4. Comunicação contínua: “Mesmo sem grandes investimentos, elas alimentam o diálogo com os consumidores e nunca deixam de se fazer ouvir.”

Jaime também destacou que as marcas analisadas não apenas atravessaram períodos de crise, como a pandemia, mas saíram fortalecidas por conta da capacidade de manterem uma comunicação ativa e próxima dos consumidores.

A marca do Sua Marca

Os quatro pilares apresentados — consistência, humildade, qualidade e comunicação contínua —demonstram que marcas sólidas não dependem apenas de campanhas pontuais, mas de práticas contínuas e estruturadas. Esse é o diferencial que as mantém no topo, ano após ano.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as marcas mais recomendadas do Brasil

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A capacidade de uma marca conquistar recomendações é crucial para seu sucesso. Recentemente, uma auditoria identificou quais marcas se destacam nesse critério no Brasil. O trabalho tem como base uma métrica que pode ser aplicada pelos gestores, independentemente da dimensão da sua marca, como explicaram Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

A Opinion Box, especializada em pesquisas de mercado online, realizou o estudo auditando, ao longo de um ano, o NPS de marcas em 50 segmentos diferentes, como varejo, vestuário, automóveis, tecnologia e alimentação. NPS é a sigla para Net Promoter Score, uma medida de recomendação amplamente utilizada, segundo Cecília Russo.

Como medir o NPS da sua marca

“O NPS é uma medida puramente de recomendação de uma marca ou serviço,” destaca Jaime Troiano. O resultado é alcançado a partir de uma pergunta que os consumidores brasileiros estão acostumados a responder e, talvez, não tenham ideia de como pode ser importante para as estratégias de desenvolvimento das marcas: “De 0 a 10, o quanto você recomendaria esse produto ou serviço para um amigo?”.

As respostas são classificadas conforme a nota dada pelo consumidor. Os que avaliam como sendo de 0 a 6 são identificados como detratores da marca; os que dão notas 7 e 8 são os neutros; e os que dão 9 e 10 são os promotores da marca. O índice NPS é calculado subtraindo-se o percentual de detratores do percentual de promotores, resultando em um valor que pode variar de -100 a 100.

“Isso é muito relevante porque o NPS acaba sendo uma medida que gera o grau de satisfação, e satisfação gera, também, a fidelização desse cliente,” justifica Cecília.

As marcas mais recomendadas

A classificação feita pela Opinion Box, publicada com exclusividade pelo Meio e Mensagem, revelou que a marca mais recomendada do Brasil é a Lindt. O NPS da fabricante suíça de chocolate é de 89. Em seguida, aparecem Apple, The North Face e Honda, cada uma com um NPS de 84.

“Marcas que possuem um NPS alto são as que conseguem produzir encantamento no cliente,” ressalta Jaime. Ele observa que apenas marcas que oferecem uma experiência excepcional são recomendadas por consumidores satisfeitos.

A marca do Sua Marca

O NPS reflete a qualidade e a estratégia de uma marca. Empresas com altos NPS demonstram um cuidado especial com o consumidor, oferecendo produtos e experiências que deixam uma impressão duradoura e positiva. Como exemplificam Cecília e Jaime, essas marcas trabalham continuamente para que cada ponto de contato com o cliente seja positivo, gerando um “gostinho de quero mais” e incentivando a recomendação.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo, e a sonorização é de Paschoal Júnior.

São Paulo é o estado que tem menor adesão à pesquisa sobre ações antirracistas nas escolas

Foto de Arthur Krijgsman

No Brasil, o combate ao racismo nas escolas é uma questão de urgência cívica e social. No entanto, apenas metade das instituições de ensino público havia adotado ações contra o racismo em 2021. Para entender o cenário atual e preparar a política nacional de educação antirracista, o Ministério da Educação convocou prefeitos e secretários de educação para participarem de uma pesquisa sobre as ações desenvolvidas pelas redes de ensino para enfrentar o racismo.

De acordo com o levantamento do próprio ministério, pouco mais de 1.000 cidades, de um total de 5.570, tinham respondido ao questionário até o início do mês. Diante disso, a associação que reúne os tribunais de contas estaduais e municipais está convocando os prefeitos e secretários de educação a enviarem, o mais breve possível, as respostas necessárias ao MEC.

É preocupante notar que, apesar da importância dessa iniciativa, a adesão dos estados mostra um cenário desigual. A Atricon informa que o estado de São Paulo teve a menor adesão até o momento, com apenas 54,3% dos prefeitos paulistas respondendo à pesquisa. Amapá (56,3%), Rondônia (57,7%), Tocantins (58,3%) e Rio Grande do Sul (59,6%) seguem nesta lista de estados com menor adesão. Em contraste, Minas Gerais alcançou 100% de adesão, com todas as 853 cidades respondendo ao levantamento. Ceará e Alagoas também tiveram adesão total.

Surge a questão: a baixa adesão dos prefeitos à pesquisa seria por receio de serem vistos como omissos no combate ao racismo? Tal hesitação poderia refletir falta de responsabilidade ou comprometimento com suas obrigações.

O MEC prepara-se para lançar a “Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola”, um passo potencialmente transformador se acompanhado de envolvimento efetivo das esferas governamentais locais. Este momento é crítico: prefeitos e secretários municipais de educação devem reconhecer a importância de sua participação ativa nesta pesquisa, que não apenas moldará políticas futuras, mas também impactará diretamente na formação cívica e cultural de jovens estudantes.

Portanto, é imperativo que todos os estados e municípios brasileiros estejam alinhados e engajados com o MEC nesse esforço conjunto. A diversidade é uma riqueza inestimável do Brasil e deve ser refletida e respeitada em nossas salas de aula. Para que isso aconteça, é essencial que cada prefeito e secretário de educação responda à chamada do MEC, ajudando a transformar nosso sistema educacional em um espaço verdadeiramente inclusivo e representativo.

Semana de quatro dias de trabalho: um ano depois, estudo mostra o que deu certo e o que tem de melhorar

Foto de fauxels

Um ano após o início do projeto-piloto de semana de trabalho de quatro dias no Reino Unido, a maioria das empresas participantes decidiu manter essa política, com resultados positivos notáveis. De 61 organizações que participaram do programa, que se iniciou em fevereiro de 2023, 89% continuam aplicando a medida, e 51% a tornaram permanente. É o que mostra relatório “Making it stick: the UK four-day week pilot one year on” divulgado pela Autonomy, que coordenou o projeto em parceria com pesquisadores das universidades de Cambridge e Oxford, bem como do Boston College.

A pesquisa aponta um impacto “positivo” ou “muito positivo” na maioria das empresas, com melhorias no bem-estar dos funcionários, redução da rotatividade e aprimoramento no recrutamento. A partir da avaliação feita pelos principais executivos das organizações que aceitaram testar o modelo constatou-se que 82% observaram que melhoraram os níveis de bem-estar dos funcionários, 50% notaram efeitos positivos da diminuição de rotatividade de trabalhadores e 32% apontaram que o recrutamento foi aprimorado. 

Benefícios sustentáveis e estratégias de implementação

Os benefícios para a saúde física e mental dos funcionários, assim como o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mantiveram-se ou melhoraram desde o início do piloto.  Para Juliet Schor, professora de Sociologia no Boston College, os resultados são “excelentes”:

“Os resultados globais mantiveram-se e, em alguns casos, continuaram a melhorar. A saúde física e mental e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional estão significativamente melhores do que aos seis meses. As melhorias no esgotamento e na satisfação com a vida mantiveram-se estáveis. A satisfação no trabalho e os problemas de sono diminuíram um pouco, mas a maior parte da melhoria original permanece”.  

Um aspecto importante para avaliarmos as possibilidades de desenvolvermos essa ideia na empresa em que trabalhamos é entender em quais setores o modelo funciona melhor. A maior parte das empresas que participaram neste projeto-piloto é da área de marketing e publicidade, serviços profissionais e setor sem fins lucrativos. As demais são ligadas a indústria da construção, manufatura, varejo, saúde, arte e entretenimento.

O estudo também identifica que as organizações adotaram estratégias diversas para sustentar a política de quatro dias semanais de trabalho, incluindo revisão de reuniões e aprimoramento da comunicação. Ficou evidente a necessidade de se ter regras claras de como essa política vai ser implementada e, principalmente, de quais serão os compromissos que as partes envolvidas terão de assumir.

Desafios e reflexões para o futuro

A implementação parcial da semana de quatro dias em algumas empresas revela um panorama misto, onde esse modelo é encarado mais como um “privilégio” do que um “direito” inalienável. Para ter direito ao dia de folga adicional, é imprescindível que todas as tarefas sejam previamente concluídas. No entanto, a aplicação dessa regra varia significativamente entre as equipes. Enquanto algumas adotam plenamente a nova cultura, organizando suas agendas para garantir um dia livre toda semana, outras ainda mantêm o foco nos compromissos profissionais, relegando a folga a um plano secundário.

Diante dessa realidade, surge a reflexão sobre como diferentes organizações administram suas comunicações externas e internas. A chave para o sucesso parece residir na definição clara de expectativas, na delimitação de horários de trabalho até em comunicações por e-mail e na introdução de certa flexibilidade. Essas estratégias, embora originárias de setores diversos, sugerem que a preparação antecipada e a os processos de adaptação são fundamentais para superar obstáculos ao longo do período experimental.

Esse cenário sublinha a crucial importância do engajamento conjunto de funcionários e gestores na mudança proposta, desde o início até a conclusão do período de testes. A falta de um comprometimento contínuo pode levar a resultados insatisfatórios, com a adoção de soluções que não atendam plenamente às necessidades da equipe ou da organização. Portanto, a colaboração e a comunicação efetiva entre todas as partes interessadas emergem como elementos vitais para o êxito da semana de trabalho de quatro dias.

IA na mídia: inovação e desafios no limiar do digital

Foto de ThisIsEngineering

O Sora escandalizou com suas imagens que extrapolam o limiar entre o real e o digital. A nova ferramenta de inteligência artificial, para criação de vídeos com até um minuto, da OpenAI, nem foi aberta ao público e tem causado alvoroço entre entusiasmados e céticos digitais. Independentemente de qual “torcida” você faça parte, o certo é que a velocidade com que os avanços da IA estão ocorrendo são de tirar o fôlego e prejudicam nossa capacidade de interpretação dos fatos. Sequer conseguimos perceber, menos ainda explorar, as potencialidades do ChatGPT, criado há menos de um ano e meio. 

Na edição desta semana do Cartograma, newsletter criada por dois ex-colegas de redação, Leonardo Stamillo e Leandro Mota, ambos com passagem pelo Twitter, encontrei referência a artigo que discute a necessidade de os grupos de mídia – leia-se, aqui, nós jornalistas – trabalharem juntos para explorar a IA de maneira produtiva e criativa. Ainda que mal comparando: como se reproduzissemos o consórcio de veículos de mídia, criado, no Brasil, para a divulgação diária de número de mortes e casos de covid-19, mas agora para estudar e entender o avanço da IA . “A IA é uma grande oportunidade para a mídia noticiosa. Não vamos estragar tudo” (em tradução livre) foi escrito por Vivian Schiller e Trei Brindrett  e publicado na Columbia Journalism Review.

Os autores demonstram a preocupação de os grupos de comunicação desperdiçarem as oportunidades oferecidas pela IA generativa com discussões tão improdutivas quanto já perdidas que visem barrar o desenvolvimento dessa tecnologia por temerem o fim do que ainda resta das mídias.  

“Desta vez, a indústria noticiosa não tem tanto tempo para resistir à revolução da IA e ignorar a mudança nas expectativas dos consumidores. A  tremenda velocidade das mudanças desde que o ChatGPT desencadeou uma corrida armamentista generativa de IA exige que avancemos agora. Não fazer isso pode significar ceder o futuro da descoberta e criação de notícias a novos players tecnológicos.”

Vivian Schiller e Trei Brindrett 

Sete áreas em que as mídias devem discutir o uso da IA

Diante do fato que startups e grandes empresas da tecnologia já experimentam  ferramentas que ‘mineram’ o noticiário, mixam reportagens e transformam em novos artigos, Vivian e Trei questionam se os grupos de mídia estão dispostos a se unirem em busca de soluções que preservem seu ecossistema – leia-se, aqui, os nossos empregos. Têm dúvidas se o nível de concorrência entre as organizações permitiria essa inédita união para a sobrevivência do negócio. 

Intrigados com seus próprios questionamentos, os autores conversaram com editores e executivos de redações, elencaram sete áreas em que as empresas de comunicação devem pensar em agir, e apresentaram questões que precisam ser respondidas por quem busca uma saída honrosa da mídia em meio ao caos que as IAs provocam. 

  1. IA na redação: discute como a IA generativa pode mudar operações, funções e a criação de conteúdo nas redações.
  2. Propriedade intelectual e grandes modelos de linguagem:  reúne questões de direitos autorais e compensação pelo uso de conteúdo jornalístico no treinamento de modelos de IA.
  3. Transformação do modelo de negócios: avalia o impacto da IA generativa nos modelos de negócios existentes e novas oportunidades de receita.
  4. Protegendo contra preconceitos: enfatiza a importância de mitigar preconceitos nos resultados gerados por IA para garantir a equidade e precisão.
  5. Tecnologia e produtos para o consumidor: considera novos produtos e serviços que as redações podem oferecer, aproveitando a IA para atender às expectativas dos consumidores.
  6. Diretrizes editoriais para construir confiança: destaca a necessidade de diretrizes claras sobre o uso de IA para manter a confiança do público.
  7. Políticas públicas: aborda a necessidade de envolvimento em discussões políticas sobre a regulação da IA generativa no jornalismo.

Vou ater meus palpites a apenas duas das sete áreas.

IA na redação 

A integração da IA generativa nas redações pode transformar profundamente os métodos de trabalho, introduzindo eficiência na coleta e redação de notícias, além de criar possibilidades para a geração de imagens e conteúdo personalizado. 

As funções atuais podem evoluir para incluir a curadoria e supervisão de conteúdo gerado por IA, enquanto novas funções podem surgir para gerenciar a interação entre IA e processos jornalísticos. 

Os repórteres já têm à disposição ferramentas para automatizar tarefas rotineiras, permitindo mais tempo para o jornalismo investigativo e a análise profunda. Claro que aqui sempre cabe a pergunta: se usamos ferramentas que otimizam nosso tempo, saberemos como tornar produtivo o tempo conquistado?

Algumas tarefas que podem ser automatizadas por IA nas redações incluem a coleta e compilação de dados para reportagens, a geração de rascunhos de artigos sobre eventos rotineiros, a análise de tendências em grandes volumes de dados, a transcrição de entrevistas, a identificação do humor do seu público, a partir da avaliação dos comentários, e a criação de conteúdo visual básico.

Uma atividade a ser explorada é a criação de infográficos utilizando IA. Essas ferramentas podem analisar grandes volumes de dados para identificar tendências, padrões e ideias significativos, que depois podem ser transformados em infográficos visualmente atraentes. Além de automatizar a análise de dados, a IA também pode ajudar no design de infográficos, sugerindo layouts, cores e tipos de gráficos baseados em melhores práticas de design e na natureza dos dados. Isso permite aos repórteres e designers focar na narrativa e na precisão da informação, ao mesmo tempo em que aproveitam a eficiência e a criatividade impulsionada pela IA.

Tecnologia e produtos para o consumidor 

As empresas de notícias podem explorar produtos inovadores baseados em IA, como newsletters personalizadas, assistentes virtuais para fornecer notícias e análises sob demanda, plataformas interativas para exploração de dados jornalísticos, e aplicativos que utilizam IA para adaptar conteúdo ao comportamento e preferências do usuário.  Estas são áreas onde a IA  já tem mostrado potencial significativo. 

Referências como o “Digital News Report” do Reuters Institute fornecem ideias sobre tendências de consumo de notícias digitais e a aceitação de tecnologias baseadas em IA, transformando-se em excepcionais guias para a elaboração desses novos produtos.  

Além disso, há casos como o The Washington Post que criou o AI Hub, uma equipe operacional que coleta ideias relacionadas à IA de toda a organização e cria provas de conceito para as ideias mais promissora. O tradicional jornal ilustra como a inteligência artificial pode ser empregada na produção de notícias automatizadas e personalizadas, demonstrando o equilíbrio entre inovação, proteção de dados e manutenção da confiança do usuário. 

Estes exemplos sublinham a importância de complementar o trabalho humano com a IA, focando em nichos de mercado e na qualidade do jornalismo para competir efetivamente com empresas de tecnologia. Complementar e não substituir o trabalho humano – leia-se, aqui, o meu trabalho. 

Vivian e Trei estão comprometidos em levar as questões emergentes da IA generativa para uma discussão ampla com acadêmicos, líderes de mídia e jornalistas, buscando soluções profundas e inovadoras.  Eles, assim como toda a sociedade interessada no debate plural e público, que os meios de comunicação proporcionam, enfrentam o desafio urgente de encontrar respostas eficazes antes que as rápidas inovações em IA transformem ainda mais o cenário da mídia, levando-o para o que poderíamos chamar de ponto de não retorno.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: cinco tendências do consumidor para 2024

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“Nós sempre buscamos estar atualizados com as  tendências e ver o que está acontecendo no mundo, não só dos negócios, mas de  outras áreas também.  Afinal, para entender de marca precisamos entender de gente, e isso nos ajuda a  entender a sociedade”. 

Cecília Russo


O humano, o relacionamento e o sustentável são algumas das tendências que surgem a partir do comportamento do consumidor e devem ser consideradas pelas marcas no planejamento de suas estratégias, em 2024. Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, destacaram esses três comportamentos, a partir de um relatório global da Mintel, empresa de pesquisa de mercado. Este estudo, disponível online gratuitamente, serve como uma bússola para as marcas navegarem em um cenário em constante evolução.

A primeira tendência destacada por Cecília Russo é a valorização do “ser humano” nas marcas. Ela ressalta que, apesar da era tecnológica avançada, as pessoas ainda buscam “conexões verdadeiras e significativas”, procurando por marcas que transcendam números e dados. Essa tendência reflete a busca por um equilíbrio entre a conveniência tecnológica e a necessidade humana de interação autêntica.

“Essa tendência vai se acentuar no sentido como o (John) Nesbitt já falava lá na década de 70 quando ele trazia a ideia do hi-tech e do hi-touch não como coisas antagônicas mas complementares”

Cecília Russo

Jaime Troiano, por sua vez, enfatiza a importância do “renascimento do relacionamento” no contexto pós-pandêmico. Segundo ele, apesar do fácil acesso a comunicações digitais, as pessoas estão redescobrindo o valor das interações pessoais. “Relações interpessoais estão virando uma coisa rara”, afirma Troiano, sugerindo que marcas que facilitam encontros significativos e criam comunidades reais terão sucesso nesta tendência. 

“As marcas estão sendo desafiadas a promover essa busca; elas estão no momento de retirar as pessoas de seus casulos e fazer com que elas tenham experiências de conexão com outras pessoas de forma significativa”.

Jaime Troiano

Um terceira tendência da Mintel também mencionada por Jaime e Cecília é a “nova realidade verde”, que reflete a crescente preocupação com questões ambientais. As marcas são convidadas a adotar práticas sustentáveis em todo o seu processo produtivo, respondendo às demandas dos consumidores por um compromisso autêntico com o meio ambiente.

No relatório deste ano a Mintel ainda trouxe mais duas tendências: 

Mais do que Dinheiro: os consumidores reavaliarão o que é mais importante para eles, afetando não apenas o que querem e precisam, mas sua percepção do que constitui valor. 

Perspectivas Positivas: as marcas e os consumidores trabalharão juntos de novas maneiras para lidar com a incerteza.

A marca do Sua Marca

Este relatório da Mintel, conforme destacado por Troiano e Russo, é uma ferramenta valiosa para marcas que buscam antecipar e se adaptar às mudanças do mercado. As ideias  fornecidas podem ajudar as empresas a moldar estratégias eficazes de branding e marketing, alinhadas com as expectativas e desejos dos consumidores contemporâneos.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN, e tem sonorização do Paschoal Júnior.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a ascensão das marcas brasileiras

Foto de Karolina Grabowska

“Como preconizou Pero Vaz de Caminha, do Brasil, em se plantando tudo dá” 

Jaime Troiano

Em um mercado tão dinâmico e globalizado, o poder e a influência das marcas nacionais estão provando sua força e competência, desafiando percepções anteriores e emergindo com destaque tanto no cenário nacional quanto internacional. Jaime Troiano e Cecília Russo fizeram essa análise no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, a partir do resultado da pesquisa Marca Mais, que leva a assinatura deles.

Quem se recorda da célebre frase “Em se plantando tudo dá”, atribuída ao escrivão Pero Vaz de Caminha em uma de suas correspondências ao rei Dom Manuel de Portugal, pode perceber o quão premonitória essa afirmação se tornou, especialmente no contexto das marcas. Essa sentença, que inicialmente realçava as potencialidades agrícolas do Brasil, hoje pode ser vista como uma metáfora para o ecossistema próspero e favorável que permite às marcas brasileiras florescerem e ganharem destaque. 

“Quando aprendi essa frase com a Dona Leocádia, professora de história no Caetano de Campos, tinha muito orgulho do país. Depois eu mudei um pouco de opinião. Continuei a questionar o quanto seria de fato verdadeira. Mas continuando a refletir algumas décadas depois, eu voltei a acreditar que o Pero Vaz de Caminha foi premonitório”.

Jaime Troiano

Marcas brasileiras em destaque

Recentemente, um estudo conduzido pela TroianoBranding, o “Marcas Mais”, em parceria com o jornal O Estado de São Paulo, analisou a força de inúmeras marcas nas cinco regiões do Brasil. Os resultados foram reveladores, demonstrando que marcas genuinamente brasileiras estão ocupando posições de destaque e prestígio nos rankings. Empresas como Porto Seguro, Bradesco, Itaú, Ângulo, Objetivo, Renner e Riachuelo são apenas algumas das que têm firmado sua presença não apenas no coração dos brasileiros, mas também em mercados internacionais. 

“Cada vez mais nós estamos percebendo que as marcas nascidas aqui, aquelas que foram plantadas, vamos dizer assim, aqui no Brasil, marcas 100% brasileiras, estão ocupando posições de muito prestígio no ranking”

Jaime Troiano

Leia aqui o resultado completo da pesquisa “Marcas Mais”

Diminuição do “malentismo”

O termo “malentismo”, que descreve uma atração quase magnética por marcas estrangeiras, tem visto sua influência diminuir. Isso não significa que marcas globais perderam sua relevância, mas destaca o fato de que as marcas nacionais têm elevado seus padrões e conquistado seu espaço merecido. O orgulho de ver uma faca da Tramontina em um restaurante na Noruega, jovens usando Havaianas em Valência, ou até mesmo o logo do Itaú em uma partida de tênis em Miami, é uma prova palpável do impacto e da qualidade das marcas brasileiras no cenário global. 

“Essa necessidade de se abastecer apenas com marcas globais, a gente vem sentindo isso nos estudos, tem diminuído. Não é que elas não têm relevância. Óbvio que elas têm relevância! Elas estão aí, mas não é feio consumir uma marca nacional até porque o nível das nacionais em muitas frentes de negócio tem crescido”

Cecília Russo

O potencial inegável das marcas nacionais

As marcas brasileiras estão demonstrando sua força, inovação e capacidade de competir no mercado global. Como o escrivão Pero Vaz de Caminha preconizou há séculos, o Brasil é, de fato, um solo fértil, não apenas em termos de recursos naturais, mas também em termos de potencial de marca. E, assim como as marcas que foram discutidas hoje, muitas outras estão prontas para deixar sua marca no mundo.

Ouça o Sua Marca Vai Ser um Sucesso

Para os interessados em aprofundar-se nesse universo das marcas e seu impacto, ouça o “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso”, todos os sábados, no Jornal da CBN, logo após às 7h50 da manhã. 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quantas mensagens você é capaz de reter em um anúncio?

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“Menos é mais e isso vale também aqui para marcas”

Cecília Russo

Qual a nossa capacidade de observação e retenção das informações que recebemos ao longo dia? Partindo desta dúvida, a Millward Brown, dedicada a fazer pesquisas de mercado, expôs um grupo de pessoas diante de quatro cenários. Em um deles, havia um comercial com apenas uma mensagem, em seguida outro com duas, três e quatro mensagens. O resultado não surpreendeu, mas serviu para certificar o que muitos profissionais de branding têm defendido há algum tempo: ser simples gera melhores resultados.

De acordo com a pesquisa, o público que foi exposto ao comercial com quatro mensagens reteve de 24% a 42% das informações transmitidas. Em contrapartida, o potencial de retenção daqueles que estiveram à frente do comercial com apenas uma mensagem chegou a quase 100%.

Com base nesse trabalho, Jaime Troiano e Cecília Russo, alertam para o risco de as empresas cairem na tentação de criarem peças publicitárias ou material de divulgação com mensagens técnicas, detalhadas e minuciosas sob a justificativa de deixarem seu cliente bem informado. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, nossos especialistas em branding lembraram que quanto mais congestionado for o mercado, mais meios e mensagens tivermos à disposição, mais precisamos ser concisos em nossas mensagens:

“Ninguém consegue apreender várias mensagens de uma marca”.

Cecília Russo

Para comunicar de forma mais eficiente é preciso fazer um exercício de depuração das mensagens, identificando aquela que seja a mais importante, contendo a ambição de querer falar tudo. É a mensagem-chave que precisará ser comunicada, e para fazer essa escolha é importante entender muito os dois lados: 

“Saber tudo de seu produto para saber o onde colocar o holofote e conhecer profundamente seu consumidor, para que a mensagem tenha relevância para ele”.

Jaime Troiano

O que os números não mostram, mas é importante para que essa mensagem-chave seja realmente absorvida pelo público-alvo é a forma de transmitir a informação. Ter um bom storytelling é uma maneira interessante de dar vida a mensagem única que se quer comunicar. 

Na nossa conversa, Jaime lembrou de um diálogo do filme “Amigos, sempre amigos”, de 1991, quando o personagem representado por Bruno Kirby pergunta a um companheiro:

— Sabe o que uma vida simples significa? 

— Não?

Do alto de seu cavalo, Kirby mostra com o dedo:

— One thing (uma coisa)!

— E como saber qual é a uma coisa?

— Você tem de descobrir!

Com marcas é exatamente isso, uma mensagem relevante e você é que tem de descobrir qual é essa mensagem.

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso que foi ao ar no último fim de semana do ano:

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quais as mais mais da pesquisa Marca Mais

Pesquisa também certifica escolha do consumidor pela marca Photo by Andrea Piacquadio on Pexels.com

“Sua marca pessoal é o que as pessoas dizem sobre você quando você não está na sala.” 

Jeff Bezos

Inspirando-se na frase do ‘todo poderoso’ da Amazon, nossos colegas Jaime Troiano e Cecília Russo colocaram suas equipes a trabalhar em busca de uma resposta: o que falam das marcas quando elas não estão na sala? Pela oitava edição, a TroianoBranding usou de sua metodologia para selecionar as empresas e serviços que mais se destacaram no ano e publicar a pesquisa Marcas Mais, encomendada pelo Estadão. O trabalho revela quais as marcas, em várias categorias de negócio, têm mais envolvimento com o mercado de consumidor — ou seja, vai além da proposta da maioria das pesquisas que é saber quais marcas estão na mente do consumidor.

“O Marcas Mais é feito de um conjunto maior de indicadores que revelam a saúde, a força e o envolvimento que a marca tem com os consumidores”

Cecília Russo

Com base nos resultados alcançados ao longo dos oito anos da pesquisa, Jaime e Cecília fizeram levantamento das marcas que mais se destacaram entre os três primeiros lugares em suas categorias, revelando aquelas que têm demonstrado consistência na relação com o cliente. 

A seguir, aquelas que apareceram nas oito edições do Marcas Mais:

  • Bancos — Itaú e Banco do Brasil
  • Supermercados — Carrefour e Extra
  • Seguradoras — Porto Seguro e Bradesco
  • Automóveis — Volkswagen e Honda
  • Educação Superior — Mackenzie e PUC
  • Produtos de Limpeza — Omo e Veja

Um das reflexões feitas na edição deste ano foi que, além de os resultados serem um prêmio para a empresa e um atestado de competência para seus gestores, também são um benefício ao consumidor:

“Quando ele vê a marca que ele consome numa posição privilegiada, ele sente confirmada a escolha que fez por ela”

Jaime Troiano

Diante dessa constatação, Jaime e Cecília lembram que os clientes têm o direito de saber como a marca que ele usa é avaliada pela sociedade da qual faz parte.