A FIFA encurralada

 

Por Carlos Magno Gibrail

Mexicanos reclamam erro em favor da Argentina

Em tragédia anunciada, a FIFA marcou um evento em Pretória na segunda-feira para árbitros e convidou a imprensa para conversar e também aprender a analisar impedimentos.

Na véspera, domingo, 27 de junho de 2010, os dois jogos marcados para as oitavas de final apresentaram erros gritantes, inclusive de impedimento, a olho nu. À sistema eletrônico, nem se discute.

Em Inglaterra x Alemanha depois do primeiro gol alemão com impedimento não anotado, a Inglaterra marcou seu gol de empate quando perdia de 1×2, com a bola entrando 33 cm além da linha do campo, que o árbitro não validou.

Poucas horas após, no jogo Argentina x México, Tevez assinala um gol argentino completamente impedido. Com direito a repetição no telão do estádio.

A Inglaterra, prejudicada agora, beneficiada em 1966, certamente mudará de postura, pois no International Board, órgão incumbido de discutir e aprovar os recursos eletrônicos, do qual participam o País de Gales, a Escócia, a Irlanda e a Inglaterra, os ingleses e irlandeses foram contra o uso de qualquer meio eletrônico para tirar dúvidas.

Beckham e seus compatriotas devem ir adiante, assim como o jornalista escocês Andrew Jennings está há anos denunciando as peripécias da FIFA, e que agora começam a tomar um tom mais grave dada a coerência das incoerências nas estratégias utilizadas.

Jennings, em entrevista à jornalista Flavia Tavares sugere o encurralamento em função da força do futebol brasileiro, e denuncia o motivo da chamada que a FIFA deu no Brasil sobre as futuras obras para a Copa 2014:

Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.

É o que já está acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?

E, para a ocasião das eleições, um recado:

O que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se os governantes se voltassem contra a corrupção da FIFA, teriam apoio maciço dos torcedores/eleitores”.

Tudo indica que as coisas começam a mudar, e as facilidades encontradas pela FIFA serão coisas do passado, pelo menos por parte da mídia e da opinião publica.

A revista CARTA CAPITAL, traz entrevista de Jennings feita por Paolo Manso, em que acusa e aponta provas contra Havelange, Teixeira e Blatter. Sobre João Havelange e Ricardo Teixeira, em resposta à pergunta qual o resultado da chegada de ambos à FIFA e à CBF:

Um “boom” de corrupção! A imprensa suíça escreveu que Havelange e Teixeira embolsaram a maior parte das propinas.

As propinas pagas pela FIFA apenas nos anos 90 são estimadas pelo Tribunal de Zug na Suíça em aproximadamente 100 milhões de dólares.

Andrew Jennings fala sobre quando tudo começou:

Em 1976, o então presidente da entidade, o britânico Sir Stanley Rous, foi deposto. Ninguém podia corromper Stanley. Em seu lugar entrou o brasileiro João Havelange, que era muito corrupto. Foi ele que inaugurou o “sistema”, recebendo propinas via ISL.

São Paulo como sede da Copa 14 provavelmente centralizará ações que irão confirmar ou não as suspeitas das interferências políticas e financeiras em benefício de poucos, e em detrimento de todos. Um dos membros de Teixeira, Marco Polo Del Nero, já voltou da Cidade do Cabo, mas parece que foram ostras estragadas que o trouxe mais cedo.

O ministro dos esportes parece confirmar as preocupações de Jennings, pois escreveu na Folha de segunda artigo defendendo a “construção de um novo estádio à altura de São Paulo”.

A competência demonstrada pela FIFA, a partir de Havelange, no aspecto mercadológico é agora colocada em cheque e em choque quanto à transparência operacional, financeira, gerencial e moral.

A Copa 2010 evidencia falha grave na bola e na arbitragem, itens básicos da base do futebol. Permitir à Adidas tudo, e não permitir à arbitragem nada, é má-dministração ou má-fé.

Fabricar uma bola em que o maior goleiro do mundo em seu primeiro contato já detecta a similaridade com produto de supermercado, é simplesmente falta de tudo. Como sabemos a USP confirmou a avaliação de Julio César, informando que as costuras a menos impedem a circulação do ar, aumentando a sua resistência e ocasionando mudança de direção.

Imprensa e torcedores/eleitores, ao que tudo indica começarão a agir. É o que começamos a fazer. E, acuado, Joseph Blatter também. Informou, ontem, ao pedir desculpas à Inglaterra e ao México, que irá reabrir o processo sobre o uso da tecnologia. Ao mesmo tempo em que se sentindo ameaçado pela interferência de Nicolas Sarkozy no futebol francês, tornando o mau desempenho na Copa assunto de Estado, advertiu publicamente o governo francês.

Quem sabe uma nova Revolução Francesa não estará a caminho?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Pela ruptura no poder do futebol

Por Carlos Magno Gibrail

Henry e a mão na bola

Grande parte das mudanças da civilização veio através de rupturas geradas por revoluções, guerras ou dissidências em organizações em resposta a situações limite de concentração de poder.

Nas religiões, uma das dissidências marcantes foi a revolta contra a Igreja Católica, quando na Alemanha Martinho Lutero, em 1529, estabeleceu o Protestantismo, em resposta ao poder absoluto do Papa.

O esporte, cada vez mais ocupando papel destacado na ordem social e econômica dos países, claramente não está acompanhando estruturalmente o crescente espaço que a vida contemporânea lhe concede.

Dentro do esporte, o mais popular de todos, o futebol, e um dos primeiros a se profissionalizar, ainda guarda fortemente o amadorismo de origem nos aspectos de gestão, embora em outros esteja bastante evoluído.

A pequenez da administração do “Soccer” não combina com a grandeza do mesmo:

“O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da FIFA, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir a uma Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.” Milton Jung na sexta feira neste Blog.

Recursos eletrônicos, bolas com chips e árbitros profissionais são rechaçados. Tal repulsa emana do sistema de poder em que os mandatos das entidades representativas nacionais e internacionais não têm limites. Na FIFA, entidade máxima, Blatter está há tantos anos quanto quis, assim como permanecerá até quando desejar. Na CBF, Ricardo Teixeira, idem. Na maioria dos clubes brasileiros, também, idem.

São os PAPAS do século XXI, cujo crescente poder faz com que uma nação como o Brasil aceite avalizar uma COPA repassando poder total ao próprio presidente da entidade que presidirá o evento e que, pioneiramente na história das Copas, acumula o cargo da confederação de futebol do país sede. Ricardo Teixeira preside a CBF, preside a organização da COPA 14, e tem poder absoluto, sem a contrapartida prestação de contas, que serão endossadas pelo Governo Federal.

Não obstante a bajulação nacional de governadores de Estado, Teixeira decide sobre o destino da abertura da COPA, da qual é Senhor, colocando o maior e mais rico estado da federação brasileira em constrangedora subordinação, ainda que seja São Paulo a única cidade capacitada a abrigar tal evento.

A FIFA, a CBF, convenhamos, estão exagerando e se distanciando do apoio das plateias que teriam que atender. Historicamente nos aproximamos da dissidência, que é um primeiro passo para a ruptura definitiva.

Politicamente em âmbito nacional a criação de uma Liga dissidente é legal, enquanto internacionalmente há impedimento por regras estabelecidas de Unidade de representação. Mercadologicamente a dissidência poderá ser uma nova segmentação de mercado, criando um futebol com organizações modernas e regras atualizadas, respeitando o avanço tecnológico e a inteligência dos torcedores.

Que a mão de Henry e o empurrão no Morumbi sirvam de motivação para o surgimento de lideranças dissidentes.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung