Conte Sua História de São Paulo: os seus braços de concreto são macios como a flor

 

Por Cláudio Pereira da Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na Vila Ema e hoje moro em Brumado na Bahia. Lembro de quando construíam a estação da Sé, do Metrô. Eu trabalhava de office-boy e me admirava ao ver as máquinas trabalhando e a grande cratera aberta que hoje é uma das estações mais movimentadas do mundo, integrando várias linhas e estações, culminando com a última parada que é a estação do meu coração. Da vida em São Paulo, me inspirei para contar essa história:

 

“SÃO PAULO”

São Paulo que amo tanto
De todo o meu coração
Cidade onde nasci
Minha fábrica de ilusão

São Paulo cidade histórica
Berço da liberdade
Onde muitos chegam e ficam
Outros vão levando saudades

Os seus braços de concreto
São macios como a flor
Que mesmo tendo espinhos
Exala o perfume do amor

Seus prédios que de tão alto
Querem arranhar o céu
Tu és uma noiva tão linda
Escondida sob o véu

O véu do ar poluído
E dos jardins de concreto
A grande selva de pedra
Que é o preço do progresso

Tuas avenidas e praças
Cheias de carros e gente
Tuas mansões e favelas
De vidas tão diferentes

Quem ouve falar de ti
Quer logo te conhecer
E na hora da partida
Já mais vai te esquecer

Cidade onde nasci
Minha fábrica de ilusão
São Paulo que amo tanto
De todo o meu coração

 

Cláudio Pereira da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Participe da série de aniversário da nossa cidade: escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: resta agradecer por tantos que acolheu

 

Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN

 

 

Minha Cidade

 

Parabéns minha cidade,
Cidade em que nasci,
Que abriga tanta gente,
Perto..longe..logo ali. 

 

Da garoa és chamada
Uns, selva de pedra até, 
Mas cabe dizer também, 
Que és trabalho, amor e fé.

 

Terra que gera riquezas
Do trabalho aliada.
És constante em prosseguir 
Numa infinita jornada.

 

O progresso tem seu preço,
Muita coisa se perdeu, 
Resta agradecer ó terra,
Por tantos que acolheu. 

 

Do norte, nordeste ao sul,
Do grande chão brasileiro,
Abriu as portas enfim ,  
A povos do mundo inteiro.

 

Deixo aqui o meu carinho,
Em forma de oração:
Deus abençoe São Paulo 
Do fundo do coração.❤

 

Marcia Ap. Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série especial de aniversário da cidade: escreva seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: apenas por um instante

 

Por Marcelo Kassab
Ouvinte da rádio CBN

 

 

 

Apenas por um instante

Permita-me não ser como antes,

A garoa que beija minha fronte 

Trai meus sentidos, muda horizontes.

 

Os caminhos que me trazem desvios

Na cidade grande dos delírios,

Pensamentos perdidos, poluídos

Nas lentas marginais onde morrem os rios.

 



Ser só em meio ao tumulto

Alheio de mim, sob o céu carrancudo,

Em arenas disfarçadas de avenidas

Cavalos motorizados, insana corrida.

 

Luta inglória contra o tempo,

Em pressa que não alcança os ponteiros.

Passos largos, escravizados, sem freios,

Atropelam virtudes, esmagam preceitos.

 



Não sei onde começas nem onde terminas

Já não me acho nem por mim mesmo.

Nas ruas paulistanas andando a esmo

Ponderando erros e minguados acertos.

 

Talvez consinta em perder a razão,

Esquecer o caminho de volta,

Ofuscado por faróis e neons

O acaso faz a minha escolta.

 

Hoje o sol não se pôs

Hoje o sol nem nasceu

As estrelas nos negaram seu brilho

A Lua se escondeu.

 

Já não sei mais se quero estar ali

Meus sentidos em constante confronto

Fugir da cidade grande é um desejo

Ir ao seu encontro, um sonho.

 

Marcelo Kassab é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é da Débora Gonçalves e a narração de Mílton Jung. Conte mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o poeta que casou com a cidade

 

Por Alceu S. Costa

 

 

Meu Tributo à Cidade de São Paulo.

 

De olhos fechados eu não sonhara.
Talvez, cerrados de fato não os tivera.
Então, se acordado, tudo aquilo era verdade,
Uma piscada, um flerte…o futuro conluio,
Que virou namoro, noivado…
Foi assim que me casei com esta Cidade.

 

25 de outubro de 1965.Tarde primaveril.
De costas para o passado, nova realidade.
A busca pelo sustento sem conhecer o relento,
A mão do amigo, a simplicidade do abrigo,
A distância do perigo…
Serena viagem nas asas do tempo.

 

De olhos abertos, construí o meu sonho.
Apesar da idade, a Cidade não perde o viço,
A nossa relação amadureceu, meu desvairado vício.
Não nego, estou tentado pelos acenos da outra,
Jovem, atraente, sedutora …ah!
-Trair, jamais!, descarta peremptória minh’alma sonhadora.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio, narração de Mílton Jung e  vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Quintanares: Verão

 

 

 

Poema de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung
Publicado em Antologia Poética

 

No capinzal, o meu cabelo cresce;
Pende, polpa madura, o lábio teu no fruto;
Todo o calor te diz: “Amadurece
Mais, ainda mais e tomba!”
Eu não espero
Vento nenhum que te derrube, eu quero
que tombes, doce e morna, por ti mesma, onde
mais sejas desejada e apetecida… vem!
Faremos
De verdura acre
E doce polpa
Manjar que reses lamberão
E virão farejar os animais noturnos

 

Antes de que nos sorva, lentamente, o chão…

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Operação Alma

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Há os que fazem materializações…
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivação de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais
puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos (Na verdade a gente nunca mais se vê…)
No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!

 

 

Quintanares foi ao originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Ser e estar

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto…

 

tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto…

 

aparente é esse alento
de vela rumando um porto

 

como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto…

 

pois tudo o que é está imerso
neste respirar do universo

 

– ora mais brando ora mais forte
porém sem pausa definida –

 

e curto é o prazo da vida

 

e curto é o prazo da morte.

 

O programa Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: O cisne

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

O cisne que estava imóvel sobre o piano
desliza agora sobre as águas negras
ao som da valsa
que eu tocava a quatro mão
uma menina Gertrudes
se fosse ao menos uma Gertrudes Stein

 

o nome da valsa não me lembro
seria o cúmulo se fosse aquela sobre as ondas
que se tocava tanto no fim do mundo
e o pior de tudo
é que as visitas aplaudiam sinceramente
que menino inteligente

 

oh, tempos
oh, gente
a menina Gertrudes era enjoada e pretensiosa
como suas calças de babado.
e olhava-me com ares de quem sabia coisas
de que eu não entendia nada
é que as meninas sabem mais do que sabem

 

e havia um velho
que me parecia mais velho do que todos os retratos da sala
e que dizia sempre naquela sua voz de molas de relógio
ai, que Catitas,
ai, que catitas

 

e com as palmas das visitas
nem se ouvia o rumor das águas infinitas
que vinham subindo, subindo

 

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: A surpresa de ser

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

A florzinha
Crescendo
Subia
Subia
Direito
Pro céu
Como na história de Joãozinho e o Pé de Feijão.
Joãozinho era eu
Na relva estendido
Atento ao mistério das formigas que trabalhavam tanto…
E as nuvens, no alto, pasmadas, olhavam…
E as torres, imóveis de espanto, entre vôos ariscos
Olhavam, olhavam…
E a água do arroio arregalava bolhas atônitas
Em torno de cada pedra que encontrava…
Porque todas as coisas que estavam dentro do balão
Azul daquela hora
Eram curiosas e ingênuas como a flor qua nascia
E cheias do tímido encantamento de se encontrarem juntas,
Olhando-se

 

Quintanares foi quadro apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre e os arquivos reproduzidos no blog são do narrador

Mário Quintana: O Menino Louco

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Apontamento de história sobrenatural
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

Eu te paguei minha pesada moeda
Poesia…
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A lua vindo, esbelta como um lírio…
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula… Às vezes virginalmente nua…
E era branca como as nozes que os esquilos descascam na mata…
Pura como um punhal de sacrifício…
(Em meus lábios queimava-se, ignorada, a palavra mágica!)

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre