Consocial: plano de metas e financiamento público aprovados

 

O Plano de Metas que está em vigor na cidade de São Paulo desde 2009 deve ser implantado em todos os Estados e municípios brasileiros, de acordo com proposta aprovada durante a 1a. Consocial – Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. A decisão tomada no encontro dará suporte para a mobilização que já existe pela aprovação de projeto de emenda constitucional que está em andamento no Congresso Nacional e prevê que o presidente, os governadores e os prefeitos apresentem, três meses após tomarem posse, as metas que pretendem alcançar nos quatro anos de mandato. O texto da PEC, assim como ocorre na capital paulista, não prevê punição ao administradores se os resultados não forem atingidos, porém é uma ferramenta excelente de avaliação de desempenho. Acompanhe a campanha municipal em São Paulo este ano e você perceberá como o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e aqueles candidatos que ele apoiar serão cobrados pela não realização de obras e programas que haviam sido previstos.

 

O financiamento público de campanha foi a proposta que alcançou o maior apoio entre os participantes da Conferência, no fim de semana, em Brasília. Dos 1.200 delegados 970 votaram em favor da mudança no financiamento dos partidos e candidatos com estratégia para reduzir o impacto do poder econômico nas eleições. É interessante esta convergência de opiniões a medida que o tema ainda divide boa parte dos cientistas políticos e especialistas no tema, mesmo entre aqueles que concordam que o atual modelo é prejudicial à democracia ou que haja necessidade de se aumentar o cerco contra o caixa dois.

 

Dentre as propostas que mais se destacaram na Consocial estão, também, o apoio ao projeto de lei 6826/10 que aplica penalidades civil e administrativa às empresas corruptoras, que pode ser votado ainda nesta seamana; o incentivo a política de dados abertos que aumenta o controle da população sobre o serviço público; e a criação de conselhos de transparência e combate à corrupção em todos os níveis, assim como já ocorre no Governo Federal.

 

Das 40 propostas que vão integrar o Plano Nacional de Transparência e Combate à Corrupção uma pretende incluir no currículo escolar aulas de ética, controle social e educação fiscal, como forma de transformar os estudantes em cidadãos capazes de monitorar a prestação de serviço público.

 

Confira aqui todas as propostas votadas na Conferência

De faxina

 

Por Maria Lucia Solla

 

Urubu

 

“Não, não sei; e se eu for procurar, eu me perco…” … disse o Secretário de Educação da vez, da cidade de Jandira, no Estado de São Paulo, quando um repórter lhe perguntou por que é que em vez das 700 vagas de creches prometidas pelo prefeito à população, no prazo de um ano, só tinham sido entregues trinta e poucas. O assunto era o prazo de término das obras e inauguração e entrega, à população, das unidades já prontas. Trocando em miúdos, o repórter queria saber que obstáculos tinham impedido que as creches ficassem prontas. E o Secretário disse que não tinha a mínima ideia de quais tinham sido os tais obstáculos e que também não tinha intenção de procurar por eles. A busca da solução seria o foco. Esse papo surreal se deu frente à ira de pais e mães desconsolados por não terem com quem deixar seus filhos para ir trabalhar. Gente boa, como você, como eu. Gente que batalha, a maioria dignamente e com garra. Sabemos como é encontrar um obstáculo desse tamanho e podemos compreender a indignação de pais e mães que fazem a sua parte no remar este barco.

 

Na mesma cidade, no início do ano passado, o ex-secretário de Habitação e Obras de Jandira, o senhor Wanderley de Aquino, foi preso por corrupção e enriquecimento ilícito. Se isso não bastasse, continua sendo o principal suspeito de assassinar o ex-prefeito, o finado senhor Braz Paschoalin. Foi também provado que ele se associou ao crime organizado para desviar dinheiro dos cofres municipais. Quem tem o poder de controlar o descontrole da liberação de verba, de manipular contrato e superfaturar obra pública, de bordar licitação, de usar parente como laranja e pobre coitado como testa de ferro, merece a forca. Que lhe seja confiscado o brioche do café da manhã e do lanchinho da tarde.

 

Me dou conta de que cadeia está cheia de bandido pobre e sem conexão – wi-fi, money-fi ou QI-fi. O lado de fora das grades está repleto de gente da mesmíssima laia da que está do lado de dentro, com a agravante de que aquele que transita do lado de fora teve e tem condição de acessar ferramentas que abrem e inflam a consciência do Homo sapiens. Gente que não usa o verbo ralar, mas o verbo rolar, e seu derivado enrolar.

 

Tem fraude milionária do Oiapoque ao Chuí, tem indústria da seca no Nordeste, investigação fajuta que termina em pizza, vereador e prefeito presos, atentado a escolas. Uma cambada presa, e outra muito maior, solta. Um rolo atrás do outro. Bandidagem sem tamanho; e não só aqui em Terra Brasillis. Isso pipoca pelo mundo, em todas as línguas, sob o jugo de todas as moedas. Às claras, com pompa e circunstância.

 

Me perdoe o personagem da vez, autor da frase que abre este texto, mas assisti à entrevista pela TV, e ele me pareceu perdidaço. Não tem ideia (!) do que se passa na pasta que, ao menos no papel e no holerite, deveria ser cuidada por ele.

 

Quadrilha e político são palavras que têm andado juntas; cada dia mais juntas. Criança ouve falar todo dia de bicheiro, CPI, político, formação de quadrilha, roubalheira à luz de holofotes, câmeras e microfones, e corrupção, como se esses fossem elementos do coletivo Pátria. Os partidos políticos estão partidos.

 

Assassinato em massa, sete corpos degolados e um suspeito, delegados e outros em viagem para para que o suspeito pudesse depor e ser julgado desaparecem numa ceifada só, quando o helicóptero que utilizavam despenca e se despedaça. Tudo muito estranho. Como diria meu neto, muuuuuuuito estranho.

 

Haja água sanitária!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Vamos discutir a cidade de São Paulo

Post publicado no Blog Adote São Paulo da revista Época São Paulo

 

Nesta semana, a revista Época São Paulo que “abriga” este meu blog e a coluna Adote São Paulo me ofereceu excelente oportunidade para falar da nossa cidade ao participar do Hangout 100, promovido pelo Google +. Pela página da revista na rede social do Google, conversei por vídeo com leitores e os colegas jornalistas, Camilo Vanucchi e Daniel Salles e respondi a perguntas sobre propostas para termos uma cidade melhor e expectativas em relação a campanha eleitoral que se aproxima.

 

A coordenadora da entrevista, Soraia Yoshida, que cuida do site da Época São Paulo, de cara pediu para que eu apontasse pontos positivos e negativos da cidade. Para mim, o gigantismo de São Paulo é sua maior fragilidade, pois torna difícil a implantação de soluções que beneficiem todos seus moradores. Ao mesmo tempo é a partir deste caos provocado por suas dimensões que encontramos saídas criativas e possibilitamos melhorias em alguns setores. Por exemplo, se a prefeitura não é capaz de estender a coleta seletiva para toda a cidade, os moradores de uma rua ou condomínio se organizam e buscam pontos para entrega do material reciclável. Ou se caminhões tem circulação restrita nas vias da cidade, as empresas e os caminhoneiros desenvolvem estratégias alternativas para atender seus clientes, mesmo que isto torne o processo mais caro.

 

Apontei a área de saúde como o tema que poderá centrar o debate eleitoral, pois este é o setor que tem aparecido com mais frequência entre as preocupações dos paulistanos nas pesquisas desenvolvidas pelos principais partidos, apesar de acreditar que, mais uma vez, se tentará nacionalizar a discussão na capital. O esforço para tornar a eleição municipal em trampolim para a disputa nacional dois anos depois não me parece que terá sucesso. Vitória na capital paulista não significa vitória nacional, como ficou claro na última eleição à presidência quando o ex-prefeito José Serra não teve sucesso, apesar de ter vencido as duas eleições anteriores (para a prefeitura e para o Governo do Estado).

 

A segurança pública também foi destaque na conversa, a medida que recentemente minha casa foi alvo de assaltantes. Não estou entre os que entendem que o bairro do Morumbi se tornou mais perigoso do que outros que temos na capital. Os assaltos à residência tem ocorrido com preocupante frequência em vários distritos da cidade e as soluções não podem focar apenas um bairro. Migrar tropas para o Morumbi e esvaziar outras regiões pode ser tarefa arriscada e midiática. É preciso aumentar o serviço de inteligência e ampliar o número de homens na polícia preventiva.

 

Outros assuntos foram tratados, mas deixo o vídeo à sua disposição para continuarmos debatendo a cidade de São Paulo:

 

Flanelinha, esta praga urbana

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Flanelinhas

 

No Morumbi, há quinze anos, testemunho sempre que há jogo mais importante a invasão da rua que moro e adjacências por indivíduos que se sobrepõem aos seguranças existentes e “assaltam” os torcedores que estacionam. Cobram de acordo com o valor do espetáculo e a aparência do carro do cidadão. Deixam 10% com o vigia e vão embora pouco depois.

 

Cena corriqueira e banal mas revoltante. Tanto assim que na paralela, que é a Av. Morumbi, a uma quadra do Palácio dos Bandeirantes, outras quadrilhas ou elementos da mesma, diante dos policiais que circulam, fazem sinais para as vítimas, ou seja, os torcedores, e oferecem vagas nas ruas públicas.

 

Domingo, meia hora antes de Santos e Guarani estava chegando em casa quando a rádio CBN divulgava um pronunciamento policial informando prisões efetuadas de “flanelinhas” que cobravam até R$ 100,00 por uma vaga.

 

Não deu nem para animar, pois em seguida já avistava vários “flanelinhas” oferecendo estacionamento. Ao entrar na Rua Gastão Moutinho, onde moro, vi que estava totalmente tomada de veículos. Ao passar pelo vigia fiquei sabendo que cobraram de R$ 40 a R$ 50 e deixaram R$ 5 para ele por carro, que sabendo da informação policial reafirmou que neste domingo e nos demais anteriores nunca viaturas de policiamento passaram em nossa rua. Eu realmente nunca vi ronda preventiva contra flanelinhas. Apenas na Av. Morumbi policiamento ostensivo mas sem tomar conhecimento dos contraventores guardadores.

 

Realmente até hoje não consigo entender qual a dificuldade de impedir mais este assalto ao cidadão honesto. Mesmo porque não é exclusividade do Morumbi ou Pacaembu, estendendo-se a teatros, eventos, shows, etc.

 

Carlos Magno Gibrial é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Enfiando os pés pelas mãos

 

Por Julio Tannus

 

Há algum tempo, para ser um pouco mais preciso há cerca de 13 anos, tramitou no Congresso Nacional Brasileiro um projeto de lei que atribuía aos evangélicos a exclusividade da atividade de psicanálise. Já pensou que desespero! Não que sejamos contra os evangélicos, mas temos tudo contra os evangélicos terem a exclusividade da psicanálise. Afinal de contas, 100 anos de ciência de repente nas mãos do sobrenatural!

 

E de repente me deparo com a notícia: “Senado inclui restrições a pesquisas na lei eleitoral”. Isso é muito próximo de atribuir exclusividade da psicanálise aos evangélicos, ou seja, o Senado Federal Brasileiro legislando sobre algo que não tem a menor ideia e a mínima formação.

 

Senão vejamos: segundo a emenda, dados socioeconômicos, como sexo e grau de instrução, terão de seguir padrão do IBGE. Ora, isso é tão absurdo como dizer que, tomando como base os dados do IBGE, há mais mulheres do que homens e mais jovens do que idosos no prédio onde moro. Pois, não só o correto, mas o mandatório é que uma amostra para ser representativa de um universo tenha que ser extraída desse mesmo universo. No caso de pesquisas de intenção de voto, o universo a ser considerado é o universo de eleitores e, portanto, a amostra deve ser extraída desse universo e não do total da população. Assim, a fonte correta de obtenção de amostra é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e não o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Além disto, toda amostra deve ser obtida a partir de informações as mais atualizadas. Os dados do IBGE sobre a população brasileira, os denominados dados censitários, são obtidos a cada 10 anos e o último censo foi realizado em 2000. O que existe de mais atualizado são projeções, portanto sujeitas a desvios. Assim, quem possui os dados mais atualizados desse universo é o TSE e não o IBGE.

 

E, por fim, toda amostra deve ser obtida a partir de critérios metodológicos, e corresponde a uma área técnica da pesquisa cuja responsabilidade está a cargo de um profissional de estatística. E aqui eu pergunto: como e por que uma instituição política como o Senado Federal se propõe a estabelecer critérios técnicos de estatística?

 

Ou seja, o que estamos aqui contestando é o Senado se imiscuir nos critérios metodológicos de uma pesquisa de intenção de voto. Só falta o Senado estabelecer critérios para os procedimentos cirúrgicos da área médica. Deus nos livre…

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada”, recém-lançado pela Editora Elsevier na Livraria Cultura, e escreve no Blog do Mílton Jung

Vereador tem mais o que fazer …

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da Revista Época SP

 

A Câmara de Vereadores de São Paulo dedicou o primeiro dia útil da semana para votar 71 projetos que concedem nomes a ruas, vielas, praças e pontes, além de medalhas e homensagens a cidadãos paulistanos. O vereador Arselino Tatto (PT) foi autor de quase a metade desses projetos, todos dedicados a seu reduto eleitoral, na zona sul da capital. Assim que levei a informação ao ar, no Jornal da CBN, comecei a receber mensagens de ouvintes-internautas criticando o trabalho dos parlamentares. Houve quem de forma irônica dissesse que é melhor deixá-los fazendo estas homenagens, pois enquanto gastam seu tempo com medidas de baixo impacto deixam de aprovar leis que possam causar danos ao município. O problema é que mesmo as concessões de títulos acabam se transformando em prejuízo para o bolso do paulistano, pois são promovidas solenidades oficiais com realização de coquetel, entrega de certificado, bandeja de prata e placas – tudo regado com dinheiro público.

 

É importante ressaltar que batizar locais públicos faz parte das funções do legislativo. E morar em uma rua com nome pode mudar muito a vida de um cidadão, facilitar o acesso de outras pessoas, entrega de encomendas e, inclusive, ajudar no momento de fazer crediário na loja ou no banco. Já ouvi muito morador contando com orgulho o fato de a casa dele estar agora em uma rua com nome e sobrenome. O resultado para o vereador é tal que tem assessores de gabinete destinados apenas à função de procurar ruas sem nome. O problema começa quando este passa a ser o papel principal do parlamentar, é muito pouco para o cargo que ocupam e o dinheiro que ganham. Estão lá para debater temas fundamentais para a cidade, encontrar soluções para problemas frequentes e apresentar projetos inteligentes e criativos que realmente impactem o ambiente urbano e, destaque-se, a aqueles que agem desta maneira.

 

Sou a favor da ideia de tirar esta função dos vereadores e deixá-la apenas com a prefeitura ou subprefeitura. Um levantamento organizado seria suficiente para identificar quais ruas (ou avenida, ou pontes, ou vielas, ou seja lá o que for) precisariam ser batizadas. Consulta-se o grupo de moradores ou um banco de nomes à disposição da sociedade (que podem ser sugeridos por qualquer cidadão – inclusive os vereadores) e por decreto determina-se como o local passará a ser conhecido. Pode deixar para consulta pública por um determinado momento e se não houver qualquer rejeição o problema está resolvido. Sem muita politicagem, aproveitamento eleitoral e custo baixo.

 

E aí o gaiato sentado ao meu lado comenta: se não tiverem o direito de batizar rua, o que os vereadores vão fazer da vida? Tenha certeza, que eles tem muito trabalho e um desafio enorme a enfrentar. Àqueles que não entenderam direito estas responsabilidades, cabe o eleitor tirá-los do parlamento no voto ou, ao menos, interferindo no mandato deles através do seu poder de fiscalização. Quem sabe aceitando convite que faço há quatro anos: adote um vereador.

Por uma constituinte popular permanente

 

Texto escrito por Francisco Whitaker um dos criadores do Fórum Social Mundial e da Lei do Ficha Limpa:

 

Enquanto era um simples projeto de iniciativa popular, para o qual eram recolhidas assinaturas de apoio pelo Brasil afora, a atual Lei da Ficha Limpa sofreu muitos e diversificados ataques. Chegou a ser chamada mesmo de autoritária, por fazer um reparo à conquista indiscutível da humanidade que foi a adoção universal do principio anti-barbárie da presunção da inocência. Mas seus principais opositores se encontravam justamente entre os que seriam por ela atingidos e que, apoiando-se na infindável possibilidade de recursos aberta pelos nossos Códigos processuais, usavam esse principio para assegurar sua impunidade. E por isso mesmo foi de fato uma surpresa que o projeto superasse a barreira que se erguia contra ele no Congresso, onde se dizia, quando lá chegou com seu milhão e meio de assinaturas, que era mais fácil uma vaca voar do que ele ser aprovado.

 

E eis que o bom senso desse milhão e meio de eleitores chegou – depois de uma verdadeira maratona dentro do Congresso, no Tribunal Superior Eleitoral e por fim no Supremo Tribunal Federal – a encurralar o principio da presunção da inocência lá onde ele tinha mesmo que ficar: no direito penal. E a sociedade se viu enfim contemplada com a validação do principio também universal da precaução, ainda mais quando se trata, como no direito eleitoral, de eleger pessoas às quais será entregue a responsabilidade de cuidar dos destinos do país.

 

Uma vez feito mais esse avanço na vagarosa construção de uma verdadeira democracia no Brasil, chovem loas à nova lei, vindas das mais diversas e às vezes incríveis procedências. Um sólido consenso, apoiado numa significativa proporção de votos no STF, se forma no país em torno da necessidade indiscutível de uma biografia inquestionável para se ter o direito de exercer funções públicas. Ficha Limpa passou a ser um novo e importante conceito da cultura nacional. E como se todos tivessem de repente descoberto o ovo de Colombo, multiplicam-se, do nível municipal ao nível federal, novas leis estendendo essa obrigatoriedade a todo e qualquer cargo de governo, inclusive os de confiança. Fomos enfim capazes de introduzir algumas barreiras a outros tipos de barbárie, como a de se apropriar insaciavelmente de recursos que são de todos – a corrupção que hoje se escancara em todo o mundo – ou como a de se apoiar no poder conquistado pelo voto para se resguardar de condenações por diferentes tipos de crime.

 

Mas eu gostaria de analisar outro aspecto da experiência vivida. O processo de conquista da Lei da Ficha Limpa teve outro tipo de efeito, que pode vir a ser ainda mais amplo: o de dar aos cidadãos a consciência de que podem mudar as leis do país em favor da coletividade. Um pequeno artigo da Constituição de 1988, já então chamada de Constituição Cidadã, criou o instrumento da Iniciativa Popular de Lei, pelo qual uma proposta de mudança legislativa pode ser levada ao Congresso desde que um por cento do eleitorado a subscreva.

 

O primeiro uso desse instrumento – uma proposta de criação de um Fundo Nacional de Habitação Popular – ocorreu cinco anos depois. Mas o projeto correspondente levou 17 anos para se transformar em lei. Com o aprendizado da primeira, uma segunda tentativa, seis anos depois, foi mais bem sucedida: um projeto que estabelecia que perderiam seu registro os candidatos que comprassem votos – a chamada corrupção eleitoral – foi transformado em lei sete semanas depois. E passados mais dez anos a proposta da Ficha Limpa veio coroar a efetividade do instrumento, ainda que tivesse exigido oito meses para ser transformada em lei.

 

E eis que de repente, após o término da novela da Ficha Limpa, surgem por todo o Brasil, do nível federal ao municipal (nos Municípios cuja Lei Orgânica também incorporou o instrumento), projetos de lei de iniciativa popular. Nem tenho informações sobre tudo que está sendo gestado pelo Brasil afora. Mas há muitos grupos de cidadãos e cidadãs, reunidos em associações e entidades da sociedade civil, que estudam projetos visando questões que nossos Parlamentos não enfrentam adequadamente.

 

A Plataforma pela Reforma do Sistema Político, que congrega 35 entidades nacionais da sociedade civil, lançou um projeto de lei visando a Reforma Política. Todos sabemos que ela é extremamente necessária em nosso país, mas o Congresso sozinho não consegue realizá-la. Há pouco outro importante problema nacional começou a ser enfrentado também por meio de uma Iniciativa Popular: foi lançado no Amazonas um projeto de lei de Desmatamento Zero, que contesta diretamente a decisão congressual sobre o Código Florestal. Há associações que estão elaborando uma Iniciativa que limita em dois mandatos consecutivos o exercício da representação política – que uma vez transformada em profissão perverte o seu sentido. A proposta de limitar o número de mandatos está sendo inclusive levada ao nível preparatório final da 1a. Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. Há grupos estudando uma Iniciativa de Lei que interdite as empresas de financiar campanhas eleitorais – que as leva a dominar em seu favor as decisões congressuais e do próprio Poder Executivo. Retomam-se também velhos sonhos como o da Tarifa Zero no transporte coletivo da cidade de São Paulo, ou o da obrigatoriedade de plebiscitos prévios à realização de obras públicas de elevado valor ou significativo impacto ambiental, previstos na Lei Orgânica desse mesmo município. Até um Poder considerado intocável como o Judiciário será seguramente um dia surpreendido por propostas populares visando corrigir as distorções que ocorrem em seu funcionamento.

 

A Constituição exclui do alcance da Iniciativa Popular mudanças constitucionais. Nada impede porem que a aspiração popular chegue ao Congresso com milhões de assinaturas e um grupo de parlamentares assuma a iniciativa de propor, apoiados nessa aspiração, um Projeto de Emenda Constitucional – PEC, nos termos da proposta popular. É o caso da iniciativa sobre o número de mandatos, que já prevê a necessidade de uma PEC, e da iniciativa resultante do impacto causado pelo drama de Fukushima, que propõe que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares em nosso país e determine a interrupção da construção de Angra III e o desmonte de Angra I e Angra II, livrando-nos do pesadelo dos terríveis acidentes com reatores e as gerações futuras da herança diabólica do lixo atômico.

 

Corremos na verdade o risco da banalização desse instrumento. Até porque que tais empreitadas são gratificantes mas não são fáceis. Nas duas iniciativas bem sucedidas acima citadas – contra a compra de votos e pela Ficha Limpa – levou-se um ano e meio, em cada uma, para se chegar ao 1% do eleitorado. É preciso muita perseverança. E uma vez entregue ao Congresso, a tramitação da proposta tem que ser acompanhada dentro dele pelos seus promotores, passo a passo, para que não fique, como a primeira delas, 17 anos mudando de gaveta. As vacas só voam com muito embalo… E a um período de entusiasmo e multiplicação de propostas pode-se seguir cansaço, desencanto, frustração… Precisaríamos estar bem conscientes de que só devemos lançar Iniciativas Populares se estivermos organizados e dispostos a ir até o final de um processo difícil e longo.

 

Nesse quadro alguns parlamentares já se apressam, quase afoitamente, para mudar a Constituição e facilitar as coisas para o povo. Por exemplo, criando a possibilidade da coleta de assinaturas pela Internet, que permite que se chegue mais rapidamente ao mínimo necessário. No caso da Ficha Limpa, no final do seu processo, e já entregue o projeto ao Congresso, mais 400.000 assinaturas obtidas pela Internet foram incorporadas.

 

Mas essa facilitação reduz a adesão ao trabalho de ler uma proposta e apertar um botão para expressá-la, e anula toda a dimensão educativa do processo de coleta de assinaturas. Essa coleta pode ser demorada mas é também uma pedagogia de exercício da cidadania. As pessoas que buscam assinaturas têm que estar bem cientes do que estão propondo e as pessoas que assinam só o farão se estiverem convencidas. No caso da lei contra a corrupção eleitoral foi possível criar com essas pessoas, em todo o Brasil, após sua aprovação, os chamados Comitês 9840 (número da lei), que assumiram a função de garantir que fosse realmente aplicada lá onde moravam – e mais tarde foram animadores da coleta para a Ficha Limpa.

 

Alem disso, com a coleta pela Internet corre-se com isso o risco de não se ter muita gente disposta ao demorado trabalho de acompanhar e pressionar o Congresso, durante todo o tempo de discussão e decisão sobre o projeto – no caso da Ficha Limpa foram oito meses.

 

Se o tema de uma proposta for preciso, compreensível, e corresponder a uma efetiva aspiração da sociedade, essa forma de participar do processo legislativo pode ser efetiva, como ficou demonstrado com as leis da compra de votos e da Ficha Limpa. E quanto mais o instrumento da Iniciativa Popular se consolidar no conhecimento dos cidadãos e cidadãs e passar a contar com maior apoio dos meios de comunicação de massa, os prazos podem ser mais curtos e a pressão sobre o Congresso mais forte.

 

O Senador Pedro Simon, em recente desabafo no Senado, falou de seu desencanto com o Congresso, opinando que somente a pressão da sociedade faria com que ele assumisse plenamente suas funções. Quem sabe o surgimento de um processo constituinte popular permanente possa atender à sua angustia.

Câmara de São Paulo vive entre o atraso e o moderno na política

 

 

A Câmara Municipal de São Paulo vive um momento crucial, de definições e contradições. Os 55 vereadores que integram a casa legislativa talvez não percebam mas são personagens políticos que vivem em um cenário em ebulição. Forças modernas e retrógradas tentam marcar posição e impor suas práticas, estejam fechados em seus gabinetes ou expostos em plenário. Há pelo menos dois anos é evidente a mudança de comportamento da Casa na questão da transparência e abertura de dados com a ampliação dos serviços prestados pelo site da Câmara, transmissão de reuniões das comissões permanentes e audiências públicas e abertura de suas portas para eventos promovidos por entidades da sociedade civil. A criação da Ouvidoria, que recebe reclamações e reivindicações do cidadão, e de projetos que incentivam o desenvolvimento de ferramentas que podem tornar mais acessíveis as informações públicas também são exemplos desses avanços. Em breve, a Câmara Municipal deverá criar um Conselho de Comunicação, integrado por profissionais e especialistas no tema, que oriente e fiscalize suas políticas de comunicação.

 

Por outro lado, somos obrigados a assistir a cenas lamentáveis como as protagonizadas pelos vereadores Roberto Tripoli (PV), Carlos Apolinário (DEM) e Agnaldo Timóteo (PR) na sessão que aprovou, em primeira votação, a concessão de terreno público, na Cracolândia, centro da cidade, para a criação do Museu da Democracia, do Instituto Lula. Com as galerias ocupadas por manifestantes, coisa rara e desejada na Câmara de São Paulo, alguns parlamentares não tiveram equilíbrio para ouvir as críticas. Apolinário e Timóteo responderam aos gritos, enquanto Trípoli fez muito pior. O líder do governo Kassab foi tirar satisfações do grupo Revoltados Online que estava protestando. Uma das pessoas que estavam na galeria disse que foi atingida na boca pelo vereador. Ele só confirma os xingamentos. No vídeo, publicado por Obe Fainzilber, que integra o movimento NasRuas, aparecem apenas as trocas de ofensas já nos corredores da Câmara e a tentativa do presidente da Casa, José Police Neto (PSD) de apaziguar os ânimos. Há, também, a necessidade de presença da polícia que é responsável pela segurança no local.

 

Neste ano, o eleitor terá a oportunidade mais uma vez de escolher seu representante na Câmara Municipal de São Paulo. Nova chance que temos de elegermos pessoas que estejam comprometidas com a democracia e capacitadas a entender a importância da fiscalização do cidadão no Legislativo.

Salário sem vergonha ou sem-vergonha no poder público

 

Nove Estados brasileiros pagam uma quantidade enorme de salários aos seus deputados, muito maior do que aquela que um trabalhador comum recebe no decorrer do ano. Sem se contentar com o 13º. que já é discutível, a medida que os parlamentares não são trabalhadores comuns, eles arrumam atalhos na legislação estadual para somar o 14º, 15º, 16º, 17º e, até mesmo, o 18º salário, como é o caso do pobre Maranhão (e aqui o pobre cabe em mais de um sentido), como noticiou o Fantástico, no domingo. Recebem ainda uma boa quantia em verba indenizatória, dinheiro que sustenta os gabinetes e é ressarcida mediante apresentação de notas fiscais – a maior parte delas não está à disposição para o contribuinte fiscalizar. Sob as mais diferentes justificativas, os parlamentares embolsam um bom dinheiro com base no que costumamos chamar de penduricalhos.

 

Com outro tipo de estratégia, ministros e secretários estaduais e municipais conseguem aumentar seus vencimentos, superando o teto salarial no serviço público: R$ 26.723,15. De acordo com levantamento do Estadão, um terço dos 39 ministros da presidente Dilma Roussef engordam seus salários com participações em conselhos de estatais ou empresas públicas. Somente assim conseguem ter vencimentos que se equiparam com os dos grandes executivos do setor privado.

 

O Senado sinaliza interesse em acabar com a farra dos salários, reduzindo a 13 os vencimentos dos parlamentares em todos os legislativos brasileiros. Projeto de lei neste sentido está para ser votado no plenário. Por enquanto, não há nenhuma iniciativa que impeça os supersalários nos ministérios e secretarias. Assim como se faz pouco para tornar transparente quanto cada um desses custa ao contribuinte que, afinal, é quem paga seus salários.

 

O tema, porém, é rico (sem trocadilho) para o debate, afinal é importante que se perceba que o agente público também precisa ser bem remunerado para prestar seu serviço, pois quando assume o cargo, seja no Executivo seja no Legislativo, lhe é exigido dedicação plena à função. A questão é que a visão que temos da prestação de serviços destes servidores é muito ruim, haja vista os problemas no atendimento à saúde e à educação, além dos frequentes casos de corrupção.

 

A sociedade brasileira precisaria discutir melhor o assunto, com menos preconceito e visão mais apurada. Os agentes que nos representam poderiam unificar seus vencimentos em uma só fonte eliminando os penduricalhos. Não deveriam ter vergonha de deixar às claras quanto recebem no fim de cada mês e ano. De dizer quanto recebem do cidadão. Para isso, porém, precisariam também não ter vergonha do que fazem nos cargos que ocupam.