Conte Sua História de São Paulo: fala mais que o Homem da Cobra

Por Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Samuel de Leonardo destaca uma dessas figuras que fazem parte da cidade empreendedora … mesmo que esse empreendedorismo seja um tanto discutível:

“Fala mais que o homem da cobra.” Certamente você já ouviu essa expressão e, quem sabe, ficou curioso para entender sua origem. No início dos anos 1970, eu trabalhava como office boy e, entre uma tarefa e outra, aproveitava para explorar as atividades exóticas que a metrópole oferecia: de faquires a mulheres andando sobre cacos de vidro. Foi na Praça da Sé que deparei com o personagem dessa história. Vestindo um terno surrado e carregando uma maleta, ele garantia que ali dentro havia uma serpente gigantesca, capaz de engolir uma pessoa. Ao mesmo tempo, tagarelava as virtudes de um milagroso elixir embalado em pequenos frascos envoltos em papel celofane de tom amarelado: “Cura espinhela caída, tosse comprida e bucho virado!”

O discurso carismático encantava, e logo um sujeito alto, de cabelos claros encaracolados, e eufórico comprava cinco frascos. Outros curiosos seguiam seu exemplo, e o estoque desaparecia rapidamente. Depois de horas assistindo ao espetáculo, percebi que a cobra nunca aparecia.

Dois dias depois, voltei à praça, decidido a descobrir se ele realmente revelaria o animal. Cheguei a tempo de ver a jiboia saindo da maleta: três metros de comprimento, com dorso amarelo e manchas avermelhadas. Enquanto todos admiravam o réptil, o mesmo sujeito alto repetia o ritual: comprava mais frascos do elixir e se retirava. Outras pessoas seguiram o entusiasmo do primeiro comprador. E assim o homem da cobra, com sua mistura de marketing e mistério, tornou-se uma lenda paulistana.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

((os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história))

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Mulheres no trajeto

 

Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

Ouça aqui este texto que foi sonorizado por João Amaral

O valoroso biarticulado e reprogramado 5362-10 Praça da Sé.

A reprogramação, com substituições, seccionamentos e implantações, era para contemplar o aumento de 27% na oferta de lugares. Mas os 27 metros do autocarro sai apinhado desde o ponto inicial.

No percurso da Av. Atlântica até a Igreja de Moema, conversas entrecortadas por paradas, primeira e segunda.

-“Dormir no emprego não aceito mais não”. Nem eu, respondeu a outra.

– “Elas escravizam a gente. Não tem hora pra acabar. Falam que é pra gente trabalhar até as 18h e, até nove da noite ainda tem louça pra lavar”.

– “A minha, queria cobrar a travessa que eu quebrei. Muita vez, eu escondo, ou então, levo o que quebra pra casa”.

– “Já eu, a pior coisa que fiz, foi prender o rabo do cachorro dela. Foi no elevador. Quando vi era só sangue. Ficou só o cotôco. Deu dó. Liguei no serviço dela e contei. Foi um Deus nos acuda. Agora tô fazendo um curso de artesanato. Quero trabalhar em casa, por conta própria. Não agüento mais não”.

– E eu, quero achar serviço numa empresa de limpeza. Preciso do registro por causa das crianças e do INSS”.

– “O trabalho é muito e o ganho é pouco. Criar filhos, sozinha e ainda cuidar dos filhos dos outros, não é fácil não”.

– “Morar em lugar debilitado. Debilitada é a saúde. Vida débil de desejos Chuvarada enchentes, desmoronamentos”.

– “Preciso muito de uma porta-comporta. Sabe o que é? É uma porta que tem borracha embaixo para a água não entrar. Custa caro e o que eu ganho, mal dá para pagar água, luz e comida”.

– “O gás sempre acaba antes do mês. Faço trempe com tijolo no quintal. Cato lenha e assim vou cozinhando até o dia de receber o pagamento”.

– “Vida cinzenta, cobrança de toda cor e tamanho. TV quebrada, divertimento esfolado”.

– “Serviço dobrado, faxina que não acaba. O corpo esgarçado. Vida besta”.

– “No dia em que perdi tudo, eu chorei. Perdi tudo só não perdi a fé”.

Domésticos no Brasil são 7.223.000, ou, 7,8% dos trabalhadores (dados do PNAD 2009 e Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE). Na grande SP, o número é 766 mil. Hoje, muitas estão migrando para outras áreas.

A versão moderna da Casa Grande e Senzala são os famosos DCE’s (Dependência Completa de Empregada). Entenda-se um cubículo claustrofóbico, onde mal cabem a cama e o radinho. Acordar com o pé no tanque.

A tecnologia possibilitou muitas facilidades e a educação inseriu a mulher no mercado de trabalho. Mulheres, mães, trabalhadoras com jornadas duplas, triplas até. E quem depende de empregada pra sobreviver, acaba trazendo um problema social pra dentro de casa.

Bem em frente à Igreja de Moema, elas descem para a realização das tarefas de reprodução da vida. Tarefas fundamentais e tão pouco reconhecidas.