Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Mulheres no trajeto

 

Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

Ouça aqui este texto que foi sonorizado por João Amaral

O valoroso biarticulado e reprogramado 5362-10 Praça da Sé.

A reprogramação, com substituições, seccionamentos e implantações, era para contemplar o aumento de 27% na oferta de lugares. Mas os 27 metros do autocarro sai apinhado desde o ponto inicial.

No percurso da Av. Atlântica até a Igreja de Moema, conversas entrecortadas por paradas, primeira e segunda.

-“Dormir no emprego não aceito mais não”. Nem eu, respondeu a outra.

– “Elas escravizam a gente. Não tem hora pra acabar. Falam que é pra gente trabalhar até as 18h e, até nove da noite ainda tem louça pra lavar”.

– “A minha, queria cobrar a travessa que eu quebrei. Muita vez, eu escondo, ou então, levo o que quebra pra casa”.

– “Já eu, a pior coisa que fiz, foi prender o rabo do cachorro dela. Foi no elevador. Quando vi era só sangue. Ficou só o cotôco. Deu dó. Liguei no serviço dela e contei. Foi um Deus nos acuda. Agora tô fazendo um curso de artesanato. Quero trabalhar em casa, por conta própria. Não agüento mais não”.

– E eu, quero achar serviço numa empresa de limpeza. Preciso do registro por causa das crianças e do INSS”.

– “O trabalho é muito e o ganho é pouco. Criar filhos, sozinha e ainda cuidar dos filhos dos outros, não é fácil não”.

– “Morar em lugar debilitado. Debilitada é a saúde. Vida débil de desejos Chuvarada enchentes, desmoronamentos”.

– “Preciso muito de uma porta-comporta. Sabe o que é? É uma porta que tem borracha embaixo para a água não entrar. Custa caro e o que eu ganho, mal dá para pagar água, luz e comida”.

– “O gás sempre acaba antes do mês. Faço trempe com tijolo no quintal. Cato lenha e assim vou cozinhando até o dia de receber o pagamento”.

– “Vida cinzenta, cobrança de toda cor e tamanho. TV quebrada, divertimento esfolado”.

– “Serviço dobrado, faxina que não acaba. O corpo esgarçado. Vida besta”.

– “No dia em que perdi tudo, eu chorei. Perdi tudo só não perdi a fé”.

Domésticos no Brasil são 7.223.000, ou, 7,8% dos trabalhadores (dados do PNAD 2009 e Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE). Na grande SP, o número é 766 mil. Hoje, muitas estão migrando para outras áreas.

A versão moderna da Casa Grande e Senzala são os famosos DCE’s (Dependência Completa de Empregada). Entenda-se um cubículo claustrofóbico, onde mal cabem a cama e o radinho. Acordar com o pé no tanque.

A tecnologia possibilitou muitas facilidades e a educação inseriu a mulher no mercado de trabalho. Mulheres, mães, trabalhadoras com jornadas duplas, triplas até. E quem depende de empregada pra sobreviver, acaba trazendo um problema social pra dentro de casa.

Bem em frente à Igreja de Moema, elas descem para a realização das tarefas de reprodução da vida. Tarefas fundamentais e tão pouco reconhecidas.