Pensamentos não são fatos, são hipóteses

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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Os filmes policiais geram grande suspense e são capazes de prender o espectador até o fim da trama. Em geral, o clima de mistério esconde nuances e detalhes que só permitem que o criminoso ou o desfecho da investigação sejam revelados nas últimas cenas. Normalmente, os finais são surpreendentes e nos fazem perceber que deixamos escapar alguns detalhes – propositadamente favorecidos pelo diretor – que impossibilitaram desvendar a situação ao longo do filme.

 O que esses filmes têm em comum com a nossa vida?

Diante de situações que nos geram emoções intensas, como tristeza, raiva ou vergonha, em geral temos uma tendência a confiar excessivamente nos nossos pensamentos e desconsiderar diversos aspectos que poderiam nos permitir uma compreensão diferente ou alternativa.

Imagine a situação de uma pessoa que, no dia do seu aniversário, percebe que as pessoas que lhe são importantes não telefonam e não enviam mensagens. Essa pessoa até tenta ligar para um de seus amigos, mas a chamada cai na caixa postal. Inicialmente, o primeiro pensamento pode ser de que essas pessoas não se importam com ela. Possivelmente, diante disso, se sentiria triste ou decepcionada.

Ocorre que essa pessoa é presenteada com uma festa surpresa por esses mesmos amigos, motivo pelo qual não haviam falado com ela anteriormente. Nesse momento, provavelmente, essa pessoa teria uma mudança de perspectiva, uma mudança na forma de interpretar os fatos, experimentando, como consequência, uma mudança nas suas emoções.

Em geral, os pensamentos rápidos e precipitados acompanham as emoções, numa linha de raciocínio capaz de explicar o que se vive e o que se sente, deixando-se de levar em conta possibilidades alternativas que poderiam mudar a interpretação original.

Isso não significa que todos os nossos pensamentos sejam incoerentes ou infundados. Muitas vezes, os pensamentos negativos são compatíveis com situações difíceis que enfrentamos.

Buscar evidências ou informações adicionais que nos permitam criar raciocínios diferentes para o mesmo evento é chamado na psicologia de pensamentos alternativos ou compensatórios, o que não significa adotar pensamentos positivos: são coisas distintas.

Pensar de maneira alternativa é propor questionamentos aos próprios pensamentos. É adotar um pouco de ceticismo com o que passa pela nossa cabeça e analisar aspectos importantes que podem estar sendo ignorados.

Algumas perguntas podem nos auxiliar nesse processo:

  • o que estou deixando de considerar?
  • existe outra explicação para isso que está acontecendo?
  • se estivesse acontecendo com outra pessoa, o que eu pensaria sobre isso?

Nessa reflexão, muitas vezes descobrimos que nossos pensamentos são coerentes, racionais e que não estão sendo guiados pela emoção. Diante disso, precisaremos adotar algumas estratégias para resolver problemas reais, aceitar algumas condições ou mesmo avaliar o significado que atribuímos às situações.

No entanto, quando buscamos pensamentos alternativos para situações que são desagradáveis, podemos descobrir o quanto nossos pensamentos podem estar enviesados, distorcidos, restringindo nossas percepções e amplificando nossas emoções.

 Nossos pensamentos são livres. Podemos pensar absolutamente tudo, mas pensamentos não são fatos. São apenas ideias, hipóteses.

Então, antes de dar muito crédito e agir de acordo com o que passou rapidamente pela sua cabeça, vale a pena se lembrar de que muitas vezes a vida também imita a arte e, assim como num filme, devemos assumir o papel de um bom detetive, desses que exploram detalhes e possibilidades. Não se trata de aniquilar as emoções, mas adquirir enfrentamentos mais saudáveis que mudem o roteiro e produzam desfechos surpreendentes.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Minha companheira inseparável

 

Milton Ferretti Jung

 

 

Desde que me conheço por gente – e isso já faz muito tempo – carrego comigo uma companheira inseparável,incômoda e que quase não me dá trégua:preocupo-me exageradamente com a minha mulher, os meus três filhos e agora,ainda por cima,os meus quatro netos. Não lembro que idade eu tinha quando essa senhora começou a atuar. Até hoje,embora pequeno fosse, não esqueci da sua primeira manifestação.

 

Ela iniciou suas aparições nos finais de tardes da minha infância. Bem na frente da casa onde morávamos havia uma pracinha triangular. Nessa,a gurizada e mesmo alguns um pouco mais velhos,praticavam vários esportes. Jogava-se uma espécie de futebol,vôlei e,apesar do piso em desnível e ondulado,basquete. A turma somente se recolhia quando as luzes dos postes próximos da nossa quadra se acendiam. Era,então,que eu entrava em casa e,sem sequer me lavar,postava-me à janela,olhando de soslaio o relógio do living e me perguntando por que o meu pai não chegava do trabalho. Durante a Segunda Guerra Mundial,ele voltava para casa de bonde. Esse veículo que a modernidade engoliu,deixava-o a uma quadra de casa. O seu atraso me afligia. O meu pai recusou-se a usar gasogênio no seu Chevrolet 39 e o colocou na garagem sobre cavaletes. Por isso,mas a Preocupação não me deixava perceber,demorava mais do que o habitual para chegar.

 

Casei em 1961 e Ruth,minha primeira mulher,falecida em 1986,deu-me três filhos. Dona Preocupação se fez sentir,o que não teve nada de espantoso,quando um dos três adoecia. Jacqueline,minha filha mais velha,era do tipo caseiro.Não me preocupava com ela. Já o Mílton,nascido em 1963,tão pronto completou dezoito anos,tratou de tirar carteira de motorista. Munido dessa,passou a pedir o meu carro para “dar uma banda” nas noites de sábado. E a Preocupação  apareceu com força. Enquanto ele não chegava em casa,eu não dormia.Morávamos,então,na Rua Saldanha Marinho,em um sobrado. Pior do que não dormir,eu ficava em pé numa área dos fundos da residência.Com olhos compridos,tentava,por uma brecha entre árvores,enxergar a Avenida Érico Veríssimo,que corria paralelamente à Saldanha. Na época,eu tinha um Passat,se não me falha a memória. Quando eu via o carro,tarde da noite que era,corria para a janela do quarto do casal,esperando que o Mílton guardasse o Passat na garagem do vizinho. Só aí caía na cama e fingia dormir. Em troca,a Ruth,mãe dele,dormia a sono solto,livre de qualquer preocupação.

 

Os meus filhos casaram. Dois netos – o Greg e o Lo – moram com o Mílton e a Abigail e,aí em São Paulo, não precisam de apresentação. A Vivi e o Fernando,filhos do Christian e da Lúcia,vivem aqui em Porto Alegre. A Jacque,embora tivesse carta de motorista há seis anos,só em 2011 comprou um carro. Fez aulas e mais aulas com um professor antes de se sentir capacitada para dirigir. Um pouco – ou muito – por minha culpa.Finalmente,livrei-a do meu controle. Já Maria Helena,com quem casei,e até a Micky,nossa gata,sofrem de perto com a Dona Preocupação. Esta,insiste em não me conceder divórcio.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e dono do Passat que eu pegava emprestado. Às quintas escreve no Blog do Mílton Jung (que passeava com o Passat do pai)

Mulher no volante, assalto constante

 

Sempre que chego a uma terça-feira sem ter encontrado assunto capaz de agradar, como o Milton sempre diz,”os caros e raros leitores do blog”, fico preocupado. Gosto de entregar o texto bem antes da quinta-feira. Quem me conhece, está cansado de saber que sou cheio de preocupações, herança genética, com certeza. Meu pai passou a vida preocupado comigo e com meus irmãos. Ainda bem que foi a única coisa desagradável que herdei dele. Em compensação (se é que esta palavra cabe para o que vou escrever a seguir), quando eu era menino e papai demorava para chegar em casa, depois da sua faina diária, eu me postava diante da janela da sala e apenas me tranqüilizava ao vê-lo estacionar o Citroën negro na frente do portão da garagem.

Esta – a de entregar o texto com razoável antecedência- é, porém, uma das minhas menores preocupações. Afinal, se algum dia não descobrir assunto que valha a pena digitar, não temo ser demitido. Por motivos óbvios. Já uma das maiores refere-se à segurança da minha família nestes tempos cada vez mais difíceis de serem vividos. Maria Helena, minha mulher, acha que trato a questão da segurança com cuidados exagerados. Preocupa-me, faz muito, vê-la sair de carro sozinha. Sempre que possível, prefiro acompanhá-la, dirigindo o automóvel. Pois não é que, nesse domingo, dia 11 de setembro, data de má memória para o mundo civilizado, Zero Hora estampou a seguinte manchete: ”MEDO FEMININO. Roubo de veículos assombra gaúchas”

A seguir, numa “cartola”, Francisco Amorim, autor da reportagem, escreveu: “A cada quatro horas, uma mulher tem o carro roubado. Esta, entre outras estatísticas de Porto Alegre e do Estado, assusta as gaúchas ao volante”. E não é para menos, digo eu. Recentemente li neste blog a história de uma mulher, em São Paulo, que parou o carro num semáforo, e foi surpreendida por uma vozinha que lhe pedia passasse seus pertences. Para seu espanto, era um pivetinho que a “ameaçava”. Perto do local, meninos mais velhos esperavam o resultado do assalto. O aprendiz de ladrão não teve sucesso, mas estava apenas sendo treinado para futuros e exitosos roubos. Desfecho fatal, porém, ocorreu em Porto Alegre, lembra o jornal, com uma fotógrafa de eventos, ao sair de um banco do qual retirara 150 reais. Ela se dirigia ao seu carro, falando com o marido pelo celular, quando foi empurrada para dentro do veículo e, em seguida, friamente assassinada pelos assaltantes. A estatística mostra que quase 1,4 mil mulheres foram atacadas em Porto Alegre (é daqui que envio meus textos), entre janeiro e julho deste ano, foram vítimas de assaltos. Diante deste número, sabendo que os ladrões imaginam encontrar mais facilidade para assaltar mulheres ao volante e que as autoridades pouco podem fazer para evitar a ação dos criminosos, como não ficar terrivelmente preocupado com a situação? Invejo aqueles que não ficam.