O momento, a pessoa e a tarefa mais importantes como abordagem de venda e sabedoria de vida

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Cheguei a três interessantes questões ao buscar uma síntese das melhores práticas comerciais. As três se sobrepõem as especificidades e particularidades das técnicas de vendas, pois estão na esfera conceitual e emocional. De certa forma, estão inseridas em textos como contos de sábios ou até mesmo de cunho religioso, como bíblicos ou espirituais.

 

Questão 1 – Qual o momento mais importante da vida?

 

É o momento presente. Nem eventos passados nem futuros são mais importantes do que o atual, em que há o controle da situação.

 

Questão 2 – Qual a pessoa mais importante?

 

É a pessoa que está na nossa frente. As outras estão ausentes e fora da ação atual. É preciso se esmerar para focar a atenção nesta pessoa.

 

Questão 3 – Qual a tarefa mais importante?

 

É atender esta pessoa que está à nossa frente da melhor maneira possível. Outras tarefas ficam em segundo plano, pois o possível é fazer feliz quem está conosco no momento.

 

Numa situação de venda é claro o momento mais importante, pois é exatamente o atual, em que a pessoa na frente é o cliente. Que passa a ser a pessoa mais importante. Cuja tarefa mais importante é atendê-lo de forma a deixá-lo feliz.

 

Em qualquer outra situação, sempre podemos repetir essa relação de importância, efetivando o presente como o ponto principal. Afinal, é assim que podemos ter o controle da situação, sem as perdas de estar pensando no passado ou no futuro.
Podemos imaginar quão maravilhoso seria o mundo se todos agissem desta maneira.

 

Visualize você sendo a pessoa mais importante para o pessoal de atendimento das companhias aéreas, ou para os vendedores e vendedoras de lojas, ou para os atendentes das concessionárias de serviços públicos.

 

É assim que eles fazem você se sentir? É assim que você faz o seu cliente se sentir?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Já não se faz mais como antigamente

 

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Em conversas frequentes com estudantes de jornalismo, esforço-me para mostrar que a escolha que fizeram faz muito sentido em uma época na qual a informação e, por conseguinte, o desenvolvimento de conteúdo são essenciais. Tento não repetir o que ouvia já nos meus tempos de faculdade – e lá se vão mais de 30 anos – quando éramos visitados por profissionais, alguns bastante respeitados pelos jovens, que insistiam em nos desestimular pela falta de perspectiva que haveria na profissão: “já não se faz mais jornalismo como antigamente”. E não se fazia mesmo. Como hoje, aliás. Esse, porém, é assunto para outro texto.

 

Escrevo sobre o saudosismo que me parece permear as emoções de muitos dos profissionais já estabelecidos no mercado, e alguns, inclusive, afastados por aposentadoria consentida ou forçada, para destacar opinião do ex-jogador Tostão, publicada em reportagem do jornal O Globo, na edição de sábado, 21 de novembro. O gancho para o texto do jornalista Carlos Eduardo Mansur foi a reclamação de alguns dos atuais jogadores da seleção brasileira, expressa em entrevista por Daniel Alves, quanto as críticas proferidas por comentaristas esportivos que já jogaram futebol.

 

É verdade que a seleção brasileira, treinada por Dunga, não é empolgante e o porre do 7×1, sob comando de Luis Felipe Scolari, deixou-nos com uma ressaca que será eterna enquanto dure. Mas também é verdadeiro o fato de que projetar as glórias, táticas e dribles do passado para os gramados atuais é uma injustiça, pois a forma de jogar futebol mudou por completo diante de estratégias mais bem organizadas e pelo desenvolvimento físico de atletas – haja vista a força e a velocidade com que atuam hoje.

 

Não quero, porém, me ater ao futebol. O que me interessa na opinião de Tostão é a explicação que dá para esta reação comum na maioria de nós quando nos referimos a realidade vivida no passado, às vezes, recente:

 

“Isso não é pecado, não é deturpação, não é vigarice. É da vida, é de todo tipo de atividade. Há o ex-jogador que vive ligado ao passado, não assume ou não se identifica com a sua vida atual. Vive enamorado do que ele foi: “Na minha época era melhor”. É a tal memória afetiva. O sujeito vive uma época de glória e tem dificuldade de viver o momento. São componentes humanos habituais, até mesmo o receio de que surja alguém melhor do que ele foi”.

 

Gosto de ler o craque – do jogo e das palavras – porque sintetiza com clareza pensamentos que minha capacidade de se expressar, muitas vezes, não permite.

 

A reflexão feita por Tostão deve servir de alerta para profissionais de todas as áreas, independentemente de onde atue. Em nome do saudosismo, criticamos o que é feito aqui e agora, ficamos a nos lamentar e a praguejar o novo com o qual nos deparamos no escritório e na empresa (ou na redação, no caso dos jornalistas). Exaltamos o passado por temer nossa incapacidade de se adaptar ao que está para acontecer. Assim como remetemos o pensamento ao que foi porque a memória é seletiva e nos faz esquecer quanto difícil eram os processos e quantos erros cometíamos.

 


Sem perder as referências que ajudaram a construir seu conhecimento, deixe o saudosismo para trás, prepara-se para as mudanças e se adapte a regra do jogo. Ou invente o seu próprio jogo. Pois já não se faz mais nada como antigamente.

 

A foto que ilustra este post é do álbum de Rhea Monique, no Flickr, e segue as recomendações de criação comum

Avalanche Tricolor: a efemeridade dos fatos e das vitórias

 

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Campeonato Gaúcho – Colosso da Lagoa/Erechim

 

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Está tarde para escrever esta Avalanche. Quando digo tarde, não se deve ao fato de o jogo ter terminado quase meia-noite. É tarde, porque não escrevi após a partida como costumo fazer. Sequer tive tempo de fazê-la pela manhã após o programa que apresento na rádio CBN. A tarde veio com mais uma sequência de compromissos. E a noite chegou. E somente agora há pouco consegui parar para pensar melhor sobre o que aconteceu ontem, na cidade de Erechim. Assim que começava a escrever, surge um alerta na tela do meu celular com o aviso de que o Guia da Partida já estava à disposição no aplicativo oficial do Grêmio. O guia se refere ao próximo compromisso do tricolor, no sábado, às seis e meia da tarde, contra o Cruzeiro, na Arena. O jogo de ontem já é passado. Por isso é tarde para escrever esta Avalanche que sempre se dedica a falar sobre o desempenho gremista.

 

É curiosa esta sensação: nossas vitórias são efêmeras diante da velocidade dos fatos. Um jogo termina, mal se comemora a conquista e no dia seguinte temos de começar a pensar no próximo jogo. Não há tempo a perder. Se demorar muito, já era. É assim no futebol, é assim na vida. Estamos sempre correndo para superar o desafio seguinte. Se perder hoje, a vitória de ontem é esquecida. Se não alcançar sua meta de agora, os resultados do passado provavelmente não serão suficientes para sustentar seu status. É do jogo, é da vida.

 

No futebol – afinal este é o nosso foco – as vitórias apenas têm significado se nos levarem ao título, esta sim uma conquista que fica na história. E é isto que estamos construindo jogo a jogo neste Campeonato Gaúcho. Apesar dos reveses nas primeiras rodadas e dos tropeços preocupantes na Arena, tem sido evidente a melhora de desempenho. De ontem, apesar de ser passado, ficou a impressão de que as peças começaram a se encaixar; no mínimo, os passes começaram a entrar. O gol de Giuliano, resultado de uma enfiada de bola precisa de Luan, no meio da defesa adversária, deixou isso muito claro. Esse foi apenas um dos bons lances construídos pelo time que ainda ganhou um novo atacante, Braian Rodrigues, algo que vinha nos fazendo falta. O cabeceio no primeiro cruzamento pelo alto na área foi o cartão de visita dele. E ainda tem Cristian Rodríguez e Maicon credenciados, pela burocracia e pelo futebol, a aturem entre os titulares.

 

É tarde para escrever sobre o jogo de ontem. Nem tive tempo para lembrar que jogamos com um a menos boa parte do segundo tempo e fomos fortes para resistir a pressão. Muita coisa já aconteceu. Felipão pegou suspensão e não estará na estreia da Copa do Brasil. Nossos cartolas já chiaram contra o juiz, também, e depois recuaram. Quem não jogou, já treinou. Não dá mesmo para parar: é hora de se concentrar para o próximo jogo e mostrar que o que vimos ontem foi apenas mais um passo para um futuro vitorioso.

Passeando de mãos dadas com meu pai

 


Por Milton Ferretti Jung

 

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Espero que ninguém estranhe que este texto trate do Dia dos Pais,cuja comemoração ocorreu no domingo passado,10 de agosto,data em que a maioria faz almoços comemorativos, caso tenha pai vivo, ou lembre, com saudade sempre renovada nessas ocasiões, aqueles que já se foram. Graças a Deus ainda posso festejar a efeméride com a Jacqueline e o Christian,além de manter contato telefônico com o Mílton.É uma agradável troca de cumprimentos,eis que tanto eu quanto os meus filhos também são pais e me deram quatro netos.

 

Afora o prazer do nosso reencontro,ao vivo com o Christian e a Jacque e, pelo celular, com o âncora deste blog,o Mílton deu-me o prazer de ler mais um dos seus sempre inspirados textos,este sobre o significado do Dia dos Pais,no qual lembrou um episódio que vivemos quando ele era bem pequeno,inesquecível para ambos. Tenho certeza que os leitores deste blog já leram ou ainda lerão (recomendo que leiam,se ainda não o fizeram),uma Avalanche Tricolor que não fala somente das relações entre pais e filhos,mas de como aqueles influenciam seus filhos na escolha da cor clubista. Mesmo que possam ler aí acima a última frase do texto criado pelo Mílton,permito-me reproduzi-la,o que faço com os olhos marejados: “É diante de tudo isso que,neste domingo,independentemente de quanto não merecíamos o resultado alcançado,que lhe agradeço pai por ter-me ajudado a ser o homem que sou. E,claro,por ser gremista”.

 

O domingo me reservou uma outra surpresa,essa quando li o que Claudia Tajes,minha sobrinha escritora e colunista do caderno Donna,encartado na ZH dominical,escreveu e postou fotos relativas ao Dia dos Pais. Duas mostram o pai dela,Tito Tajes e outra com o avô dela – meu pai,Aldo Jung – passeando na Rua da Praia,de mãos dadas,comigo e com minha irmã,Mirian,mãe da Claudinha. Talvez ela nem ficará sabendo que o seu texto também marejou os meus olhos e,em especial,a foto do meu pai,ainda bem jovem,trajando impecável roupa branca,contrastando com o cabelo bem preto. Resta-me agradecer a minha sobrinha pela postagem das fotos do meu pai e do pai dela.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Do tico-tico à bicicleta de Natal

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Costumo escrever o texto para o blog do Mílton Jung nas terças-feiras. Sempre fico preocupado,entretanto,apesar de ser macaco velho neste tipo de função,com a escolha do assunto a ser abordado,apesar de todas as redações que produzi em minha longa carreira na Rádio Guaíba. São de minha lavra os textos de vários discos narrando feitos notáveis da dupla Gre-Nal e da Seleção Brasileira. Seja lá como for,obrigo-me, também, a guardar os jornais da semana,eis que esses talvez sirvam ao meu propósito.

 

Estou,porém,redigindo, na terça-feira, o que será postado na quinta com um assunto que,pela sua data,23 de dezembro,é véspera de Natal. Natal me traz lembranças de todas espécies.Em sua maioria são boas. Claro,as primeiras veem da minha infância. Quando eu era um meninozinho o meu avô por parte de pai,que morava conosco,construiu,com a sua habilidade de marceneiro,embora fosse vidreiro de profissão,um tico-tico bem mais forte do que os vendidos no comércio;um caminhão poderoso,com o qual eu podia brincar de bater nos dos meus amiguinhos,sem que sofresse dano algum,e outros brinquedos capazes de fazer a minha alegria a cada novo Natal.

 

Adolescente,o presente que vivia esperando dos meus pais era uma bicicleta. O Natal chegava. E o cobiçado presente não. E vinha um novo Natal. E nada de encontrar embaixo da árvore natalina a sonhada bicicleta. Foi,todavia,em um desses Natais que a minha irmã ganhou a bicicleta dela,enquanto eu fiquei,novamente, a ver navios. Acho que nunca fui capaz de pedir ao meu pai – era ele quem resolvia quem deveria ser mais bem presenteado – por que nunca fazia por merecer uma bicicleta. Os pais da minha época não eram tão comunicativos como fui com os meus filhos. Não faziam isso por mal ou porquanto gostassem menos dos seus rebentos do que os mais modernos.

 

Já tive a oportunidade de escrever, no espaço que estou usando no blog do Mílton,como acabei ganhando o presente natalino que me era negado. Quem, por acaso,leu a história do dia em que deixei de pedir emprestada a bicicleta de um amigo para que eu desse “uma voltinha”,faça de conta que não a viu. Eu sempre fui um péssimo aluno em matemática.Não apreciava as ciências exatas. Gostava,isto sim, de português,história e geografia. Como de hábito,fiquei em segunda época na danada que detestava. Estudei com um professor particular pouco antes do exame e captei o suficiente para não perder o ano. Sabem com que prêmio o meu pai afirmo que me daria se passasse? Uma bicicleta.

 

Bem no início da rua em que eu morava,na Zona Norte de Porto Alegre,havia uma loja que comercializava máquinas de escrever. Essa,resolveu por à venda uma…bicicleta. Era uma Sueca Centrum,com guardalamas e aros de alumínio,além de outros acessórios. Tratava-se de um bicicleta luxuosa e,evidentemente,a mais cara dentre as concorrentes. Aproveitei-a ao máximo,pedalando na minha zona,chegando ao centro e a locais mais distantes para passear com os amigos. O sonhado presente de Natal se tornou o mimo conquistado em um bem sucedido exame de segunda época

 

Como pai,vivi vários natais no período em que os meus filhos moravam comigo e com Rute,a mãe deles,que faleceu logo após a minha volta,em 86,da Copa do Mundo. Na véspera do Natal,em cuja noite os presentes eram distribuídos,seguíamos um programa imutável anos a fio. Eu levava os meus três filhos de carro até o topo do morro no qual se concentravam três emissoras de televisão e de onde se tinha uma vista magnífica de Porto Alegre. A mãe das crianças ficava em casa dando os últimos retoques na tradicional e espinhosa árvore de Natal e colocando aos pés dela – árvore,claro – os presentes da família. Agora,com 78 anos,sou mais do que pai,virei avô de quatro netos:dois nascidos e moradores da minha cidade – os do Christian e da Lúcia,Vivi e Fernando – que posso visitar no Natal. Já com o Gregório e o Lorenzo,filhos do Mílton e da Abigail,que nasceram e moram em São Paulo,geralmente fico apenas,por telefone, lhes desejando Feliz Natal.

 


Milton Ferretti Jung é jornalsita, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De graça e agradecimento (revisitado)

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O fim do ano chega e bate indiscriminadamente na porta do bom e na porta do não tão bom, do amigo e do não tão amigo assim. Vem arrastando um balaio cheio de lembrança bordada com emoções que fazem sorrir outra vez, e trazendo outras que a gente prefere esquecer. Não há como fugir. É encarar e selecionar, acalentando e nutrindo as que têm um doce sabor e espantando e tentando evitar aquelas que atacam e viram do avesso o fígado e arredores. 

 

Presente de Natal então assombra grego e troiano. É um sufoco que evito porque vem com tarja de compulsório. Todo ano penso em me organizar e criar o presente certo para cada um, só que dezembro chega, me pega de surpresa, me passa uma rasteira certeira, e acabo não fazendo nada nesse sentido. Na verdade não gosto da ideia de presente de Natal.

 

Pois é nesse emaranhado de emoções que procuro aquietar corpo e mente, e agradeço. Agradeço e agradeço mais uma vez vez.

 

Agradeço ao Arquiteto de Tudo e a seus auxiliares. Agradeço aos mestres aprisionados em corpos mortais e aos que não posso ver com os olhos do corpo. 

 

Agradeço a meu pai e minha mãe, e a seus antepassados, pela oportunidade da vida. 

 

Agradeço ao pai dos meus filhos e a seus pais e antepassados, a vida dos meus tesouros mais preciosos. 

 

Agradeço aos amores que passaram pela minha vida e que me enriqueceram e me ensinaram a amar cada vez mais, quando achava que já sabia tudo sobre amor, respeito e admiração, prazer e dor. 

 

Agradeço aos companheiros de trabalho, superiores, pares e subordinados, que passaram e ainda passam pela minha vida, com quem aprendi e aprendo muito. 

 

Agradeço aos anjos em forma de gente, que me impulsionam no caminho do aprendizado e da abertura da minha consciência. 

 

Agradeço à minha tia Inês, que é a minha família presente, cuidadosa e carinhosa em todos os momentos, com quem divido alegrias, tristezas, vitórias e frustrações, e que me ouve com um amor que só ela sabe oferecer. 

 

Agradeço aos que eram amigos e deixaram de ser, pelos mais diversos motivos. Enquanto tinham amor para dar, me inundaram com ele; quando o amor secou, bateram em retirada, deixando lições que se eu souber aproveitar, cresço ainda mais. 

 

Agradeço aos professores, pelas descobertas fascinantes de um mundo cada vez maior e fascinante.

 

Se decidisse listar as bênçãos recebidas inesperadamente e as cultivadas com determinação, preencheria páginas e páginas. 

 

Se por outro lado listasse as desventuras e frustrações, não conseguiria preencher uma só.

 

Vou domando meu ego cheio de manha, e reconhecendo que sei ainda muito pouco da vida, e que há muito para aprender, mas é exatamente isso que me dá o impulso necessário para continuar vivendo. Quero mais.

 

E você?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

(Este texto foi postado, originalmente, neste blog, em 16.12.2007)

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De passado que não vira presente

 

Com a primavera, quem volta ao Blog é nossa companheira Maria Lucia Solla, que aproveita de suas lembranças para retomar a caminhada ao nosso lado. Maria Lucia sempre esteve conosco aos domingos e estes seguem reservados a ela, apenas desta vez, provocado pelo tema importante das eleições que se aproximam, fiz questão de tê-la de volta ainda nesta segunda-feira:

 


Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

falávamos de partidos, lá em cima no terraço, meu filho e eu, e lembrei de um texto publicado no blog do Mílton Jung, em 28.10.07, portanto há cinco anos e onze meses. 

 

Este é o texto:

 

De partidos partidos
 

 

dom, 28/10/07

Olá,

 

Tem-se discutido muito, e acaloradamente, sobre partidos e parlamentares e sobre o fato de estes trafegarem por aqueles, ao aceno da mínima vantagem. Ser da direita ou da esquerda não é mais uma questão de sentar-se à esquerda ou à direita do plenário, como em idos tempos, não é, Dr. Anderson? Os partidos por sua vez querem que o mandato e o parlamentar lhes pertençam para terem munição, estamos em guerra e não percebi. De todo modo, fica claro que se foi o tempo de convicções e de construção da democracia. Romântica e femininamente, imagino um tempo em que alguns governavam – leia-se trabalhavam – enquanto outros davam duro fiscalizando. De olho, implacáveis. Ao menor deslize, a turma no comando pulava miúdo. Mas se houve esse tempo, durou até que alguém percebesse que, por lá, dava para dar menos duro e ganhar mais mole.

 

E foi como água mole em pedra dura que a idéia fixa dessa meta se infiltrou e se alastrou feito praga, por todos os lados. A gente, então, começou a vender os próprios pensamentos, a entregar as paixões, crenças e a própria identidade, em troca de não viver, já que isso dá um trabalho danado. Ficou anestesiada de tanto fingir que estava tudo bem, para não sair do conforto da poltrona. E a coisa foi crescendo tanto e tão velozmente, que se romperam os diques e a lama transbordou, nos cobriu e sufocou. E a gente? Acostumou.

 

Pense comigo, nosso país é de terceiro mundo, somos pobres, não temos água, luz, estradas, transporte, saúde pública, educação, e nem comida para todos. E o que fazemos? Mantemos aparências esfarrapadas com uma criadagem política despreparada, sem experiência, sem cultura nem educação, que oferece, em bandejas de plástico, migalhas aos seus patrões, e nós os tratamos a pão-de-ló, com água mineral e bebida importada, servidas por copeiros em bandeja de prata, mesa farta, carros de luxo, um batalhão cada vez maior de subalternos, e avião importado.

 

Minha sogra abomina quem come mortadela e arrota peru. Pois é, dona Ruth, parece que nossa nação não anda bem de digestão.

 

Enquanto isso, países de primeiro mundo, com população mais rica, com pleno acesso a educação e saúde, e onde nem se imagina o que seja a dor de passar fome, têm muito menos empregados do que nós.
Voltando aos partidos, eles também geram aberração e mensalão. É o tal do cada um por si, do salve-se quem puder, coisa de republiqueta de quinta.

 

Portanto, enquanto nós, viventes do mesmo chão, continuarmos a contratar a corja, ela continuará oferecendo privilégios e benesses, aos que estão abaixo, acima, à direita e à esquerda, para eternizarem a farsa e o assalto miúdo às nossas carteiras e à nossa dignidade, as quais temos entregado de bandeja, como se nada valessem. Não é para isso que supostamente evoluímos como seres humanos, e que somos considerados cidadãos

 

Pense nisso, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Meu presente de Natal

 

Por Milton Ferretti Jung

Quase às vésperas da data principal dos cristãos, entre os quais me incluo, elegi, para compor este papo de quinta-feira, um assunto natalino, embora de cunho pessoal. Lembro, com saudade, dos antigos Natais, o que não tem nada de espantoso. Afinal, creio que é imenso o número de pessoas que comunga de sentimento idêntico. As melhores lembranças, é claro, as minhas, pelo menos, são as que me remetem para a infância e a adolescência, épocas da vida em que aguardamos com ansiedade,  por dois dias do ano: 24 e 25 de dezembro. O Dia Santo de Guarda é aquele no qual recordamos o nascimento de Cristo, mas era – e ainda é – na véspera dele que os presentes esperavam por nós ao pé da árvore de Natal.

Eu gostava, como não, de todo e qualquer mimo natalino. Ano após ano, no entanto, torcia para que o meu pai lembrasse daquele mais querido por mim: uma bicicleta. Minha irmã, quatro anos mais nova, já ganhara a sua bike como presente de Natal. Fiquei magoado e, confesso, com inveja dela. Fez por merecê-la ao se sair bem no ano letivo, coisa que não ocorreu comigo, fato não incomum na vinha infância, adolescência e juventude. Ainda bem que ela costumava concordar em me emprestar a sua Monark. Era meu consolo. Mirian, este o seu nome, quando ganhou sua bicicleta, passara de ano, no colégio, com notas altas. Ao contrário, eu havia ficado em segunda época em matemática, o que acontecia quase todos os anos. Imaginei que talvez pudesse ganhar a minha no Natal de 1945.

Meu pai colocou à minha disposição um vizinho, que era professor universitário de física. Com este reforço, ele acreditava que me salvaria de uma repetência. E o mestre, realmente, deixou-me em condições de evitar o pior. Passei. Na esquina da rua em que morava minha família havia uma loja que vendia máquinas de escrever, calculadoras e outras coisas do tipo. Um belo dia, olhando pela vitrina, o que vi? Uma belíssima bicicleta. Sequer me atrevi a entrar para vê-la de perto. Nunca, evidentemente,eu ganharia uma igual. Talvez, quem sabe, teria de me contentar com uma usada, como uma Opel que foi emprestada ao meu pai por um amigo, mas apenas para ser aproveitada na nossa casa, na praia.

Para minha surpresa, a alegria paterna com o meu avanço no colégio valeu-me não uma bicicleta, mas a que eu vira na loja da esquina, nada mais, nada menos do que uma Centrum, importada da Suécia. Possuía guarda-lamas e aros de alumínio, pneus do tipo balão, bagageiro com caixa lateral de ferramentas, banco com molas bem mais macias do que as encontradas em bicicleta modernas. E de cor azul, como se soubesse que o seu dono seria um gremista fanático. A linda Centrum ainda roda de vez em quando, pilotada pelo  meu filho Christian, seu herdeiro. Valeu a pena esperar por ela.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Os presentes de Natal

 

Paz e reflexão : )

O relógio não havia chegado às quatro da tarde e todos estávamos de cabelo lambido e roupa impecavelmente nova. A casa cheirava à colonia que completava o banho dos três irmãos ansiosos pelo passeio prometido. Na véspera de Natal, sair com o pai até o Morro da TV era a senha para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore. Mal aproveitávamos a bela vista de Porto Alegre que aquela altura toda nos proporcionava, queríamos mesmo é ver o tempo passar rápido, voltar e nos deliciar com os brinquedos e roupas comprados por minha mãe.

Hoje, a árvore está vazia, não há presentes nem passeio ao Morro. E não pense que o trânsito complicado, o shopping lotado e o tempo sempre escasso justificam a ausência das caixas coloridas que costumam decorar a sala. Deixamos pra lá as roupas dos filhos, a bolsa da mãe, a traquitana eletrônica que sempre agrada o pai, os DVDs, livros e lembrancinhas que satisfazem as visitas e parentes. Estas ausências não serão sentidas por ninguém.

Nossos presentes, este ano, não cabiam lá na árvore. Nossas conquistas não estavam ao alcance do cartão de crédito O bem estar que domina nosso espírito tinha preço incalculável, impossível de parcelar, o queremos sempre à vista.

Quando a noite chegar, vamos celebrar a consciência tranquila de quem buscou fazer o melhor, mesmo nas muitas vezes em que este não se realizou. Comemoraremos o equilíbrio sentimental buscado por um, o emprego merecido do outro, a força encontrada pelos que viam dificuldades, o ano saudável que se seguiu após a doença, os filhos que surpreenderam pelo carinho e amadurecimento, o resgate à vida de um ente que não era mais tão querido mas sempre foi amado – ser que descompassado faz uma caminhada que me leva a analogias com o renascimento de Jesus, personagem maior desta festa.

Vamos agradecer à Deus, não mais ao Papai Noel, por ter nos permitido preservar a nossa família e tê-la tornado mais rica de sentimentos. E por todas as demais que cresceram a nossa volta, seja com as trapalhadas típicas de quem está vivo seja com as gargalhadas que proporcionaram.

A árvore está vazia, sim. Nossa festa, porém, está completa. A mesa é farta de bons motivos. E os presentes atenderam todos os pedidos que fizemos neste ano, ao menos os que realmente importam para a vida.

São Paulo fica distante dos irmãos e do pai que permanecem no Sul – minha mãe morreu há muito anos, infelizmente. Claro que tenho saudade daqueles Natais em que subíamos o Morro a espera de presentes, mas sou muito feliz pelos que tenho recebido nestes anos todos. E por todos aqueles que os proporcionaram.

Feliz Natal !