50 debates para o Brasil: demarcação de terras indígenas exige conciliar direitos e segurança jurídica

A demora na demarcação de terras indígenas mantém comunidades e produtores rurais presos a conflitos que atravessam gerações. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Maurício Guetta, professor de Direito Ambiental e diretor da Avaaz, e Gustavo Passarelli da Silva, advogado especializado em questões relacionadas ao agronegócio.

A Constituição de 1988 reconhece aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Também determinou que a União concluísse as demarcações em cinco anos. O prazo terminou em 1993, sem que todos os processos fossem finalizados.

O impasse envolve ainda produtores que receberam do próprio Estado títulos de propriedade sobre áreas posteriormente identificadas como terras indígenas. Nesse caso, surge uma pergunta prática: quem deve pagar pela decisão equivocada do poder público?

Maurício Guetta defendeu a aceleração das demarcações e afirmou que as terras indígenas protegem os povos originários, colaboram para o equilíbrio climático e ajudam a produzir a água utilizada pela agropecuária.

Para ele, o reconhecimento do território não deve ficar condicionado ao encerramento da discussão sobre o valor da indenização aos produtores. Os dois processos deveriam avançar separadamente.

“Assim, nós permitiremos as duas coisas ao mesmo tempo: que se acelerem as demarcações e, ao mesmo tempo, que se garantam os direitos aos proprietários de terra que tenham títulos de boa-fé”, afirmou.

Guetta explicou que o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito à indenização de quem recebeu um título válido e agiu de boa-fé. Na avaliação dele, esse pagamento não decorre da demarcação, mas da responsabilidade do Estado por ter concedido um documento de propriedade sobre uma terra tradicionalmente indígena.

O professor também criticou a criação de novas etapas administrativas: “A gente tem que ter um processo de demarcação que seja justo, adequado, respeite a ampla defesa, como sempre aconteceu, mas que não tenha amarras burocráticas que dificultem ou impeçam o avanço e a conclusão desse processo”.

Pagamento deve acompanhar a demarcação

Gustavo Passarelli destacou a insegurança enfrentada pelo produtor que possui uma cadeia de documentos de cem anos ou mais e, posteriormente, é informado de que sua propriedade está dentro de uma área indígena.

Segundo o advogado, o reconhecimento do direito à indenização representou um avanço. Ele considera, porém, que o pagamento deve ocorrer simultaneamente à demarcação. Separar os procedimentos poderia obrigar o produtor a deixar a terra antes de receber o valor integral.

“Entendemos que os processos devem caminhar, ainda que paralelamente, mas de forma simultânea e, como condição para que seja finalizada uma demarcação, que o produtor seja indenizado integralmente”, disse.

Passarelli também contestou a associação direta entre demarcação e conservação ambiental. Para ele, a legislação já impõe aos produtores rurais obrigações de preservação. O ponto central do debate, portanto, deveria ser a compatibilização entre os direitos indígenas e o direito de propriedade.

O debate revelou uma convergência: os dois participantes reconhecem que os povos indígenas têm direitos constitucionais e que proprietários de boa-fé devem ser indenizados pelos erros cometidos pelo Estado. A divergência está no caminho. Guetta defende que a demarcação avance sem esperar pelo fim da disputa financeira. Passarelli sustenta que ninguém deve ser retirado antes de receber a indenização integral.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: como Kim Maschlup montou a Baskets em apenas um mês e na pandemia

“O melhor caminho é colocar na rua e ver a coisa andando”

Kim Maschlup, Baskets
Foto: reprodução site Baskets.com.br

Queijo de ovelha, pão de batata roxa e bolo de fubá com goiabada. Biscoito de castanha do Pará, cerveja artesanal e aguardente. Essa cesta, tão variada quanto deliciosa, na qual cabem muito mais produtos, corria o risco de ficar vazia, diante da pandemia. Com o fechamento do comércio e o isolamento social, pequenos produtores pelo interior do Brasil perderam acesso a seus consumidores, e os que conseguiam receber as encomendas tinham de ter muita boa vontade com a falta de estrutura de entrega. Foi diante dessa dificuldade que a admiradora de produtos artesanais brasileiros Kim Maschlup assumiu o desafio de criar uma plataforma eletrônica para conectar produtores e consumidores.

Kim é consumidora desses produtos assim como muitos de nós. Se isso a permitiu enxergar o perigo que se avizinhava, foram outros papéis que exerce que despertaram nela o interesse em ajudar essa turma. Kim é administradora de empresa, mestre em liderança no terceiro setor, e inspiradora de negócios com impacto social. Ela também atua em empresas que fazem investimento em novos negócios e ideias.

Com o perdão do trocadilho, foi essa cesta de habilidades e competências que a fez construir a Baskets. E em apenas um mês. Porque com o tamanho da crise que se espalhava não havia tempo a perder. No Mundo Corporativo, Kim Maschlup explicou como foi possível colocar a plataforma no ar, em agosto de 2020. O primeiro passo foi ouvir consumidores e produtores para entender as dores de cada lado. Em seguida, foi o momento de estudar qual o melhor desenho para tornar essa conexão possível: foi quando veio a ideia da plataforma online. Montar a logística para que os produtos estivessem disponíveis em um centro de distribuição único:

“Nesse um mês, eu precisei fazer a curadoria de produtos, alinhar com os produtores como seria esse modelo de negócios, trazer todas as informações deles  e dos produtos e colocar dentro da plataforma. Essa foi a parte que foi a mais trabalhosa”.

Os resultados apareceram rapidamente com o interesse de consumidores e produtores tornando o negócio viável. No início, quando Kim imaginava alcançar até 20 pequenos produtores, 34 aceitaram o convite; hoje são cerca de 50 e mais de 500 produtos – entre os quais aqueles que estão listados no início deste texto. A intenção é alcançar outras partes do Brasil, tanto na oferta como na entrega – o que deve ocorrer em breve.

Aos empreendedores dispostos a construir seu negócio, Kim recomenda que não se perca tempo na busca de projetos perfeitos: essa busca nunca vai cessar. É preciso encontrar o equilíbrio entre a quantidade de informação necessária para desenvolver o negócio e o tempo justo para lançá-lo no mercado. Ela sabe que o processo na Baskets foi mais veloz do que deveria, mas se isso ocorreu foi em nome da urgência do momento. Ouvindo Kim falar, descobre-se que a pressa não é inimiga da perfeição:

“Eu falava: eu preciso fazer para ter as respostas. Enquanto eu não estiver no mercado, enquanto as pessoas não tiverem consumindo, enquanto eu não estiver engajando os produtores, eu nunca vou saber de fato se essa ideia funciona”.

Ao acelerar o projeto e colocá-lo a rodar, Kim também descobriu rapidamente erros que foram sendo corrigidos ao longo do processo. Para ela é preciso estar disposto a errar e se reinventar todos os dias. Assim como trocar informação com pessoas que estão ao seu alcance, pedir feedback, ouvir e aprender. Depois de ter investido do próprio bolso para a ideia se concretizar, convenceu ‘investidores anjos’, no início deste ano, a  acreditarem no modelo de negócio que havia construído. 

“Uma coisa que você vai sempre ouvir de investidores, principalmente neste primeiro momento das empresas é ‘quem são as pessoas que estão por trás daquele negócio? Porque são elas que vão construir aquilo. Independentemente de qual seja o caminho que a empresa vai tomar, é importante entender que existe uma equipe por trás que vai ser capaz de entregar”. 

Assista à entrevista completa de Kim Maschlup, ao Mundo Corporativo:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.