Conte Sua História de SP 467: a Ingrid me mostrou que dava

Luciana Henn S. Castro

Ouvinte da CBN

“O que é o palco, onde ele está, do que ele é feito?

O palco é uma dimensão espiritual, simbólica, o palco é seu próprio coração. […]

O coração tem o calor pra alma, para nos animar.

E durante a pandemia realmente foi nossa ânima que fez o mundo girar”. 

Gilberto Gil em especial para “Amor e Sorte”

 

Foi um pouco antes da pandemia que nos conhecemos, na Casa da Amizade, no Paraisópolis. E assim que tudo na rua virou silêncio, recebi a mensagem dela: “Você pode continuar me dando dicas sobre redação para o vestibular? Acabei de escrever um texto, posso te mandar pelo zap”? Com meu “sim, claro”, se abriu um portal de possibilidades impensadas. 

Confesso que, quando a escola em que trabalho como professora foi fechada, em 18 de março, nutri a esperança de que aquela situação duraria no máximo um mês. E ainda que continuasse orientando os alunos remotamente, eu era daquelas pessoas que achavam impossível realizar o trabalho docente em “home office” pela própria definição do termo: não existia “home classroom”. 

A Ingrid me mostrou que dava. 

Enquanto eu me ajustava às inéditas demandas da escola particular onde trabalho, alimentando plataformas com aulas, eu cultivava, por causa da Ingrid, a energia de lecionar. Ela me mandava a redação, eu a corrigia, identificava pontos fortes e a melhorar. Buscava na internet — até aquele momento, um lado escuro da lua, ainda tão cheio de possibilidades inexploradas — os tópicos que poderiam ajudar a Ingrid a se sair bem no vestibular. 

O calendário desfolhava rapidamente e estávamos às vésperas de organizar o Concurso de Redação da Mostra Cultural de Paraisópolis, para alunos de escolas públicas. Eu, ainda entorpecida pela mudança de rotinas doméstica e profissional, pelo enclausuramento, pelo medo, pelas incertezas propostas pelo governo federal, pensava em cancelar o concurso, mas a experiência com a Ingrid me mostrou que era possível. 

Chamei uma reunião, via internet, com a equipe organizadora para trocarmos ideias e contar, por exemplo, o quanto eu começava a dominar os diversos aplicativos que poderiam viabilizar o evento: desde a inscrição dos candidatos à sua preparação pelos professores nas escolas; da criação à aplicação da proposta de redação, com seus textos motivadores, bem aos moldes do ENEM; da maneira de coletar essas redações à entrega delas, sem identificação nominal, à equipe de corretores; do modo como publicar as notas de forma fácil e confiável. 

Fizemos isso em tempo recorde e de maneira totalmente remota, promovendo o encontro de todos os atores. Um viva à informática e à nossa sinergia! 

A adesão ao Concurso foi menor do que nas edições anteriores —- para muitos participantes, o celular era o único dispositivo disponível, e você pode imaginar a dificuldade em ler os textos motivadores e escrever a redação numa tela do tamanho da mão, torcendo para o sinal não cair bem no meio da operação. 

Enfim, conseguimos!!! E, no melhor estilo “live”, a XV Mostra Cultural de Paraisópolis aconteceu, as 10 melhores redações receberam seus prêmios via correio e a celebração dos vencedores foi feita por transmissão virtual. 

Toda essa experiência me mostrou que o palco, também na educação, é o coração! É o coração que traz o calor para a alma e nos anima, para continuar fazendo essa comunidade girar! Para continuar, enfim, sinalizando aos jovens que a Educação ainda é um passaporte para uma vida melhor e que estamos aí para nos reinventar, nos apropriando das tecnologias para criar novos mundos, menos desiguais, mais fraternos e empáticos. 

Luciana Henn Castro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Aos professores que influenciaram nossas vidas

 

 

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Era cedo ainda quando fui provocado a falar na rádio do dia dos professores, comemorado nesta segunda-feira, 15 de outubro. Meu colega Frederico Goulart, apresentador do CBN Primeiras Notícias, com quem bato-bola no ar, pouco antes das seis da manhã, chamou atenção para dados do Censo da Educação Superior que mostram que a pedagogia foi a carreira que mais atraiu universitários, em 2017. Do total de calouros registrados, 9,2% entraram no ensino superior se matriculando no curso. Também é da pedagogia, o maior número de alunos prestes a se formar, no ano passado: 10,5%, segundo o Censo.

 

As estatísticas chamam atenção porque sabemos o quanto os professores são pouco valorizados no Brasil e a situação que enfrentam na sala de aula. Serviram, também, de gancho para Frederico e eu homenagearmos esses profissionais. Em particular, lembrei de minha irmã, Jacqueline, que é professora, em Porto Alegre, e registra em seu currículo uma série de belas histórias com seus alunos — alguns já bem grandinhos e agradecidos pelo que aprenderam com ela. Houve momentos de frustração, sem dúvida; tristeza, com certeza; mas seu papel diante dos alunos sempre foi digno e merecedor de destaque. Tenho orgulho do que ela faz.

 

Na conversa com Fred, puxei da memória o nome de alguns dos professores que marcaram minha trajetória na escola e surpreendi a produção do programa, dada a fama que tenho de esquecer nomes e datas. E se lembrei sem pestanejar, foi porque realmente tiveram influência na minha formação, como foi o caso do Gílson de Matemática, que conseguiu me ensinar muito mais para a vida do que para os cálculos — e se não aprendi matemática como deveria, por favor, saiba que a responsabilidade não foi dele. Ou do Otávio, de Biologia — outro que me forjou caráter e personalidade. Ambos, professores no Colégio Nossa Senhora do Rosário, onde estudei boa parte da minha infância e adolescência.

 

Nome que também guardei na memória é o de Maria Helena, a professora de artes. Escrevo sobre ela no livro ‘É proibido calar!” ; e reproduzo o trecho a seguir para homenagear todos os professores que passaram por nossas vidas — e aqueles todos que estão por vir:

 

Lembro como se fosse hoje o dia em que, na aula de artes, sentado à mesa de desenho, comentei com a professora Maria Helena – jamais esqueci o nome dela — sobre estar recebendo lições de violão no mesmo local onde havia uma famosa escola de balé. “Mas estou fazendo violão, viu!” —- comentei, antes que ela pensasse que estava aprendendo a dança clássica. Como um tapa na minha moral retorcida, ela perguntou, de imediato: “E qual seria o problema se estivesse fazendo balé?” Preconceito arrancado pela raiz. Lição aprendida para a vida.

Professora pede respeito e vira hit no Twitter

 

A professora Amanda Gurgel da rede pública de ensino do Rio Grande do Norte pediu a palavra durante audiência pública, no dia 10 de maio, que discutia a situação da educação no Estado e ganhou a internet. Durante oito minutos falou sobre as dificuldades enfrentadas pelos professores na sala de aula, diante de deputados da Comissão de Educação e da secretária de Educação Betânia Carvalho. Resultado: o vídeo foi parar no You Tube e se transformou em destaque nas citações do Twitter.

O sucesso talvez se justifique pela maneira sincera e expressiva do seu pronunciamento, raridade nos dias de hoje.