Sentimento de aceitação

Por Beatriz Breves

Stupid photo
Foto: Conan no Flickr

O sentimento de aceitação funciona como um fertilizante que se mistura à irrigação dos demais sentimentos. E não importa se são considerados prazerosos ou não, como o amor e o carinho ou o ódio e a inveja. Sentir aceitação é necessário para um sentimento poder germinar e se desenvolver, caso contrário, nenhum deles encontraria terreno emocional fértil para crescer.

Assim, quando um sentimento permanece ecoando na gente, sempre é interessante pensar qual o sentimento que está sendo irrigado com o de aceitação. Até porque, dependendo dos sentimentos que estiverem investidos com aceitação, seja em dupla, trio, etc., essa reflexão poderá servir de grande ajuda tanto na amplificação daqueles que estão nos dando bons frutos, quanto na transformação daqueles que estão nos dando maus frutos.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

A IA pode substituir o psicoterapeuta?


Por Beatriz Breves

óculos, celular no app do chatgpt, inteligência artificial
Foto de Matheus Bertelli on Pexels.com

A pergunta parece simples, mas toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo. À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, cresce também a impressão de que ela poderia substituir atividades que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.

A IA já consegue identificar padrões de linguagem, reconhecer emoções expressas no discurso, formular hipóteses interpretativas e até conduzir diálogos que, muitas vezes, parecem acolhedores e reflexivos. Está disponível a qualquer hora, responde sem julgamento aparente, possui acesso instantâneo a uma quantidade imensa de informações e não sofre os limites do cansaço ou da distração.

Diante disso, a pergunta que surge naturalmente é: seria possível substituir o psicoterapeuta por uma inteligência artificial?

A resposta exige compreender que a psicoterapia não se reduz a conselhos, interpretações ou à organização racional dos pensamentos. Ela é, antes de tudo, uma experiência de encontro. Um espaço relacional no qual uma pessoa pode entrar em contato consigo mesma por meio da presença de outra pessoa.

O que a IA já é capaz de fazer

Cabe aqui uma observação. A qualidade de um processo terapêutico não depende apenas da abordagem utilizada, mas também da formação, da experiência e da capacidade de escuta de quem o conduz. Existem profissionais altamente qualificados e pessoas que, após formações muito breves, oferecem atendimento clínico sem a preparação necessária para lidar com a complexidade do sofrimento humano.

Nesses casos, é possível que uma inteligência artificial, alimentada por um amplo conjunto de conhecimentos psicológicos e disponível continuamente, ofereça reflexões mais consistentes do que aquelas produzidas por profissionais insuficientemente preparados. Isso, porém, não diminui a importância da psicoterapia. Ao contrário, evidencia o quanto a formação, a supervisão clínica, a experiência pessoal de análise e o treinamento contínuo são fundamentais para o exercício responsável da profissão.

Digo isso porque a mudança terapêutica não ocorre apenas porque alguém recebe informações sobre seus problemas. Ela acontece porque determinados aspectos da experiência humana só se tornam acessíveis dentro de uma relação. É no encontro com o outro que percebemos padrões que, sozinhos, não enxergamos, reconhecemos sentimentos que evitávamos sentir e construímos novas formas de compreender nossa própria história.

O psicoterapeuta escuta não apenas o que é dito, mas também aquilo que se manifesta nas pausas, nas repetições, nas contradições, nos silêncios e nos afetos. Muitas vezes, a transformação não resulta de uma fala brilhante, mas da experiência de ser acolhido, compreendido e reconhecido por outro ser humano.

De fato, na psicoterapia, o próprio psicoterapeuta torna-se um instrumento de compreensão do outro, pois, na relação terapêutica, tudo aquilo que sente pode constituir um dado importante para compreender a comunicação que está sendo estabelecida. Daí a necessidade de anos de estudo, supervisão, psicoterapia e treinamento.

Às vezes, uma narrativa aparentemente tranquila desperta tristeza; outras vezes, um relato de sofrimento provoca estranhamento ou até uma sensação inesperada de leveza. Há momentos em que o paciente sorri enquanto comunica algo doloroso ou chora ao falar de algo que parece não lhe causar sofrimento. Tudo isso comunica.

Os afetos que emergem no terapeuta não são, necessariamente, respostas pessoais; muitas vezes, fazem parte da própria dinâmica relacional que se estabelece no encontro terapêutico. Por isso, a formação e a experiência pessoal de psicoterapia são fundamentais. Ao conhecer melhor seus próprios conflitos, limites e sensibilidades, o terapeuta torna-se mais capaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que emerge da relação com o paciente. Assim, pode envolver-se profundamente com o sofrimento do outro sem confundir-se com ele, transformando sua própria experiência emocional em um instrumento a serviço da compreensão e do cuidado.

O que acontece em uma relação terapêutica

A relação terapêutica é construída ao longo do tempo. Ela envolve confiança, vínculo, frustrações, descobertas, resistências e transformações. Não se trata apenas de um processo cognitivo, mas de uma experiência humana compartilhada. Em muitos casos, é justamente essa experiência relacional que promove mudanças profundas.

Isso não significa que a inteligência artificial não tenha valor. Ao contrário. Ela pode oferecer informações, auxiliar na organização de pensamentos, estimular reflexões, sugerir perspectivas diferentes e funcionar como um recurso acessível para quem busca compreender melhor a si mesmo. Em muitos contextos, pode representar um importante instrumento de apoio emocional e de ampliação do acesso ao conhecimento psicológico.

Entretanto, existe uma diferença fundamental. A inteligência artificial pode processar informações sobre a experiência humana, mas não possui experiência humana. Não sente medo, amor, perda, esperança ou sofrimento. Não atravessa conflitos existenciais. Não se transforma a partir do encontro com o outro.

É justamente nessa dimensão que a psicoterapia encontra uma de suas bases mais importantes. O psicoterapeuta não é apenas alguém que compreende teoricamente o sofrimento. É alguém que também participa da condição humana. Sua escuta é atravessada pela própria experiência de viver, sofrer, desejar, perder e transformar-se.

Talvez a questão mais importante não seja saber se a IA pode substituir o psicoterapeuta, mas compreender como ela pode contribuir para o cuidado psicológico. Ela pode tornar-se uma ferramenta valiosa de apoio, reflexão e autoconhecimento. Pode complementar processos terapêuticos e ajudar muitas pessoas a iniciar uma jornada de compreensão de si mesmas.

A psicoterapia, porém, em seu sentido mais profundo, continua sendo uma experiência humana. Uma experiência construída no vínculo, na presença, na confiança e na possibilidade de um ser humano encontrar a si mesmo por meio do encontro com outro.

Por mais sofisticada que seja uma tecnologia, ela ainda não ocupa o lugar de uma presença humana genuína. Talvez isso nos lembre de algo essencial: existem experiências cuja força não está apenas na informação que recebemos, mas na relação que nos transforma.

Na psicoterapia, a mudança não nasce apenas do que é dito, mas do que é sentido. É preciso sentir para mudar. O silêncio, a hesitação, um sentimento que surge sem nome, um afeto que atravessa a relação e encontra acolhimento: tudo isso comunica. E é justamente nessa linguagem dos afetos que a presença humana continua sendo insubstituível.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Eu já sei!

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

Nossa mente é uma estrutura interessante. Gosta muito de pensar, falar, falar, falar … Volta para o passado, vai para o futuro, pula para fora da gente, vem para dentro e fica ruminando, elocubrando, criando hipóteses e ideias.

Ela também parece muito dona de si:  “Fulano não gosta de mim”; “Que absurdo o que aquela pessoa fez”; “Tenho certeza de que não vou conseguir”; “Não tenho sorte na vida”; “A humanidade está perdida”. Veja só como acredita que já sabe muitas coisas, várias “verdades”.

Então, nós pegamos nossa mente “muito sábia” e saímos por aí. Já adivinhamos o que as pessoas pensam sobre nós e quais são as intenções escondidas delas. Também prevemos nosso futuro e concluímos que há coisas que nem vale a pena tentar, porque não darão certo mesmo. E conhecemos várias regras sobre a vida, a sociedade, a política, a economia, o comportamento humano…

Não temos mais o que aprender. Não precisamos observar o que está acontecendo para entender, de fato, quais informações devemos considerar ao formar nossas ideias e opiniões. Bloqueamos conceitos novos acontecimentos diferentes do que esperávamos, simplesmente porque nossa mente já sabe tudo. Afinal, por que gastar tempo e energia com isso?

É uma questão de economia. É isso que o cérebro faz. Ele quer trabalhar o mínimo possível, então deixa nossa mente bem rígida e fechada: “Não precisamos de mais nada. Já sabemos.” Percebeu a armadilha?

Caímos nesse buraco do isolamento, da ignorância, da pequenez. Embora possamos  expandir conhecimentos, estratégias, planos e possibilidade, não o fazemos. Preferimos  “sentar na nossa verdade” e permanecer ali, restritos.

E se trocássemos o “Eu já sei!” pelo “Me fale mais…”? E se trocássemos o buraco pela abertura, pela curiosidade e pela expansão?

Pense comigo: para que ficar preso se é possível voar?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Chatice, um fenômeno humano

Por Beatriz Breves

Foto: Pexels

A chatice é um daqueles fenômenos humanos que todos reconhecem imediatamente, mas poucos conseguem definir com precisão. Dependendo da situação, ela pode manifestar-se tanto como uma característica percebida em alguém quanto como uma experiência vivida por nós mesmos. Talvez seja justamente essa dupla natureza que a torne tão interessante.

Uma das formas mais comuns de experimentá-la ocorre quando a chatice se instala na própria vida. A rotina, a repetição e a sensação de que nada muda podem produzir uma experiência emocional marcada pela monotonia, pelo cansaço e pela estagnação.

Nessas circunstâncias, a chatice configura-se como um fenômeno complexo. Não se trata de um sentimento único, mas de uma experiência constituída por diferentes sentimentos, entre eles o tédio, o desânimo, a falta de interesse e a perda de vitalidade. É como se a vida perdesse movimento e ficássemos aprisionados em um ciclo que não se transforma.

A chatice também pode surgir na relação com o outro — aquela pessoa cuja presença desperta, quase instantaneamente, um suspiro interno. Afinal, o que torna alguém chato?

Não existe uma fórmula exata. Ainda assim, dois aspectos costumam estar presentes: a dificuldade de perceber o impacto que se causa nos outros e de estabelecer uma verdadeira conexão afetiva.

A pessoa considerada chata costuma não perceber os sinais da relação. Conta piadas sem notar se alguém riu, repete histórias já conhecidas, insiste nos mesmos assuntos, corrige excessivamente, critica, vigia ou fala longamente sem considerar o interesse de quem a escuta. De certo modo, sua atenção permanece concentrada em si mesma, enquanto o outro vai desaparecendo da cena relacional.

Curiosamente, muitos desses “chatos profissionais” são pessoas gentis, educadas e até afetuosas. Talvez por isso seja tão difícil lidar com eles. Frequentemente sentimos desconforto sem conseguir explicar exatamente a origem desse incômodo.

Entretanto, há ainda uma terceira forma de experimentar esse fenômeno: quando nós mesmos nos tornamos chatos.

Sim, isso acontece com todos nós.

Há momentos em que estamos mais irritados, repetitivos, impacientes ou excessivamente centrados em nossas próprias preocupações. Isso não nos transforma automaticamente em pessoas chatas. O problema surge quando esse modo de funcionamento se torna predominante e persistente, fazendo com que nossa presença seja frequentemente vivida pelos outros como cansativa ou desgastante. Mas como perceber isso?

O primeiro passo é preservar o senso crítico. A simples capacidade de perguntar “Será que estou sendo chato?” já demonstra uma abertura importante para o outro. Observar as reações das pessoas também ajuda. Desinteresse, desconexão, respostas breves ou impaciência podem sinalizar que estamos insistindo em algo que perdeu significado na relação.

Sem dúvida, o antídoto para essa condição é a conexão afetiva. Quando existe troca genuína, curiosidade pelo outro e envolvimento emocional, a conversa ganha vida. O que torna uma interação interessante não é necessariamente o tema abordado, mas a qualidade da presença compartilhada.

Sob essa perspectiva, a chatice talvez possa ser compreendida como uma perda de movimento do sentir. Quando a experiência deixa de circular, quando a curiosidade desaparece e a relação se torna excessivamente repetitiva, surge a sensação de enfado que reconhecemos como chatice.

Entretanto, por mais incômoda que seja, ela possui uma função importante: funciona como um sinal de alerta. Quando a vida perde o brilho, quando nos tornamos excessivamente repetitivos ou quando as relações parecem esvaziadas de vitalidade, algo está nos dizendo que chegou o momento de renovar, transformar ou criar novas possibilidades.

Nesse sentido, a chatice não é apenas um problema. É também um convite ao movimento.

Pode ser a vida que pede renovação. Pode ser uma relação que precisa de novos caminhos. Pode ser a necessidade de voltar a sentir aquilo que se tornou automático.

Quando escutada, a chatice deixa de ser apenas um incômodo e passa a indicar onde a vida está pedindo transformação.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O sentimento de vitimismo

Por Beatriz Breves

Photo by JEFERSON GOMES on Pexels.com

O vitimismo funciona como um abrigo cujas portas e janelas não se abrem para fora, onde a pessoa se esconde de si mesma.

Nesse abrigo, os mantos são vestes pesadas e densas, cujas estampas carregam as cores da injustiça, como se cada tonalidade fosse sobreposta para ocultar as falhas que não se ousa encarar.

Senso de responsabilidade de quem se sente vítima? Esse escorre por entre os dedos. Sem falar que os próprios erros também permanecem em gavetas trancadas a sete chaves.

Na parede, há um quadro em aquarela cuja pintura insiste em mostrar uma dor e um sofrimento sempre mais profundos do que os dos outros.

Em seu idioma particular, sustenta a narrativa de sempre diminuir o outro.  Não por maldade declarada, mas por uma necessidade silenciosa de parecer maior do que acredita poder ser.

Hábil em construir histórias tão bem contadas e tão bem sentidas, por vezes enganam até a própria autora, que, com uma convicção quase teatral, atrai afagos na tentativa de alimentar um vazio que nunca se sacia.

É um sentimento que nasce da insegurança, mas cresce regado por pequenas doses de arrogância. Por vezes, no calor do sofrimento, refresca-se à sombra da inveja; por outras, no frio da solidão, aquece-se no fogo da raiva.

De fato, o vitimismo impõe um grande sofrimento. Uma dor que só pode ser transformada quando, cansada de repetir o mesmo enredo, a pessoa encontra coragem para se olhar sem autopiedade.

E seria nesse instante — frágil, raro e luminoso — que o vitimismo começa a perder força, oferecendo, enfim, uma possibilidade de mudança, para que a pessoa encontre espaço para se assumir e, assim, ser com as qualidades e os defeitos próprios de um ser humano.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O metal e a imagem: a subversão diante do usurpador

Por Caio Luizetto

Moeda
Foto: Nucleo Editorial/Flickr

A célebre máxima “Dai a César o que é de César” foi, ao longo da história, domesticada e transformada em um manual de conformismo político ou obediência fiscal. No entanto, quando se resgata o cenário asfixiante da Judeia no século I, a resposta de Jesus deixa de ser uma saída diplomática e revela uma sofisticação psicológica cortante. 

Sob a ótica do contexto real, César não possuía direito legítimo a nada naquele território; era um usurpador que mantinha um povo sob o jugo da força bruta, do sangue e da pilhagem econômica. A questão levada a Jesus, portanto, jamais foi sobre a moralidade dos impostos, mas sobre algo muito mais complexo: como o indivíduo deve se relacionar com o opressor sem permitir que ele colonize a sua alma.

A inteligência da resposta reside na recusa em jogar o jogo simétrico da força. Ao pedir para ver o denário romano e questionar de quem eram a efígie e a inscrição, o contragolpe expõe uma ironia fina que esvazia o poder do império. 

Devolver a César aquela moeda de metal com o rosto de um homem egocêntrico não era um ato de submissão, mas de desdém soberano. Era como dizer que o grande aparato romano, com toda a sua pompa militar, reduzia-se ao controle de pedaços inúteis de metal. Há uma libertação psicológica em entregar ao usurpador o que é perecível para não ter de lhe entregar o que realmente importa.

O verdadeiro xeque-mate existencial, contudo, repousa na segunda metade da sentença: “…e a Deus o que é de Deus”. Se a moeda carregava a imagem gravada de César e, por isso, pertencia a ele, o ser humano — de acordo com a tradição milenar daquele povo — carregava em si a imagem e semelhança do Criador. O limite da opressão era estabelecido ali. O usurpador poderia tomar as terras, confiscar a colheita, controlar o comércio e ditar as leis civis pela ponta da espada; os corpos poderiam estar sob cativeiro econômico, mas a dignidade, a identidade e o espírito permaneciam invioláveis.

Compreender esse episódio sob esse prisma muda a dinâmica da resistência. Não se trata de passividade diante da tirania, mas de uma recusa absoluta em validar a autoridade moral do opressor. Ao delimitar o que pertencia ao metal e o que pertencia ao sagrado, estabeleceu-se um manual de sobrevivência interior: pode-se entregar o tributo exigido pela força para preservar a vida, desde que se mantenha a mente e o coração sob uma assinatura que nenhum império do mundo é capaz de rasurar.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O espelho oculto da condição humana

Por Caio Luizetto

Há uma sofisticação psicológica brutal na metáfora bíblica da trave no olho que muitas vezes se perde na leitura superficial. Olhado pelo viés literal, o cenário proposto por Jesus é um absurdo físico: como alguém poderia carregar uma viga de madeira na visão e não perceber? A resposta para esse enigma reside em uma lógica existencial profunda: a trave não é um acidente recente, mas um elemento fundacional. Ela se formou com o que se formava na própria estrutura da pessoa. Incorporada à biologia da alma ao longo de uma vida — através de defesas, traumas e convicções —, a trave deixa de ser um objeto para se tornar a própria lente. Não se olha para ela; enxerga-se através dela.

É a partir dessa cegueira integrada que nasce o ímpeto da acusação. Sob essa ótica, o julgamento rígido deixa de ser uma análise moral do outro e passa a ser uma confissão involuntária do acusador. A verdade incômoda é que o acusador e o acusado sofrem exatamente do mesmo mal. O “cisco” que tanto perturba no olho alheio é feito da mesmíssima madeira que sustenta a trave oculta em si mesmo. O erro do outro só é identificado com tanta precisão porque habita, como matéria-prima, o peito de quem o aponta. O tribunal externo é, no fundo, uma tentativa desesperada de desviar os olhos do espelho interno.

Essa dinâmica revela que a humanidade é unida não pela perfeição, mas pela semelhança de suas fraquezas. Todos partilhamos dos mesmos dilemas existenciais: o medo da vulnerabilidade, a busca por controle, as contradições íntimas e as feridas que tentamos camuflar. Não existem lados opostos nessa trincheira; existe uma mesma condição humana lidando com as mesmas complexidades.

Compreender a gênese da trave é o que desmonta a nossa arrogância. Quando se percebe que a viga e o cisco compartilham a mesma essência, o peso de olhar para si desarma o ímpeto de condenar o próximo. O dedo em riste inevitavelmente dá lugar à mão estendida, não por uma concessão moral, mas pelo reconhecimento honesto de que, no grande mosaico da existência, somos todos feitos da mesma argila e desafiados pelos mesmos conflitos.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Não, não posso parar

Por Beatriz Breves

Quantas pessoas, sem perceber, vivem repetindo para si mesmas os versos da canção Mundo Maluco, de David Nasser, Nelsinho e Moacyr Franco: “Não, não posso parar; se paro, eu penso; se penso, eu choro.” A frase, que à primeira vista pode soar apenas como um lamento musical, revela uma verdade profunda sobre a forma como muitos conduzem a própria vida.

Hoje, é cada vez mais comum encontrar quem se mantenha em atividade permanente, ocupando-se, distraindo-se, preenchendo cada minuto, para evitar o encontro consigo mesmo. O movimento constante funciona como uma espécie de anestesia emocional: se não paro, não penso; se não penso, não sinto; se não sinto, não sofro; se não sofro, não choro. É uma lógica compreensível, que cobra um preço alto.

Viver no automático é perder o sabor das experiências, dos encontros, das pausas que dão sentido à vida. É afastar-se de si para não encarar o espelho interno, temendo que, ao olhar para dentro, tudo desmorone. O medo costuma ser o mesmo: “Se eu me permitir sentir, vou ruir. Se eu tocar na minha dor, vou perder quem eu sou.”

O paradoxo, porém, é cruel. Ao fugir do próprio mundo interno, não evitamos o sofrimento, apenas o prolongamos. A fuga constante enfraquece a identidade, desgasta a vitalidade emocional e impede a construção de um senso de si mais sólido e verdadeiro. Aquilo que tentamos evitar é justamente o que se intensifica.

O encontro consigo mesmo pode ser desafiador, mas é também o único caminho para reconstrução, fortalecimento e autenticidade. Parar não significa desabar; significa criar espaço para construir, ou reconstruir, com mais consciência de si mesmo.

Ainda assim, muitos perguntam: “Como posso parar, se sei que não vou aguentar?” Não há uma resposta efetiva para tal questão, pois cada pessoa é única. Mas, com certeza, uma coisa pode ser dita: a força que está sendo utilizada para a fuga de si mesma não é pequena; muito pelo contrário. Essa mesma força, quando redirecionada, consegue sustentar o processo de reconstrução interna. Fugir de si mesmo exige tanto ou mais esforço do que se enfrentar.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Controle acalma e sufoca

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Controle

Mandar é “gostoso”, não é mesmo?! Organizar o que será feito; escolher como será a rotina; decidir como gastar o dinheiro … Ordenar e ser obedecido!

Quando eu comando, tenho a sensação de previsibilidade. Sei o que irá acontecer, me sinto mais confortável e com mais segurança sobre o futuro.

Quando eu comando, tenho a satisfação de conseguir o que quero. Meus desejos são concretizados, os medos são protegidos, me sinto o centro das atenções e protagonista no palco da vida.

O impulso de tentar controlar o comportamento das outras pessoas, definir o que é certo ou errado, justo ou injusto, e influenciar as decisões da família, dos amigos ou da equipe de trabalho é intenso. É daquele tipo de impulso forte e rápido: quando percebemos, ele já chegou.E será que a gente percebe a presença dele?

É difícil não desejar controlar. Provavelmente, quase sempre desejaremos. Seja pela previsibilidade, seja pela satisfação. Seja por tudo isso misturado. 

No entanto, esse desejo — o de controlar — nunca se concretiza plenamente. E, além disso, quando ultrapassa certos limites, invade o espaço e a autonomia do outro.

Me conte: como você se sente quando alguém tenta comandar você, interferir nas suas escolhas, ditar o que deve ou não fazer?

Então… 

Nenhum adulto gosta de sentir-se controlado. A tentativa de controle cheira a ameaça, perigo e sofrimento. Quando nos lembramos disso, entendemos por que o controle, apesar de acalmar nosso desejo de previsibilidade e satisfação, acaba sufocando.

Quando sufoco o outro, perco conexão, companhia e ajuda. E se perco isso tudo, também me sufoco, no isolamento, na  solidão, na angústia.

Desejamos controlar. Ainda assim, o controle raramente nos faz bem.

Fica o convite: que caminho você escolherá seguir, livremente?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando o futebol tenta nos lembrar quem somos

Por Beatriz Breves

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Brasil, pentacampeão mundial!

Pensar a seleção brasileira como um grupo de 26 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela representa. A seleção sempre foi muito maior do que o próprio futebol, pois a cada jogo, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas, 26 jogadores se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.

Quando a bola rola, sem sombra de dúvida, não são somente onze atletas em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada passe, em cada defesa, em cada gol. É cada brasileiro driblando as dificuldades da vida, transformando as frustrações em persistência, buscando, simbolicamente, o gol da esperança.

Mas o Brasil mudou, e o futebol sentiu.

O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da seleção, antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser rejeitado, a ponto de querer modificar a própria cor da camisa. Jogadores são julgados por ideias, não por jogadas. Até a presença de um italiano no comando da seleção brasileira desperta estranhamento — ironia ainda maior com a Itália fora da Copa.

É natural que a política, tão presente no cotidiano, acabe também representada no futebol. O problema é quando essa polarização chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a alegria, diminuindo o brilho da esperança.

Resultado: muitos brasileiros já não sabem os nomes dos convocados, nem a data da estreia, nem o adversário da primeira partida. Quem imaginaria isso algum dia?

Assim, o futebol, que deveria ser um momento de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas as outras áreas da vida nacional. A leveza se perde. A alegria é abafada. A paixão vira disputa. Aquilo que antes unia, agora divide.

O campo reflete a mesma fratura que atravessa o cotidiano dos brasileiros, que reconhecem a divisão política do país, mas ainda encontram dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer, inclusive tentando tirar o brilho e o encanto de ser brasileiro.

Mas o Brasil é Brasil e o Brasil de chuteira não desaparece.

O futebol continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos, especialmente quando consegue fazer desconhecidos se abraçarem na rua, despertar orgulho, emoção e pertencimento. E, ainda, quando mostra ao mundo um país que, mesmo ferido, continua vibrante.

Talvez o desafio seja justamente esse: resgatar o futebol como exemplo de um espaço de encontro, não de conflito; de celebração, não de enfrentamento; de compartilhamento, não de separação, pois somos torcedores de, em média, mil times diferentes, que apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único ideal: o ideal de um Brasil vitorioso, de um povo feliz.

Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue vivo.

E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo, ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil…”.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.