Dez Por Cento Mais: Dr. Fabrício Oliveira discute sexualidade e longevidade sem tabus

Image by Mabel Amber from Pixabay
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“Desejo não envelhece.” A afirmação do Dr. Fabrício Oliveira poderia ser apenas uma provocação retórica se não viesse sustentada por mais de uma década de trabalho clínico com pessoas idosas e pela escuta atenta a histórias muitas vezes silenciadas dentro de casa. No programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, o psicólogo e gerontologista defendeu com firmeza que envelhecer não significa perder vontade, nem identidade.

A entrevista trata de um tema ainda cercado por preconceitos: a sexualidade na maturidade. “As pessoas confundem sexualidade com ato sexual. Sexualidade é afeto, é toque, é desejo, é companheirismo. E isso não tem prazo de validade”, disse Fabrício, que, desde 2010, atua no universo do envelhecimento com foco no bem-estar emocional, psicológico e relacional dos idosos.

“Eu só atendo idosos”

A decisão de se especializar no público idoso nasceu de um encontro entre a sensibilidade clínica e a demanda reprimida. Tudo começou com um trabalho de conclusão de curso que virou referência acadêmica. Depois, veio uma reportagem de televisão que repercutiu de forma inesperada. “Os idosos começaram a me procurar porque se sentiram representados. Eles diziam: ‘doutor, eu tenho vontade de reencontrar o primeiro amor, mas os meus filhos acham isso uma bobagem’”.

Fabrício entendeu que não bastava escutar. Era preciso acolher, orientar e também educar as famílias. Por isso, passou a oferecer atendimento domiciliar. “O idoso vai muito ao médico. Psicólogo? Só se for alguém que vá até ele. No consultório ele não aparece”, explicou. A visita à casa do paciente, segundo ele, abre espaço não só para a escuta terapêutica, mas também para a reorganização do ambiente doméstico — desde a retirada de tapetes até conversas com os filhos que, sem perceber, reforçam o etarismo.

Miss Longevidade e o protagonismo invisível

Se os consultórios ainda são pouco acessados, as passarelas podem ser caminhos de transformação. Foi assim que surgiu o projeto Miss e Mister Longevidade, idealizado por Fabrício em João Pessoa e já realizado em várias cidades da Paraíba. “A mulher passa o ano pensando no vestido. A neta vai à escola e diz: ‘minha avó é Miss’. Isso muda tudo.”

Mais do que promover autoestima, o concurso combate um estigma estrutural: a exclusão social da velhice. “A maior violência contra o idoso no Brasil não é a financeira. É a psicológica”, alertou. E parte dela começa na infância, quando se ouve frases como “cuidado com o velho do saco” ou se vê bruxas velhas como vilãs em contos infantis. Para ele, mudar isso exige uma presença ativa: “O idoso precisa ser protagonista. Quando ele afirma sua identidade, a família pensa duas vezes antes de zombar da idade ou fazer comentários discriminatórios”.

A velhice como escolha de vida

Perguntado sobre o que espera da própria velhice, Fabrício respondeu sem rodeios: “Eu não quero ser um velho cheio de manias. Mania afasta. Eu quero ser o velho legal, que abre a casa para os amigos, que está de boa”. Ele aposta na leveza como estratégia de convivência e qualidade de vida. E reforça: “Envelhecer é natural. O que não é natural é se isolar, deixar de viver, parar de amar”.

Ao fim da conversa, deixa uma sugestão simples, mas poderosa: “Acorde, olhe no espelho e diga: hoje eu envelheci mais um dia. E que bom que estou vivo”. Para ele, aceitar o processo com naturalidade e presença é a chave para viver bem — e melhor — os anos que virão.

Assista ao Dez Por Cento Mais

A entrevista completa está no canal Dez Por Cento Mais, que você assiste no YouTube. Inscreva-se no canal e receba as atualizações sempre que um episódio inédito for ao ar. Você também pode ouvir o programa em podcast, no Spotify. 

Uma chave para o amor

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de George Becker

“Quando uma porta se fecha, outra se abre;

mas frequentemente olhamos por tanto tempo

 e com tanto pesar para a porta fechada

que não vemos aquelas que foram abertas para nós.”

(frase atribuída a Alexandre Graham Bell)

Ela desceu as escadas apressada, com uma das chaves em mãos, acreditando que era a certa. Um sábado à noite frio em Paris. O lixo para fora, uma tarefa simples. Mas, ao voltar, o susto: a chave que tinha levado era do trabalho. A porta de casa continuava trancada. O celular? Lá dentro.

Por alguns minutos, Olívia ficou paralisada no corredor. Pensou nas opções. Ela recentemente havia trocado sua fechadura para mais segurança, e um chaveiro, a essa altura, seria financeiramente inviável. Tentou lembrar o número de alguém. Só vinha à cabeça o contato da mãe, o mais óbvio, o mais seguro. Ligou de um telefone emprestado pelos vizinhos. A mãe, do Brasil, tentou contato com o ex-marido de Olívia, que ainda tinha uma cópia da chave. Nenhuma resposta.

Enquanto isso, os vizinhos, um casal de idosos, ofereciam café, cobertores e preparavam uma cama para ela passar a noite.

A mãe, de longe, mobilizou pessoas nas redes sociais, amigos de Olívia que poderiam ajudar para que a mensagem chegasse à sua faxineira, que também tinha uma cópia da chave. Apesar de ser tarde, a faxineira, com muita boa vontade, cruzou a cidade de metrô para ajudá-la. Sim, de metrô, porque julgou que chamar um transporte particular, além de mais demorado, sairia muito custoso para Olívia.

Já era quase meia-noite, depois de horas de espera, a chegada da chave permitiu que a porta fosse, finalmente, aberta.

E ali, sentada no sofá da sala, com o casaco que permanecia nos ombros e os olhos ainda levemente marejados, Olívia percebeu, ao contrário do que mais ruminara em sua mente nas últimas semanas: ela não estava sozinha.

Essa história poderia retratar uma cena de filme, daquelas em que, no final, a personagem aprende algo importante sobre a vida. Mas não. Essa história aconteceu na vida real.

Olívia vinha há meses se questionando sobre uma reconciliação com o ex-marido. Mesmo com o silêncio dele. Mesmo com a falta de cuidado. Mesmo com os sinais claros de que ele não estaria interessado nessa volta.

Uma cena que, no fundo, é familiar a muita gente.

“Por que “aceitar o pouco”? Por que insistir em quem não demonstra querer estar?

Pelo medo. O medo de ficar só, de não ser suficiente para ser amado.

Muitas histórias de vida guardam aprendizagens de um amor condicionado, onde se aprende, muito precocemente, que é necessário fazer muito para receber pouco. Que é necessário provar valor para não ser deixado. Que o amor é escassez e precisa de muito esforço para ser retribuído.

A Teoria do Apego, proposta por John Bowlby, destaca o quanto os vínculos afetivos, especialmente na infância, são fundamentais para o desenvolvimento emocional e social de uma pessoa. Quando crescemos com figuras de cuidado imprevisíveis, distantes ou negligentes, podemos desenvolver um padrão de apego ansioso — aquele que teme o abandono a qualquer custo. Um padrão que se antecipa à rejeição e se adapta demais, mesmo que isso custe o próprio bem-estar.

Embora muitas crenças sobre desamor se desenvolvam ainda na infância, a partir da forma como a criança vivencia os vínculos com seus cuidadores, elas também podem surgir ou se fortalecer em fases posteriores da vida, como na adolescência ou na idade adulta. Situações como rejeições amorosas, exclusões em grupos de amizade, relações abusivas, vivências de abandono ou mesmo relações familiares difíceis podem fazer com que a pessoa passe a acreditar que não é digna de amor ou que, cedo ou tarde, será deixada de lado. Quanto mais repetitivas ou emocionalmente intensas essas situações forem, maior a chance de a pessoa internalizar a ideia de que não merece ser amada, o que pode influenciar seus comportamentos futuros: seja evitando se envolver com medo de sofrer, seja buscando de forma ansiosa a aprovação e o afeto dos outros.

O problema é que na tentativa de evitar a solidão, muitas pessoas entram num ciclo de supercompensação: fazem demais, aceitam demais e, com o tempo, se sentem cada vez menos amadas. Isso reforça um padrão de pressupostos disfuncionais pautado na crença de desamor: “Eu só serei amada se eu for útil. Se eu não der trabalho. Se eu for perfeita e me sacrificar para fazer tudo para o outro.”

Mas naquela noite, Olívia viveu uma experiência diferente.

Ela não precisou fazer nada. Não precisou agradar, se explicar ou se esforçar além da conta. Apenas existiu. E, mesmo assim, pessoas se moveram, ajudaram, cuidaram. Gente que não tinha obrigação nenhuma, mas escolheu se fazer presente.

Exatamente quando tudo parecia sair do controle, a vida veio e trouxe pequenos sinais, mostrando que há caminhos mais leves, vínculos mais honestos, encontros que aquecem sem ferir.

E assim, enquanto finalmente se acomodava no sofá, ainda de casaco e com os olhos marejados, Olivia entendeu: estar sozinha não é o oposto de ser amada. Há portas que se fecham — algumas com estrondo, outras em silêncio — mas há também aquelas que se abrem quando menos esperamos. Entre cobertores emprestados, telefonemas solidários e o cuidado espontâneo de quem escolheu estar ali, a vida mostrou que o afeto verdadeiro não é fruto de um esforço solitário, mas de uma disposição mútua, de pessoas que escolhem se encontrar e permanecer. Já não se tratava mais da porta que havia se fechado, mas das outras que, sutilmente, estavam se abrindo bem diante dela.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Parece, mas não é

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Parece, mas não é

A comida parece gostosa, mas não é. A bolsa parece da marca X, mas não é. O casamento parece muito feliz, mas não é.

Parecer é o verbo do momento. Parecer é a moeda de troca do mundo contemporâneo.

Parecer bem sucedido, bonito, bom, legal, interessante… já basta. Aliás, é o que importa.

Se é real mesmo, se é verdadeiro mesmo… que diferença faz? Se parece, é. Aos olhos do julgamento atual, a imagem que você passa e a narrativa que você transmite serão seu valor na sociedade.

“Olha, ela parece tão feliz!”; “Olha, ele mostrando o sucesso dele!”. Pronto, o rótulo já existe, o posto foi conquistado.

Castelo de cartas. Um sopro e tudo cai. Difícil viver criando e sustentando uma vida que não existe no mundo real. Preocupação com cada foto, roupa, imagem, atitude… Hipervigilância, tensão constante, necessidade de se provar e se reafirmar.

Receber elogios é mesmo muito prazeroso. A reflexão aqui é: qual o preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos, aplaudidos, “valorizados”?

Aguentamos viver uma vida falsa, trabalhosa de ser construída e mantida? Aguentamos viver em constante ansiedade e apreensão?

O vazio de parecer sem ser… Nem todos os elogios do universo preenchem.

Não ser verdadeiro consigo mesmo e sustentar máscaras custa caro, muito caro. Vamos nos deixar sequestrar ou vamos nos resgatar desse caos?

Parece inimaginável, mas não é. Basta ter coragem de ser. Sem vazios, cheio de si mesmo.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando tudo não cabe no mesmo dia

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Dá tempo?

Tem que caber – dizem.

Em uma vida adulta “saudável”, tem que caber trabalho, atualização profissional, controle do orçamento, organização da rotina da casa, convivência – com qualidade – com a família, alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, momentos de lazer e… sono, de 7 a 8 horas por noite.

Tem que caber em um dia. Em vários dias. Em todas as semanas, ao longo do mês. Como fazer? Dá tempo?

Vamos começar do fim desse caminho. Reflita comigo: onde você quer chegar? Nessa fase da sua vida, o que tem bastante valor para você? Algumas opções para te ajudar a pensar: destacar-se no trabalho para melhorar o cargo e o salário; organizar a vida financeira para juntar dinheiro para um projeto específico; cuidar mais da saúde física, com exercícios e alimentação; estar mais tempo com a família – envolvendo-se em atividades que conectem vocês…

Precisamos escolher. A vida – de todos, mas especialmente dos adultos – é feita de perdas. Precisamos saber perder, porque será necessário perder. E, se aprendermos a soltar, sobrarão espaço e tempo para o que de fato importa. Para o que mais tem valor no momento.

Desistamos da ilusão do “tem que caber”, “preciso achar tempo pra tudo isso”. Não dá tempo para tudo. Mas dá tempo para o essencial. Para o que é o grande destino dessa fase da sua vida!

Então, antes de sair, anote: onde você quer chegar? Escolha seu grande destino de agora. Organize seus dias, suas semanas, suas prioridades e suas decisões com o olhar nessa direção.

Saboreie o ato de concretizar seus desejos. Não se prenda à fantasia da super produtividade. À armadilha de que tudo caberá.

Liberte-se ao focar naquilo que importa. Para isso, sim, dá tempo!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Como acordar?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de cottonbro studio

Abrir os olhos pela manhã, sair da cama, tomar café, escovar os dentes… Pronto: muito simples acordar!

Mas quem nos garante que acordamos?

Acordar, para a medicina, é estar vigil, em estado de alerta. Acordar é estar consciente, conectado aos seus pensamentos e sentimentos e ao mundo fora. Parece bastante complexo, não?

Então, será que, todas as manhãs e ao longo dos dias, estamos mesmo acordados?

Vivemos tempos em que tudo nos distrai: redes sociais, site de notícias, troca de mensagens, memórias negativas, preocupações catastróficas, medo, insegurança…

É, estamos, de alguma forma, alertas. A questão é: para onde estamos olhando?

Toda essa distração tem nos sequestrado das nossas próprias vidas. Comemos sem perceber – “Nossa, já acabou o prato?”; falamos sem pensar – “Por que fui falar isso?”; gastamos dinheiro no impulso – “Só porque estava em promoção…”. Não estamos acordados, vamos nos permitindo ser arrastados.

Quando piscamos, o tempo passou. Quando piscamos, já perdemos momentos especiais, pessoas importantes – já perdemos vida. Lutamos tanto para termos coisas e para sermos reconhecidos e amados… e nem mesmo conseguimos ficar acordados e escolher como viver.

Olha para sua última semana e pensa aqui comigo: você esteve consciente do que sentiu, pensou, fez? Você realmente fez escolhas e executou seus planos com clareza de consciência? Você esteve acordado?

Ainda é tempo. A cada dia, ao abrirmos os olhos, podemos escolher acordar.

Desperte. Sinta a vida acontecer aí dentro de você e venha para o mundo aqui fora, atento – conectado àquilo que realmente importa.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O susto e a raiva

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Pixabay

Existe algo que tem um poder enorme sobre nós, seres humanos: o erro. Vindo de nós mesmos, nos assusta: “Como pude fazer isso?” e nos gera raiva: “Que ódio de mim!” Quando o erro vem dos outros, a intensidade pode modificar – pra cima ou pra baixo – mas eles brotam e incomodam.

Por que o erro nos bagunça tanto?

Um ponto a considerar: o erro nos deixa vulneráveis. Ele mostra que a vida é imprevisível, que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. Verdade dura, realista, mas que insistimos em fingir que não está ali – tanto que temos a ilusão do controle: “Se eu fizer tudo certo, ficará tudo bem”.

Outro ponto: o erro, quando é nosso, nos envergonha, mostra nossos defeitos. Errar é evidência clara e inquestionável da nossa imperfeição. E querer ser perfeito é um desejo que nunca acaba, em nenhum de nós – porque o perfeito é prazeroso, agradável, admirado e amado – quem não quer isso pra si? Então, lutamos pra não errar porque lutamos pra atingir esse lugar ideal – pensa só: um esforço enorme, uma vergonha profunda… pra chegar em um lugar que nem existe. Será que vale a pena?

E quando o erro é do outro? “Provocação, só pode. Como a pessoa ousa fazer isso?” Ah… a autorreferência. Esse nosso hábito de achar que é tudo sobre nós, para nos atingir ou incomodar… Então, parece uma afronta quando alguém erra e nos prejudica. Às vezes, pode até ser. E, muitas vezes, é só a pessoa existindo mesmo. Vamos pensar: já que todo mundo, mais cedo ou mais tarde, vai errar, será que não é mais libertador abandonar essa ideia de que é “contra a gente”? Porque essa tal autorreferência faz as consequências do erro serem ainda maiores – porque transbordam em mágoa.

Fantasia pensar que o susto e a raiva nos deixarão em paz sempre que erros ocorrerem. Em algum nível, eles estarão ali. O convite é: perceber e soltar. Fazer o erro ficar mais leve, para a gente mesmo e para os outros… isso sim está ao nosso alcance.

O susto e a raiva podem se transformar em aprendizado e recomeço. Bem mais agradável, não é?! Escolhamos o caminho da leveza!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia.

Por que somos tão duros conosco? A resposta pode surpreender

Muitas vezes, somos os nossos maiores juízes, impondo padrões rígidos e cobrando de nós mesmos uma perfeição inatingível. Mas será que essa postura nos leva a uma vida mais equilibrada? Esse foi o tema central da conversa entre a jornalista e psicóloga Abigail Costa e a psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian no canal “Dez Por Cento Mais”. Durante a entrevista, Carol discutiu como a autocompaixão pode transformar nossa relação com as dificuldades e contribuir para uma vida mais leve e equilibrada.

O início de um novo ano costuma ser marcado por listas de resoluções e metas, muitas vezes carregadas de cobranças e pressão social. Carol destacou que antes de se perguntar “o que eu quero fazer?”, muitas pessoas se questionam “o que eu devo fazer?”. Esse senso de obrigação está diretamente ligado ao superego, uma instância da mente que age como um juiz interno, baseando-se nas expectativas externas e na moral social.

O resultado desse processo pode ser um acúmulo de cobranças que tornam as metas mais angustiante do que motivadoras. “Ao nos perguntarmos ‘por que eu quero isso?’, conseguimos perceber o quanto nossas escolhas podem estar sendo influenciadas por padrões externos e não por nossos reais desejos”, explicou a psicanalista.

Durante a conversa, foi abordado o conceito do “Quitter’s Day” (Dia dos Desistentes), observado nos Estados Unidos na segunda sexta-feira de janeiro. Essa data marca o momento em que um grande número de pessoas abandona as metas traçadas para o ano. Para Carol, essa desistência não deve ser vista como um fracasso, mas como uma oportunidade de reavaliação. “Desistir também pode ser um convite à reflexão: por que ainda quero isso? Essa meta ainda faz sentido para mim?”, questionou.

Um dos pontos centrais da discussão foi a tendência humana de tentar controlar todas as variáveis da vida. Carol explicou que muitas vezes nos culpamos por situações além do nosso controle como uma forma de evitar a angústia da imprevisibilidade. “Nosso desejo de controle é uma ilusão que nos aprisiona em um ciclo de ansiedade e frustração”, afirmou.

Autocompaixão e a relação com a autoestima

Para exercitar a autocompaixão, a psicanalista sugeriu um exercício simples: anotar as autocríticas que fazemos ao longo do dia e imaginar como falaríamos com um amigo que estivesse passando pela mesma situação. “Muitas vezes somos duros conosco de uma forma que jamais seríamos com alguém que amamos”, destacou.

Uma das diferenças fundamentais entre autocompaixão e autoestima está na forma como enxergamos nossas emoções. Enquanto a autoestima se baseia na ideia de “se valorizar”, muitas vezes comparando-se a padrões externos, a autocompaixão convida à “validação” do que sentimos, sem juízo de valor.

“Quando validamos nossas emoções, paramos de pedir permissão para sentir”, afirmou Carol. Isso significa que, em vez de se questionar “eu deveria sentir isso?”, a abordagem mais saudável é reconhecer e investigar a origem desse sentimento.

Ao tratar da influência das redes sociais na forma como nos percebemos, Carol disse que “seguimos pessoas que projetam vidas perfeitas e, sem perceber, nos comparamos e nos sentimos insuficientes”. Uma estratégia sugerida para reduzir essa influência negativa é revisar os perfis seguidos, priorizando conteúdos mais realistas e condizentes com a própria realidade.

Além disso, a psicanalista reforçou a importância de cercar-se de pessoas que compartilhem um olhar mais humano e acolhedor. “A autocompaixão não se desenvolve no isolamento. Precisamos de relações que nos validem e nos ajudem a enxergar nossa própria humanidade”, concluiu.

Pratique a autocompaixão no dia a dia

Para quem deseja exercitar a autocompaixão, Carol Tilkian sugeriu três práticas simples:

  1. Revisar o diálogo interno: Observar como falamos conosco mesmos e substituir autocríticas severas por frases mais acolhedoras.
  2. Aceitar a imperfeição: Compreender que errar e falhar fazem parte da experiência humana e não definem nosso valor.
  3. Buscar apoio: Conversar com amigos e profissionais de saúde mental para compartilhar emoções e reduzir a autocrítica.

Assista ao Dez Por Cento Mais

Esse episódio do “Dez Por Cento Mais” trouxe reflexões valiosas sobre a necessidade de tratarmos a nós mesmos com a mesma gentileza que oferecemos aos outros. Em uma sociedade que frequentemente exige produtividade e perfeição, a autocompaixão se mostra uma ferramenta essencial para lidar com desafios, acolher medos e viver de maneira mais leve e autêntica.

O “Dez Por Cento Mais” é apresentado, ao vivo, quinzenalmente, às quartas-feiras, a partir das 12h, no YouTube.

Você serve?

Dr Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Anna Shvets

Serviço – quando pensamos nessa palavra, rapidamente nos vem uma ideia de trabalho, esforço… até mesmo um certo sofrimento, não é?!

De fato, uma das definições formais de serviço é: exercício e desempenho de qualquer atividade.

Há outra definição possível: ação de dar de si algo em forma de trabalho.

Dar de si. Que conceito profundo. Quando servimos, estamos utilizando recursos próprios – energia, tempo de vida, ideias, criatividade, sentimentos, movimentos – para produzir algo e entregar ao mundo.

Servir tem esse quê de fazer pelo outro, sair de si em nome de outra pessoa ou de uma causa. É um ato que nos demanda generosidade, olhar para fora com interesse de entender como podemos ajudar.

Vamos para o outro lado dessa história – quando somos servidos por alguém, qual é a sensação? Para mim, parece tão bom: cuidado, atenção, consideração, afeto, respeito… Muitos sentimentos positivos me inundam quando alguém faz algo para me auxiliar.

Assim, podemos pensar que servir é um ato nobre, porque brotam dele diversas sensações que nos dão felicidade e esperança na humanidade e na vida.

Será que nós atentamos, no nosso dia a dia, para essa nossa função de servir aos outros? Será que entendemos o impacto positivo grandioso que podemos gerar com pequenos ou grandes atos de serviço?

Um sorriso, uma oferta de um café, uma pergunta: “Como posso te ajudar?”… Um momento de escuta cuidadosa, um pouco mais de paciência com aquela pessoa que está em um dia ruim…

Oportunidades de servir não faltam. Óbvio que queremos ser servidos, cuidados e que possamos perceber quando isso acontecer – que possamos notar para saborear esses presentes que recebemos! No entanto, não há como a conta fechar se nós, cada um de nós, não se dispuser a servir também.

O plano de melhoria geral do convívio social é esse: vamos caminhar pela vida buscando chances de bem servir? O mínimo que conseguirmos já ajudará a alguém… E esse alguém poderá passar o gesto para frente…

Ser útil é um bom sentido para atribuirmos à nossa vida. Não precisa ser o tempo todo, nem para todo mundo; não é para ser percebido como um peso ou uma obrigação. Servir como uma escolha de bem viver, de melhor viver…

Então… vamos servir?!

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Por que escolhemos acreditar?

Dr Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Por que escolhemos acreditar?

Porque precisamos.

Acreditar é pensar que é possível, visualizar uma melhora, sentir esperança.

Quando acreditamos: tentamos estudar para evoluir na carreira; tentamos mudar a forma de trabalhar para conseguir mais retorno financeiro; tentamos desenvolver qualidades como disciplina e coragem para vencer nosso comodismo e nossos medos.

Para a vida ser construída, é necessário refletir, desejar algo, planejar o caminho até lá e executar. Percebe que é necessário muito movimento?

Então, escolhemos acreditar porque é isso que nos faz seguir em frente. Venhamos e convenhamos, não é nada fácil aguentar frustrações, fazer esforço, abrir mão de sombra, descanso, prazer…  Se não temos um motivo pelo qual tolerar isso tudo, dia a dia, empacamos. E quando empacamos, vai só ladeira abaixo.

Então, diga para mim: você tem selecionado com cuidado e intenção aquilo em que você acredita? Em quem você se espelha como referência? Que tipos de planos você constrói? Quais são os sonhos que enchem seus olhos de brilho?

Você acredita no que TE importa ou você compra as crenças da família, dos amigos que parecem bem-sucedidos, da sociedade?

Perceba que escolher acreditar e selecionar em que e em quem acreditar é a força motriz dos seus passos pela vida. Você pode não perceber, mas isso está moldando seu presente e seu futuro.

Já que precisamos acreditar (por uma questão de sobrevivência, inclusive), reflita bem sobre o que tem te movido. Para muito além de escolher acreditar, escolha concretizar um legado que seja seu – e que seja agradável de vivenciar, no hoje e no amanhã.

Escolha acreditar em ser, genuinamente, você.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Como começar o ano novo: reflexões com Rossandro Klinjey

Hoje, 1º de janeiro, inauguramos um novo ciclo no calendário e, com ele, a oportunidade de refletir sobre o que esse marco realmente significa para cada um de nós. Aproveitando a chegada recente ao Jornal da CBN de Rossandro Klinjey, psicólogo e agora parceiro no quadro Refletir para Viver, o convidei para uma conversa mais profunda sobre como iniciar o ano com leveza e acolhimento, além da necessidade de termos um olhar mais atento para dentro de si. Como era de se esperar, Rossandro nos permitiu uma entrevista de altíssima qualidade e rica em ensinamentos.

Ao abrir o diálogo, perguntei a Rossandro sobre o que representa o começo de um novo ano. Ele destacou que, embora o “arquétipo do novo ciclo” seja poderoso, nem sempre nossas emoções acompanham a virada do calendário. Muitas vezes, carregamos pendências emocionais e práticas de anos anteriores, o que pode gerar uma sensação equivocada de incompetência.

“A concretização de certas metas exige tempo”, explicou ele, “assim como um projeto de vida, como se tornar jornalista ou psicólogo, é fruto de anos de dedicação. Plantamos em alguns anos para colher em outros.” Essa reflexão nos desafia a adotar uma postura mais acolhedora consigo mesmos, reconhecendo o valor das pequenas conquistas e não permitindo que metas não cumpridas minem nossa autoestima.

A pressão social e a busca por autenticidade

Lembrei durante a entrevista sobre a pressão social que nos impulsiona a entrar no ano com todas as metas definidas e resolvidas. Em um mundo saturado por “receitas prontas” — como as que vemos nas redes sociais —, Rossandro nos convidou a pausar e ouvir mais o nosso interior.

“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro, acorda”, citou ele, parafraseando Carl Gustav Jung. Ao priorizarmos o que é relevante para nós, em vez de seguir a onda do que é “moda”, conseguimos criar metas mais autênticas e alcançáveis.

Embora o foco em si mesmo seja essencial, Rossandro destacou o papel vital das relações humanas no recomeço de um ano. Somos seres gregários, disse ele, e a conexão com os outros nos ajuda a construir uma vida mais equilibrada. No entanto, é crucial saber com quem nos conectamos. Ele sugeriu que, assim como deixávamos os sapatos na porta durante a pandemia, talvez seja hora de “deixar para fora” de casa relações tóxicas ou ideias que não fazem mais sentido.

“Reaproximar-se de pessoas que nos fazem bem é essencial”, afirmou ele. Seja nutrindo amizades antigas ou estabelecendo limites claros em relações desgastantes, cultivar boas conexões é um passo fundamental para o bem-estar mental.

A importância do autocuidado e da paz interior

“A paz do mundo começa em mim”, disse Rossandro, ecoando a letra de uma música de Nando Cordel. Ele nos lembrou que, em um cenário turbulento, onde temos pouco controle sobre as transformações externas, cuidar da nossa saúde mental e emocional é uma prioridade. Ao investir em nosso mundo interno, criamos uma base mais sólida para enfrentar os desafios inevitáveis que o ano trará.

Encerramos a conversa com um olhar otimista, e realista. Rossandro destacou que o desejo de um “Feliz Ano Novo” não significa a ausência de dificuldades, mas sim a capacidade de enfrentá-las com coragem e resiliência.

Que possamos, como ele disse, usar este começo de ano para refletir sobre nossas próprias metas, fortalecer nossas relações e acolher nossas emoções. Assim, estaremos mais preparados para aproveitar o que 2025 nos reserva — com serenidade, coragem e, acima de tudo, autenticidade.

Ouça a entrevista com Rossandro Klinjey