A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano

Por Beatriz Breves

Foto de Pixabay on Pexels.com

Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.

Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.

Os sonhos no encontro entre psique e energia

A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.

Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.

Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.

O ponto cego da neurociência tradicional

A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.

A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.

Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.

O gato, a incerteza e a experiência psíquica

Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.

Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.

Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.

Continuar lendo

Dez Por Cento Mais: psiquiatra Maria Carol Pinheiro pede atenção para o “corpo que para” com a mente em alerta

“Saúde mental não é sobre estar feliz, é sobre estar inteiro.”

Maria Carol Pinheiro, psiquiatra

Janeiro costuma ser vendido como recomeço, lista de metas e agenda em branco. Para muita gente, ele chega com outro pacote: exaustão. O corpo desacelera, o calendário vira a página, e a cabeça continua correndo, como se não tivesse recebido o aviso de que o ano mudou. Esse descompasso — entre o que a gente faz e o que a gente sente — é o centro da conversa com a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carol Pinheiro no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Maria Carol propõe uma pergunta simples, que costuma desorganizar certezas: quando falamos de saúde mental, o que separa “estar saudável” de “estar doente”? Para ela, o ponto de virada não está na ausência de tristeza ou angústia, e sim na liberdade. “Se eu posso escolher, isso é saudável. Agora, se eu estou aprisionado, se eu não consigo escolher, aí seria o adoecimento”, afirma.

A ideia contraria uma fantasia comum: a de que saúde mental seria viver sem oscilações. Na prática clínica, ela diz encontrar o oposto. “Eu já conheci pessoas que não têm angústia, que não encostam na tristeza… Essas pessoas não têm saúde mental.” Na visão dela, a vida psíquica inclui sentir e atravessar emoções — sem paralisar nelas.

Quando a dor faz parte da saúde

A psiquiatra chama atenção para um erro frequente: tratar sofrimento como sinônimo de doença. “Às vezes a gente está passando por períodos de sofrimento que nos tornam mais nós mesmos.” O problema, para ela, é a interrupção do movimento interno: “O adoecimento é a paralisação disso.”

É nesse ponto que Maria Carol critica a pressa em etiquetar sentimentos. Ela defende que o primeiro passo não é colecionar diagnósticos, e sim perceber o básico: “A gente precisa fazer dois diagnósticos: tudo vai bem comigo; algo não vai bem comigo. É isso que importa.” O nome técnico, se for necessário, entra depois — com acompanhamento profissional.

Ao falar do excesso de informação (especialmente nas redes), ela descreve um tempo em que “estamos adoecidos do tempo” e resume a consequência: “A gente tem desaprendido de descansar.” Descansar, para ela, não é só dormir. Existem cansaços diferentes: “cansaço social”, “cansaço sensorial”, “cansaço mental”, “cansaço emocional”, “cansaço criativo” e “cansaço espiritual”. A chave prática, ela diz, é observar funcionalidade e recuperação: “Quando eu descanso, passa? Eu realmente consigo descansar e passar?”

A conversa também toca numa confusão atual: o impulso de anestesiar o que dói — e, com isso, perder algo importante do próprio viver. Maria Carol lembra que “tirar a dor é tirar a vida” e cita uma medida simples para checar exageros: “Fique atento a tudo aquilo que é desproporcional ao tempo presente.” Quando a reação é grande demais para o fato de agora, pode haver “emoção de outro tempo” pedindo investigação.

No fim, ela amarra janeiro a uma metáfora antiga: Janus, o deus romano de duas faces, olhando passado e futuro. A ideia é direta: recomeço sem revisão vira repetição. E a revisão, segundo ela, passa por uma espécie de liderança interna — disciplina sem brutalidade. “Não existe liberdade sem disciplina”, afirma. E cita Kant: “Liberdade é também fazer o que não se quer.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify..

Com que roupa eu vou?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Alexey Demidov

Apresentação importante no trabalho, festa de aniversário de um conhecido, evento social de um parceiro profissional, jantar com um amigo e amigos do amigo… A gente se pergunta: “Com que roupa eu vou?”

Existe normalmente uma preocupação, um cuidado com nossa aparência em situações sociais. Ideias como: “O que esse momento pede: vou mais formal ou mais casual? Como será que os outros estarão vestidos? Quero me destacar… ou passar despercebida?” pipocam na nossa mente, por esse desejo de agradar, de não errar, de ser aceita e bem-vista.

E como é desafiador, não? Ambientes diferentes, pessoas desconhecidas, expectativas não muito claras — são inúmeros os gatilhos que geram ansiedade e insegurança. A mente funciona “a mil”, querendo rastrear todos os riscos e todas as necessidades em poucos minutos e montar a estratégia perfeita! Pensamos juntos o quanto isso é exaustivo?

Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e pessoas diferentes para agradar… Combinação desastrosa, fadada a nos levar à frustração e à exaustão. Como gerenciar tantas demandas sendo uma pessoa só, para “dar conta” de tudo isso?

Vem aqui o convite: e se formos, de verdade, “uma pessoa só” ?! 

Explico — e se escolhermos parar, perceber nossas características, definir nosso estilo (de vestir, agir, reagir, conduzir as relações e a vida) e, então, sair pelos eventos e pelo mundo sendo a pessoa que somos?

A tal autenticidade, tão famosa e pseudo-estimulada, é essa coragem de bancar quem somos e sustentar esse padrão único nas diversas situações. É definir como nos apresentar aos outros a partir do que temos dentro de nós, com a tranquilidade de estarmos sendo nossa melhor essência (nada perfeita, porém verdadeiramente nossa). 

Cheiro de liberdade no ar. Redução das múltiplas dúvidas e inseguranças. 

“Com que roupa eu vou?” — vou vestida de mim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Eu sou um cara da p****!


Diego Felix Miguel

Foto de Mo Eid no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Por favor, não me julgue precipitadamente por conta do título que escolhi para este texto. Na verdade, utilizei essa frase porque foi ela que marcou o exato momento em que recobrei minha autonomia após um longo período deprimido.

Eu estava assistindo à televisão à noite, pouco antes de dormir, como costumo fazer corriqueiramente. Não consigo lembrar exatamente o que estava assistindo, porque também uso a programação fútil para pensar sobre a vida até o sono chegar.

Naquela noite, porém, eu estava em outro momento da minha saúde mental, “enxergando sem meus óculos escuros” e analisando com mais profundidade a minha trajetória: de onde vim, o caminho que percorri, onde estou e para que direção estou caminhando.

Foi nesse momento de intensa reflexão que, como num grito que brotou da minha alma, surgiu o título que nomeia este texto.

Realmente me senti assim, como se cada poro da minha pele exalasse essa euforia que brotou da leitura das minhas conquistas — e não falo aqui apenas das conquistas materiais. Aliás, essas nem sempre representam um aspecto relevante para nomear nossas vitórias.

Falo do caminho que trilhei diante dos preconceitos e discriminações que sofri na infância e na adolescência; das violências coniventes em ambientes que, teoricamente, deveriam me proporcionar segurança e proteção, como a família sanguínea, a escola e os ambientes religiosos… Lugares que considero essenciais nessa fase da vida.

Lembro-me do primeiro emprego, dos cursos subsidiados por políticas públicas que me propiciaram uma profissão e da universidade que cursei. Por incrível que pareça, a academia também foi um ambiente hostil — não por conta dos meus colegas, mas por alguns poucos professores que reforçavam em seus discursos que “viado não seria ninguém na vida”.

Tenho amigos desse período que trouxe comigo até hoje e puderam ver de perto — e vibrar com — minhas conquistas acadêmicas, profissionais, materiais e, principalmente, pessoais: da pessoa que me tornei.

Em um mundo de trabalho competitivo, onde as relações de poder sempre nos desafiam, quando não queremos jogar esse jogo de vaidades, somos subestimados e inferiorizados. Sob essa pressão, a sensação de ser uma farsa ou uma pessoa intelectualmente desonesta fere nossa essência e reforça o lugar que alimenta a depressão, sabotando nossa autopercepção.

É nesse ponto que a reflexão se aprofunda. Chegar aos quarenta anos estudando os processos socioculturais do envelhecimento não é uma tarefa fácil. A nossa autonomia — um dos aspectos mais preciosos para um envelhecimento ativo — é frequentemente ferida e sabotada pelas vaidades alheias e pela insegurança que coloca em xeque quem realmente somos.

Felizmente, o autocuidado me proporcionou uma leitura mais distanciada desse momento. O tratamento medicamentoso, o acompanhamento nutricional e a atividade física foram essenciais para essa catarse.

Talvez não seja o caminho para todas as pessoas, mas, sem dúvida, existem muitas outras possibilidades que podem proporcionar essa mesma oportunidade.

É impressionante como os aspectos biopsicossociais, que tanto estudamos na Gerontologia, são perceptíveis na prática. Na vivência. Agora entendo o poder envolvente dos discursos das minhas professoras idosas: elas falam de ciência por meio de suas vivências pessoais. Um laboratório vivo. Que privilégio o meu ter essa consciência e honrar cada oportunidade que vivencio junto a elas.

Envelhecer não é fácil, ainda mais para pessoas que sofrem o impacto da desigualdade social, da iniquidade de acesso e da exclusão. Por isso, estou longe de generalizar. Ao falar da minha experiência, pretendo que, minimamente, possamos refletir:

O que cabe a nós?

Será que podemos representar e inspirar oportunidades para que todas as pessoas tenham vivências plenas? Acredito que sim. Ao recuperar minha voz e minha autonomia, meu papel é ser esse laboratório vivo. Utilizar a ciência da gerontologia e a minha história — do cara que superou o que disseram que ele seria — como ferramentas para que a luta por equidade e oportunidade continue a florescer.

Não pretendo aqui depositar mais responsabilidades sobre as pessoas que sofrem com a desigualdade; afinal, essa virada de chave não depende apenas delas.

Quais políticas públicas precisamos alcançar? Como os movimentos ativistas podem incorporar a longevidade em suas pautas?

Vamos conversar sobre isso?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Ninguém entende

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Você escolheu mudar — de casa, cidade, emprego, relacionamento, aparência.
Você emagrece — está demais; você engorda — precisa se controlar.
Quer outra carreira — está enlouquecendo? Vai desperdiçar tudo o que já fez?
Decide dizer não para uma relação — está pensando o quê, que encontrará algo melhor?

Há coisas que ninguém entende. Decisões que ninguém apoia. Atitudes extremamente solitárias.

Pessoas têm seus temperamentos, traumas de vida, experiências prévias — e, a partir desse baú todo, constroem opiniões e conceitos, inclusive sobre “o que é certo e errado”.

Quando se forma um grupo de pessoas que convivem em um espaço, chamamos de sociedade. Surgem opiniões e conceitos do grupo — as regras sociais.

Carrinho de bate-bate: muitas vezes, suas percepções e suas vontades, como indivíduo único que é, baterão de frente com essas regras sociais. Choques e mais choques. Você estará sozinho.

É… ninguém entende. Há coisas suas que ninguém entenderá. E o dilema aparece: eu entendo, mas estou sozinho nessa. O que fazer?

Há momentos que nos exigem coragem. Coragem de reconhecer e assumir nossos desejos e sonhos, apesar de.

Apesar de os outros não gostarem, não concordarem, pontuarem problemas nas suas escolhas e ações.

Não é sobre ser ofensivo ou rebelde. É sobre poder ser você, em toda sua verdadeira e única essência.

Sustentar sua autenticidade tem um preço.
Não sustentá-la tem outro preço.

Ninguém entende.
Você, sim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: Cláudia Franco propõe uma revolução da longevidade com propósito

Foto de cottonbro studio

“Eu não preciso ter e nem quero ter a cara de 30, porque eu já tive essa cara. Eu quero ter cara de saúde.

Cláudia Franco, Envelheça com Saúde e Propósito

A sociedade brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e um fenômeno demográfico notável aponta para a feminilização da velhice: as mulheres representam a maior parte da população idosa, com 72% dos centenários sendo do sexo feminino. A tendência, no entanto, vem acompanhada de desafios como sobrecarga de trabalho, responsabilidade como cuidadora familiar e, muitas vezes, menor renda. Esse panorama do envelhecimento e a importância das escolhas individuais para uma vida longeva com qualidade são o foco da entrevista com Cláudia Franco, criadora de conteúdo digital, atleta, mentora, modelo 60+ e empresária, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

O confronto com o “Anti-Envelhecimento”

Cláudia Franco, que começou a compartilhar suas reflexões no Instagram ao se aproximar dos 60 anos, confronta a resistência social em aceitar a velhice, muitas vezes mascarada em elogios como “você não parece a idade que tem”. Para ela, essa mentalidade reflete um preconceito incutido na sociedade:

“Eu nunca vi o envelhecer como algo ruim. É o que eu estou me tornando, eu estou me transformando, o ser humano está em transformação desde quando nasce.”

A especialista defende o movimento pró-envelhecimento (pro-aging), em oposição ao termo anti-aging (anti-envelhecimento) frequentemente usado pela indústria.

“Eu sou avessa a esse termo, porque a gente tem que combater aquilo que é ruim, por exemplo, uma doença. Quando a gente fala anti-aging, a gente está combatendo o nosso envelhecimento, um processo natural do ser humano.”

O objetivo do autocuidado, explica, não deve ser o de esconder ou eliminar as marcas da idade, mas sim de garantir a saúde e a preservação da característica individual. A motivação por trás das escolhas de aparência é o ponto central. Por exemplo, cada um define se quer pintar o cabelo ou não, o importante é o seu propósito: “Essa corrida para permanecer com a cara de jovem, isso me incomoda, porque eu acho que é sofrimento. Não tem pior coisa na vida do que você estar desconfortável dentro da própria pele“, afirma.

A lição de casa da maturidade

A maturidade, segundo Cláudia Franco, traz consigo uma grande liberdade por desvincular o indivíduo da necessidade de se adequar a padrões.

“Eu não preciso estar ali encaixada em nenhum padrão, isso é a maior liberdade que uma mulher pode ter. Sabe, você ser feliz e segura com o que você é.”

No entanto, essa liberdade exige um compromisso ativo com a própria longevidade. A entrevistada destaca a importância de o indivíduo buscar autonomia — física, mental e financeira — para evitar a dependência de terceiros. Esse preparo é fundamental, visto que a fase da velhice pode ser a mais longa da vida.

“Eu posso ser longeva, mas não significa que eu vou ser saudável, eu posso ser longeva e estar na cama. Eu quero viver esses meus 20, 30, quem sabe, 40 anos, mas eu quero viver com saúde.”

Cláudia Franco, ao relatar sua própria mudança de vida de São Paulo para o litoral, exemplifica a “faxina” necessária: simplificar a vida, desapegar-se e se preparar financeiramente. Ela ressalta que a maturidade não é uma fase de descanso, mas sim de troca de demandas, mantendo-se em atividade constante.

“Não é uma fase que a gente vai parar e descansar, a gente vai trocar as demandas. A gente não pode parar, porque eu vejo que tem alguém que fala: ‘ah, se parar enferruja’. E é verdade, se você para seu corpo recente.”

A menção do envelhecimento como tema de redação na mais recente edição do ENEM trouxe a discussão para perto de gerações mais jovens, reforçando a urgência em pensar o futuro. Contudo, Cláudia Franco observa que grande parte dos jovens não está ativamente se preparando para envelhecer, enquanto uma parcela dos 50+ já despertou para a necessidade de manter o “veículo funcionando” por décadas à frente. Ao final, ela deixou uma mensagem sobre empatia e acolhimento:

“Quando a gente acolhe o envelhecimento do outro, consegue entender o nosso próprio. Envelhecer está na moda.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify.

A falta

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Certeza, segurança, confiança, esperança, amor.

Há coisas que, quando faltam, esburacam.

Nossa ansiedade transborda quando perdemos algo que tínhamos ou quando não temos algo de que tanto precisamos.

A falta esburaca e abre um espaço que parece nos deixar frágeis. Sem preenchimento, como vamos nos sustentar?

Vem aí uma questão: o que, de fato, nos sustenta? O que as outras pessoas ou a vida podem nos dar que traga completude?

Nós vivemos buscando: dinheiro, elogios, reconhecimento, experiências novas ou intensas, relacionamentos amorosos, felicidade. Vamos testando tudo para ver se preenchemos essa falta. E parece uma busca sem fim.

Quando conseguimos uma coisa, parece não ser suficiente. Quando construímos uma relação, passa a ser um problema na nossa vida. Corremos, corremos, cansamos… e nada.

O convite hoje é: vamos parar? Parar para perceber onde estamos, de onde viemos, quem já fomos no passado, quais já foram nossos sonhos.

Vamos parar e entrar nesse mundo interno único? O que podemos encontrar nele, além da falta? O que há de memória e de atual nos ocupando?

Sim, sempre haverá falta. Sim, isso nos fragiliza. Em se olharmos o que já temos? O que podemos fazer com o que nos ocupa por dentro? Que esse algo que já existe em nós seja terreno para novas construções. Nós mesmos ocupando nossas faltas.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O dia em que tirei os óculos escuros

Diego Felix Miguel

Foto de Ruslan Sikunov

Se tem uma sensação que aprendi a gostar é a de viajar de avião.
Estar lá no alto, diante da imensidão do mundo, faz a gente perceber o quanto se preocupa com coisas pequenas, tentando caber em espaços que, muitas vezes, não nos comportam.

Na última semana, precisei viajar a trabalho. Como de costume, cheguei cedo ao aeroporto e fui passear pelos corredores.
Num impulso, talvez por ansiedade, me vi provando óculos escuros em um quiosque. Inventei uma desculpa para justificar, para mim mesmo, aquela situação: afinal, havia esquecido meus óculos de sol em casa e, por isso, acabei comprando outro par.

Com os óculos novos na mochila, comecei a pensar no motivo daquela compra — afinal, nem tenho o hábito de usá-los. E, convenhamos, deixei ali algumas centenas de reais por algo que, naquela manhã ensolarada, acabou repousando na mochila sem sequer ter a oportunidade de ser desfilado naquele lugar.

Por birra, decidi vesti-los ainda dentro do aeroporto, talvez para justificar novamente o impulso.
Naquele instante, o mundo ficou sem brilho.
E percebi que era exatamente essa a sensação que, meses antes, eu vinha experimentando — mesmo a olhos nus.

Por longos meses, meu mundo esteve sem brilho.
A fadiga e a tristeza pareciam ser as únicas sensações possíveis.
Isso tinha um nome, que ouvi de uma médica ao tentar entender o que acontecia comigo:
“Não é só tristeza, e não vai passar. Você está com depressão.”

Foram meses difíceis.
Mesmo cercado por pessoas, eu estava só. É uma luta silenciosa, porque apenas você sabe o que sente — e nem sempre tem coragem de dizer, com medo de julgamentos, da banalização da dor ou, simplesmente, por falta de energia para falar e explicar o tamanho dela.

Descobri, nesse processo, o quanto somos pequenos diante do mundo.
A vida não para e, para a maioria dos lugares e pessoas que ocupamos, somos substituíveis.

Estar de óculos escuros, naquele momento em que a depressão já estava em remissão e meu mundo voltava a reluzir, me fez revisitar sensações que, na crise, eu não consegui elaborar.
Entre elas, o instante preciso em que consegui lutar para tirar os óculos escuros e voltar a enxergar o brilho das coisas.

Essa virada começou quando percebi o perigo do lugar emocional em que estava e, num ímpeto improvável, busquei novas formas de autocuidado, complementares ao tratamento que já fazia.
Foi quando consegui retomar minha autonomia.

Tenho aprendido a aplicar, no meu próprio processo de envelhecimento, muitas das lições que pessoas idosas me ensinaram ao longo da trajetória profissional.
São experiências generosamente compartilhadas, e delas levo comigo uma das maiores lições:
Às vezes, para jogar os óculos de sol para longe, é preciso buscar uma motivação externa.
Ousar. Fazer algo que talvez nunca fizesse.
Sem medo de julgamentos.
Com coragem suficiente para reencontrar o equilíbrio, o amor-próprio e o autocuidado.

Hoje estou bem, recuperado e atento.
Aprendi até onde é permitido usar os óculos escuros e, o mais importante, descobri a motivação para tirá-los e apreciar o brilho à minha volta.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: projeto propõe psicoterapia “sem fila de espera”

Foto de SHVETS production

“O autocuidado é direito de todos.”
Vanessa Maichin, psicóloga

Em um ano, um projeto de atendimento psicológico formou uma rede com 45 psicólogos e chegou a quase 600 pessoas atendidas, oferecendo psicoterapia sem fila de espera e valores sociais a quem está em vulnerabilidade. Esse foi o ponto de partida da conversa sobre o Psicoterapia para Todos, tema da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, que tamém participa do projeto ao lado da psicóloga Vanessa Maichin e Gislene Gomes Koyama, suas duas entrevistadas.

Como nasceu e para quem é o projeto

Idealizadora do Psicoterapia para Todos, Vanessa relatou a origem da iniciativa: “O projeto nasceu de uma meditação e o que aparece em uma meditação nunca vem do nada.” Ela explicou que a iniciativa reúne dois propósitos: ampliar o acesso de quem não conseguiria pagar por terapia e apoiar o aprimoramento de psicólogos clínicos. Segundo Vanessa, a estrutura inclui requisitos e suporte profissional: “O psicólogo precisa ter CRP ativo, estar em supervisão e em terapia”, além de participar de curso de extensão e de um núcleo de estudos em análise existencial.

A expansão do atendimento, contou Vanessa, aconteceu rapidamente: “Hoje nós estamos com 550 pessoas sendo atendidas no projeto, quase 600 pessoas.” Um diferencial citado por ela é o compromisso de disponibilidade: “A gente entrou também com esse lema no projeto… psicoterapia sem fila de espera.”

Da clínica ao ambiente de trabalho

Gislene Gomes, que é a coordenadora do núcleo corporativo, descreveu a chegada ao projeto a partir de sua trajetória organizacional e de redes de parceria. Para ela, a demanda por cuidado é concreta e cotidiana: “Nós somos seres relacionais, né?” No contato com empresas e instituições, Gislene reforça o foco em prevenção e acolhimento, lembrando que os efeitos da saúde mental atravessam o trabalho e a vida.

Do ponto de vista do acolhimento clínico, Gislene destacou o que o paciente pode esperar: “Nós não estamos aqui para dar conselho ou para dar resposta mágica”, disse. “Não tem solução mágica, não tem receita de bolo… o que tem é você se descobrir, se permitir se conhecer.”

Qualidade e permanência do cuidado

Vanessa ressaltou que valores sociais não significam atendimento “barato” nem precarizado: as sessões seguem o padrão de 50 minutos a 1 hora, e o tempo de permanência na terapia depende da necessidade clínica de cada pessoa. Outro ponto é a orientação pública da iniciativa: quando alguém tem condições de arcar com honorários integrais, há encaminhamento para profissionais da rede fora do braço social — preservando o objetivo central de garantir acesso a quem mais precisa.

Ao definir o que está em jogo na psicoterapia, Vanessa resumiu: “Psicoterapia tem a ver com cuidadoé um espaço para a gente falar do que a gente sente e pensar no sentido de vida … e o que a gente tá propondo para essas pessoas, justamente, é um espaço para elas se cuidarem.”

Você tem mais informações sobre o Psicoterapia para Todos no instagram do projeto.

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais traz episódios inéditos, quinzenalmente, às quartas-feiras, no YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify. Inscreva-se no canal Dez Por Cento Mais e receba alertas sempre que uma nova entrevista estiver no ar.

Ocupação sem fim

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Celular, trabalho, séries, comida, sono, exercício físico, estudos, bebida alcoólica, submissão, silêncio…

O que isso tudo tem em comum?

A gente se enche de coisas pra fazer. Não é difícil achar uma ocupação, até porque as opções na vitrine são várias – sempre tem uma informação nova, uma reunião nova, algo imperdível ou urgente na lista do dia.

A gente entra, se afoga, tenta respirar na superfície, se afoga de novo, nada mais um pouco… E assim a gente vai vivendo – vivendo?

De repente, passou a semana, não fizemos o que era importante, continuamos tristes, irritados, cansados. De repente, tem um tanto de coisa que precisa mudar pra nossa vida melhorar, mas… passou.

Celular, trabalho, séries, comida, sono, exercício físico, estudos, bebida alcoólica, submissão, silêncio…

Quantas fugas.

Quantos jeitos diferentes temos de não parar, não olhar pra dentro, não encarar o que está torto ou o que dói.

Quantas maneiras encontramos de nos ocupar – inclusive, com atividades que, aos olhos da sociedade, parecem banais (celular) ou até muito úteis e admiráveis (trabalhar, conquistar mais e mais, fazer sucesso).

Aqui, vamos pensar além da forma: Por que fazemos o que fazemos? Estamos conectados e envolvidos com nossas escolhas e ações, elas têm um fim – ou seja, um objetivo bom para nós?

Por que fazemos o que fazemos? Estamos nos ocupando de atividades e tarefas que nos mantêm distantes de ter que olhar e sentir e lidar com aquilo que é pesado, sofrido, desafiador?

Natural fugirmos do que assusta; podemos fugir vez ou outra, como uma estratégia para respirar ou suportar. O que prejudica mesmo é essa ocupação sem fim – essa ocupação que afoga, que desconecta, que não tem um fim saudável e desejável, porque é só um “tapa-buraco”.

Que buracos estamos tentando evitar? Que vazios estamos tentando preencher?

Fica o convite… Vamos, sim, nos ocupar – com uma finalidade: o de, verdadeiramente, ser e viver. Ocupação com fim.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.