Seja ano novo!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“Um navio no porto está seguro. 

Mas não é para isso que navios foram feitos”

John A. Shedd 

Não sei se acontece com você, mas o dia 1º de janeiro sempre me faz pensar além de uma simples transição no calendário. Para mim, o Ano Novo carrega um significado profundo: é o momento de navegar por mares ainda desconhecidos, guiados pela esperança e pelo desejo de renovação.

Embora a vida siga como no dia anterior, há uma atmosfera especial no ar, permeada pelo desejo de mudança, de que as coisas sejam melhores e nossos sonhos se tornem realidade  É como se o mundo inteiro conspirasse para nos lembrar de que podemos mudar o rumo, ajustar as velas e sonhar com novos horizontes. 

Em meio a esse clima festivo, faço um convite: feche os olhos e pense em três desejos que você realmente gostaria que se realizasse em sua vida. Não vale coisa impossível! Apenas aquilo que, com um pouco de esforço e sorte, possa ser alcançado.

Esforça e sorte? Ou coragem? Talvez, esforço, sorte e coragem!

Coragem. É ela que transforma sonhos em ação. Sem um gênio da lâmpada, a imprevisibilidade da vida exigirá decisões, mudanças de planos e de rumos, a enfrentamentos e ações na busca por aquilo que dá sentido à vida.

Seria mais fácil se houvesse mágica, mas somos confrontados pela realidade e descobrimos que, para atingirmos o que nos é valioso, será necessária uma mudança de atitude que só pode acontecer dentro de nós mesmos. Precisaremos soltar as amarras, deixar o porto seguro e modificar padrões de comportamento que já não nos servem.

Desejamos ser amados, mas tememos a vulnerabilidade que o amor exige.  Queremos reconhecimento, mas evitamos a exposição. Buscamos liberdade, mas nos aprisionamos no medo do futuro. Almejamos o sucesso, mas procrastinamos diante do esforço necessário. 

É muito mais que uma mudança no calendário. 

É muito mais que uma lista de desejos a serem realizado. 

É uma mudança de perspectiva.

É ser ano novo!

Ser ano novo é inspirar, apoiar e levar esperança a quem precisa. É ser a luz em meio à tempestade ou o vento que impulsiona alguém a seguir adiante. É ter a ousadia de navegar além de nós mesmos, para se tornar uma força transformadora na vida de outros.

Também é olhar nós mesmos com compaixão e gentileza. É aceitar as falhas, recomeçar, perdoar-se. É zarpar com confiança e esperança, acreditando que novos mares trazem novas possibilidades. Ser ano novo é permitir que a força e a coragem possam nos guiar rumo ao que mais desejamos alcançar. 

Então, seja ano novo!

Que você realize os desejos que carregou para este momento e, sobretudo, que navegue com coragem rumo a um Ano Novo cheio de significado e conquistas para você!

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Rasgando o Véu da Ilusão: cuidado com o que você vai descobrir

Tive o privilégio de ser convidado para escrever o texto de apresentação do livro “Rasgando o Véu da Ilusão – ensaio sobre coragem, liberdade e autenticidade”, das psicólogas Abigail Costa, Aline Machado e Vanessa Maichin.

O livro já está à venda pela editora Dialética e o lançamento oficial, com presença das três autoras, será neste sábado, dia 14 de dezembro, às 16 horas, no Restaurante Bar Alfândega,
na rua República do Iraque, 1347, Campo Belo, São Paulo, SP. Confirme sua presença aqui.

Apresentação de Rasgando o Véu da Ilusão

Mílton Jung

Há livros que não apenas lemos, mas que parecem nos ler de volta. “Rasgando o Véu da Ilusão – ensaio sobre coragem, liberdade e autenticidade” é um desses. Quando comecei a leitura dos textos originais de Abigail Costa, Aline Machado e Vanessa Maichin, não imaginava que, ao final, seria mais do que um leitor passivo, mas alguém profundamente tocado, como se, página após página, tivesse rasgado alguns dos véus que me acompanhavam há anos, me levando a descobrir a alma e o coração, no sentido de despir-me das sombras que os ocultavam.

A cada capítulo, fui confrontado com as ilusões que construí ao longo da vida para me proteger das incertezas que, ironicamente, ainda me assombram. As autoras, com uma coragem que admiro e invejo, se revelam em suas fraquezas e, de maneira quase cirúrgica, mostram como essas ilusões nos moldam, nos limitam e nos prendem a uma ideia de perfeição que, muitas vezes, é um fardo. Quisera eu ter a coragem delas para assumir todas as minhas fragilidades.

Foi desconcertante, quase constrangedor, ser confrontado por verdades que me surpreenderam, mesmo sendo eu íntimo de uma das autoras. Sim, caro leitor e cara leitora, devo confessar: sou casado há mais de 30 anos com Abigail. Não poderia omitir essa informação. Revelo isso porque acredito que essa transparência permitirá que você, ao ler esta apresentação, desenvolva um olhar crítico mais apurado, consciente do viés pessoal que pode colorir minhas palavras.

Em diversas passagens, me peguei relendo os trechos onde a finitude e a vulnerabilidade são tratadas com tanta franqueza. Era como se Abigail, Aline e Vanessa, com suas diferentes vozes, estivessem ali, do meu lado, me dizendo: “Sim, é difícil, mas é preciso encarar isso, sem filtros, sem ilusões.” Nesse olhar sincero, encontrei ressonâncias com minhas próprias batalhas. Não é fácil aceitar que o perfeccionismo, tantas vezes visto como virtude, pode ser, na verdade, um véu que nos separa da vida como ela realmente é – imperfeita, sim, mas também autêntica e rica em possibilidades.

Como se as provocações das autoras não fossem suficientes, ainda deparei com o prefácio de Alexandre Cabral. Ah, o prefácio… De uma profundidade que não permite passagens rápidas, que obriga o leitor a parar, pensar e questionar. Foi então que percebi que o que deveria ser um simples prefácio havia se transformado em algo muito maior – não apenas uma introdução, mas uma parte essencial dessa jornada literária.

Essa transformação do prefácio em algo tão significativo é uma prova do poder da palavra quando usada com propósito e sensibilidade. Não é apenas uma abertura; é um convite a uma reflexão que transcende o texto introdutório comum. Ao final, percebemos que o prefácio de Alexandre Cabral não é só um prólogo, mas um verdadeiro pórtico, imponente e necessário, que nos conduz ao coração das questões levantadas no livro.

Ao concluir a leitura, percebi que “Rasgando o Véu da Ilusão” não é apenas um livro sobre coragem, liberdade e autenticidade. É uma jornada, daquelas que começam na primeira página e continuam muito depois de fecharmos o livro. Uma jornada que nos convida a ser protagonistas de nossas vidas, a enfrentar as incertezas, a deixar para trás a ilusão de controle e a abraçar, de uma vez por todas, a beleza da imperfeição.

Prepare-se para ser provocado, questionado e, quem sabe, transformado. Boa leitura!

O que teu corpo quer te contar?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Fome, necessidade de ir ao banheiro, sono. Todas essas são sinalizações do seu corpo te pedindo para tomar atitudes a fim de reequilibrá-lo – se você decidir não cumprir “a ordem”, o custo será alto: fraqueza, cansaço, desatenção, descontrole dos esfíncteres (e situações vexatórias), desmaio, óbito. O assunto é mesmo sério, questão de vida ou morte.

Esses sinais são claros para a maioria de nós, porque estamos treinados, desde a infância, a percebê-los e atendê-los.

No entanto, existem inúmeros outros sinais que nosso corpo vai aprendendo a dar ao longo do nosso crescimento (adolescência, adultez…) e que não são nos ensinados com a mesma clareza; que, na verdade, muitas vezes, não são ensinados de jeito nenhum, porque quase ninguém conhece.

Por exemplo: coração acelerado, tremores no corpo, boca seca, suor frio, angústia no peito, nervos à flor da pele, raiva, cansaço, desânimo, desesperança… Você sabia que todos esses também são sinais do seu corpo? Eles querem te dizer algo.

Esses sinais aparecem porque estão tentando te contar sobre você e sua vida: existe uma ameaça por perto; é necessário conseguir recursos para alguma atitude ser executada; há pessoas tentando te fazer mal; essas escolhas não estão sendo adequadas para quem você é e para a vida que faz sentido para você… e por aí vai.

Mas esses sinais não são vistos, são atropelados ou são encarados como problemas graves que precisam ser combatidos! Qualquer que seja a percepção, o fato é que eles não são lidos corretamente, não são compreendidos em sua essência: a de querer comunicar algo que precisa ser atendido, mudado, realizado.

Então, vamos começar esse treino? É preciso se aquietar, silenciar e prestar atenção no mundo de dentro. Quando perceber emoções, sensações físicas, sentimentos diferentes dos habituais, leia.

O que está sendo escrito por eles? O que está sendo comunicado? Rastreie os últimos acontecimentos, suas últimas ideias acerca do que está ocorrendo ou acerca do passado ou do futuro… Não rotule os sinais como um problema – leia, procure estar com isso, compreender um pouco, manejar conforme conseguir. Nem sempre haverá uma clareza ou uma solução ideal, mas, somente de você parar, ler e aprender a estar com seu corpo e todos os sinais que ele gera… já poderá parar de fugir!

Não tenha medo de si mesmo, do que está aí dentro. Tenha interesse, receba, aprenda a encontrar caminhos pra lidar e sair mais forte e sábio daquela experiência.

Lembre-se: é um aprendizado. Dia a dia, sua amizade consigo mesmo crescerá e te trará serenidade, autodomínio, paz.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia.

Anestesia social

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Estou andando pela calçada e sou atropelada por um pedestre que caminhava próximo de mim: ele não me viu ali.

Estou esperando na recepção do prédio para a porta ser aberta e a porta não abre: o porteiro não me percebeu ali.

Estou entristecida porque tenho passado por um problema grave na família: ninguém nota.

Uma anestesia geral. Pessoas não percebem a presença de outras. Pessoas não percebem as necessidades e os sentimentos de outras.

Veja, não existe intenção de ser mau ou egoísta – não é um ato consciente. É que existe uma neutralidade de percepções e afetos sobre o mundo ao redor. Na verdade, é como se não houvesse mundo ao redor.

A maioria de nós, humanos, está tão ensimesmada, tão individualista, tão presa dentro de si (ou do mundo digital), que não nota os acontecimentos em volta. Desconectados, ausentes, anestesiados.

As consequências são caóticas. Nessa anestesia, não tomamos a iniciativa de respeitar o espaço do outro (exemplo da calçada), de executar a ação que é esperada de nós (exemplo da portaria), de ajudar no acolhimento da dor do outro (exemplo da tristeza).

Nessa anestesia, cada um acredita que vive no seu mundo particular, que não existe mais ninguém por ali, que está sozinho. Às vezes, pior: cada um acredita que tudo (e todos) em volta são “só” objetos e ferramentas para fazer sua vida individual funcionar – e estranha quando isso não acontece, quando suas necessidades não são vistas ou satisfeitas!

Precisamos acordar. Cada um de nós, acordar: lembrar que vivemos em sociedade, que nossas ações impactam nos outros, que precisamos funcionar todos em conjunto.

Precisamos recuperar nossa capacidade de olhar pra fora, fazer parte do todo, colaborar sempre que possível, pedir ajuda quando necessário, respeitar pessoas e mundo ao nosso redor.

Precisamos sair da anestesia – se quisermos sobreviver e, assim, ter chances de voltar a viver.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Nunca estamos prontos

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Mabel Ambert

Nascemos. Aprendemos a nos alimentar, a andar, a falar. Vamos pra escola para aprender a ler e a escrever; depois, aprender a fazer contas de matemática, entender sobre a história das civilizações, conhecer mais sobre a natureza e o corpo humano…

Desde que nascemos, precisamos aprender algo novo para sobreviver e existir no mundo.

E, o mais desafiador: precisamos aprender a ser um ser humano.

Como vencer o medo e a preguiça?! Como tolerar a frustração e o desconforto?! Como lidar com as dores profundas que vêm e passam e voltam… estão, insistentemente, sempre à espreita?!

A gente cai o tempo todo e tem que reaprender – como levanto dessa, como volto a caminhar?

A gente acredita que “agora vai” e, de repente, se sente perdido e confuso: “Vou pra onde? E se der errado?”

Parece um treinamento eterno. Quando parece que chegamos onde precisávamos, aparece outro problema, uma novidade, um desafio… E lá vamos nós de novo: aprender.

Então, quando acaba? Quando poderemos dizer: “Agora sim – já passei por muita coisa, tenho bagagem, sei tudo o que preciso e terei uma vida em paz.”?

Quando ficamos prontos?

“Ficar pronto” é concluir, é não precisar mais evoluir ou acrescentar, é chegar ao ápice do seu potencial. Um bolo fica pronto quando todas as etapas da receitas foram concluídas. Um carro fica pronto quando todas as estruturas foram agregadas e ele funciona para nos transportar. E uma pessoa… quando “fica pronta”?

Do pouco que sabemos e percebemos… Não fica. Nenhum de nós sabe até onde um ser humano é capaz de chegar. Não sabemos todo o potencial que um ser humano precisa e pode atingir.

Então, pelo menos por hora, esqueçamos o tal “ficar pronto”. Vamos fazendo, aprendendo, desconstruindo pra reconstruir melhor, caindo e levantando e caminhando e vivendo…

Ao invés de “ficar prontos”, vamos “estando em construção”. Vamos nos dedicar a estar presentes no dia de hoje, no momento do agora, e fazer o que sentimos ser possível, necessário, impactante.

Nosso objetivo, portanto, não será “chegar lá” – esse “lá” que nem sabemos onde é. Nosso objetivo, portanto, é existir, experienciar, desenvolver habilidades, vivenciar a chance de estar aqui, agora.

Não estamos nem estaremos prontos… Atenção: somos seres humanos em obra, em construção.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Cansados do cansaço!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Neslihan Ercan

“Que cansaço”; “Não aguento, estou cansado”; “O cansaço não me deixa”; “Vai você, estou cansado”; “Durmo, durmo, mas estou sempre cansado!”

Uma sociedade sem energia. Uma humanidade à caça de motivação, vontade, disposição.

Olhos caídos, ombros caídos, corpo lento… O cansaço transborda na imagem, na postura, no tom de voz – transborda no silêncio, inclusive: “Ah Estou cansado demais pra falar, pra brigar, pra conviver… Deixa pra lá.”

O cansaço, muitas vezes, transborda também na irritação à flor da pele, no pavio curto, na falta de paciência pra esperar – e, assim, traz mais problemas pra lidar e… quem diria, mais cansaço.

Para onde foi a energia das pessoas? Onde está a gana, a garra, a habilidade de tentar e fazer e cair e levantar?!?

Para onde foi a vida das pessoas? Porque energia é vida, energia é o que movimenta, o que gera ação, o que constrói e empurra pra frente. Qual será o destino de pessoas tão cansadas?

Os motivos, provavelmente, são diversos – depende de cada indivíduo, cada forma de pensar e sentir, cada forma de agir (ou não agir no mundo) …

Mas como podemos REagir?

Como podemos começar a sair desse lugar de tão pouco, tão escasso, tão frágil?!

Alegrias. O cérebro humano precisa de alegrias, de pílulas de cor e brilho! Não há quadro bonito com pura tela branca. Não há vida feliz com “puro” trabalho + pagamento de contas + resolução de problemas + sofá + cama.

É necessário mais. Colocar pitadas de amarelo e azul e vermelho e verde! É preciso luz do Sol enquanto descansa alguns minutos; é preciso azul do lago ou do Céu enquanto o olhar se acalma; é preciso amor do abraço ou do cafuné no cabelo; é preciso os tons de verde das árvores e plantas que enfeitam e merecem ser admiradas num silêncio passageiro…

Alegrias. Traga momentos de alegrias para sua vida, para sua rotina, para os “seus dias comuns”.

As alegrias empurram o cansaço para o lado e te preenchem de energia, de motivação, de vida.

Vamos ser uma humanidade viva!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O fim da falta

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de PNW Production

Não tenho O carro, não tenho O celular, não fiz Aquela viagem.

Não tenho beleza suficiente, não tenho sucesso suficiente, não sou destaque.

A falta – dos bens materiais do momento, das experiências “imperdíveis”, dos títulos e rótulos desejados. Como pode um buraco (já que é falta) preencher tanto?!? Preencher de angústia, de tristeza, de raiva, de inveja… de vazio.

Que complexo. Todos correndo, procurando, se esforçando… os dias passando e ninguém percebendo: “Nossa, como o tempo está voando!” – porque nessa busca alucinante pelo que falta, não se percebe o que já É, o que já TEM, o que ESTÁ aqui e agora.

Você saboreia seus momentos de vida? Você sente felicidade por ter a vida que tem?

Chega de olhar a falta. Chega de se preencher de dor pelo que não existe. Chega de escolher correr e perder Vida.

Sente-se e curta seu pão com manteiga e seu café. Comece seu trabalho e aproveite a chance de ajudar as pessoas e receber o dinheiro do seu sustento. Chegue em casa e converse sobre qualquer coisa com sua família, seu cachorro, seu gato… ou com você mesmo – sua melhor e mais constante companhia!

Preencha-se do que você tem. Inunde-se de felicidade pura e simples.

Rebele-se. Decrete o fim da falta.

Chega de correr. Pare, olhe, sinta… preencha-se com o que já tem.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sobre esquecer o passado

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“Às vezes é preciso parar e olhar para longe,

para podermos enxergar o que está diante de nós”

John Kennedy

O filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) traz a história de Joe e Clementine, um casal que após diversas tentativas para que o relacionamento dê certo, opta por esquecer um ao outro. Para isso, eles contratam uma empresa com tecnologia especializada em apagar as lembranças dolorosas. Porém, no meio do processo, Joe percebe que também tem boas memórias sobre Clementine e não quer perdê-las, apesar do rompimento atual.

Na ausência de uma tecnologia que nos permita tal feito e embalados pela ficção, se você pudesse apagar da sua mente as lembranças indesejadas, você o faria?

Me desculpe a insistência das perguntas, mas você desejaria apagar apenas as lembranças “ruins”? E por que não as “boas” memórias?

A resposta pode parecer óbvia, mas se assim for, compreendo que o desejo não é pelo esquecimento das experiências ou aprendizagens, mas sim, para evitar o sofrimento que essa lembrança evoca.

Nossas memórias, sejam de experiências boas ou dolorosas, falam da nossa história. Falam sobre quem somos. E se somos quem somos, é porque nossas experiências nos permitiram as aprendizagens sobre a vida, sobre o mundo e sobre nós mesmos, constituindo a nossa identidade, isso que nos torna únicos.

Não é possível registrar apenas o lado bom da vida. Porque isso não seria a vida real… Isso não significa que precisamos viver afunilados pelas situações dolorosas. Porque isso também não exprime tudo o que vivemos. Mas é preciso olhar além…

Onde estamos quando tantos sofrem os horrores da guerra?

Onde estamos quando tantos sofrem a devastação causada pelas mudanças climáticas?

E se apagássemos isso da nossa memória, numa busca desenfreada para mantermos apenas as lembranças positivas?

Só poderemos agir de maneira diferente e construir uma vida mais significativa, se olharmos para as nossas vivências e compreendermos o que elas nos ensinam.

Viver exige que estejamos de olhos bem abertos. Não me refiro, obviamente, à capacidade visual. Viver exige que estejamos presentes em nossas próprias vidas. E estar presentes em nossas vidas significa viver o momento atual, esse mesmo que muda o tempo todo e não nos pede permissão.

Diante dos desafios em vivermos o momento presente, muitos buscam em medicamentos as soluções para driblar o cansaço da rotina extenuante. Muitos buscam em medicamentos as soluções para esquecer os problemas e dificuldades que se apresentam, como num entorpecimento da realidade, fugindo de suas vidas, mergulhados num sono que de tão rápida a sua chegada nem permite reflexões.

E assim, enveredamos pelos caminhos do não sentir: não queremos experimentar a tristeza, o medo, a solidão…

Evitar situações ou eventos que desencadeiam emoções difíceis não tem nenhum efeito permanente no nosso bem-estar. A evitação pode até diminuir temporariamente as emoções dolorosas, mas não terá nenhum efeito na maneira que reagiremos a essas situações ou eventos no futuro, porque cada emoção tem a sua função, mesmo aquelas que são mais difíceis. Elas nos comunicam sobre o que acontece a nossa volta, sobre o que nos acontece e nos motivam para a ação. Se desejamos esquecer algo, é porque sabemos que podemos construir algo melhor, mais significativo. Mas como saberíamos se nos esquecêssemos disso?

Sendo assim, espero que aquela pergunta inicial se torne obsoleta, porque como dizia o professor Iván Izquierdo:

“O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando o efêmero presente que vivemos, rumo ao futuro”.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Perdi o controle. Alguém encontrou?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Imagem gerada por Dall-E

Previsibilidade. Saber o que vai acontecer. Preparar-se para o futuro.

Ter o controle sobre os acontecimentos da vida é um sonho desejado por todos nós. Sentir a segurança de que “as coisas darão certo”, “estarei preparado pra tudo”, “não corro riscos” – realmente, seria nosso mundo ideal. Nele, não precisaríamos sentir medo ou ansiedade ou insegurança… teríamos controle.

Na busca de se aproximar desse cenário, é comum que as pessoas façam planejamentos cautelosos, tentem antecipar qualquer risco e “resolvê-lo”, vigiem o comportamento dos outros e dêem comandos de como eles devem agir, não aceitem mudar os planos, ocupem a cabeça com muitas e muitas preocupações – tudo para “evitar o pior”.

E nesse cenário, essas pessoas ficam presas, hipervigilantes, tensas, com um sentimento frequente de que algo ruim acontecerá a qualquer momento – não pode relaxar!

A ansiedade vira um estado constante e o corpo sofre com cansaço e dores; a mente sofre com irritação e desatenção; a alma sofre com angústia sem fim.

Não perdemos o controle… porque, no fundo, nunca o tivemos. Mudanças são umas das poucas certezas da vida – tudo muda e sem previsões exatas.

Saída melhor é treinar a flexibilidade e a adaptação; saída melhor é admitir essa verdade e se fortalecer emocional e mentalmente, para lidar com os reveses da vida.

Ninguém tem o controle – mas todos têm habilidades para sobreviver e bem viver. Coragem.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A mágica da validação

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Criado pelo Dall-E

Precisar ser visto, considerado, acolhido – sim, a palavra é ‘precisar’, porque isso é uma biológica necessidade humana.

Especialmente quando não estamos nos sentindo bem – tristes, ansiosos, com raiva, perceber que a outra pessoa está notando nosso sofrimento e se sensibilizando com nossa situação nos dá uma sensação de segurança e respeito. E essa é a base para que possamos voltar ao nosso equilíbrio emocional e mental e encontrar forças para levantar e seguir em frente.

O cenário contrário faz um estrago – perceber que o outro não nota nossa dor, não leva em consideração “nosso lado na história”, gera revolta, preocupação, um incômodo intenso. Fugir dali, se esconder, partir pra cima e brigar, falar poucas e boas… tudo isso passa pela cabeça quando uma pessoa se sente invalidada. Em resumo, a invalidação é uma arma que causa profundos machucados e gera reações muito ruins nas pessoas.

Com esta dualidade exposta, te convido a refletir: você já foi invalidado? Se sim, como se sentiu? Uma outra reflexão, essa mais desafiadora: você já invalidou alguém? Já reparou se é uma pessoa que faz isso com outras… se é raro ou frequente…?

A mágica da validação é a essência do entendimento entre as pessoas, da solução de problemas, da sensação de segurança e bem-estar. A mágica da validação sustenta a ajuda mútua entre os seres humanos e, vamos combinar… ajuda mútua facilita tudo!

Vamos começar a treinar essa mágica? Pessoas validantes servem de porto-seguro e de exemplo para outras – é um clássico “ganha-ganha”!

Vamos validar e, assim, fluir e viver mais leve!


A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.