De quê?

 

Por Maria Lucia Solla

 

flor_Fotor

 

caramba
cada dia
uma vida inteira

 

sempre estreia
nunca meio
ou fim de temporada

 

eu
sempre estrela
que de escada
basta a que tenho em casa

 

quero sim
quero tudo quero mais
quero o melhor da vida
pra ter e dar o melhor de mim
até o fim

 

pra desenterrar
dos meus desertos
o bem-querer sem medo
e o querer bem
crescido no desapego

 

dança
música
arte
quero tudo
na minha medida
desmedida
louca
inconstante
mas minha

 

desassossego

 

mas um belo dia
o quero-tudo abriu os olhos
e se assustou com o que viu no espelho
tinha virado o quero-nada
quero-tudo virou quero-nada!
fazendo bico
chorando
se envergonhando
se desesperando

 

e além disso
eu
que andava de mãos dadas com a esperança
unha e carne
corda e caçamba
não lhe ofereço mais nem a maiúscula
me afastei dela
dei um tempo
quarentena

 

e ela que fique na dela
com sua pompa e circunstância
que eu quero mesmo
é cair na real
no tempo
no amor
na vida
na escrita
no sonho
sim porque até ele
vai se encaixar na real

 

Et voilà!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De Santorini

 

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje quero pensar em prazer: alegria, cor, leveza, beleza e magia, ao som de banda de coreto, que sempre me faz emocionar e me faz chorar. Quando estou muito feliz, meu prazer alcança o limiar da dor. Um lugar de pura magia; alquímico.

Quero pensar na sofisticação da simplicidade que traz consigo satisfação, no mar, nas ondas que dançam, dançam, e se expressam, cantando, no dançar.

Quero pensar no sol queimando a pele, sem culpa de me deixar seduzir por ele, sem culpa de passear pelo passado e sem culpa do privilégio de poder me lembrar.

Quero tomar um καφές με κονιάκ (café com conhaque), de frente para o vulcão, hipnotizada pelo mar, sem saber onde termino e onde começa ele. Ouvindo o Adagio de Albinone e escrevendo um cartão postal para o meu pai. Obrigada, pai, pela vida, por eu estar aqui neste mundo, por poder ver tanta beleza e sentir tanta emoção.

Nesse momento da minha vida eu já era executiva, independente, descasada mais de uma vez, mãe de dois filhos criados e independentes. Não agradecia por um presente que se compra com dinheiro. Há muito tempo minhas viagens eram presentes meus para mim mesma. Agradecia por ter me trazido à vida e ter me conduzido com cuidado e estratégia para que eu fosse firme e digna, diante do mundo. Ele era responsável pela magia da minha vida.

Quero pensar num passeio de moto pelas vias rochosas e dar de cara com o mar.

Quero comer frango assado com batatas ao sabor de limão siciliano.

Quero salada grega, o queijo feta original e o orégano que vem rindo na travessa, de tão vivo que está.

Quero as buzúquias, os grupos de dança que me puxavam para o palco e me faziam perceber que eu já nascera dançando aquela música, que eu nunca existira antes de estar naquela roda.

Quero a areia pedregosa, de seixos de lava vulcânica. Quero os velhos da cidade dizendo : Υειά σου, Μαρια! olá, Maria, quando eu passava no caminho para o mar e de volta para casa.

Quero assistir aos barcos voltando da pesca, as mulheres agradecendo a Deus pela volta dos seus homens e as velhas de lenço preto na cabeça, passando a limpo a vida dos outros, nas calçadas.

Quero olhar mulheres e homens caiando muros e calçadas, apagando as pegadas do turista que fugiu do vento que sussurra a verdade, levando na mala a fantasia vivida.

Quero sempre e quero mais.


Ouça “De Santorini” na voz e sonorizado pela autora


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung