Enxergando a pessoa


Por Beatriz Breves

Foto de Anna Shvets

Ao longo da história, o sofrimento humano, inclusive aquele que se manifesta por meio das doenças, foi explicado de maneiras muito diferentes. Ora era atribuído a castigos divinos, à influência de espíritos ou ao desequilíbrio dos humores corporais; ora, a defeitos biológicos ou a alterações psicológicas.

Cada época desenvolveu suas próprias formas de compreender o sofrimento. Existe, porém, algo particularmente significativo nesse percurso: toda concepção de doença reflete uma concepção de ser humano.

Quando predominava a crença de que o mundo era governado por forças sobrenaturais, as doenças eram atribuídas à ação dos deuses ou dos espíritos.

Na Grécia Antiga, ocorreu uma mudança importante. Filósofos e médicos passaram a buscar explicações naturais para as doenças. A própria histeria, por exemplo, era compreendida como decorrente de alterações relacionadas ao útero, que se acreditava deslocar-se pelo corpo feminino e provocar diversos sofrimentos. Embora hoje essa explicação nos pareça estranha, ela revela como cada época procura interpretar o sofrimento humano a partir dos conhecimentos e das concepções de que dispõe.

Hipócrates, considerado o pai da medicina, procurou compreender o adoecimento como resultado de desequilíbrios próprios da natureza humana, inaugurando uma forma de pensar que influenciaria a medicina por séculos.

Quando a ciência moderna passou a compreender a natureza como uma máquina, o corpo humano também passou a ser visto dessa forma: uma máquina composta por peças que poderiam falhar. Essa visão trouxe avanços extraordinários para a medicina. Entretanto, ao separar corpo e mente, também contribuiu para uma compreensão fragmentada do ser humano.

Durante muito tempo, a doença física foi tratada como um problema do corpo, e o sofrimento psíquico, como um problema da mente, como se fossem duas realidades distintas que apenas ocasionalmente se influenciassem. Hoje, porém, essa separação mostra-se cada vez mais insuficiente.

Quando uma pessoa enfrenta uma grande perda, uma situação de estresse intenso ou um sofrimento prolongado, não é apenas sua mente que é afetada. Seu corpo também responde. Da mesma forma, uma doença física importante modifica aquilo que a pessoa sente, seus pensamentos, suas relações e a maneira como percebe a própria vida.

A questão mais importante talvez não seja descobrir se a doença começou no corpo ou na mente, mas reconhecer que estamos falando da mesma pessoa.

É a partir dessa compreensão integrada do ser humano que se desenvolve a Ciência do Sentir: uma perspectiva que procura compreender a experiência humana sem separar aquilo que, na vida vivida, se manifesta de maneira indissociável.

Sob essa perspectiva, o ser humano não é um corpo que possui uma mente, nem uma mente que habita um corpo. É uma unidade de experiência. Aquilo que chamamos de físico e aquilo que chamamos de psíquico são formas diferentes pelas quais a vida se manifesta.

Isso não significa negar a importância da medicina, da biologia ou da psicologia. Significa reconhecer que nenhuma dessas áreas, isoladamente, consegue dar conta de toda a complexidade do viver humano.

O maior desafio da atualidade talvez não seja escolher entre corpo e mente, nem apenas conhecer cada vez mais as partes que compõem o ser humano. O desafio é recuperar a capacidade de enxergar a pessoa em sua totalidade.

Exames revelam órgãos. Diagnósticos descrevem doenças. Tratamentos combatem sintomas. Tudo isso é necessário e fundamental.

Mas quem sofre, quem espera, quem teme, quem luta e quem sonha é sempre um ser humano.

Por trás de cada diagnóstico existe uma história, uma forma singular de sentir, de amar, de sofrer e de existir. E talvez seja justamente aí que resida o maior desafio: cuidar sem perder de vista a pessoa.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Sinta raiva!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Photo by Liza Summer on Pexels.com

“Sentir raiva é pecado”, “Raiva é um veneno”, “Raiva mata”.

Então… já pequei, já fui envenenada, já morri. 

E, vez ou outra, faço tudo de novo.

Você já sentiu raiva?

Se sim, me conta: você teve escolha?

Te pergunto porque do lado de cá, na minha mente e no meu corpo, a resposta é… não.

A raiva nunca me perguntou se poderia chegar, entrar, ficar. Ela sempre me atropelou tipo um trator desgovernado. É assim até hoje.

Revolta, incômodo, angústia… explosão. 

Raiva é emoção pura, visceral, animal. Não existe escolha.

Fome, sono, respiração… Natureza mostrando quem manda. A raiva está nesse grupo aí – é espontânea e independente da nossa vontade.

A raiva é seu corpo e seu cérebro te dizendo:

“Presta atenção, estão te invadindo, estamos sob ameaça, olha o ataque!” 

No fim, ela quer te proteger. Pra você sobreviver, ela te enche de noradrenalina e de cortisol e te faz uma máquina potente, pra lutar ou pra fugir, mas morrer – jamais.

Então… Sinta a raiva! 

Quando ela aparecer: perceba que ela chegou; dê nome pra ela; ouça de qual ameaça ela está te alertando.

Depois: dê um tempo, enquanto convoca seu córtex frontal, a “Sra. Razão”; construa um diálogo entre os dois.

Uma hora a Raiva fala, em seguida a Razão argumenta… a Raiva se revolta, a Razão pondera…

Pronto. A partir daí, a decisão está tomada – enumere as atitudes, uma a uma, que vão te levar ao resultado que você precisa: se distanciar, conversar num outro momento, tentar outro caminho (porque soltar é mais eficaz que insistir)…

Seja o que for, a Raiva chegou, fez o papel dela – te alertou do perigo – e se foi.

Não precisa temer. A Raiva não é inimiga, nem pecado, nem veneno e, muito menos, morte.

A Raiva é a Vida querendo sobreviver.

Sinta a Raiva. Depois, chame a Razão. E, depois, crie seu plano e caminhe pelo mundo, orgulhoso do seu autoconhecimento e do seu autodomínio.

Os fortes, os sábios, os bons… sentem Raiva, mas fazem dela um motor de Vida.

E então, me diz… Você faz o quê com sua Raiva? Foge… ou sente e vive?

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung