Mundo Corporativo: Bertier Ribeiro-Neto, da UME, explica como empreender com tecnologia e supervisão humana

Bastidores da entrevista online com CTO da UME Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A minha visão é sempre muita tecnologia com supervisão do humano.”
Bertier Ribeiro-Neto

Empreender começa menos pelo plano de negócios e mais por um incômodo real: “O que que te incomoda? Qual o problema que você gostaria de resolver? Por que que você gostaria de resolver esse problema?” A partir dessa provocação, Bertier Ribeiro-Neto, CTO da UME, conecta a prática do empreendedorismo ao uso criterioso de tecnologia para resolver dores concretas de clientes. Esse foi um dos temas sobre os quais conversamos no Mundo Corporativo.

Tecnologia que resolve problemas (com gente no circuito)

Para Bertier, automatizar decisões é útil, mas não basta: “O resultado não é verídico, o resultado não é final, o processo precisa de supervisão.” Ele descreve a operação da UME no varejo — concessão de crédito no ponto de venda em minutos — como um arranjo que combina dados públicos, relacionamento do cliente com o lojista, informações de renda e um “motor de crédito”, isto é, “um núcleo de inteligência artificial que combina todos esses sinais e toma uma decisão de forma automatizada”.

Mesmo assim, o critério é manter controle humano sobre o que o modelo decide: “A gente treina o modelo, coloca o modelo no ar, faz uma série de testes e a gente pergunta: ‘O modelo tá tomando decisão boa ou não?’ Quando o modelo toma decisão ruim, como é que a gente para o modelo e passa a decisão para um agente humano?”

Essa postura, diz ele, vale para qualquer empreendimento que adote IA: não aplicar tecnologia “de forma cega”, mas medir impacto e qualidade continuamente. “O propósito não é usar a tecnologia. O propósito é resolver um problema que aflige o seu cliente.”

Siga o cliente, o resto é consequência

A bússola de produto segue uma regra simples aprendida nos tempos de Google: “Follow the user. All else is a consequence.” Em português: “Siga o usuário, o resto é consequência.” No contexto da UME, isso significa observar necessidades diferentes por segmento (da “super compra” de uma geladeira ao crédito atrelado a um celular com garantia via bloqueio remoto) e desenvolver produtos que façam sentido no momento da decisão.

Ao falar com quem quer empreender, Bertier volta ao princípio: antes de crescer, encontre a solução que melhora a experiência de quem usa. “Você vai criar uma solução para aquele caso de uso, se a solução for boa, as pessoas vão adotar a solução, o resto é consequência.”

Escala com estabilidade e métricas

Os desafios atuais combinam crescimento e qualidade. “Estabilidade é muito importante… o sistema não pode cair.” Em paralelo, medir resultado passa a ser obrigatório: produtividade, capacidade de atendimento “com o mesmo time” e, sobretudo, a experiência do cliente e do varejista. Se a qualidade piora, “tem um problema”.

Ao olhar adiante, a aposta é que “o futuro do crédito não está mais nos bancos… está nas empresas que têm relacionamento direto com o consumidor”. Daí iniciativas como ferramentas de CRM para que o varejista “se comunique com o cliente do crédito” e refine sua visão sobre recorrência e preferências de compra.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: os craques do areião de Pinheiros

Newton Herrera Feitoza

Ouvinte da CBN

Em Pinheiros, havia o Cine Brasil

Tenho 82 anos de idade e de Pinheiros. Nas minhas mais antigas lembranças, o bonde rolava pela rua Teodoro Sampaio que tinha mão dupla.

Onde hoje está o Shopping Eldorado havia o famoso “areião”, por onde passaram astros do nosso futebol, como o goleiro Aldo e o ponta direita Roberto Bataglia, ambos do Corinthians, entre tantos outros.

A  Avenida Rebouças era calçada até a Av. Brigadeiro Faria Lima, antiga Rua dos Pinheiros. Dali para frente o piso era de terra e a ponte era de madeira.

Havia um cinema, o Cine Brasil que ficava lotando quando reproduzia os filmes da Atlântica, com os gigantes Oscarito e Grande Otelo; os irmãos Farney; e a linda Eliana.

O Mercado de Pinheiros era na junção das ruas Iguatemi e Teodoro Sampaio, tinha piso de paralelepípedos e barracas cobertas com lona. Quando chovia era um transtorno.

Uma época em que fui muito feliz, em São Paulo!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Newton Herrera Feitoza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que a história da Globo ensina sobre marcas centenárias

reprodução de imagem do acervo da exposição Globo 100 anos

Completar 100 anos é um feito raro para qualquer empresa. Mais do que celebrar a longevidade, trata-se de mostrar como uma marca consegue atravessar décadas mantendo relevância, propósito e conexão com o público. Esse foi o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN, a partir das comemorações do centenário do Grupo Globo.

Cecília destacou que a figura do fundador é central para entender essa permanência. “Quando o sonho do fundador permanece vivo nas decisões de marca, a presença dele e dos valores que estabeleceu se mantém, e isso é fundamental para construir uma marca que perdura pelo tempo.” Ela lembrou ainda que Roberto Marinho lançou a TV Globo aos 60 anos, um exemplo de que empreender não é exclusividade dos jovens.

Para Jaime, o segredo está na clareza de propósito. “Manter o essencial em busca do novo. Lembrar sempre do que é inegociável para a empresa e aquilo ser o norteador do futuro.” Segundo ele, esse propósito sólido ilumina estratégias, sucessões e grandes mudanças, garantindo relevância e viabilidade financeira ao longo de gerações.

A marca do Sua Marca

A longevidade de uma marca não se sustenta apenas no passado: ela exige equilíbrio entre tradição e renovação, com valores fundadores que continuam a orientar decisões e um propósito capaz de dar direção ao futuro.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo

Conte Sua História de São Paulo: Orra meu, que saudade do meu sogro!

Izadora Splicido

Ouvinte da CBN

Bixiga a noite
Cena do bairro do Bixiga, em SP Foto: Eli Kazuyuki Hayasaka Flickr

Orra meu!

Aprendi a amar São Paulo assim. Com meu sogro e seu sotaque de um genuíno paulistano. Ele nasceu no Bixiga. Tinha um jipe onde levava a bebida do bloco Esfarrapado. O bloco mais antigo de São Paulo — foi o que ele me contou). 

Aos sábados, vestia a camiseta toda rasgada do bloco. Era um orgulho!

Se dizia palmeirense, mas não gostava de futebol, não. Gostava da bagunça do Palestra.

No carro era proibido usar Waze. Ele dizia:

— Pega a Padre João Manoel e depois a Lorena, vai em frente.

    Eu, olhava confusa, será que ele acha que eu sei onde é a Lorena?

    Me casei onde ele escolheu:  Nossa Senhora Achiropita, e até hoje agradeço a escolha. Que igreja linda!

    Meu sogro faleceu. Mão chorei quando ele morreu: era um homem feliz! Chorei agora, lembrando e agradecendo tudo que me ensinou.

    São Paulo, aprendi a te amar com o Zé, e assim como meu amor por ele, acho que o nosso é para sempre.

    Orra meu, que saudade!

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Izadora Splicido é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Mundo Corporativo: Ana Fontes explica como transformar habilidades em negócios viáveis

    Ana Fontes dá entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

    “Propósito não paga os boletos do mês”

    Ana Fontes, RME

    Começar um negócio a partir do que você já sabe fazer e validar se há gente disposta a pagar por isso é a linha mestra do empreendedorismo defendida por Ana Fontes. Fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), que conecta diariamente 3 milhões de mulheres em diferentes plataformas, ela descreve um caminho prático: combinar competências pessoais com demandas reais do mercado, criar diferenciais e buscar apoio em comunidade, mentoria e formação contínua. É sobre isso que ela fala na entrevista ao programa Mundo Corporativo.

    Ana recorda sua própria trajetória, da carreira executiva ao blog que deu origem à RME, para reforçar a orientação inicial a quem deseja empreender: “Use as suas habilidades para pensar no seu próximo negócio ou para pensar no seu negócio. É a primeira coisa que eu falo.” A partir daí, vem o teste de realidade: “Procure uma oportunidade de negócio, que é a parte mais dura. […] Você tem que combinar as duas coisas, a sua habilidade que você tem com alguma coisa que as pessoas queiram comprar.”

    Do propósito à validação de demanda

    A combinação entre vocação e problema resolvido no mundo concreto passa, segundo ela, por abandonar romantizações. “A maioria das pessoas fala assim: ‘Ah, empreende com o seu propósito, que vai dar tudo certo’. Nem sempre. […] Propósito não paga os boletos do mês.” Na prática, isso significa investigar necessidades do bairro, da cidade, do setor; observar o que já existe; e decidir como entregar algo diferente — do tempo de atendimento ao formato do serviço.

    A RME, diz Ana, opera em duas frentes: uma empresa com causa e o Instituto RME, organização sem fins lucrativos voltada a mulheres em situação de vulnerabilidade. O desenho dos programas inclui capacitação (liderança, negociação, finanças e gestão), mentoria entre pares, organização em grupos e microdoações diretas. O efeito desse arranjo aparece em histórias como a de uma empreendedora de Belém que, após formação e R$ 2.000 recebidos, comprou um carrinho de sorvete usado e aumentou o faturamento em 60% — aliviando o peso físico do trabalho e abrindo novas frentes de venda em eventos.

    No financiamento, entram parcerias com marcas interessadas no impacto social do S do ESG. Programas incluem, por exemplo, o uso de inteligência artificial para melhorar a gestão dos negócios. Para quem está começando, Ana recomenda aproveitar a oferta de cursos gratuitos (RME, Sebrae e outras organizações) e buscar orientação prática: “Empreender você tem que aprender.” E isso inclui um passo que economiza “tempo, dinheiro e dor de cabeça”: mentoria.

    Diversidade como motor de inovação

    A presença de mulheres em espaços de decisão, afirma, tem relação direta com inovação e desempenho. “Sim, a gente precisa estar nesses espaços, não para ter o poder pelo poder, mas porque a nossa voz precisa ser ouvida, porque as mulheres têm ideias interessantes e porque as pesquisas mostram que espaços mais diversos são espaços mais inovadores.” Hoje, lembra Ana, as mulheres ainda são minoria nas altas lideranças, no Judiciário e na política — cenário que empobrece o debate e limita a capacidade de fazer diferente.

    Quando compara motivações, ela diz observar respostas distintas entre gêneros nas pesquisas da rede: homens tendem a apontar “ganhar dinheiro” como objetivo imediato; mulheres costumam citar a vontade de “mudar o mundo”. O avanço, no entanto, depende de unir as duas coisas: sustentabilidade econômica e transformação social.

    Na ponta, o conselho final volta ao básico: olhar para problemas concretos e estruturar o negócio com método. “Antigamente, tinha uma visão de que empreender é só você abrir um negócio que ia dar certo. Hoje não, empreender você tem que aprender.”

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    Mundo Corporativo: Aimeé Rocha e Eduardo Paiva, da L’Oréal, explicam como tornar diversidade e brasilidade em estratégia do negócio

    Aimée e Eduardo na entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti

    “Diversidade é a nossa licença para operar.”
    Eduardo Paiva, L’Oréal

    A L’Oréal aposta que refletir a pluralidade do Brasil dentro de suas equipes é tão estratégico quanto lançar novos produtos no mercado. Para os executivos Aimeé Rocha, gerente de talento, e Eduardo Paiva, diretor de diversidade, equidade e inclusão, a representatividade é não apenas uma diretriz de recursos humanos, mas uma forma de orientar decisões de negócio. O tema foi abordado em entrevista ao programa Mundo Corporativo.

    A diversidade como estratégia

    Eduardo Paiva foi direto ao afirmar: “A iniciativa privada deve ser parte da solução dos problemas que a sociedade enfrenta”. Para ele, se a exclusão é um traço histórico brasileiro, cabe às empresas enfrentarem essa realidade. Essa visão se traduz em metas claras de contratação de pessoas negras, profissionais com deficiência, integrantes da comunidade LGBTQIA+, além da promoção da equidade de gênero e de gerações.

    Aimeé Rocha destacou o recrutamento intencional como prática essencial. “Quando eu abro uma vaga, eu persigo esse propósito de representatividade”, explicou. Segundo ela, os programas de entrada — jovem aprendiz, estágio e trainee — foram reformulados a partir de 2020 e hoje já refletem de maneira mais fiel a composição da sociedade brasileira. No caso do jovem aprendiz, mais de 80% dos contratados se autodeclaram pretos ou pardos.

    Brasilidade como motor

    A conexão com a cultura local também guia a forma como a empresa busca talentos. “Pessoas são centro da organização. Quando a gente fala de brasilidade, a gente está falando de uma cultura onde beleza é felicidade e que esse contato humano faz toda a diferença”, disse Aimeé Rocha.

    Eduardo Paiva acrescentou que a diversidade brasileira inspira o mundo. “Aqui no Brasil a gente encontra 55 dos 66 tons de pele mapeados globalmente e todos os oito tipos de cabelo. Quando a gente junta isso nesse caldeirão, é a identidade brasileira inspirando vários países.”

    Formação de líderes inclusivos

    Além de atrair novos perfis, a L’Oréal busca formar lideranças que reflitam esse movimento. O programa Liderança Inclusiva trabalha seis dimensões de atuação dos gestores, como inteligência cultural e colaboração. “A gente cria oportunidades para formar líderes mais inclusivos, mas isso se estende e transborda para colaboradores diversos e não diversos”, observou Aimeé Rocha.

    Para Eduardo Paiva, essa transformação também impacta sua trajetória pessoal: “Os últimos seis anos têm sido para mim um encontro com a minha potência, um mergulho na minha brasilidade”.

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    Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: me engana que eu gosto

    Foto de Kampus Production

    Consumidores muitas vezes justificam escolhas de forma racional, mas, na prática, são guiados por emoções. Esse é o ponto central do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

    Os atributos racionais são apenas o suporte para a decisão. O que gera o comportamento de compra são as emoções”, explicou Jaime Troiano, ao citar uma pesquisa sobre a escolha de um carro. Para o consumidor, na fala direta, valiam argumentos como baixo custo de manutenção e economia de combustível. Mas, em conversas informais, o que aparecia era a sensação de respeito e status proporcionada pelo veículo.

    Cecília Russo trouxe outro exemplo: o do amaciante de roupas. “O que toca mesmo é o sentimento de invadir as roupas da família com uma dose adicional de carinho”, disse, lembrando campanhas que associavam a fragrância do produto à lembrança do cuidado materno. Ela destacou também a experiência de consumo em restaurantes como o Pirajá, em São Paulo, que transporta os clientes ao Rio de Janeiro não só pela comida, mas pela playlist que embala o ambiente: “algo que eu não mastiguei, mas me inspirou o tempo todo”.

    A marca do Sua Marca

    A lição central do comentário pode ser resumida em uma frase repetida ao longo da conversa — que podemos incluir entre os clássicos de Jaime Troiano: “Consumidor diz o que pensa, mas faz o que sente.”

    Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

    O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

    Conte Sua História de São Paulo: quando a chuva era de prata na cidade

    Jair Dias

    Ouvinte da CBN

    Ilustração da São Paulo antiga

    Estamos no início dos anos 50, decididamente, 1954, pois, sob o céu da cidade, houve uma chuva de estrelinhas de prata — fazia parte das festas do quarto centenário de São Paulo. E quem não se lembra? Eu recolhia aquelas estrelas pelo chão, o céu estava lindo, a cidade também. Estava acostumado com a São Paulo da garoa, com bondes indo e vindo — não havia lotações.

    Lá estava eu, com meus sete aninhos, segurando fortemente as mãos de papai, e achando aquela chuva de papel maravilhosa, pois acostumara-me a ver todos os dias o tempo fechado, cinza e sem sol. Descíamos a rua da Consolação, quando garotos de rua, meninos engraxates e outros, brotavam das praças, corriam como se tivessem pegando dinheiro no chão. O ruído dos motores dos aviões no céu marcava um tom de festa. 

    Agacho-me, recolho aquele triângulo de prata nas mãos e saio zanzando rua abaixo. É bom curtir essa onda de festa! Atravesso a rua, peito aberto, rasgando bairros inteiros, numa chispa dou de cara com a Sé. A essa altura, papai já estava cansado, bufando. Senta no banco, grita meu nome, e diz para me aquietar e não ir longe. Ele estava ouvindo uma música no radinho, música esta que falava do aniversário da cidade de São Paulo comemorado ali na frente, na Sé . 

    Desci a rua Monteiro, onde atualmente é a Estação do  Metrô da Sé,  topando  com a PM, um batalhão de guardas à frente rufando os tambores. Fiquei em êxtase. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda. Ao som do bumbo, passaram  por mim, e seguiram marchando. Senti um comichão nos pés, e me pus  a segui-los imitando-os. Era a Banda Marcial da Polícia Militar. Tocavam aquela música que papai ouvia no radinho de pilha (São, São Paulo, meu amor………). 

    Aquietei-me num banco da praça, lá na pontinha, onde as pessoas pegavam ônibus para ir a Santos e São Vicente —  era o Viação Cometa. Fechei os olhos, fiquei num transe, paralisado, ouvindo as águas da fonte da Sé misturada a voz de papai. 

    Havia passado cinquenta e cinco anos. Olhei a minha frente, o Poupa Tempo, à direita, o Metrô, mais adiante, meninos de rua, de becos e muquifos, pareciam zumbis perdidos na praça, sujos, calças rotas, alguns pedindo dinheiro, outros fumando e bebendo. Meu Deus! Que cena horrível. Chamaram na de Cracolândia. Deduzi que seria o fim dos tempos. Olhei o céu carrancudo e triste, já não era o céu da minha infância, nem real nem simbólico, era um céu fatídico , triste, daqueles que não gostamos nunca  de imaginar, mas depois de tanto tempo. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Jair Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o jeans como reflexo da sociedade

    mama jeans daddy jeans sissy jeans baby jeans

    Mais do que uma peça de roupa, o jeans se transformou em um espelho das transformações sociais e culturais ao longo de quase dois séculos. O tecido, que nasceu associado ao trabalho pesado, tornou-se símbolo de rebeldia, moda, status e, mais recentemente, de consciência ambiental.

    Esse foi o tema do comentário no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo. A trajetória do jeans, da função utilitária até o papel de expressão individual e coletiva, ajuda a entender como as marcas se mantêm relevantes.

    Cecília Russo lembrou que “o mercado têxtil é um marcador de mudanças sociais e de como os nossos comportamentos vão mudando, e as marcas acompanham esses movimentos. O jeans é emblemático para isso.” Desde os operários e cowboys do século XIX até o consumo sustentável do século XXI, o tecido acompanhou cada época com novas formas, cortes e mensagens.

    Já Jaime Troiano destacou como a moda refletiu os desejos de liberdade, rebeldia e estilo de diferentes gerações. Ele recordou, por exemplo, a campanha da US Top, nos anos 1980, que dizia: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.” Para ele, esse vai e vem do jeans apertado ou folgado, sofisticado ou rasgado, mostra como as marcas seguem os movimentos da sociedade sem perder espaço.

    A marca do Sua Marca

    O jeans ensina que uma marca não se impõe: ela responde aos desejos e valores da sociedade. Sua permanência no tempo depende da capacidade de captar mudanças culturais e traduzi-las em produtos e mensagens que façam sentido para cada geração.

    Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

    O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Paschoal Júnior.

    Conte Sua História de São Paulo: estive lá no dia em que o metrô foi inaugurado

    Clênio Caldas

    Ouvinte da CBN

    Photo by sergio souza on Pexels.com

    Na manhã de sábado, 14 de setembro de 1974, tudo apontava para um acontecimento aguardado há tempos pela população de São Paulo: o início da operação comercial do Metropolitano de São Paulo!

    Desde 1968, quando as obras de construção do novo sistema de transporte coletivo começaram, ali no bairro do Jabaquara, confluência das avenidas Fagundes Filho e Jabaquara, numerosas ruas, avenidas, praças, sofreram severa intervenção de máquinas, caminhões e operários que rasgaram o solo e aprofundaram escavações para implantar o corredor Norte-Sul do metrô da cidade.

    O povo paulistano suportou com paciência os transtornos de interdições, alteração de itinerários de linhas de ônibus e alternativas diversas para o trânsito caótico da capital paulistana. 

    O serviço de bondes, tradicional e histórico na cidade, fora definitivamente encerrado em abril daquele ano. Era preciso dar lugar à moderna tecnologia. Paulatinamente, a obra foi seguindo o curso da linha pioneira que ligaria o bairro do Jabaquara, na zona sul, à outra extremidade, no bairro de Santana, zona norte. A extensão para além de Santana, para o bairro do Tucuruvi, ocorreu somente anos mais tarde.

    Dois anos antes, em 6 de setembro de 1972, como parte das celebrações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, fora inaugurado o pátio de manobras do metrô no Jabaquara, com as presenças do governador Laudo Natel e do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. Ali estávamos prestigiando o grande evento e cumprimentando as autoridades. 

    Nos fizemos presentes, também, na viagem inaugural da operação comercial, mantendo até hoje o bilhete, picotado por fiscais. Embarcamos na composição que rumou da estação Jabaquara para a estação Vila Mariana, percorrendo apenas as estações Conceição, São Judas, Saúde, Praça da Árvore, Santa Cruz, até alcançar a estação terminal provisória, Vila Mariana. Daí em diante, outros trechos foram sendo liberados gradativamente à medida que as obras eram concluídas.  

    Mais de cinquenta anos decorridos daquela radiosa manhã! O sistema metroviário foi ampliado gigantescamente: além da Linha 1-Azul, vieram as Linhas 2-Verde, 3-Vermelha, 4-Amarela e 5-Lilás; foram acrescentadas a Linha 15-Prata do monotrilho e a integração com as linhas da CPTM, formando um extenso complexo metroferroviário na Grande São Paulo

    Dentro de algum tempo, a linha 6-Laranja passará a integrar essa rede. 

    Nestas cinco décadas minha admiração pelo Metrô de São Paulo não esmoreceu, pelo contrário, se converteu em orgulho genuíno por esse transporte, a ponto de traçar comparações com outros sistemas visitados nas cidades de Chicago, Boston, Nova Iorque, Washington, Toronto e Santiago do Chile. 

    A todas nosso metrô se destaca e se sobrepõe! Declarei isto em visita monitorada ao CCO, a convite da Direção do Metrô, anos passados, dirigindo palavras a funcionários reunidos no anfiteatro local. 

    Este é o meu testemunho de brasileiro, residente há 70 anos nesta megalópole, e ainda na expectativa de participar de outras inaugurações do melhor e mais elogiável sistema de transporte sobre trilhos, o Metrô da Cidade de São Paulo!!!

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    Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.