Conte Sua História de São Paulo: lições de um cadete do Barro Branco especialista em despedidas

Luiz Eduardo Pesce Arruda

Ouvinte da CBN

reprodução Governo de SP

Quando ingressei na Polícia Militar, em 1977, como cadete da Academia do Barro Branco, havia duas oportunidades de se dar bem: ser atleta de uma das equipes da academia ou na CORP – a Comissão de Relações Públicas da Academia. Como para atleta não servia, restou-se a CORP. E como funcionava: todo sábado, 16 cadetes engalanados e sorridentes dirigiam-se a um baile de debutantes, escalados pela academia. Um dançava com a aniversariantes, os demais com as amigas. Todos elegantemente vestidos, de uniforme azul de gala, quepe branco, e espadim reluzente. Arrasavam corações já na entrada do baile.

Eu bem que tentei, mas nunca era escalado. Não sabia dançar. Restou-me a comissão de pêsames. A despeito do motivo do evento, eu passei até a curtir as saídas da academia para os velórios. A paz, o ritual, a lembrança da finitude humana, a insensatez da vaidade, a fugacidade da beleza física. Tudo aquilo dizia muita à minha alma jovem. Era uma materialização de Esclesíastes, na reprimenda à vaidade. E sempre havia café ou um lanchinho para acompanhar.

No fim do curso, quase cinco anos depois, formado em câmara ardente, nos velórios mais prestigiosos de São Paulo, tornei-me uma referência, uma lenda viva, reconhecida pelos pares como o maior expert no assunto.

— Arruda, conheceu o coronel João, o Aviador?

— Fui no velório dele

— O coronel Pedro, o Paraquedista?

— Não conheci em vida, mas fiz câmara ardente para ele.

E fazia minha recomendações: no cemitério da Quarta parada tem um trailer de lanche e a calabresa com queijo é muito honesta. O Gethsêmani e o Morumbi têm uma lanchonete que é uma beleza, mas leva dinheiro porque é tudo muito caro. Se for escalado no Perus ou Santo Amaro, leva lanchinho de casa, porque o serviço é bem fraquinho.

Ao chegar no local, identifique a viúva e os parentes, faça expressão séria, ofereça os pêsames em nome da Academia e cuidado para não entrar em rodinha de gente inconveniente, bêbada e piadistas —- essa fauna sinatrópica que não vive sem um velorizoinho. Mas também, convenhamos, sem esse povo não tem a menor graça.

Luiz Eduardo Pesce Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: empresas tem de ser onipresentes na jornada do consumidor, diz Lyana Bittencourt

Foto de Mikhail Nilov no Pexels

“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”

Lyana Bittencourt

Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:

“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.

A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:

“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”. 

E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier.  Ou seja, nem só físico nem só digital: figital. 

“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”. 

Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Sua Marca: quando a marca deve fazer uma harmonização facial

Colégio Bandeirantes ganhou novo logotipo (foto: divulgação)

“Ao longo da história de uma marca é preciso fazer mudanças para preservá-la”

Jaime Troiano

Tá na manchete do site de fofoca. Tá em destaque na televisão. Tá nas páginas de saúde e bem-estar. Harmonização facial é o tema da moda quando o assunto é beleza. É a combinação de uma série de procedimentos estéticos — dizem que suaves e sem cirugia — para corrigir a simetria e a proporcionalidade do rosto. Aplica-se botox, faz-se preenchimento facial, dá-se uma enxugada na papada e um reforço na elasticidade da pele. Bem feito, o resultado é ótimo. E tem quem diga, recupera a auto-estima. Quando dá errado … esquece!

Assim como as pessoas, as marcas também podem passar por uma espécie de harmonização facial, com retoques aqui e ali, capazes de oferecer uma imagem melhor, mais simétrica e moderna. São mudanças que vêm para preservar a marca, explica Jaime Troiano:

“Marcas antigas, tradicionais, algumas com décadas e outras centenárias, não precisam ficar com cara de velha. Devem fazer atualizações e renovações. dentro de certos limites. Por outro lado, não podem, simplesmente, levar uma vida acompanhando a modinha”.

O risco de fazer a harmonização facial da marca sem critério é perder o seu diferencial e ficar com a mesma cara da concorrência, a mesma linguagem e o mesmo conteúdo. A solução é bem parecida com aquela proposta por Jaime e Cecília, quando falamos de inovação das marcas: muda-se sem perder a essência. 

Um bom exemplo, usado pela Cecília Russo para ilustrar o tema, foi a “harmonização facial” do tradicional Colégio Bandeirantes, de São Paulo, fundado em 1944. Há três anos, a escola iniciou uma série de mudanças que passaram pelo nome, logotipo e comunicação com a intenção de expressar melhor a proposta da escola de “olhar à frente”. O colégio assumiu o nome Band, forma como seus alunos se referiam à instituição, e tirou a letra B, símbolo da escola, de dentro de um logotipo quadrado, para dar ideia de flexibilidade. 

“Acho que isso é um bom exemplo de fazer uma renovação: preservar o essencial, e mostrar que essa dualidade, ser tradicional e inovador ao mesmo tempo, é possível”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo, e sonorização de Paschoal Junior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã. Os ouvintes podem participar com mensagens enviadas para marcasdesucesso@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: César Souza apresenta 5 lições que temos de aprender com o sucesso da Magalu

“O líder, hoje, tem que estar ligado com essas palavras, que são bonitas, mas tem que ser praticadas: compaixão e amor. Tem que entender a dificuldade dos outros e buscar soluções para a dificuldade dos outros”

César Souza

Se quiser copiar e colar a frase acima e publicar nas suas redes sociais, sem problema. Agradeço de coração! Agora, se for para copiar e colar fórmulas aplicadas por empresas de sucesso, muito cuidado. O alerta é de César Souza, empreendedor de nascença, consultor por profissão e um fã das boas práticas de gestão. Essa é uma das lições que aprendeu ao longo da carreira e compartilhou com os ouvintes, em entrevista ao Mundo Corporativo, quando falou do seu último livro “O jeito de ser Magalu”, o primeiro de uma série em que analisa a história, a estratégia e o desempenho de algumas das principais empresas brasileiras, que podem inspirar os empreendedores:

“Deve servir de inspiração para cada um olhar para sua realidade, e ver o que é que pode fazer dentro da sua própria realidade; e não, simplesmente, aquela ideia, já desbotada, do benchmark, que muita gente vai atrás para ver como é que funciona uma outra empresa para trazer, para copiar, na minha empresa. Eu acho que copiar não funciona”.

Magazine Luiza surge quando o casal Luiza Trajano e Pelegrino José Donato compra a Loja Cristaleira, em Franca, no interior de São Paulo, em 1957. Antes mesmo de inaugurar o novo negócio, Luiza revela uma característica que marcaria o grupo ao longo de sua trajetória: foi a uma rádio local e lançou concurso para que os ouvintes escolhessem o nome da loja. Essa prática está dentro do conceito que César Souza identifica como o da clientividade, que é “colocar o cliente no centro do seu modelo mental, no centro do seu coração, no centro das suas decisões” 

Da ação no fim dos anos 1950 à expansão da rede, da loja do interior paulistano que se transformou em marca nacional à transformação digital, a Magazine Luiza passou por três sucessões —- o que, por si só, já é um tremendo desafio poucas vezes vencido pelas organizações, no Brasil. A fundadora Luiza Trajano entregou o comando para a sobrinha, Luiza Helena. Por um período, a empresa esteve nas mãos de um profissional de mercado, fora da família, Marcelo Silva, que fez a transição para Frederico Trajano, filho de Luiza Helena, e responsável pelo avanço tecnológico que levou a empresa a um outro patamar.

A sucessão exemplar é a primeira de cinco lições elencadas por César Souza que se deve aprender ao analisar a história da Magazine Luiza.  Outra — e já falamos dela — é colocar o cliente no centro do negócio. A lista se completa com a paixão pelas pessoas e equipes, a tecnologia humanizada e o senso de propósito:  

“A Magalu não é uma empresa grande é uma grande empresa. É uma neo empresa … as verdadeiras empresas do século 21. Porque ainda vemos empresas grandes aqui no Brasil que estão no século 20. A Magalu está em 2030. E tem capacidade de servir de exemplo para muitos empreendedores que estão começando os seus negócios”.

Para aprender com as lições ensinadas pela Magalu — sem precisas apenas copiar e colar —-, ouça a entrevista completa com César Souza, no Mundo Corporativo:

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: meu amigo Edinho, o Macalé

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

O menino trajava calça curta azul-marinho, camisa branca e, nos pés, exibia um conga — esse talvez novinho. Avistei-o na empoeirada ladeira da antiga Estrada 4, numa manhã de fevereiro de 1964. O período letivo estava começando e nos encontrávamos na estrada que, anos depois, deixaria de ser número e passaria a se chamar Avenida José Joaquim Seabra, no Rio Pequeno, na região do Butantã, em São Paulo.

Aproximei-me e fiz ao menino a mais óbvia de todas as perguntas naquelas circunstâncias: — Você está indo para a escola? De imediato, ele respondeu sim, reforçando a fala com o movimento da cabeça. Depois dessa “densa e longa” conversa, fizemos em silêncio o restante do caminho. Aquele era meu segundo ano na escola e, como se repetiria em todo início de período, estava na expectativa de fazer novos amigos entre a turma da classe — era assim que a gente chamava a sala de aula. As instalações do grupo escolar resumiam-se a dois galpões de madeira, que um dia tinham recebido uma demão de tinta azulada, com vidraças quebradas, tetos sem forro e buracos nas telhas de amianto, por onde entrava a luz matinal. Por coincidência, o garoto que eu acabara de conhecer fazia parte da nova turma.

Nesse breve espaço de tempo teve início uma amizade que perdurou até os dias atuais. Foi também nessa mesma ocasião que descobrimos que apenas algumas quadras separavam nossas casas, e isso contribuiu para que nos tornássemos amigos quase inseparáveis. Edson — nome com o qual eu o conheci — era um menino esperto e se tornou companheiro de incontáveis jornadas. Um dos primeiros talentos que nele percebi e parecia lhe ser inato era a habilidade com a bola de futebol. Enquanto ele a tratava com intimidade, eu só tentava jogar. À dupla original, se juntaram outros garotos da vizinhança — nessa época, era comum que os pais conhecessem quase todos nossos amigos, mesmo que as famílias não se relacionassem ou sequer se vissem. Dos familiares do Edinho — diminutivo pelo qual todos o tratavam — carrego boas recordações do Sr. Antônio, o pai, das feijoadas da Dona Raimunda, a mãe, e das irmãs Cidinha, Lili e Edna, além dos primos Dudu e Carlinhos.

Dele, uma das lembranças frescas em minha memória é sua quase indestrutível farda de bombeiro — enquanto coube em seu corpo, foi usada como fantasia de diversos carnavais. Com o Edson, o Tute — assim eu era conhecido pelos amigos — cursou o primário e o ginasial. Nesse período, exploramos terrenos baldios onde jogávamos futebol e disputávamos partidas de taco e nos aventurarmos a ir mais longe, como nas partidas de futebol aos domingos à tarde no Morumbi, estádio então recentemente concluído.

Aos sábados de manhã, era com ele que eu e outros amigos nos dirigíamos a uma feira livre no Itaim-Bibi para fazer carretos. Ainda nem éramos exatamente adolescentes quando tivemos que abrir mão das brincadeiras de crianças e encarar o batente. Agora era trabalho de dia e estudo à noite. Mesmo assim, continuávamos próximos e juntos concluímos o antigo ginasial e ingressamos no ensino técnico em administração no Colégio Fernão Dias, em Osasco. Nesse período, nos víamos quase que apenas em sala de aula: cada um saía do trabalho direto para a escola.

Edinho estava trabalhando numa empresa do ramo alimentício. Já com mais de 18 anos, a empresa havia colocado um carro à sua disposição. Foi nesse fusca branco que, por vezes, eu e o Keko — outro amigo do bairro — pegávamos carona para voltar pra casa.  O fusca foi também testemunha de nosso primeiro “enquadro”. Numa dessas noites, quando voltávamos da escola, uma viatura da Rota — divisão da Polícia Militar do Estado de São Paulo que já na época era reconhecida pela truculência — nos abordou na Avenida Rio Pequeno, — esquina da Avenida Corifeu de Azevedo Marques. “Delicadamente”, com a arma — uma calibre 12 — engatilhada e apontada para a cabeça do Edinho, o policial gritou: — Parou, parou! Mãos na cabeça, negão! Eu disse as duas mãos.

Enquanto isso, outros dois soldados apontavam suas escopetas para os caronas. Saímos do carro com as mãos levantadas. Grosseiro como só os policiais sabem ser, o trio nos empurrou de cara para o muro e passou a nos revistar. Da minha bolsa, retiraram a marmita, abriram, constataram que estava vazia e, aos risos, abandonaram-na no chão da calçada.

—  Negão, de quem é esse carro e cadê os documentos? — indagou um dos soldados. Calmamente, Edinho entregou os documentos e, de imediato, foi questionado pela “autoridade”: —  Quem me garante que o fusca não é roubado? Sem exibir qualquer traço de nervosismo, Edinho mostrou sua carteira funcional.  Terminada a abordagem, os policiais entraram na viatura e arrancaram sem esboçar um mero pedido de desculpas.

A humilhação de ter a marmita exposta foi até insignificante diante das evidências de racismo praticado pelos militares ao abordar o motorista e tratá-lo sem nenhum respeito. Percebi certo constrangimento na expressão do Edinho. O ato preconceituoso tornou-se marcante em minha vida, pois, se, de um lado, revelou como a polícia tratava jovens da periferia, de outro mostrou a dignidade de meu amigo.

Algumas vezes eu e o Edson saímos juntos à procura de emprego. Em uma dessas jornadas, acabamos indo parar na zona norte de São Paulo. Ali a fome bateu e decidimos almoçar num boteco da Rua Voluntários da Pátria, que tinha no cardápio um prato chamado feijoada. Não tínhamos ideia da qualidade e do que pudesse ser, assim mesmo resolvemos experimentar. A novidade era tão ruim que, ao fim do almoço, meu amigo observou que o melhor daquela feijoada fora o pãozinho, para, em seguida, soltar uma tremenda gargalhada.

Concluído o colegial, seguimos caminhos diferentes e acabamos nos afastando. Nunca, porém, deixamos de nos encontrar. Faculdade, trabalho, casamento e filhos nos tornaram ainda mais responsáveis do que éramos nos distantes anos de nossa infância e juventude. Nos últimos anos, algumas vezes conseguimos almoçar e tomar café juntos. Dele, preservo diversas e boas lembranças — só o fato de me apresentar Billy Paul, mostra o quanto o cara era conhecedor de boa música. Infelizmente, vitimado pelo Covid, Edinho partiu, mas deixou muitas recordações. Ao menos três coisas com ele não consegui aprender: jogar futebol, sambar e tratá-lo por Macalé.

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler o texto completo desta lembrança dele com o amigo Macalé, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie o seu texto também: contesuahistoira@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: sinto falta dos sabiás

Por Fernando Ceravolo

Ouvinte da CBN

Foto: Mílton Jung

Sinto falta dos Sabiás. Aqui, onde hoje moro, em uma praia ao norte da ilha de Santa Catarina, eles não existem. Uma pena!

Há os Bem-Te-Vis, os Tico-Ticos, os Joões-de-Barro que cantam também, mas não como os Sabiás. E os inúmeros Pardais, que fazem enorme barulheira quando em grupos – vieram de Portugal, introduzidos no inicio do século passado, pois antes não existiam no nosso País. Virou praga!

Também, há as Gaivotas e Fragatas que voam imponentes e maravilhosamente, mas não cantam. Como os Urubus no seu planar majestoso, totalmente mudos. Mas Sabiás não há. Não sei o motivo, talvez não gostem de praia como eu. Uma pena…

Essa é a época do ano do acasalamento dos Sabiás, cantando forte e longamente para atrair as fêmeas, no raiar do dia e ao cair da noite, alegrando as nossas almas. Mas aqui não os ouço, só sinto a sua falta.

Os Bem-te-vis cantam e é gostoso de ouvir também. Sei que eles adoram água, e talvez por isso estejam aqui e não os Sabiás. Talvez?

Os Joões-de-Barro cantam como se fosse um grito. Gosto de ver esses pássaros construtores bicando o barro e voarem aos seus ninhos em construção, instalados em lugares incríveis, tais como, por exemplo, nos semáforos das ruas da cidade, tapando uma das luzes. Mas não cantam como os Sabiás!

Sou da cidade de São Paulo, onde vivi por anos e escutava o cântico dos Sabiás, há muitos lá, ecoando pela cidade. Uma melodia apaixonada, harmônica e romântica, com notas longas e agudas, expressando a sua necessidade de amor. Acalmava-me ouvir e me despertava para os lindos dias da primavera, com a floração dos Ipês e das flores espalhadas pelos canteiros da cidade, com os seus cheiros e dias luminosos e quentes.

Os Sabiás são os arautos dessa maravilhosa estação do ano, do reinicio da vida.

Sinto falta dos Sabiás! 

(texto escrito originalmente para o Blog do Cera)

Fernando Ceravolo Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio —- e dos sabiás, também. E você? Quando vai enviar a história. Escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Se quiser ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Mundo Corporativo: entre gerar impacto e ganhar dinheiro, fique com os dois, recomenda Anne Wilians

Foto de Roberto Hund no Pexels

“O que ele busca é necessariamente um impacto na transformação das pessoas. Essa é uma das primeiras características do negócio social”

Anne Wilians, empreendedora social

A inteligência emocional pode ser aprendida e desenvolvida; e se assim o é, precisa ser exercida no cotidiano. A lógica que abre esse texto não é recente. Foi apresentada ainda nos anos 1990, pelo psicólogo e jornalista Daniel Goleman. Foi dele a provocação de que o QE fala mais alto do que o QI. Muito antes, ainda nos anos 1920, Edward L. Thorndike, já havia usado a expressão ‘inteligência social’ ou a capacidade de entender e motivar outras pessoas. Mas foi Goleman, quem popularizou o debate sobre o tema, em ‘Inteligência Emocional’, livro que vendeu aos borbotões mundo a fora. 

A partir dos pensamentos de Goleman, muitas pessoas se inspiraram a trabalhar a autoconsciência, a auto-motivação, a capacidade de nos relacionarmos, a empatia e a consciência social. A advogada e administradora Anne Wilians certamente está entre as seguidoras desse californiano, nascido em 1946, como se percebe no projeto que realiza no Instituto Nelson Wilians, apresentado como o ‘braço social’ de uma das principais bancas de advogados do Brasil, que tem à frente o marido dela:

“Eu tenho que ter uma consciência social, de entender onde que eu tô inserida. Quais são as dificuldades do meio que eu tô inserida. O que eu posso agregar nesse meio; o que eu não posso”.

Anne Wilians é autora do livro “Empreendedorismo Social Feminino”, publicado em versão digital, uma espécie de caixa de ferramenta para quem pretende montar seu negócio, considerando que o foco de um empreendimento de caráter social é o impacto no desenvolvimento das pessoas e da comunidade. Em entrevista ao Mundo Corporativo, Anne diz que o propósito desse negócio tem de ser a transformação que o empreendedor pretende provocar, e para que isso se torne permanente, o negócio social tem de ser sustentável e de longo prazo. O lucro não deve ser o impulsionador da ideia, o que não significa que deva ser desprezado — é o que pensa Anne, agora inspirada em outro projeto que há 15 anos incentiva a criação de negócios sociais, no Brasil:

“A Artemísia, que é uma das grandes mestres que trouxe o negócio social para Brasil, fala que entre gerar impacto e ganhar dinheiro, fique com os dois”. 

No Instituto, os programas oferecem conhecimento a homens e mulheres; enquanto no livro, Anne foca a necessidade de se abrir espaço para que elas  sejam as protagonistas do seu próprio negócio. Entende que, com a pandemia, o mercado está mais sensível para empreendimentos sociais, mas ainda existe uma discrepância de valores. Segundo Anne, 95% dos investimentos estão concentrados em projetos liderados por homens. 

“As mulheres são muito mais preparadas academicamente — a gente chega no nível de graduação, no nível de pós-graduação — mas ainda assim a insegurança não permite que a gente acesse alguns meios. Então, é preciso trabalhar com isso para que a gente consiga esse espaço”.

Trabalhar o conhecimento socioemocional de jovens até 29 anos — e aqui voltamos a Goleman — é um dos objetivos dos programas criados com parceiros de negócios, desde 2017, quando o instituto foi criado. Tempo suficiente para impactar cerca de 24 mil pessoas, nos cálculos de Anne. Ao longo desse tempo, a fundadora e diretora-presidente do INW, diz ter percebido que os jovens estão muito mais interessados na busca de soluções para os problemas que atingem suas comunidades e pensam de forma mais inclusiva:

“Eles estão muito mais sensibilizados. Você quando traz uma possibilidade de um negócio para um jovem, ele já, certamente, vai te oferecer uma solução social. Ele vai te trazer ideias e são ideias que têm transformação social incutidas nelas”

Assista à entrevista completa com a fundadora e CEO do Instituto Nelson Wilians, ao Mundo Corporativo.

Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: o dia que o carro oficial parou na porta do meu barraco

Por Sueli de Souza

Ouvinte da CBN

Mudei para a Capital, em dezembro de 1974, quando me casei. Tinha 24 anos. Fui morar na Rua Nestor Pestana, no centro, e consegui um emprego como secretária na rua da Consolação, era só atravessar a rua.

No segundo semestre de 1975, nossa situação econômica se deteriorou bastante. Não conseguimos renovar o contrato de aluguel do apartamento e fomos viver na periferia, na zona oeste, divisa com Osasco, num barraco cedido por um amigo.

Eu havia prestado um concurso público para a Câmara Municipal de São Paulo e esperava que me chamassem logo, pois fora bem classificada. Havia, inclusive, me demitido do emprego. A convocação demorou e o dinheiro foi ficando escasso. Meu marido também mudará de emprego e começara a trabalhar como vendedor, profissão para a qual não tinha a mínima vocação. 

Quando recebi a convocação para fazer os exames médicos e tomar posse, em janeiro de 1976, não tinha um tostão para fazer as cópias dos documentos, o exame de sangue e pagar a passagem de ônibus até o centro. Assim, não pude atender imediatamente ao chamado.

Um dia, qual não foi a minha surpresa, vi estacionar na porta do barraco um carro oficial. O motorista trazia o recado do diretor do Departamento de Pessoal da Câmara Municipal, querendo saber o motivo de eu ainda não ter comparecido.

Consegui emprestado o dinheiro da passagem de ida e volta e fui explicar ao diretor o porquê de minha demora. Quando lhe disse que o motivo era falta de dinheiro, ele imediatamente emprestou-me a quantia necessária. E disse para eu devolver quando recebesse o primeiro salário.Aceitei porque senti honestidade em sua oferta.

Tomei posse e comecei a trabalhar em seguida. Quando o primeiro salário caiu na minha conta, fui pagar o empréstimo. 

Trabalhei na Câmara durante dois anos; depois, mais 36 anos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde também ingressei por concurso público. Estou aposentada há quatro anos.

Tenho, até hoje, uma profunda gratidão por aquele senhor, que acreditou em minhas razões e me estendeu a mão num momento extremamente difícil de minha vida. Essa solidariedade que experimentei nos meus primeiros tempos em São Paulo e em muitas outras ocasiões,  foi o que mais me cativou e me fez concluir que São Paulo é a minha cidade.

Sueli de Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você a sua experiência aqui na cidade e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para  ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Sua Marca: ética e bom senso devem ser a marca da publicidade para as crianças

Reprodução da primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo

“Nós não paramos de brincar porque envelhecemos, mas envelhecemos porque paramos de brincar”

Da frase que abre esta conversa temos uma certeza: preservar características da infância pode nos ajudar muito no crescimento e desenvolvimento como ser humano. Falo dessa certeza, porque do seu autor, não sei bem. Na internet —- ah, essa internet —-, aparece entre aspas para Bernard Shaw, Oliver Holmes e Benjamin Franklin. Como geralmente se descobre quando se vai a fundo na pesquisa, é provável que nenhum deles tenha dito a coisa propriamente dita. Vamos valorizá-la então pelo que tem a nos ensinar, mesmo porque o tema principal desse nosso bate-papo não é o “saber brincar”, mas o saber se comunicar no Dia das Crianças.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo aproveitaram a proximidade da data para relembrar regras que precisam ser respeitadas, por lei ou por bom senso, quando se pretende vender produtos para crianças. É preciso considerar que elas são vulneráveis e compreendem o mundo de forma diferente dos adultos.

No Brasil, a publicidade voltada às crianças é controlada por normas que buscam limitar ou direcionar o conteúdo para um tom mais educativo do que comercial. A Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens publica uma cartilha, disponível na internet —- ah, a internet —-, em que se destacam três regras:

  1. Não use termos imperativos que induzam ao consumo. Expressões como compre, peça e colecione não podem sair da boca de crianças. Ao contrário, a comunicação deve favorecer a moderação, a aceitação espontânea, a reflexão;
  2. A publicidade não pode representar atitudes que proporcionem superioridade pelo uso do item anunciado, ou inferioridade por aqueles que não o usam. 
  3. A criança jamais deve ser a portadora da mensagem de consumo. Essa mensagem deve ser sempre dirigida aos pais, nunca às crianças, de forma direta ou indireta.

Saiba mais acessando a cartilha “O caminho para a publicidade responsável de produtos destinados às crianças”, da Abral

“Se a ética já é relevante para adultos, para crianças deve ser sempre o primeiro critério” 

Cecília Russo

Jaime Troiano, que não envelheceu porque ainda sabe brincar, especialmente com as palavras, aproveitou que estávamos falando de crianças na publicidade para chamar atenção para algo que o incomoda bastante: o uso das crianças para vender produto aos adultos. É comum assistirmos a comerciais na televisão —- ah, essa televisão —- em que o filho ou a filha revela desejo de que o pai compre um modelo de automóvel ou a mãe tenha um determinado plano de saúde, apenas para ficar em alguns exemplos.  

“Fala-se muito pouco disso. O que se busca nesses casos é sensibilizar os pais e adultos através do olhar ingênuo e fofinho das crianças. Ou seja, também é uma forma de manipulação que envolve crianças. Mesmo que não sejam elas o público-alvo dessa comunicação, elas também são impactadas”.

Jaime Troiano

Dito isso, voltemos as boas práticas do mercado.

Jaime e Cecília destacaram algumas marcas e produtos que souberam, ao longo do tempo, falar com as crianças de forma inteligente, prudente e ética. Na lista, aparecem a Disney e a Turma da Mônica que “sempre foram bastante responsáveis e ativas na busca de propostas que ajudassem pais a educarem seus filhos”. Tem, também, Lego e Playmobil, que na essência de suas propostas promovem práticas educativas, incentivando o crescimento, o raciocínio e a motricidade. E, ainda, o Castelo Rá-Tim-Bum e o Sítio do Picapau Amarelo, que marcaram suas trajetórias pelo desenvolvimento de produtos editoriais que sempre se preocuparam com a qualidade do conteúdo e incentivo as boas práticas.

“A primeira (lição) é termos bom senso quando estivermos lidando com marcas que se relacionam com crianças: todo cuidado é pouco. A segunda é de que o melhor ainda é aproveitar esse dia de feriado para estar junto das crianças”. 

Cecília Russo

Independentemente da idade, aproveite o Dia das Crianças para exercitar a sua capacidade de brincar, afinal como aprendemos “nós não paramos de brincar porque envelhecemos, mas envelhecemos porque paramos de brincar”, disse Jaime Troiano (ou teria sido Shaw, ou Holmes, ou Franklin).

Sei lá, só brinque!

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Paschoal Júnior:

Conte Sua História de São Paulo: o tricô e o rádio na vida da Dona Nilzinha

Por Eliana Lima, filha de Dona Nilza

Ouvinte da CBN

Nilzinha tem 92 anos. Santista de nascimento, chegou em São Paulo ainda menina.  Trouxe duas paixões na bagagem: os livros e o rádio. 

Aos 73 anos, perdeu 98% da visão e o rádio passou a ser o principal companheiro. 

Ouvinte desde os tempos da antiga Excelsior, adorava as seleções musicais. Com a chegada da CBN, Nilzinha sentiu-se saciada sua necessidade  pelas notícias do cotidiano. 

Uma de suas paixões é o Jornal da CBN. Acorda às seis da manhã, com o Mílton e a Cássia, que teve o prazer de conhecer pessoalmente. 

No rádio, segue até o Noite Total e só dorme depois de ouvir a Tânia Morales, por quem também tem carinho especial. Fernando Andrade, Tatiana Vasconcelos, Pétria Chaves …  são outros companheiros sobre os quais ela fala com admiração.

O rádio passeia por todos os cantos da casa. Onde ela vai, ele está. 

A atenção só fica dividida enquanto conta os pontinhos do tricô, um hábito que mantém desde os 20 e poucos anos. E do qual tricota roupas infantis maravilhosas. As roupinhas de bebê são puro encanto. 

Hoje, por conta da baixa visão, tricotar se transformou em mais um desafio, vencido dia após dia. Da vida,  dona Nilzinha nada tem a pedir. É só gratidão.

Nilza Barbosa Lima e a filha Eliana Lima são personagens do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog agora: miltonjung.com.br