Evite palavras que imobilizam o ouvinte como abscôndito fez com o poeta

Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

“Tão comodamente que estava lendo, como quem viaja num raio de luz, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO … Que momento passei!… O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se porta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda… O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: FOGO!”

Em “Trágico acidente de leitura”, Mário Quintana descreve, de forma tanto criativa quanto irônica, o seu espanto diante de palavra pouco comum para seu vocabulário —- e, pense comigo, para um poeta com a riqueza vocabular de Quintana se espantar com alguma palavra …  meu Deus! No caso dele foi “abscôndito”, que o Aurélio diz ser aquele “cuja identidade ou procedência não se quer mostrar; escondido”. No meu caso, sem a riqueza do mestre e com uma enorme implicância adquirida ao longo da carreira, encaro constantemente momentos como os relatados pelo poeta. É na leitura dos jornais ainda na madrugada, é no texto da redação do rádio logo cedo, é na audição das reportagens, é na televisão que tenta tirar minha atenção enquanto apresento o programa. Nos e-mails, releases e mensagens que chegam pelas mais diversas fontes.

Minha implicância não é com abscôndito —- que não aparece no noticiário por nossa total falta de competência —-; é com coisa bem mais simples e tão incompreensível quanto. Diante dos números absurdos da Covid —- de infectados, de mortos, de vacinas e de dinheiro roubado —-  e, provavelmente, em busca de alguma variante para o honesto “quantidade”, tão bem aprendido na escola, decidimos introduzir o “quantitativo”. Até sei de quem é a culpa. É dessa turma de mentirosos e enrolados que se apresenta na CPI da Covid. Acusados, eles atacam com “quantitativos”. Os acusadores não se dão por rogados, e devolvem na mesma moeda. Nós jornalistas, de ouvidos atentos a tudo que acontece por lá, concluímos o serviço repetindo a expressão, sem pestanejar. 

Fico eu pensando no seu Zé, lá da padaria, que todas as manhãs ouve a turma pedindo pão cacetinho. Ops, perdão, isso a gente só pode falar lá no sul. Aqui em São Paulo, é pão francês, mesmo que o padeiro seja de origem lusitana. Mas vamos ao que interessa: será que o seu Zé, alguma vez na vida, quando o freguês chegou pedindo o pão francês, contra-atacou com um insólito: “qual o quantitativo de pães que o senhor deseja?”. Claro que não, seu Zé fala a língua do freguês. Então, por que nós jornalistas preferimos falar a dos acusados?

Quantitativo à parte, a tristeza do vocabulário jornalístico não tem limite. A cada dia sofremos ‘momentos de imobilidade e apreensão’ diante de palavras ditas sem pensar. Palavras e expressões.

Recentemente sofremos com a pandemia do ‘novo coronavírus’ —- que um ano e meio depois, já com nome, sobrenome e apelido, segue sendo “novo”. A variante dessa expressão migrou para o campo do comportamento: o “novo normal” — que  costuma ser acompanhado por um lugar comum dos mais miseráveis que ocupa espaço em textos e manchetes: “nestes tempos de pandemia …’.

Tem coisa sendo digitada e reproduzida por aí, que me incomoda muito mais. O verbo disponibilizar, com todos os seus dês e bês, mesclados de instigantes is, é das palavras mais lindas do ponto de vista estético, da língua portuguesa. Hipopótamo, recôndito e proparoxítona talvez se encontrem no mesmo nível de beleza, sem contar que ao serem ditas enchem a boca de sonoridade. A despeito de sua arquitetura, disponibilizar não é verbo conjugável na língua popular. 

Lembro sempre de recomendação do amigo e jornalista Afonso Licks, com quem trabalhei em Porto Alegre: não tem pauta se não estiver na rua da Praia. A tal rua, batizada oficialmente de Rua dos Andradas, nasceu com a capital gaúcha. É a mais popular, apesar de ter perdido parte de seu charme com os centros comerciais. É lá que o povo anda. E Afonso defendia que assunto que interessa ao povo que anda na rua da Praia é assunto que tem de estar na nossa pauta. Usurpei da lógica “afonsiana” para pensar sobre o vocabulário jornalístico, em especial no rádio: não existe vocabulário se não estiver na rua da Praia.

Digressão feita, volto ao verbo disponibilizar que tem aparecido com exagerada frequência no noticiário em lugar de palavras bem mais acessíveis como oferecer, conceder e apresentar. Os governos não oferecem mais nada, só disponibilizam. Arquivos públicos também são disponibilizados, nunca estão acessíveis. A loja não vende produtos, os disponibiliza aos clientes. Pense comigo, na rua da Praia, na do Brás, no Saara ou no Mercado Modelo será que as pessoas disponibilizam alguma coisa para as outras, ou vendem, ou oferecem, ou dão? 

Sei que temos o dever de enriquecer o vocabulário, mas não elitizá-lo ou, ainda pior, desvirtuá-lo e reinventá-lo. Precisamos ouvir a rua, dar um trato na palavra, consertar seus erros e disponibilizá-la … ops, perdão …devolvê-la mais bem elaborada colaborando com a cultura nacional. 

Ditos e malditos nos bastidores do rádio, e dos quartéis, também

General Braga Netto Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Acordamos sob a ameaça da manchete do Estadão de que o Ministro da Defesa Walter Braga Netto mandou recado para o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de que sem voto impresso não terá eleição, em 2022. A mensagem teria chegado ao parlamentar, no dia 8 de julho, através de um importante interlocutor político —- que não teve nome identificado:

“A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição”

A apuração das repórteres Andressa Matais e Vera Rosa lembra que na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro, fez ameaça semelhante, explícita e pública, em conversa com os que vivem no cercadinho do Palácio:

“Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

No vocabulário bolsonarista, eleição limpa é com voto auditável e voto auditável é voto impresso —- uma falácia, como bem sabem todos os supostos hackers de urnas eletrônicas. 

O fato é que quando se acorda com uma notícia dessas, o Jornal vira de cabeça pra baixo. O que era prioridade na pauta, perde espaço. O que anunciamos na abertura, corre o risco de ser deixado de lado. A entrevista previamente marcada cai —- jargão que costumamos usar quando algum assunto agendado deixa de ir ao ar. No rádio, assim como na padaria, o freguês quer “pão quentinho”; se sintonizar e encontrar pão amanhecido — ou notícia velha —-, troca de padeiro

E na nossa padaria, enquanto aos apresentadores cabem relatar os fatos, contextualizá-los e mantê-los atualizados; aos produtores, resta a ingrata função de encontrar alguma fonte disposta a tratar do tema. Ao mesmo tempo, repórteres saem em busca de confirmações e comentaristas reordenam seus argumentos para avaliações. Foi o que fizeram Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, na manhã desta quinta-feira. 

Sardenberg aproveitou as trocas que o presidente Jair Bolsonaro anunciou que fará no seu ministério para mostrar duas facetas deste governo: a entrega da gestão para o Centrão ( “… não sobra um meu irmão”, disse um dia o general Augusto Heleno) e a ameaça constante ao Congresso e à democracia. Miriam, que há algum tempo alerta para os riscos de a política entrar nos quartéis, disse que os sinais de golpe estão muito claros e “só não os teme quem não conhece a história do Brasil”. Aliás, Miriam também comentou que provavelmente todos os envolvidos negariam a existência dos fatos.

Sequer havia se encerrado o Jornal da CBN e o presidente da Câmara Arthur Lira já negava a existência de qualquer ameaça por parte do Ministério da Defesa e de ter tido alguma conversa com o presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto —- informação publicada pelo nosso colunista e de O Globo Lauro Jardim. Não demorou muito para o ministro Walter Braga Netto — que vinha sendo procurado para falar do assunto desde a segunda-feira — acusar de invenção a reportagem do Estadão

Convenhamos, todos cumpriram o seu papel. 

Até porque é assim que as ameaças funcionam: 

O emissor diz o que quer dizer com todas as palavras para que o seu dito seja bem dito; assim que o dito é revelado, volta para dizer que tudo é resultado de algo maldito, de jeito que até a coisa propriamente dita comece a desconfiar que não foi propriamente dita. 

(com a inspiração de Mário Quintana)

Dito isso, lá estávamos nós com a massa no forno tendo de trabalhar com os novos ingredientes. E se os personagens diretos do tema não queriam se pronunciar em viva voz, precisávamos encontrar pessoas relevantes e conhecedoras dos bastidores políticos e militares para ajudar o ouvinte a entender o que acontecia no país.

Foi, então, que chegamos no ex-ministro e general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que ocupou o cargo de secretário de Governo de Jair Bolsonaro — a quem inadvertidamente apresentei como sendo Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa. Por que fiz isso? Porque na distância do estúdio para a minha casa, percorrida pelo WhatsApp, entendi o dito errado e cometi o maldito erro. Isso tudo dito para também descrever como as coisas se desenrolam nos bastidores de um programa de rádio até se chegar a alguém relevante para que o pão quente seja servido ao ouvinte.

No caso, o general da reserva que, com a experiência de quem já circulou nos gabinetes da política e nos corredores dos quartéis, disse que não vê risco de golpe, mas que devemos estar preocupados:

“Não é possível que num país como o Brasil tenha esse tipo de blefe” 

Ouça a entrevista completa com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz no Jornal da CBN:

Os farejadores de vacina e a pandemia dos não vacinados

Foto: Governo do Estado de SP

Pra uns é um resfriado. Para outros, uma intensa dor no corpo. Tem quem sequer ficará sabendo. Há os que precisam recorrer aos hospitais. E os que, infelizmente, deles não saem mais — entre os quais muito mais jovens do que no início desta pandemia. A variante Delta que predomina na Europa e nos Estados Unidos — e já é “influencer” no Rio de Janeiro  —-, pelo que se sabe até agora, mata menos e contamina mais (de 30 a 50% mais do que sua irmã mais velha). No entanto, quanto mais gente contaminada, maior a pressão no atendimento da rede hospitalar, menos leitos à disposição e o risco de morrer por falta de atenção. 

Falamos do assunto, nesta terça-feira, com o doutor Jarbas Barbosa, médico sanitarista e epidemiologista, que faz às vezes de vice-diretor da Opas, a Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS aqui na nossa área. Com experiência internacional e de quem já comandou, também, a Agência de Vigilância Sanitária — Anvisa, no Brasil, Dr Jarbas tem ajudado a fazer alertas importantes, desde o início da pandemia, às nações, às autoridades e às populações.

Na entrevista ao Jornal da CBN, da qual participamos Cássia Godoy e eu, o médico foi claro no recado que enviou: 

“Vivemos uma pandemia de não vacinados”

Mesmo diagnóstico que havíamos ouvido, lá dos Estados Unidos, um dia antes, da doutora Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças quando informou que a média diária de pessoas infectadas teve aumento de 70% em relação a semana anterior; e a média de internações, alta de 36%, em solo americano.

A despeito de o número de casos de pessoas contaminadas com a variante Delta, aqui no Brasil, ser incerto e inseguro —- já que investigamos bem menos do que o necessário —, não se tem mais dúvidas de que precisaríamos acelerar as medidas de proteção. Baseado no que acontece em outros países, fica evidente que o aumento da cobertura vacinal é a melhor resposta que poderíamos dar para impedir a disseminação dessa variante. Foi o que falou o Dr Jarbas. Foi o que ratificou o Dr Luis Fernando Correia, nosso comentarista, em entrevista ao jornal Extra: 

“Em alguns países, aumenta o número de casos, porém não aumenta o de mortes de internações, como no caso do Reino Unido. Já em casos como Rússia, Vietnam e África do Sul, as três curvas sobem juntas. Muitos casos, muitas hospitalizações e muitas mortes. O que parece fazer diferença é a cobertura vacinal”.

A fala dos dois tem o mesmo alvo: os negacionistas e os farejadores de vacina

Os primeiros são os que mais incomodam nos Estados Unidos —- onde a campanha antivacina sempre foi intensa, promovida por setores mais conservadores do  país, quase sempre ligados ao Partido Republicano; e por comunidades que foram vítimas de práticas discriminatórias de instituições de pesquisa no passado, como os afro-americanos. O outro grupo de não vacinados — em especial aqui no Brasil, mas não apenas no Brasil — é de pessoas que deixam de se imunizar enquanto buscam a vacina de estimação. 

No Brasil, especialmente uma elite mal-informada, seleciona vacina como se escolhesse roupa para viajar. Corre de posto em posto para saber se ali estão aplicando o imunizante que aceitam nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, em seu grupo social. Tomar Coronavac, é de última. AstraZeneca, toda a periferia tem. O chique é a Pfizer. A Janssen é um luxo. E por aí vai. Enquanto escolhe, fica exposto ao vírus. Corre o risco de morrer e de matar, disse Jarbas Barbosa:

“É um atentado contra você mesmo, porque você perde um tempo que é vital para garantir a sua proteção individual, mas, também, vamos relembrar que a vacina tem um papel coletivo”.

Em tempo: passou-se a identificar os que escolhem a marca da vacina que vão tomar como ‘sommeliers’ —- termo usado, inclusive, por especialistas na área de saúde. Sempre achei chique de mais para a atitude que adotam. Prefiro chamá-los de ‘farejadores de vacina’, pois passa a ideia daqueles cães que esfregam o nariz na terra em busca de algum cheiro para o qual foram treinados. Dr Luis Fernando ,que concorda com minha discordância em relação a expressão ‘sommelier’, foi mais direto ao ponto, na entrevista ao Extra

“… Tem me incomodado essa história de sommelier de vacina. Porque a elite brasileira adora esse tipo de coisa. Então, se a gente continua a usar esse termo sommelier de vacina, esses imbecis vão continuar achando que estão fazendo a coisa certa. Temos que chamar eles de imbecis e ponto”.

Ponto.

Ouça a entrevista completa com o Dr Jarbas Barbosa, da OPAS, ao Jornal da CBN:

Programa social para governo chamar de seu será anunciado em agosto

Foto: Divulgação/Ministério da Cidadania

Todo governo sonha em ter um programa social para chamar de seu. É legítimo. Faz parte do jogo. Eleitoral. FHC fez seus programas. Lula chegou, juntou tudo, reformatou e entregou com o nome de Bolsa Família. Dilma deu sequência. E agora é a vez de Bolsonaro, que tem soluços todas as vezes que precisa pronunciar o nome do programa que está bastante vinculado à imagem dos governos petistas. Lembre-se que ele e sua turma sempre venderam a ideia de que o Bolsa Família era um criadouro de vagabundos, gente que vivia mamando no Governo e não queria trabalhar. Acabou a mamata!

Veio a pandemia e o auxílio emergencial se fez necessário. Bolsonaro só queria duzentinhos no bolso dos brasileiros mais pobres. O Congresso enfiou intestino abaixo os 600 reais. Foi a salvação da turma que vivia aquém da linha de miséria. E o que sustentou por algum tempo a popularidade do governo dele. Mesmo assim, relutou em renovar o auxílio e devolveu 27 milhões de brasileiros para o andar mais debaixo da escala social. Em maio, com valor bem menor do que no ano passado —- afinal a a pandemia já está acabando, né?!? —, o auxílio voltou e acabou sendo estendido até outubro.

E quando novembro chegar?

O ministro da Cidadania João Roma, em entrevista ao Jornal da CBN, disse que um novo programa social começará a atender número maior de brasileiros necessitados, em outubro. A intenção é subir de 14,6 milhões de pessoas —- atendidas atualmente pelo Bolsa Família —- para 17 milhões, com valores que devem variar entre R$ 200 e R$ 300, em média. Outros instrumentos que possam colaborar com a distribuição de renda devem ser usados, de acordo com o ministro,  tais como programa de aquisição de alimentos, ajuda aos micro e pequenos produtores e capacitação profissional. O programa ainda não tem nome, mas será anunciado em algumas semanas —- ao menos é a intenção do Governo, que pretende armar o palanque no Planalto, em agosto. 

Roma, que está de malas prontas para Tóquio, onde representará o Governo Bolsonaro na abertura dos Jogos Olímpicos, não comprou a ideia do “programa social para chamar de seu” — expressão que usei em uma das perguntas. Foi mais formal:

“O governo quer um programa que sirva não apenas como teia de proteção aos mais necessitados mas também de um caminho para a promoção social, através da emancipação”

João Roma, Ministro da Cidadania

O risco de um programa social lançado faltando menos de um ano para a eleição —- que será em 2 de outubro de 22 — é vir pintado com as cores da campanha, fora da realidade e mal estruturado —- não seria surpresa, se considerarmos o DNA do Governo Bolsonaro. Planejamento não é o seu forte. De qualquer forma, é importante que a mão do Estado alcance muitos daqueles brasileiros que até o Bolsa Família desconhecia, não fosse a urgência do auxílio no ano passado. Sem esquecer das micro e pequenas empresas que podem absorver parte dos desempregados, desde que se derrube as muitas barreiras que impedem o acesso ao crédito. Sem elas, mais gente vai precisar da ajuda do governo.

Assista à entrevista completa com o ministro da Cidadania, João Roma, ao Jornal da CBN

Conte Sua História de São Paulo: o encontro com a minha companheira solidão

Maria Fernanda Mendes Pereira

Ouvinte da CBN

https://www.pexels.com/pt-br/

Assim que privados da convivência com entes queridos, de encontros a céu aberto, recorremos a nossa herança evolutiva em busca de novas soluções para sobrevivermos à tamanha mudança. Como nos alimentar, nos automedicar e, principalmente, nos comunicar sem sair de casa? Redescobrir novas ferramentas, aprimorar seus usos foi, mais uma vez, a solução encontrada pela espécie humana para se adaptar à nova fase.

Sempre usei a tecnologia com parcimônia, aproveitando de seus benefícios sem correr grandes riscos. Para mim, um universo desconhecido e complexo embalado por uma grossa casca de preguiça e desinteresse. Para que aprender a fazer certas operações comerciais de casa se podia ir a lojas, bancos, supermercados? Quantas conversas agradáveis e cafezinhos não garanti com essas visitas. E os imperdíveis encontros com amigos: “olhos nos olhos”, gargalhadas soltas, paqueras.  

Do período Paleolítico ao período Homopandemicus em menos de três meses, sentada em frente ao computador … Não reluto mais em comprar produtos, pagar contas, baixar aplicativos úteis e inúteis e até assistir às tais lives pelo celular.

Os encontros e reuniões com amigos pela internet são dignos de filmes de ficção cientifica. Com dia e hora marcada, os participantes se arrumam, se enfeitam, camuflam os desembelezamentos da quarentena e se olham cara a cara. Sem lenço, sem máscaras. Os mais prolixos adoram descrever, detalhadamente, como lavar cada pacotinho entregue pelo supermercado, as máscaras depois de utilizadas e inúmeras outras desinfecções. Outros preferem alertar sobre o perigo da contaminação e a irresponsabilidade da população. Alguns, talvez os mais insubordinados, preferem participar das videoconferências com alguma bebida alcoólica na mão. Nossa geração sempre se lembrará de que antes da tal pandemia havia renomadas instituições denominadas bares, onde isso era comum.

Depois de várias videoconferências, identifiquei um outro novo comportamento recorrente:  a vivência do mito de narciso. Eu, por exemplo, adoro observar meus movimentos e expressões projetados no computador. Cheia de caras e bocas, não deixo de me manifestar sobre o assunto discutido. Adoro ver as linhas que destacam minha imagem quando tomo a palavra. Mesmo não querendo me admirar, é impossível. Lá estou eu, em um dos pequeninos quadrados, me observando, me analisando, dessa vez como meu rigoroso superego.

Também o hábito de compartilhar interesses e habilidades nas redes sociais se tornou corriqueiro e, por consequência, meu gosto por escrever crônicas veio a público.Se a princípio me senti apavorada por ter de enfrentar a mim mesma, conviver com minha lucidez, encarar uma jornada tão enfadonha, longa, solitária e imprevisível; com o passar do tempo passei a olhar melhor ao redor. O silêncio, o canto dos pássaros e o crepúsculo me fascinaram. Estupefata, fui descobrindo horas de prazer em livros, filmes, em mim mesma.

Conclui, após tantos dias de confinamento, preferir a profundidade que encontrei em minha masmorra e a beleza observada de minha torre à superficialidade dos grandes salões.

É na solidão que posso sussurrar minhas meias verdades, meus vacilos de opinião, meus medos, desejos, invejas, sem quaisquer pretensões. É no silêncio que decido o que e como fazer com tal abundância de ócio sem prestar contas. 

Claro que não me imagino deixando de gostar de uma boa prosa com amigos, de frequentar bares, mas, parafraseando, Thoreau, posso dizer que nesta reclusão não poderia  ter encontrado  companhia mais companheira que a solidão.

Maria Fernanda Mendes Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha ser um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, viste o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: cinco tendências para o varejo pós-pandemia

Foto de Artem Beliaikin no Pexels

“Muitas coisas foram aprendidas neste período de pandemia, e as marcas de varejo precisam absorver aquelas que fazem sentido para o seu negócio, e transportar para o futuro, aproveitando essas tendências” — Cecília Russo

Vai passar! É o que costumamos dizer quase como um grito de consolo e esperança diante de tudo que enfrentamos no último ano e meio de pandemia (ou quase isso). Longe de ser apenas uma ilusão. O avanço da vacinação e as descobertas em relação à Covid-19 sinalizam que, em breve, teremos uma saída para essas crises que se acumulam: sanitária, econômica e social. Então, se vai passar mesmo, é preciso estar preparado para o que virá em seguida. Que mundo teremos? Quais comportamentos prevalecerão? Das mudanças que fomos obrigados a fazer, muitas se manterão? Ou as esqueceremos ali na esquina, assim que a pandemia acabar? 

Jaime Troiano e Cecília Russo trouxeram cinco tendências que devem ser consideradas para se traçar estratégias no pós-pandemia. Usaram como base, um levantamento da BCG – Boston Consulting Group, uma consultoria americana, que estudou como o comportamento do consumidor foi afetado durante a pandemia para entender quais das transformações ocorridas permanecerão com esse consumidor pelos próximos cinco anos, no setor de varejo.

“É tão errado falar que nada vai mudar quanto falar que tudo vai mudar. O que eu vejo é que alguns hábitos que adquirimos durante a pandemia vão permanecer conosco: aqueles relacionados a higiene, como lavar mais as mãos ou usar álcool em gel. E, com certeza, a forma de comprar, que mudou bastante nesse período,  também vai deixar alguns rastros para o futuro”. 

Mesmo que o estudo tenha se baseado em comportamentos nos Estados Unidos, para Jaime Troiano é bastante razoável imaginar que esse conhecimento seja útil para os gestores de marcas dispostos a refletirem sobre o que acontecerá aqui no Brasil.

Vamos às cinco tendências:

  1. O contato com o lar —- mesmo depois de a abertura do comércio e escritórios, a prestação de serviço em sistema híbrido permanecerá, totalmente ou parcialmente. Os consumidores, assim, seguirão investindo em melhorias da casa ou em varejos mais próximos de onde moram. 
  2. A recuperação econômica —- com a retomada da economia, as pessoas terão a tendência de gastar mais, compensando o tempo perdido. Coisas não pareciam essenciais durante a pandemia, se tornarão objeto de desejo.
  3. A aceleração do e-commerce —- a área que mais ganhou fôlego nesse período foi a das compras pela internet. Quem ainda tinha receio de fazê-las online antes da pandemia, se viu obrigado a perder o medo.

“Aliás, vale uma menção honrosa ao Mercado Livre que como marca ocupou de forma bastante interessante esse espaço, ajudando as pessoas e fortalecendo sua marca. Podem observar como os carros amarelos circulam sempre limpíssimos pela cidade, promovendo e construindo a marca”.

  • 4.  O foco na saúde mental e bem-estar — o consumidor espera ter mais opções nessa área que tende manter seu crescimento exponencial, que ocorreu durante esta pandemia. Aumentaram as iniciativas relacionadas a alimentação saudável, meditação, yoga e ginástica pela internet. 
  • 5. A mudança para áreas menos urbanas —-  trabalhando à distância ou evitando áreas aglomeradas, as pessoas tendem a morar fora dos grandes centros urbanos. Isso deve fazer com que empresas de varejo reavaliem suas estratégias para que estejam presentes nesses locais.

Ouça e compartilhe o comentário completo de Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é apresentado aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Bolsonaro talvez não seja mesmo servidor público

Felipe Santa Cruz. FOTO: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A Polícia Federal abriu inquérito para apurar se houve crime de prevaricação, cometido pelo presidente da República, no caso da compra da vacina indiana Covaxin. Pra você, caro e raro leitor deste blog, não se emaranhar nos fios das denúncias, esse é o caso que os irmãos Miranda —- um deputado e o outro servidor público —- levaram para o presidente depois que perceberam que os contratos e recibos emitidos eram no mínimo estranhos. Apresentaram as suspeitas e papeis naquela reunião em que o presidente teria dito que isso era “rolo do Ricardo Barros”. Quanto a esta última parte, por enquanto, temos apenas a palavra dos Miranda e  o silêncio do presidente —- que ameaçou encerrar entrevista ontem quando foi perguntado sobre o assunto. Talvez uma ‘fita k7’ refresque a memória do presidente, em breve.

Enquanto aceitou responder aos repórteres, Bolsonaro colocou em dúvida a possibilidade dele ser incriminado por prevaricação, não por inocente que diz ser, mas pelo cargo que ocupa:

“O que eu entendo é que a prevaricação se aplica ao servidor público, não se aplicaria a mim” 

Isso não tem senso nenhum. O presidente é o servidor público número 1 do País. Sempre foi assim. E sempre será. Hoje, no Jornal da CBN, o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, ratificou essa condição, a partir de consulta feita a estudiosos do tema:

“Não faz nenhum sentido. Tenho conversado com vários professores de direito administrativo e todos entendem que o presidente exerce essa função pública”.

Se os advogados sabem disso, se os juristas, também, e a regra é clara, então por que o presidente se saiu com essa ideia estapafúrdia. Com a palavra, o advogado Felipe Santa Cruz:

“Ele permanece na estratégia de confundir e manipular um setor do eleitorado que, sem informação, ainda acredita no que ele fala. O presidente não tem qualquer compromisso com a verdade”

Ouvi toda a fala de Felipe Santa Cruz, acompanhei o comentário do Sérgio Abranches, no Conversa de Política, logo depois, e pensei cá no meu microfone:

Talvez o que o presidente esteja fazendo é apenas um ato de confissão involuntário. Porque ele realmente deixa de ser um servidor público quando atua no Palácio do Planalto para servir à família (a sua), aos comparsas e a interesses privados —- como as apurações feitas na CPI da Covid têm demonstrado.

Ouça a entrevista completa com o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, no Jornal da CBN:

“Adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”, diz Gilmar Mendes, do STF

Reprodução do vídeo da entrevista com Gilmar Mendes no Jornal da CBN

Que Gilmar Mendes não gosta de Marco Aurélio de Mello —- e vice-versa —- qualquer rábula sabe bem. O próprio Mello, que aposentou a toga, na hora de se despedir definiu a relação com Mendes como sendo uma convivência judicante ..  e apenas judicante. Aos demais falou em convivência fraterna. A despeito disso, na entrevista desta segunda-feira, ao Jornal da CBN, o agora decano do STF Gilmar Mendes foi bastante comedido nas palavras de despedida ao dizer apenas que desejava felicidades a Marco Aurelio.

Nos 22 minutos de entrevista, Gilmar Mendes, falando de Portugal, mediu palavras, mas não deixou de dar seus recados. Ficou claro que não esqueceu ainda seus confrontos com o ex-PGR Rodrigo Janot —- com quem travou embates verbalmente violentos na época da Lava Jato. Por outro lado, foi ameno ao comentar sobre o fato de o atual procurador, Augusto Aras, ser bastante sintonizado com o presidente Jair Bolsonaro.

Sobre Bolsonaro, com quem diz dialogar, Gilmar Mendes entende que o presidente não é um risco à democracia, apesar das constantes críticas ao STF, ao Senado e outras instituições. Para ele o presidente fala para os convertidos. 

O problema —- e aí não é mais Gilmar falando, sou eu comentando —- é que ao manter esse discurso bélico a ponto de dizer que ou tem voto impresso ou não tem eleição, o presidente incita os convertidos. Nesse ponto parece que Gilmar concorda:

“É notório que muitos dos adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”.

Justiça seja feita, se há um ponto em que Gilmar Mendes discorda abertamente do presidente Bolsonaro é quanto a tentativa de reviver o voto impresso. Lembrou até de cenas absurdas, nos colégios eleitorais onde ocorriam a apuração, de fiscais de partido engolindo cédulas para que o voto não fosse registrado na ata. Diante da insistência do presidente—- sem provas —- de que as eleições têm fraude, Gilmar disse na entrevista:

“(a notícia de fraude no voto digital) é tão consistente quanto a mensagem que diz que o homem não foi à lua”

Cássia Godoy e eu tratamos de outros temas com Gilmar Mendes que você comapnha na gravação disponível aqui no blog. Destaco só mais uma antes de encerrar: quando falamos da pressão das Forças Armadas contra a CPI da Covid, que investiga militares com patente suspeitos de envolvimento de irregularidades, Gilmar também deixou seu recado:

“Não é função das Forças Armadas fazer ameaças à CPI ou ao Parlamento”

No mais, ouça a seguir e comente se desejar:

Sua marca: seis razões para comemorar

Foto de cottonbro no Pexels

“Não abra mão de celebrar as conquistas de sua marca, isso não é ser exibido, é sim uma forma de demonstrar orgulho e planejar o que vem pela frente”

Cecília Russo

Jaime Troiano e Cecília Russo estavam animados com a ideia de celebrar a passagem de mais um ano (e de falar sobre o assunto). Não é para menos. Em tempos de empresas e negócios fugazes, estar à frente de uma organização que completa 28 anos, é motivo mesmo para festejar. No caso deles a ‘festa’ da TroianoBranding foi no dia 8 de julho —- festa entre aspas porque diante da pandemia, aglomerar nem pensar. Foi muito mais um repensar sobre conquistas, reveses e futuro, o mesmo que eles sugerem aos gestores de marcas diante de datas especiais.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime e Cecília alinharam seis razões para você comemorar o seu aniversário ou o da sua empresa. Vamos a elas:

  • 1. Celebrar o estar vivo e ativo. Sim, pela conquista de mais um ano de vida, de mais 365 dias em que a marca sobreviveu e esteve presente na vida das pessoas;
  • 2. Ter orgulho do que fez. 

“Quem nos ouve, é empresário, empreendedor, independentemente do porte da empresa, ou é gestor de uma marca, sabe o quanto é difícil fazer uma marca acontecer, mantê-la relevante”

Cecília Russo
  • 3.  Compartilhar a alegria, porque da mesma forma em que a marca celebra seu aniversário, está comemorando com quem esteve ao seu lado todos os dias: clientes, colaboradores, parceiros de negócio. Espalhar essa satisfação é preciso
  • 4. Mais do que dizer o quanto você está feliz, proporcionar felicidade aos seus clientes desenvolvendo promoções, ativações e formas de fazê-lo se sentir presenteado na data.
  • 5. Para dar uma parada, fazer um balanço da trajetória do último ano.

“Especialmente neste ano, muita coisa aconteceu nesse período e nem sempre tempos tempo para analisar o que fizemos de certo, que estratégia foi positiva e o que não foi. Assim evita-se que sejam cometidos os mesmo erros no novo ano que se inicia”

Jaime Troiano
  • 6. Momento de olhar para frente e pensar como quer estar daqui a um ano. Planejar o próximo aniversário. 

“Se você não planeja, muitas vezes sua marca é levada para algum espaço de posicionamento que não era onde você queria estar, é como ser levado pela enchente. Com planejamento, o comando do barco é seu”

Jaime Troiano

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: vou às nuvens com meus netos a bordo de um tapete voador

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte CBN Valter Santos, no Flickr

Navegar é preciso, viver não é preciso”

Fernando pessoa

Com quatro anos, ele é meu companheiro de quarentena, pois as circunstâncias assim determinaram. Desde o dia em que o mundo parou, nossa diversão tem sido embarcar no tapete voador, inventado às pressas, para alcançarmos lugares e pessoas queridas. Visitamos castelos encantados, príncipes, princesas, praias, fazendas, a outra casa da família no interior de São Paulo, sobrevoamos a casa dos primos e até visitamos a terra dos antepassados, na  distante Grécia.

Quanta alegria e diversão para proteger o pequeno neto, Nikolas, do pesadelo que a humanidade vive! Protegendo-o, esqueço por horas seguidas o fantasma que assusta a todos. Resgato o universo da imaginação, da fantasia e das deliciosas brincadeiras. 

A quarentena atravessou o ano de 2020, já adentra 2021… e nosso tapete decola diariamente, pousando bem ao lado do Aeroporto de Congonhas, em Moema. A mesma Moema que, há alguns meses, quase não nos permitia ouvir os sons dos pássaros ou do silêncio. Ganhamos um pouco de quietude nestes tempos sombrios, o que me fez relembrar quando aqui cheguei, no início da década de 60. 

Apenas um ou outro pássaro, de aço, pousava em sua enorme pista. A avenida Moreira Guimarães permitia que a atravessássemos sem medo, quase de olhos fechados, até que um dia, num piscar de olhos, as máquinas a invadiram e abriram o grande corredor da tão conhecida Avenida 23 de Maio. Acompanhei a transformação do bairro, da cidade. E hoje, na calma triste da pandemia, revisito a transformação de mim mesma. A menina cresceu, casou-se, teve filhos e hoje, netos.

Sim, os netos são nossa oportunidade de visitar a criança que fomos.  E assim sobrevoando São Paulo e o mundo, a bordo do tapete voador, posso dimensionar melhor o tamanho da mudança. 

Lá, nas alturas encontramos nuvens e somos por elas engolidos. Lá nos diz o comandante:

“Informo aos senhores passageiros que estamos atravessando uma área de instabilidade, favor observarem os sinais luminosos de atar os cintos e seguir a orientação dos comissários”. 

Aqui, no meu espaço de proteção, respiro fundo e confio que passará logo. Tudo passa. Tudo evolui e, na “nuvem” – aquela que a tecnologia me apresentou – vislumbro meu outro neto, Joaquim, um pouco mais longe, nessa ausência imposta. 

Percebo, então, que tenho de inventar em mim outra criança. Não a que fui, mas a que ele é. Vejo e revejo suas fotos, vídeos e alegres encontros virtuais de 2020, que parecem ter acontecido em outro século. Tempos se confundem, espaços se estreitam… dias, semanas, meses ganham uma outra percepção da passagem do tempo. 

Os espaços? Ficaram vazios, atônitos. Porém, eu os vejo paradoxalmente encurtados, agora, pelo tapete voador do Nikolas, 4 anos, e pelo tapete virtual do Joaquim, 9 anos, que, com rapidez impressionante, decola, percorre avenidas virtuais, conecta-se com seus pares, brinca, joga, explora países, continentes, descobre fórmulas, faz suas aulas on-line, oferece algumas aulas à sua avó – vovó-criança, desdobrada entre o tapete voador e a quase impossibilidade do tapete virtual. 

Nessa nuvem em que tudo cabe, receio entrar. No entanto, é nela que o mundo do meu neto primogênito está. Mundo digital que vai se descortinando, dia após dia, na viagem que parece não ter fim. Sigo como uma navegante perdida em mares turbulentos. Sem bússola, navegar não é preciso, não é certo, não é seguro. Mas sigo vivendo na imprecisão e mistério infinitos da vida, só agora entendendo a filosofia de Petrarca nos versos de Fernando Pessoa. Sim, viver é navegar de olhos cegos e sem rumo. 

Mas há instrumentos, sim, meu pequeno grande comandante informa: “Coloca o “Easy”, vovó! Você vai ver, é bem mais fácil saber o caminho”. Não digo nada, só me perco no encantamento, As crianças, em sua inocência de anjos, nos fazem sempre encontrar um porto seguro, Há muitas perguntas a serem respondidas, muitas descobertas. Dizem os entendidos que “não há pergunta sem resposta no mundo da internet”. Será mesmo? Então… quando passará essa pandemia, respondam-me, por favor!!?

Volto o olhar para o Nikolas que, parecendo ouvir meu grito mudo, afirma certeiro: “Quando a gripe passar, vamos brincar lá fora, por enquanto vamos “se divertir” aqui mesmo”. E dá de ombros, num trejeito só seu.  

Nikolas e Joaquim, com suas observações e dicas, conduzem-me ao melhor porto: minha família, amigos, trabalho on-line, nossos alegres encontros virtuais. Vida. Vivendo e aprendendo, com os pequenos mestres, que as nuvens se dissiparão, o sol voltará a aquecer nossos corações e a iluminar os novos caminhos da humanidade.                                                           

Naveguemos na esperança ou na certeza de que, sob as nuvens do céu de São Paulo, há muitos tapetes voadores, driblando lindamente a tempestade. E de que há, na nuvem da internet do mundo todo, tapetes virtuais generosos, com que enganamos a saudade. 

E seguimos repetindo, como num mantra, que vai passar.

Viver não é preciso, poeta, mas é urgente.

Marina Zarvos Ramos de Oliveira  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.