Rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar

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“Não há espaço melhor para a construção de relacionamento de um com os outros do que no território da voz”

Transparência é fundamental nessa nossa conversa, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Por isso, saiba que vou falar do que assisti há uma semana no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube, que é produzido e apresentado pela minha mulher, Abigail Costa, e pela minha colaboradora de blog, doutora Simone Domingues. Na busca de explicações sobre o comportamento do cidadão diante da pandemia, elas convidaram o antropólogo Michel Alcoforado, de quem sou admirador. Ou seja, minha fala aqui deve ser considerada totalmente parcial nos elogios e afagos.

Pouco me importa, também. Até porque tenho convicção de que se você tirar uma hora da sua semana para assistir ao que as duas levam ao ar, ao vivo, toda quarta-feira, às oito da noite, vai ficar admirado e muito bem informado. O canal é dedicado ao comportamento humano e à saúde mental. 

Na discussão sobre como estamos agindo na pandemia e como agiremos depois dela, provoquei Michel Alcoforado a falar sobre o consumo de informação no rádio. Ouvi muito mais do que poderia desejar.

“A medida que estamos mais dentro de casa, a voz  que acompanha a gente, a voz do rádio, ajuda a gente a construir contexto. O que é muito importante para esse mundo descontextualizado.”

Michel trouxe a própria experiência com o rádio, com o qual acorda todas as manhãs e o acessa através da assistente de voz, que o acompanha pelos cantos da casa. Como boa parte de nós, mais dentro de casa do que fora, por força da pandemia, os dias tendem a ser todos iguais. Mas nosso antropólogo lembra que ao ouvir o Sérgio Abranches, às oito da manhã, sabe que é terça; o Cortella, às sete, é quarta; e o Hora de Expediente, o faz perceber que já são nove da manhã.

É um hábito que começou no século passado, lembra Michel. O rádio marcava a passagem do tempo da avó dele —- das nossas avós e de nossos pais, também. Ela sabia que quando um programa terminava, estava na hora de servir o almoço;  quando se iniciava outro, era a vez do jantar; e havia um que ela não gostava muito, que alertava para o fato de que era tempo de ir para cama.

“A gente tem o rádio de novo marcando essa posição. O rádio sobretudo ganha uma dimensão muito importante, porque a gente já vinha falando tempos atrás sobre a dimensão que a voz tem. E cada vez mais os aplicativos e gadgets das nossas casas vão ser orientados pela onipresença da voz”

Das coisas boas que ouvi Michel Alcoforado dizer foi que o rádio não é só uma mídia, é o jeito de comunicar. Mesmo que esteja sendo reproduzido também no Youtube ou no Globoplay —- como é o caso do Jornal da CBN —-, por mais que seja imagem, não é um programa de TV. É o rádio com sua lógica de construção de comunicação em um outro formato de mídia.

“O áudio como aconchego tem crescido pra caramba. O que acontece é que a tela só lida com um sentido nosso, com a visão, não nos dá um despertar de sentidos. Não consegue. Não é a toa que o filme precisa de um sonoplasta. O audio trabalha com pedaços do nosso campo cognitivo que a tela não é capaz de alcançar”. 

Por vantagens que tenha, o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens —- já conversei várias vezes com você neste blog sobre o volume de informações que somos submetidos todos os dias e o quanto isso reduz nossa capacidade de assimilar o conteúdo, e de apurar nossa sensibilidade para as fontes mais confiáveis. Michel Alcoforado trata do tema a partir da definição de um antropólogo americano Gregory Bateson que diz que informação é todo o dado que gera diferença. Isso significa que talvez estejamos produzido muito dado e pouca informação. Ou notícia.

“Se você não está gerando diferença, você não está informando”.

Como ser diferente no radiojornalismo se toda notícia parece igual? Você entra no portal G1, depois pula para o UOL e navega em qualquer outro site de notícia disponível na sua tela deparando-se com conteúdo muito semelhante. Michel Alcoforado dá a dica —- que você pode ouvir na íntegra e com as devidas referências que a modéstia me impede de reproduzir, no vídeo publicado neste post. Ele fala algo que me move há muitos anos no rádio e que se perdeu no tempo pela forma padronizada como se relata os fatos ocorridos. Ao contrário da matemática, na subjetividade das emoções um mais um não é dois. Portanto, não basta seguir a fórmula correta, aprendida no livro da faculdade, de preencher as lacunas para atender a técnica do lead ou da hierarquia dos dados. Nem o português mais castiço salva essa equação – ao contrário, tende a causar estranheza. 

Michel lembra, por exemplo, a importância que a informação de trânsito tem na programação de rádio, a ponto de as emissoras —- cada vez em menor número —- investirem na cobertura a partir do helicóptero. A observação do tráfego em uma avenida pelo repórter aéreo por si só pode não fazer diferença; mesmo porque o ouvinte que está na região talvez até já saiba mais através do mapa digital que o guia no painel do carro.  Por outro lado, conforme a leitura que o repórter faz, provoca-se empatia, o ouvinte se identifica com a história, enxerga-se como personagem. E protagonista que se vê, experimenta aquele momento conduzido pela voz do jornalista.

Entretenimento é a palavra que Michel Alcoforado usa para definir a forma como devemos conversar com o ouvinte. É preciso saber entreter sua audiência:

“É muito mais do que saber que a Marginal está parada. Eu já sei que Marginal está parada. O que me interessa é como você me conta que a Marginal está parada. É isso que gera diferença”.

Como fazer diferente o mesmo todos os dias é outro dos desafios que precisamos encarar no comando de um programa ou no relato das notícias no rádio. Explorando a imaginação do ouvinte, diz Michel:

“A gente enquanto humano precisa explorar cada vez mais os nossos sentidos … O áudio permite que a gente exercite um ponto fundamental da nossa existência que é a imaginação. E aí você pode usar todos os sinônimos desse negócio que chamo de imaginação: fantasia; o desejo pode ser também uma forma desse lado da imaginação. Mas não há como a gente ser humano sem a capacidade de imaginar. E só nós humanos temos capacidade de imaginar. O áudio abre essa chance para a gente imaginar”.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais com a entrevista completa de Michel Alcoforado.

Sua Marca: marcas brasileiras precisam mais de São João do que de Halloween

“Temos de ser mais São João do que Halloween”

Jaime Troiano

Como brasileiros gostamos bastante de festas juninas —- sim, estamos às vésperas do início dos festejos —, uma atividade genuinamente nacional. Esse mesmo sentimento, porém, nem sempre se reflete na nossa relação com as marcas. O que está por trás desse olhar estranho às nossas marcas?  O malinchismo pode ser uma resposta, disse Jaime Troiano, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. 

La Malinche é como Malinalli Tenépatl, de origem nahuátl, passou para a história. Ela é apresentada como amante de Hernán Cortés e o teria ajudado, como tradutora, na Conquista da América pelos espanhóis. Virou substantivo. Significa algo como aquele que valoriza o estrangeiro em detrimento de sua cultura. Para Jaime, o malinchismo em relação às marcas é um traço latino-americano, não apenas brasileiro: 

“Valorizamos marcas estrangeiras, palavras estrangeiras …” 

Cecília Russo destaca que esse comportamento não parte apenas do consumidor. É das próprios gestores das marcas. Para ela, muitas vezes falta o sentido de orgulho, de bater no peito e se afirmar como merecedora de prestígio:

“Tem muita marca que parece que já entra no jogo combalida, perdendo antes do apito de início do jogo, meio com um espírito vira-lata”.

Mas há esperança. E bons exemplos a negar essa prática.

A Natura é uma delas — uma brasileira que faz história, ressalta sua brasilidade e sai pelo mundo na compra de outras marcas, como The Body Shop, Aesop e Avon. Tem o exemplo dos bancos, também: Itau e Bradesco, as marcas mais conhecidas no setor são nacionais. E o clássico caso da Havaianas: 

“Ela entra no jogo batendo no peito e isso faz toda a diferença (traz até a bandeira brasileira no seu produto)”

Para aproveitar melhor esse potencial que marcas brasileiras têm, Jaime e Cecília  sugerem que os responsáveis pelo ‘branding’ — ops, perdão pelo estrangeirismo —  busquem espaço próprio em lugar de apenas reproduzirem modelos estrangeiros. Devemos usar o ‘benchmarking’— caramba, de novo? —- que é entender as referências inspiradoras em uma área de negócios, mesmo aquelas que estão no exterior, e criar soluções próprias, diz Cecília:

“O problema é que ficamos mais reprodutores de modelos do que criadores de soluções legítimas e nossas” 

Por fim, mesmo que pareça contraditório, as marcas devem ganhar respeitabilidade e valor do lado de fora do país para aumentar seu prestígio aqui entre nós. Ou seja, usar o malinchismo a favor das marcas.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Conte Sua História de São Paulo: o operário que virou escritor

José Jorge Porto 

Ouvinte da CBN

Foto de Rodolfo Quirós no Pexels

Em abril de 1975 deixei a terra natal, no interior de Pernambuco, para encontrar trabalho em São Paulo. Fui morar na casa da minha irmã, ali em Guaianazes. Demorou pouco para o primeiro emprego. Na PEM Engenharia, na Vila Mariana, como ajudante de eletricista. A primeira obra foi um marco: o prédio da IBM, na Tutóia com a 23 de Maio — a primeira estrutura de concreto revestido com vidro. 

Marcantes e difíceis estes tempos. Ganhava um salário mínimo. Passava frio. Mas mesmo as dificuldades me encantavam. Logo me matriculei numa escola estadual ali, em Guaianazes, no Jardim São Paulo. Ano seguinte, ingressei em uma escola técnica de eletrônica. Lá na primeira obra — que durou quatro anos — fui promovido à oficial eletricista e depois encarregado de eletricista. Até hoje quando passo diariamente dirigindo ali na 23 de maio que vejo aquele prédio meu coração fica alegre.

Meu esforço me levou à universidade, me formei em filosofia, Gestão Estratégica de Empresas e Engenharia Elétrica, fiz várias especializações. Hoje, também dou aulas em ambientes corporativos.

Em março de 2020, um dos diretores da empresa TEMON onde trabalho, me antecipou as férias porque aos 63 anos eu não poderia ficar exposto ao coronavírus. Com três dias em casa, reciclei dois bancos de madeira. E a ansiedade em ficar parado em casa não passava.

Comecei a escrever algumas coisas e percebi que nascia um aprendiz de escritor.  Em parte das escritas, reproduzi conversar com um amigo irmão, o Cleyton. 

Cento e quarenta páginas depois, o livro ficou pronto e a Editora Laços aceitou publicar “Reflexões para gestores”, em que abordo principalmente os desafios, habilidades e competências que um gestor precisa ter, saindo de uma visão tecnicista para uma visão contemporânea, levando o gestor a transformar o trabalho em algo gratificante para todos, ao  autoconhecimento na construção de uma empresa ética, competitiva e mais humana.

José Jorge Porto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da cidade, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. O quadro vai ao aos sábados, 10h30, no CBN SP

Mundo Corporativo: Paulo Castello, da Fhinck, diz que pandemia mostra que trabalhamos mais do que precisamos

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“Nós fomos treinados a trabalhar em fábrica. Você  tem de repetir procedimentos. Agora tem uma migração para personalização. O trabalho vai ser pessoal, você vai ser o seu próprio CNPJ.”

Paulo Castello, Fhinck

Com o uso de recursos digitais, a empresa percebeu que um dos departamentos sempre apresentava queda de produtividade e foco no trabalho, no fim da tarde. Por cerca de um mês fizeram quatro testes para entender como melhorar o desempenho do grupo. Trocaram a disposição dos colaboradores, mexeram no desenho do escritório,  reduziram o expediente de oito para seis horas e depois para quatro horas. Tudo devidamente medido, a conclusão foi de que com apenas seis horas de trabalho, o grupo renderia melhor, manteria a mesma produtividade em todo o expediente e ainda ganharia duas horas de lazer.

Paulo Castello, CEO e fundador da Fhinck, contou essa história ao Mundo Corporativo, para sustentar a ideia de que trabalhamos mais do que necessitamos, uma tese que vem sendo defendida ao longo do tempo, desde que se passou a questionar o processo fabril que ainda molda as relações de trabalho em boa parte do mundo. O empresário sempre esteve conectado ao tema da inovação que, pelo que se percebe, não se restringe a tecnologia, apesar desta ser essencial nesses tempos.

Foi para encontrar soluções tecnológicas que permitissem a medição do desempenho operacional, da produtividade e da qualidade de vida dos colaboradores, que Paulo fundou a Fhinck Business Solution, em 2014, uma “startup brasileira”, como faz questão de ressaltar:

“A gente usa inteligência artificial. Nosso software coleta dados enquanto você trabalha, o tempo de cadeira, fora da cadeira, sistemas que usa, tendências e comportamentos”.

Uma das mudanças identificadas com a pandemia em que a maior parte das empresas mandou seus colaboradores para casa foi o aumento de até 22% do foco dos colaboradores no trabalho. Estudos desenvolvidos na Universidade de Harvard e pelo MIT já haviam mostrado essa tendência. Após o investimento em ‘open space’, que são os ambientes corporativos abertos, sem salas ou cubículos funcionando como estações de trabalho, aumentou a interação das pessoas e o fluxo de ideias. Por outro lado, as distrações cresceram na mesma proporção. Em casa, o profissional concentra-se por mais tempo e de forma mais efetiva. 

O problema é que a maioria dos profissionais não foi preparada para o home office e acaba perdendo o controle sobre a sua jornada, com danos psicológicos e físicos. Paulo conta que na própria Fhinck, um mês depois de todos os funcionários estarem em trabalho remoto, descobriu-se que a maioria não estava almoçando direito:

“Com nossa tecnologia travamos as agendas de trabalho de todos, do meio-dia às duas da tarde. Aumentamos o horário de almoço, porque em casa precisamos preparar a comida, ao contrário de quando estamos no escritório, que se vai ao restaurante”. 

Os dados ajudam a entender de uma forma mais ampla todas as tendências e padrões da jornada de trabalho, inclusive riscos trabalhistas:

“Se os RHs não prestarem muita atenção ou terão problemas trabalhistas ou terão problema de evasão de talentos para outras empresas que vão propiciar um ambiente de trabalho mais regular. Com uma rotina mais estruturada”

A previsão é que um dos legados da pandemia e do ‘home office’ forçado será o modelo híbrido na forma de trabalho, com parte das funções sendo realizadas em escritórios e outra à distância. No futuro, não muito distante, Paulo entende que os contratos terão de de se adaptar porque haverá uma mudança radical no formato atual, com expediente em horário comercial, das 8 da manhã às 5 da tarde. Haverá a possibilidade de os profissionais não serem exclusivos de uma empresa, mas fazerem aquilo que gostam e como gostam, em tarefas a serem contratadas através de plataformas digitais, com demandar específicas. 

“É importante não ficar preso a modelos do passado”

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às 11 da manhã, pelo site da CBN e pelas páginas da rádio no Facebook e no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; domingo, às dez da noite, em horário alternativo, e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast.

Avalanche Tricolor: “aí vem o Grêmio!!!” e outros capítulos do rádio gaúcho

Aragua 2×6 Grêmio

Sul-Americana — Caracas/Venezuela

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os que tiveram o privilégio de ouvir transmissões de futebol na época de ouro do rádio gaúcho têm na memória o grito que marcava a entrada do time do Grêmio no estádio Olímpico. ‘Aí vem o Grêmio!!!’ — com direito ao alongamento de todas as vogais e tom de voz firme —- era a senha do repórter de campo João Carlos Belmonte para a explosão de alegria do torcedor que recepcionava seus jogadores aos gritos e sob foguetório. Ele ficava com microfone da Rádio Guaíba em punho ao lado da escadaria que dava acesso ao gramado e a medida que os jogadores se posicionavam em fila, citava nome a nome, e a cada nome o coração batia mais forte no nosso peito.

O ritual se repetia no Beira Rio com o time da casa —- e dizem as más línguas com uma pitada maior de alegria, reveladora; eu não concordo. Mas como esse espaço tem suas exclusividades, vou me ater a emoção que Belmonte provocava na nossa torcida. Era mágico. Transgressor. Porque seu olhar e palavras devassavam o escurinho do túnel, quase sagrado, tantos eram os ídolos que se reuniam a espera da batalha. Belmonte descrevia a movimentação dos jogadores, a conversa ao pé da orelha e os gritos motivacionais, tudo hoje naturalizado pelas câmeras de televisão e pelo insípido cerimonial de entrada em campo.

Quando Belmonte fazia do rádio magia, eu era  guri de manga curta, ouvinte e gremista encantado pelas palavras dele.

Vibrava no cimento do Olímpico acompanhando a festa comandada pelo repórter de rádio que mexia duplamente com a minha imaginação. Por torcedor que era e por jornalista que sonhava ser. Transformei-me repórter de campo anos à frente. Anos luz distante do talento de Belmonte e outras feras que fizeram o rádio gaúcho ser dos melhores do Brasil. Ele e a mulher Ligia —- recentemente falecida — eram amigos dos meus pais e faziam parte de um círculo de casais, ligados ao jornalismo, que saíam quase toda semana para jantar. Isso me gerou alguma intimidade com o Belmonte e com muita gente boa do meio. E colaborou para minha escolha de carreira.

Certamente, foi essa mesma convivência que fez Roberto Villar e o Caco Belmonte seguirem a carreira jornalística. Eles são os filhos da Ligia e do Belmonte e foram os responsáveis por convencer o pai a escrever suas histórias, curiosidades, estratégias e furos de reportagem no livro “Fala, Belmonte! Memórias do cronista esportivo”(Farol3 Editores). Um exemplar está aqui em casa, lido e guardado junto a outros três que deveriam, obrigatoriamente, fazer parte de um caixa literária sobre o jornalismo esportivo: “Olha Gente – As histórias de Lauro Quadros”, escrito pelo próprio; “Pedro Carneiro Pereira — O narrador de emoções”, de Leandro Martins, e, claro, “Milton Ferretti Jung. Gol, Gol, Gol, Um Grito Inesquecível na Voz do Rádio”, de Kátia Hoffmann.

Essa ‘coleção’ conta, em cada capítulo e livro, um pouco do que se fez no radiojornalismo e esportivo brasileiro, através da história de seus protagonistas —- dois deles dedicados à narração, Milton, o pai, e o Pedrinho; dois à reportagem e ao comentário esportivo, Lauro e Belmonte. Deve ser preservada porque traz a memória de um rádio que, mesmo permanecendo forte, já foi mais influente na opinião pública. Hoje, é inimaginável a cena de um repórter de campo regendo um coro de milhares de torcedores no ‘parabéns à você’ em homenagem ao jogador aniversariante com quem conversa ao microfone. Belmonte era capaz. 

É interessante saber como eram as jornadas internacionais em uma época pré-internet, a dificuldade de deslocamento, o improviso das estruturas e a qualidade com que se conseguia levar os fatos aos ouvintes, Em “Fala, Belmonte!” vale uma dedicação especial à cobertura do título Mundial do Grêmio, em 1983. Sim, Belmonte viveu intensamente aqueles momentos:

“Dias após o Grêmio conquistar a Libertadores de 1983, fui enviado ao Japão. Missão: desbravar Tóquio e remeter matérias à Rádio Guaíba e Correio do Povo, gravar um programa de uma hora para a TV2 Guaíba. Além disso, havia a missão ‘secreta’ de contratar linha 24 horas, disponível antes e depois do jogo final, conectando o nosso hotel e o estádio com a emissora em Porto Alegre”

Belmonte viveu e vive aqueles momentos, mesmo que aposentado. Conversei com ele dia desses para agradecer pelo envio do livro, oportunidade em que relembramos algumas passagens que teve com o pai. E na qual percebi que mantém uma das marcas de sua personalidade. Amigos mais próximos dirão que é a avareza — fama desmentida pelo próprio Caco Belmonte, no texto de introdução. Belmonte, para mim, além de referência jornalística, sempre foi um cara bem humorado. Alegre com o que fazia. E disposto a deixar seus ouvintes ainda mais felizes — como ficávamos lá no Olímpico, todas as vezes que ele anunciava: “aí vem o Grêmio !!!”

PS: sei que o caro e raro leitor desta Avalanche entenderá minha disposição de escrever sobre João Carlos Belmonte em lugar de ocupar este espaço, como sempre faço, com mais uma goleada gremista no exterior. A partida da noite de ontem era fava contada, apesar de ter me divertido muito em ver os guris brincando com a bola em campo. E o que importa mesmo nesta semana, vai acontecer domingo, em mais um Gre-Nal. Pena que o Belmonte não estará na beira do gramado para chamar a torcida ao delírio.

Mundo Corporativo: Carolina Utimura, uma ativista disposta a inspirar a jovem potência, no Brasil

Foto de Andrew Neel no Pexels

“Acho que o que eu sempre tive foi humildade de saber que eu preciso aprender com essas gerações mais velhas, mais experientes … E algo que eu sempre trouxe para mim é que eu vou tentar completar essa falta de experiência com muito estudo” Carolina Utimura

Iniciar uma reportagem com Carolina Utimura sem dar destaque para a idade dela parece impossível. Não é sempre que se conversa com uma Chief Executive Officer de apenas 26 anos. Cargo, aliás, que ocupa na Eureca, desde o ano passado, ou seja, desde que tinha 25. Eu tentei, na entrevista que fiz no programa Mundo Corporativo e vai ao ar nesse sábado, no Jornal da CBN. E o fiz já na primeira pergunta.

Ao me responder se o “seu mérito é a sua idade?”, Carolina de cara revelou a maturidade que a levou ao posto de comando da empresa especializada na seleção e desenvolvimento de jovens para vagas de estágio e trainee: 

“Tive um monte de privilégio na minha formação. Fazer uma faculdade pública. Tenho uma família me ajudou a investir na formação. Fazer um trabalho voluntário dentro de uma empresa júnior. Eu acho que foi uma sequência de coisas que me ajudaram a acelerar um pouco mais a carreira”. 

Uma carreira para a qual se preparou desde os tempos da universidade, quando conheceu o movimento de empresas júnior, que reúne alunos de diversas áreas e interesses em organizações e ações empreendedoras que prestam serviços para pequenos negócios. É uma enorme oportunidade de desenvolver habilidades de comunicação, liderança e trabalho em equipe.  Já entre os mais novos, Carolina se destacou como ativista da juventude e, no último ano da faculdade, foi eleita presidente da Federação Brasileira de Empresas Júnior. 

“Desde quando entrei no primeiro ano havia o desafio de cuidar de uma empresa de verdade, fazer projetos reais para clientes reais, atendíamos microempresas da região. No meu caso em Bauru. Temos metas financeiras, de projetos e qualidade destes projetos. E conseguimos nos conectar com pessoas de todo o Brasil”

Com a pandemia, o número de jovens desempregados aumentou consideravelmente e programas de estágio e treinamento também não cresceram a ponto de absorver essa mão de obra e oferecer a experiência que necessitam para entrarem no mercado de trabalho. 

O Brasil tem hoje 50 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos, um número que equivale a toda a população da Argentina e cinco vezes a de Portugal. Cerca de 30% desses jovens estão desempregados e sem estudar, o que leva técnicos a identificá-los como a geração ‘nem-nem’ — uma expressão que é rechaçada por Carolina Utimura (e por este jornalista, também):

“…porque não transmite a causa raiz desse problema. Especialmente depois da pandemia, vemos um movimento muito forte de evasão escolar, evasão universitária, do desemprego juvenil, também. A gente vê que tem causas muito atreladas a ele conseguir ingressar ao ensino superior, conseguir terminar seus estudos, a ter acesso a boas vagas de trabalho, a própria  composição da família. São alguns pontos que acabam dificultando essa potencia dos jovens”.

O impacto do momento atual, de acordo com Carolina, deverá ser percebido na mudança de comportamento dos mais jovens:

“Eu gosto de falar de juventudes, com s, no plural, trazendo a diversidade que temos dentro desse público. Alguns comportamentos que a gente trazia dos milênios, da geração Z, de serem impacientes, não quererem ficar muito tempo no trabalho, vão mudar, porque a instabilidade financeira pode ser um item do cenário que a gente está vivendo”.

Na Eureca, a busca de candidatos a vaga de estágio ou trainee não passa pelo que chamam de “jovem de prontidão”, o de melhor faculdade e de melhores escolas, mas pelos que têm de potencial. Algumas das características que se destacam são o de ser questionador, ter visão crítica, empatia, que permite entender os colegas de trabalho, clientes e consumidor. Com a pandemia cresceu, também, a necessidade de se saber fazer a autogestão emocional para enfrentar os momentos de volatilidade e inconstância.

Além, de atuar na colocação dos candidatos, a empresa desenvolve uma série de trabalho para a capacitação dos jovens. Para aqueles interessados em se beneficiar das oportunidades oferecidas, é possível encontrar as vagas de trabalho disponíveis no site Eureca.me.

Para Carolina Utimura, a verdadeira potencia dos jovens brasileiros somente será percebida quando se melhorar a gestão e qualidade do ensino, adaptando-o às necessidades do mundo atual:

“Boa parte dos jovens passa pela escola sem ter habilidade de interpretação de texto, sem habilidade de fazer contas mais básicas da matemática; então, quando a gente fala muito sobre transformação digital e indústria 4.0, a gente também tem de falar sobre uma revolução educacional 4.0”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: a casa 147 dos Vedolins

Ieda Vedolin

Ouvinte da CBN

Hospedaria dos Imigrantes, SP, reprodução Wikipedia

Essa história, começa com a mensagem que recebi de Eduardo Vedolin, meu sobrinho, que durante a pandemia pesquisou como foi a imigração da família:

“O Ano de 1886 foi de muito luto nas famílias daquela cidade — Campo de San Martino, região do Veneto. Devido as más condições de vida da época deve ter tido alguma doença que atingiu a todos. — ou causada pela desnutrição ou por uma peste contagiosa. Foi quando houve maior número de mortes registradas na cidade, vitimando pessoas de todas as idades. 

A casa 147, onde moravam os Vedolins, foi testemunha disso. Em menos de um mês, três pessoas morreram: a Elisabetta, então com 20 anos, a pequena Matilde, com apenas dois, e a mãe, Angela, com 55. A casa tinha sete moradores, passou a ter apenas quatro no fim de 1886. E, em breve, teria cinco, pois a Catarina já estava grávida do Emílio, mas ele não chegaria a morar nem por um ano nela.

Provavelmente isso motivou o casal Osvaldo e Catarina a buscar novas condições de vida, fora daquele lugar. E deixaram a casa 147 em fevereiro de 1888, com destino ao porto de Genova. Embarcaram no vapor Ila de Lozana para Santos, chegando em 19 de março do mesmo ano”

No emaranhado de nomes e datas que se seguiram a mensagem de Eduardo, relembramos nossa história. Meus pais, avós de Eduardo, Wilma Thomé e Attilio Vedolin, foram namorados de infância que acabaram por se casar, tendo seus pais e avós partido da Itália em direção ao Brasil no fim do século 19. A primeira parada de todos foi na Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nos relato, tivemos passagem pelo Belenzinho, pela Vila Operária Maria Zélia, pelo Brás e seus casarões que serviram de lar aos Schiavo e Thomé. 

Neste inicio de século 21, dentro de nossas casas, voltamos ao passado de nossos ancestrais. Imaginamos os medos diante do desconhecido, fomos tocados pela esperança de uma vida melhor, e encontramos histórias de coragem e esperança. 

Ieda Vedolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração da carta foi uma gentileza do cônsul da Italia Fillipo La Rosa. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para conhecer outras histórias da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Rádios precisariam de mais de 10 dias para anunciar os mortos da Covid-19, no Brasil

Na época da escola — e estamos falando lá do fim dos anos 1970 e início de 1980, em Porto Alegre —, nosso sonho de consumo era passar no vestibular e entrar em uma das duas grandes universidades à disposição: a PUC, a melhor das particulares, e a UFRGS, que pronunciados URGS, sem o F de Federal. No ritual de passagem, havia um hábito que sempre achei curioso — e não sei isso acontecia aqui pelas bandas de São Paulo: a lista de aprovados era anunciada no rádio, com a leitura de curso após curso e de nome após nome. As famílias colavam o ouvido no aparelho e ficavam chuleando para que o nome do rebento fosse anunciando pelo locutor. 

Nome lido na rádio era motivo de festa em casa. Lembro de minha mãe, todas as vezes que ouvia o nome de um dos filhos na lista, corria para pintar uma faixa e estender na frente da casa — desconfio que até tivesse a faixa pintada de antemão. Naquela época, claro, não havia rede social, whatsapp e internet na forma que conhecemos. E a única maneira de ostentar o orgulho da família, era com um trapo de pano e mal pintado pendurando na frente de casa: “aqui tem um bixo” —- assim mesmo com “x”. Fui exposto duas vezes, na primeira quando passei no curso de jornalismo na PUC, na segunda quando passe no vestibular para educação física na federal. 

De minha parte, o que me chamava a atenção era a forma como os locutores de rádio anunciavam o nome de cada candidato e curso, em uma velocidade incrível e entendível. Ocupavam parte da tarde com aquela transmissão que era interrompida apenas para a leitura dos reclames comerciais —- os cursinhos pré-vestibulares eram os principais anunciantes.

Por que lembrei dessa história? 

Na sexta-feira, fui levado a falar sobre a triste marca de mais de 400 mil pessoas mortas por Covid-19, no Brasil. Logo me veio à mente o site Inumeráveis, criado no início desta tragédia, que decidiu registrar o nome e, na medida do possível, a história de cada uma das centenas de milhares de vidas perdidas durante a pandemia. Imaginei que pudéssemos, para marcar a importância de cada um na vida deste país e, em particular, na vida de suas famílias, abrir nossa programação de rádio para ler o nome e o sobrenome dos mortos:

“Abadia de Fátima Alves, Abdiar Martins de Moura, Abdon Albuquerque Cavalcante, Abel Augusto Teixeira, Abel da Cruz Neto, Abel Jorge Cassimiro, Abein Maria Pereira Cardoso, Aberal Riberia, Abigail  Pinto Magalhães, Abila Silveira Bueno …..”

Decidíssemos ler a lista de nomes aprovados para essa passagem da vida para a morte — e aqui deixo que cada um dos raros e caros leitores deste blog dê a conotação que sua crença e religião oferece ao momento — não bastaria dedicar apenas uma tarde da programação de rádio. Um dia inteiro não seria suficiente para ler o nome dos mais de 404 mil mortos por Covid-19 — número superado neste sábado, quando escrevo este texto. Uma semana teria se passado e os locutores continuariam a divulgar o nome e o sobrenome, naquela que seria a mais extensa transmissão de rádio ja ouvida neste país. Mesmo assim, a lista não estaria completa. 

Considerando que um minuto seria necessário para que 30 nomes fossem registrados; as rádios teriam de dedicar mais de 10 dias de sua programação para nominar todos os mortos, no Brasil. Talvez fosse o caso de alguma emissora dedicar-se a essa missão — o que seria um marco na história diante dessa que é a maior tragédia vivida pela nossa geração. Anunciante não faltaria: a programação seria patrocinada pelo Governo Federal – Pátria Amada, Brasil.

Mundo Corporativo: para Clodoaldo Nascimento, da Yes!Idiomas, escolas terão três modelos de ensino após a pandemia

Foto de Cristian Rojas no Pexels

“O online veio para ficar. Ele vai ser uma ferramenta que nós vamos utilizar no nosso dia a dia de diversas formas, seja para atender a pessoas que trabalham e tenha dificuldade de tempo seja para atender a pessoa que quer aprender rápido e em qualquer lugar” 

Clodoaldo Nascimento/Presidente da YES!Idiomas

Escolas de inglês passaram a anunciar cursos 100% online como se o modelo fosse uma inovação, apesar de a estrutura tecnológica já estar à disposição e negócios das mais diversas áreas se sustentarem no digital, há muito anos. De acordo com Clodoaldo Nascimento, presidente da YES!Idiomas, entrevistado do programa Mundo Corporativo, a demora para essa migração —- que apenas ocorreu devido a pandemia —, está ligada ao apego a um padrão  que fez sucesso ao longo do tempo:

“Na verdade, talvez, (havia) aquela coisa de você quebrar o paradigma. Por exemplo, a ideia de que a aula é presencial, o professor tem de estar perto do aluno, falar no pé do ouvido dele. Principalmente nos idiomas temos às vezes essa dificuldade da pronúncia. E tinha a dificuldade de conexão. Isso fez com que gente procrastinasse essa vontade de levar para o EAD.Não teve jeito. A gente teve de antecipar este EAD”.

No caso da YES a troca das aulas presenciais para o ensino à distância ocorreu nas 180 escolas e no atendimento aos cerca de 60 mil alunos, nos 18 estados em que a rede de franquia atua, no Brasil. Clodoaldo disse que a transformação teve de ser feita em 15 dias, período em que a franquia teve de oferecer plataformas para a realização dos cursos, aulas foram gravadas e as unidades regionais criaram serviços de apoio para orientação dos alunos:

“Quando a gente viu que tinha esse problema, eu reuni minha parte pedagógica reuni minha parte operacional. E montamos um comitê de crise. 24 horas por dia, a gente ficava pensando na melhor maneira de a gente poder entregar o melhor produto. Nós tivemos de apressar um processo que talvez levasse anos e nós tivemos de fazer em duas semanas”.

Ao mesmo tempo que correm para se adaptar, as escolas tradicionais de idioma assistem ao surgimento de opções de ensino de língua estrangeira por aplicativos, que podem se transformar em concorrentes no setor.  Clodoaldo entende que os APPs não tiram alunos das escolas, são complementares ao ensino e, provavelmente, serão usados pelas instituições. Para ele, a partir de agora, haverá três modelos a serem ofertados no setor:

“A gente só tinha um modelo, eu acho que nós vamos ter três, que é o modelo tradicional presencial, a gente não pode deixar de ofertar porque tem pessoas que têm a predileção. Vamos ter um modelo híbrido, que vai ser uma coisa mais flex, na questão tempo. E vamos ter o 100% online”.

Mesmo que o ensino seja à distância, a gestão continuará sendo presencial, destacou Clodoaldo Nascimento, que é presidente da YES!Idiomas desde 2004. Ele começou como vendedor de cursos de inglês, em 1989 e dois anos depois chegou na YES, onde foi funcionário e concessionário até assumir o comando da rede. Par quem pretende investir no setor de franquias, Clodoaldo alerta:

“É preciso ter disponibilidade de tempo, saber que ele vai operar aquela franquia, porque o sucesso de uma franquia é uma coisa que tem a ver com parte da franqueadora — você está associado a uma marca, que já está no mercado, está consolidada —  mas só a marca consolidada, sozinha, ela não faz nada. Ela precisa de alguém que esteja atrás do balcão, dando o seu tempo, fazendo a coisa realmente acontecer”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, na página do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e domingo, às 10 da noite em horário alternativo. Está disponível também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves. 

Conte Sua História de São Paulo: passei a vida confinada em uma agência bancária

Por Marlene Bicudo

Ouvinte da CBN

Foto de Anete Lusina from Pexels

Em 1977, fiz concurso público e iniciei minha carreira bancária. Na época, tinha de anotar manualmente, nas fichas individuais de cada cliente, os débitos dos valores dos cheques descontados no caixa. Tudo atualizado diariamente na parte da manhã.

Após poucos anos, chegaram os computadores, os disquetes, os sistemas, as planilhas —— motivos para muitos não tão jovens bancários se aposentarem. Havia medo da máquina, da nossa capacidade de domá-la, sem quebrar nada ou apagar coisas importantes. Naquele tempo, ouvi pela primeira vez de um técnico de informática que um dia trabalharíamos todos de casa. Foi desacreditado por nós.

Em 2020, com a pandemia instalada, trabalhei diretamente de casa atendendo meus clientes em todas as suas necessidades. Vimos que o homem se supera quando é desafiado.

Embora estejamos tendo dias difíceis, de medo pela perda da nossa saúde e dos entes queridos, sinto-me satisfeita por todas as oportunidades que tive dentro de casa, curtindo meus filhos já adultos, aproveitando minha sacada e sua paisagem de flores e pássaros. Ouvindo novos sons do meu bairro. Sons que sempre estiveram ali, mas nunca os havia registrado.

Sinto-me mais solidária com as pessoas. E percebi com a revisão da vida, que passei a maior parte da minha dentro de uma agência bancária. 

A despeito do que este ano tenha feito com a gente, sempre sou grata por aquilo que me acontece.

Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo