Conte Sua História de São Paulo 467: depois de sofrer com a Covid-19, a alegria com as “Amigas da Consolação”

Rita Amaral

Ouvinte da CBN

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Meninas da Aclimação é como nos identificamos até hoje. Atualmente somos seis amigas. Há muito tempo, fomos meninas. Hoje, somos as Senhoras da Aclimação. Perdemos uma das meninas no ano passado.  Sou da Aclimação desde os anos de 1950 quando mudei com a família para a Rua Baturité.  O jardim que leva o nome do bairro já foi chamada de Jardin d Aclimatacion, um belo espaço de Paris que inspirou o dono dessas terras, Carlos Botelho, a criar um zoológico e um local para aclimatação de espécies exóticas. Fica no centro de São Paulo. 

O Jardim estava a uma quadra de distância da nossa rua. Era seguro ir até lá com as meninas. No parque, minha mãe me levava para tomar sol e encontrar outras crianças. Na calçada da rua, brincávamos de amarelinha; pulávamos corda e nossas bonecas nos divertiam. Às seis horas, com o fim da tarde, a mãe de uma de nossas amigas nos chamava para entrar e ouvir no rádio “A benção do Padre Donizete.” Ao lado do rádio, nos esperava um copo de água benzida.

Na adolescência, nos encontrávamos nos bailes de garagem. O som de Ray Conniff, Nat King Cole e Elvis Presley na vitrola foi testemunha dos primeiro namoros — que eram motivos de trocas de informações constantes entre as meninas. Delas fui a última a me casar. 

As meninas da Aclimação tiveram filhos e isso mudou o tema das nossas conversas. Não havia mais bailinhos para os encontros, então nos reuníamos nas festas infantis. Algumas fizeram suas primeiras viagens para o exterior. 

Nossos filhos casaram. Somente duas de nós continuamos morando na Aclimação. Mesmo assim nos encontrávamos em algum restaurante da cidade, sempre próximo do fim do ano. Havia trocas de presentes, de histórias e memórias.

Em 2020, fiquei quatro meses internada em estado muito grave devido a Covid-19. Ao me recuperar, procurei as meninas para encontros virtuais no Zoom, no Google Meet, em alguma dessas plataformas. Ninguém tinha e-mail. Ainda bem que descobrimos as chamadas de vídeo no WhatsApp. E desde lá, há cinco meses, toda terça-feira, às cinco da tarde —- antes da Benção do Padre Donizete —- nos reunimos. Até mesmo uma das meninas que hoje mora no Chile, mas adaptou sua agenda para estar com a gente.

Conversamos sobre nossas famílias, netos, receitas. e cuidados Compartilhamos nossas aflições e nossas conquistas. Em 2020, duas de nós ficaram viúvas. A despeito da pandemia, estamos mais próximas. Nosso encontro de fim de ano agora é toda semana graças as chamadas de vídeo. 

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Rita Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: “o melhor líder é o melhor ser humano”, diz a consultora Luciane Botto

“Um líder cada vez mais, além de pensar em resultado, tem de pensar nas pessoas. E conseguir fazer este equilíbrio entre o resultado, a técnica, a ferramenta, o processo, as pessoas … conseguir trazer o time junto é o que cada vez mais a gente precisa dentro das nossas organizações”

Luciane Botto, consultora

A alta competitividade dentro das organizações, a busca incessante de resultados e a insegurança quanto aos cenários que se desenham nesta pandemia potencializam os desafios impostos aos líderes. É preciso coragem e sensibilidade para as tomadas de decisão, além de consciência do impacto que seus atos terão sobre as pessoas com as quais tem relação. Para a consultora Luciane Botto, que se dedica ao desenvolvimento de lideranças e realiza consultoria organizacional, quanto mais nos desenvolvemos como seres humanos íntegros, responsáveis e autênticos, mais efeitos tendemos a nos tornar como líderes e mais plenamente seremos capazes de viver nossas vidas.

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN., Luciane falou da necessidade de os profissionais trabalharem com o conceito de liderança integral:

“Um líder cada vez mais, além de pensar em resultado, tem de pensar nas pessoas. E conseguir fazer este equilíbrio entre resultado, a técnica, a ferramenta, o processo, as pessoas, conseguir trazer o time junto é o que cada vez mais a gente precisa dentro das nossas organizações”.

Em “Liderança Integral — a evolução do ser humano e das organizações”(Editora Vozes), Luciane e seus colegas José Vicente Cordeiro e Paulo Cruz Filho, identificam cinco atitudes para quem pretende exercer na plenitude o seu papel de líder:

  • Propósito — “.. a razão pela qual algo é feito ou criado, ou para a qual algo existe.”
  • Accountability —  “… assumir sua responsabilidade pelos resultados produzidos em sua organização e na sua vida.”
  • Integridade — “… dar o máximo de nós mesmos pelas nossas causas, mas sem ir contra os nossos valores pessoais e os das organizações.”
  • Humildade — “reconhecer que aquilo que vemos lá fora não são fatos absolutos e, sim, nossas interpretações do que acontece no mundo”….portanto devemos “permanecer abertos às interpretações dos outros acerca do que está acontecendo.”
  • Veracidade  — “…ser sincero consigo mesmo e com os outros.”

O exercício dessas atitudes permite que se identifique forte conexão da equipe de trabalho e se melhore o ambiente da organização, mesmo com alguns setores da economia mantendo seus profissionais atuando à distância, desde o início da pandemia. Líderes incapazes de exercerem esse papel tendem a ser responsáveis pela criação de empresas tóxicas, segundo Luciane. Estudo da Harvard Business School com mais de 60 mil funcionários mostra que o ambiente ruim desanima as equipes e afetam os resultados. Quando o gestor é muito grosseiro, diz a consultora, 80% das pessoas se sentem descomprometidas, 38% reduzem a qualidade do trabalho e 25% transferem essa frustração ao cliente.

“Se o melhor líder é o melhor ser humano, ele tem de estar preocupado não só em ser um excelente gestor, mas também ser um colega que compartilha informação, que está disposto a ensinar, a aprender, a dar o seu melhor, a muitas vezes pedir ajuda, a ter humildade suficiente para falar que não tem todas as respostas, que não é o super-herói”

O programa Mundo Corporativo é apresentado pelo jornalista Mílton Jung, pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no Canal da CBN no Youtube e no Facebook, e é reproduzido aos sábados no Jornal da CBN. O Mundo Corporativo tem a colaboração de Débora Gonçalves, Juliana Prado, Bruno Teixeira e Rafael Teixeira.

Conte Sua História de SP 467: a Ingrid me mostrou que dava

Luciana Henn S. Castro

Ouvinte da CBN

“O que é o palco, onde ele está, do que ele é feito?

O palco é uma dimensão espiritual, simbólica, o palco é seu próprio coração. […]

O coração tem o calor pra alma, para nos animar.

E durante a pandemia realmente foi nossa ânima que fez o mundo girar”. 

Gilberto Gil em especial para “Amor e Sorte”

 

Foi um pouco antes da pandemia que nos conhecemos, na Casa da Amizade, no Paraisópolis. E assim que tudo na rua virou silêncio, recebi a mensagem dela: “Você pode continuar me dando dicas sobre redação para o vestibular? Acabei de escrever um texto, posso te mandar pelo zap”? Com meu “sim, claro”, se abriu um portal de possibilidades impensadas. 

Confesso que, quando a escola em que trabalho como professora foi fechada, em 18 de março, nutri a esperança de que aquela situação duraria no máximo um mês. E ainda que continuasse orientando os alunos remotamente, eu era daquelas pessoas que achavam impossível realizar o trabalho docente em “home office” pela própria definição do termo: não existia “home classroom”. 

A Ingrid me mostrou que dava. 

Enquanto eu me ajustava às inéditas demandas da escola particular onde trabalho, alimentando plataformas com aulas, eu cultivava, por causa da Ingrid, a energia de lecionar. Ela me mandava a redação, eu a corrigia, identificava pontos fortes e a melhorar. Buscava na internet — até aquele momento, um lado escuro da lua, ainda tão cheio de possibilidades inexploradas — os tópicos que poderiam ajudar a Ingrid a se sair bem no vestibular. 

O calendário desfolhava rapidamente e estávamos às vésperas de organizar o Concurso de Redação da Mostra Cultural de Paraisópolis, para alunos de escolas públicas. Eu, ainda entorpecida pela mudança de rotinas doméstica e profissional, pelo enclausuramento, pelo medo, pelas incertezas propostas pelo governo federal, pensava em cancelar o concurso, mas a experiência com a Ingrid me mostrou que era possível. 

Chamei uma reunião, via internet, com a equipe organizadora para trocarmos ideias e contar, por exemplo, o quanto eu começava a dominar os diversos aplicativos que poderiam viabilizar o evento: desde a inscrição dos candidatos à sua preparação pelos professores nas escolas; da criação à aplicação da proposta de redação, com seus textos motivadores, bem aos moldes do ENEM; da maneira de coletar essas redações à entrega delas, sem identificação nominal, à equipe de corretores; do modo como publicar as notas de forma fácil e confiável. 

Fizemos isso em tempo recorde e de maneira totalmente remota, promovendo o encontro de todos os atores. Um viva à informática e à nossa sinergia! 

A adesão ao Concurso foi menor do que nas edições anteriores —- para muitos participantes, o celular era o único dispositivo disponível, e você pode imaginar a dificuldade em ler os textos motivadores e escrever a redação numa tela do tamanho da mão, torcendo para o sinal não cair bem no meio da operação. 

Enfim, conseguimos!!! E, no melhor estilo “live”, a XV Mostra Cultural de Paraisópolis aconteceu, as 10 melhores redações receberam seus prêmios via correio e a celebração dos vencedores foi feita por transmissão virtual. 

Toda essa experiência me mostrou que o palco, também na educação, é o coração! É o coração que traz o calor para a alma e nos anima, para continuar fazendo essa comunidade girar! Para continuar, enfim, sinalizando aos jovens que a Educação ainda é um passaporte para uma vida melhor e que estamos aí para nos reinventar, nos apropriando das tecnologias para criar novos mundos, menos desiguais, mais fraternos e empáticos. 

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Conte Sua História de SP 467: meu presente foi o talento de minhas amigas

Elisabete Parra

Ouvinte da CBN

Gosto de comemorar meu aniversários sempre no sentido do agradecimento e de abertura para que o universo conspire e eu perceba que posso continuar fazendo diferença. Tem sido assim principalmente após os 50 anos —- quando revisitei lugares de nascimento e da primeira infância. 

Apesar da pandemia e diante dela, não poderia me render quando fosse completar 64 anos em 4 de setembro de 2020. Os aniversários em lives estavam em alta, mas achava aquilo meio sem graça —- várias pessoas falando ao mesmo tempo, cumprindo um protocolo, longe de uma comemoração. 

Foi, então, que tive a ideia de propor às minhas amigas: “seu talento é meu presente”. Entrei em contato com algumas 20 mulheres, as mais chegadas, e propus a brincadeira. Algumas acharam que não tinham nada a oferecer .… tenho certeza que todas as pessoas são talentosas, muitas vezes não sabem, ou não identificam suas habilidades. O resultado é que tive o aniversário mais lindo, inesquecível e solidário nos meus 64 anos de vida.

Foram vários presentes: música, leitura de textos, depoimentos e retrospectivas por aquelas que diziam não ter talento. Fizeram até sorteio. Com talentos que umas ofereciam as outras: terapia, tarô, numerologia … 

O mais marcante foi a união de algumas das amigas que gostam de cozinhar ou sabem trabalhar com decoração para organizarem um aniversário na sede de uma ONG que atende moradores de rua, Mãos que Abençoam, em São Caetano do Sul. No dia do meu aniversário, eles se responsabilizaram pelo almoço das pessoas atendidas pela ONG, prepararam a decoração e cantaram o ‘parabéns à você’. Tudo gravado e reproduzido durante a live. Nem preciso dizer que não conseguia parar de chorar. 

O maior legado: estamos todas ajudando a ONG descoberta por acaso, quando minhas amigas procuravam uma instituição para oferecer os seus talentos.  O que mostra que o universo conspira e presenteia quando você está aberta a dar e receber.

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Conte Sua História de SP 467: o direito de ser dançarina

Cida Serafim

Ouvinte da CBN

Estou com 33 anos. E recuperei o direito de dizer que sou dançarina contemporânea. Eu explico. Atuei nos palcos por dez anos. Nos últimos quatro, não dançava mais nem praticava qualquer atividade física. Depressão, lesões, autocrítica exacerbada e a certeza de que a arte aqui estava fadada ao desmonte.

Eu não tinha forças para qualquer luta coletiva ou mesmo segurança para expor o que eu acreditava ser minha expressão. Minha voz estava muda. Dores simbólicas e concretas me assombravam há muito tempo. Ao entrar 2020, após quatro anos trabalhando com produção de eventos e sofrer uma estafa gigantesca, decidi que só trabalharia no ramo de alimentação: restaurantes, cafés. Tinha alguma experiência e bastante jogo de cintura. Era o plano perfeito. Mas lá no fundo uma tristeza gigante me consumia.

Com a pandemia e o isolamento, tive um crise de dores na coluna que me deixou na cama. Um mês isolada e quase imóvel; tempo que levei para reunir forças e pedir ajuda. Um WhatsApp aqui. Uma ligação ali. E numa dessas um amigo me indicou o trabalho de um fisioterapeuta que fazia teleatendimento com artistas do corpo. Teleatendimento em fisio?  Sim!

Semana a semana, ideias equivocadas sobre o corpo, reabilitação, dores crônicas e lesões persistentes foram desconstruídas. Perdi os 10 quilos que acumulei no isolamento. Ganhei confiança. Tomei coragem. Gravei vídeos no Instagram. Retomei contato com as parceiras de dança. E meu corpo respondeu tão bem aos estímulos, ao apoio e a generosidade de Leandro Fukusawa, o fisioterapeuta, que decidi voltar à dança.

De modo quase inexplicável, a vida mostrou meios e caminhos para que isso fosse possível. Hoje, tiro do papel e do campo das ideias, um projeto que vai justamente olhar para essa história de superação através do movimento.

Nunca imaginei que a tecnologia abriria a porta para minha reabilitação, que eu voltaria a dançar e contaria essa história para não ter dúvida de que mesmo em meio ao caos e à falta de esperança, a vida ainda pulsa. E dança. 

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Conte Sua História de SP 467: o grupo de WhatsApp que mexeu no meu bom retiro

Por Betty Boguchwal

Ouvinte da CBN

“Os quadros e as obras de arte marcam

a presença dos moradores numa casa.

Digo isso porque a decoração

podemos encomendar a um profissional,

mas a arte nós que escolhemos”.

Maurício Boguchwal

 

Dentre os inúmeros grupos de WhatsApp e reuniões via plataformas digitais que movimentam e atenuam o isolamento social e, também, diversificam o cotidiano e cenários desta interminável quarentena, seleciono o grupo Bom Retiro — um coletivo com lotação máxima de 256 pessoas com larga faixa etária, comprovada vivência neste bairro — condição sine qua non para marcar presença nesse “hospício”, como é carinhosamente chamado. Daí o slogan:

— Você sai do Bom Retiro, mas ele não sai de você!

O dito bairro carece de uma revitalização digna da história de seus antepassados para, atualmente, marcar a presença da comunidade judaica em São Paulo. Na primeira reunião, agendada para às oito e meia da noite de uma quarta-feira, excepcionalmente eu estava on time. Sabe, com tantas reuniões no Zoom, eu criei um lugar, melhor dizendo, puxo uma mesinha que expõe antiguidades, substituo um telefone quadrado de disco, bege com dourado, pelo meu fiel companheiro notebook Dell, e arrasto a referida mesinha em frente ao sofá, onde me sento sempre no mesmo lugar, óbvio, na esquerda.

Ora, esse tipo de reunião em plataformas digitais tem as mais diversas demandas, com um anfitrião muitas vezes desconhecido, além de muitos outros convivas, que abre a sala Zoom, Google Meet, etc, com uma lista de convidados e agregados. E com esse convite você acaba entrando na residência, local de trabalho, enfim, lugares diversos de pessoas que invariavelmente você irá conhecer ou não, com tudo e todos dispostos na tela vertical. A propósito, a pauta dessa reunião era a revitalização do Pletzl — maneira carinhosa de chamar a esquina da Rua Correia de Mello e Rua da Graça, cercada pelo comércio atacadista, uma sinagoga histórica, hoje convertida no Museu Judaico do Holocausto, e bancos, onde nossos pais, avós se encontravam e sabiam das novidades, negócios e fofocas.

E não é que em meio aos “boa noite”, Mauro me faz uma pergunta bem peculiar:

— Este quadro aí atrás é muito bonito, ele é original?

Olho para trás e respondo:

— Não, este é uma reprodução, afirmei.

— Ah, mas ele é tão lindo, que nem pude identificar que fosse uma cópia, complementou.

De fato, Mauro tinha razão. Trata-se de um Alfredo Volpi. 

Caramba, com tantas reuniões sentadas neste mesmo lugar, como vem este Mauro com esta observação singular?

Pois é, tanto a sala, como o apartamento  inteiro estavam com muito pó, e embora isto não fique visível no Zoom, ele involuntariamente passou um aspirador não somente em todo o imóvel, como também na minha cabeça. No dia seguinte, ele me moveu a um ato, já ensaiado há um considerável tempo. Desembalei todo o acervo de quadros, esculturas, obras de arte, enfeites que vieram da residência da minha mãe, desde sua partida final, há um ano, e que estavam escondidos da minha visão.

Em outra parede, pendurei uma autêntica mulata de Di Cavalcanti. E que mulata! Aos poucos, fui selecionando com a Márcia, a co-herdeira, outros quadros e objetos, os quais, prazerosamente distribui no meu novo ambiente e ela, respectivamente, fez o mesmo no seu. Ou seja, eu simplesmente revitalizei a sala com diversas e singulares imagens em fortes cores. Ah, incluí a presença dos meus pais na minha casa, à minha moda.

Quanto ao objetivo do grupo, revitalizar o Pletzl, a prefeitura se encarregou da obra física e elegemos Artur Lescher, escultor, para criar a obra que contemplará o espaço histórico. 

Betty Boguchwal é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: passei de ano com meu Arthur

Por Odnides Pereira 

Ouvinte da CBN

Nasci na Zona Norte da Capital em 21 de abril de 1959. E por aqui sempre morei. Quando estudante, frequentava a escola pública. Você haverá de saber que naquela época não existiam email, Facebook, WhatsApp, Twitter … nem mesmo computador.  Imagine o que foi se adaptar a essa nova escola. Meu neto,  Arthur, hoje com sete anos, mora comigo e minha esposa desde os dois anos de idade. Está no segundo ano fundamental do colégio Palavra Viva, aqui na Zona Norte.

Em 23 de março de 2020, ao levá-lo na escola, como faço todos os dias —- ou fazia —-, fomos avisados que as aulas estavam suspensas devido à pandemia. E o que acontecerá agora? Ninguém sabia dizer ainda.

As respostas a essa dúvida começaram a chegar no WhatsApp. 

Uma semana depois a mensagem recebida dizia que as atividades seriam virtuais e deveríamos esperar mais um ou dois dias pois ainda estavam concluindo o cadastramento dos alunos no Google Meet — Sala de Aula. 

Foi pelo WhatsApp também que fomos chamados na escola para buscarmos livros e cadernos a partir de um sistema de drive-thru organizado pela escola. Chegamos de carro, baixamos o vidro, um funcionário com máscara entregou uma caixa com todo o material do meu neto dentro e voltamos para dentro de casa.

Confesso, em um primeiro momento ficamos todos perdidos tal a transformação tecnológica em nosso entorno. Chegamos a ficar atrasados com as aulas por um semana —- algumas coisas que deveríamos fazer, nós perdemos. Os professores foram compreensivos e o conteúdo que havíamos deixado para trás foi recuperado.

Em casa nos adaptamos, também. Separamos uma mesa para todos os cadernos, livros e os demais materiais a serem usados na escola. Nas provas, Arthur dizia: — “Vô, vó, por favor, saiam daqui de perto, hoje tenho prova pra fazer.”. A gente obedecia.

As aulas virtuais foram de vento em popa. E nós começamos a aprender algumas coisas. Desde os primeiros dias observei o quanto os professores são pacientes e perseverantes. Nessa pandemia, eles estavam dentro da minha casa, viraram nossos parentes. Até sabíamos quando eles tinham algum problema familiar. E aproveitávamos para conversar pelo WhatsApp ou pelo próprio Google Meet nos intervalos de lanche.

Pela tecnologia e o esforço dos professores, foi possível ao meu neto ter recebido todo o conteúdo do ano, da mesma forma que se estivesse na escola. E, felizmente, encerramos o ano letivo. Meu neto Arthur, a vó dele e eu passamos de ano.

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Conte Sua História de São Paulo: de véu, grinalda e flor de laranjeira

Ivani Dantas 

Ouvinte da CBN

Das lembranças que trago da infância quase nada se parece com os dias de hoje. Foi um tempo tão transformador que me parece razoável contá-lo no formato “ Era uma vez!…“.

Quando os códigos morais e éticos valiam igualmente para os mais e para os menos abastados, pessoas circulavam com a mesma elegância e dignidade pelas ruas, bondes e pelas largas avenidas de São Paulo. O trânsito de automóveis era de se contar nos dedos.  A vida corria lenta e os acontecimentos eram muito mais esmiuçados, o que muitas vezes era mesmo cuidar da vida alheia. 

As  Marocas (personagem fofoqueira das tirinhas de jornal), tinham um “cuidado especial” com as jovens casadoiras! O estado civil era notado não só pela aliança brilhando na mão esquerda, mas também pelas roupas, de colorido mais sutil, e comportamento mais contido.

Moças subiam ao altar de véu e grinalda, conduzidas, até a igreja, por um carro, decorado com rendas e rococós (corríamos ao portão para ver passar).  E, chegavam o altar, pelas mãos do pai, feliz ao som da marcha nupcial. A noiva, vestida de branco – pureza, véu, grinalda e flor de laranjeira.

Outros tempos! Os namoros e noivados eram vigiados pela família e… vizinhos. Casar uma filha era um bem disfarçado alívio! Teria, agora, um marido que dela cuidaria “para sempre”. 

O bairro, a paróquia, toda a vizinhança se punha a contar os meses que levaria para surgir o rebento… que algumas vezes chegava “prematuro”, mas muito parrudo…

Tudo tão distante, mas as recordações permanecem… 

Pois é,

Era uma vez…

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Conte Sua História de SP: o desembarque na cidade após a Segunda Grande Guerra

Anna Maria Amato Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Eu e minha família chegamos no Brasil, em São Paulo, vindos da Itália, em 1950, após a Segunda Grande Guerra Mundial. Tínhamos passado, por determinação de meu pai, cinco anos viajando por muitas cidades e vilarejos em busca de lugares menos perigosos e longe de bombardeios e de objetivos bélicos.

Acabada a guerra, em 1945, voltamos à nossa cidade Messina, na Sicília, encontrando-a quase totalmente destruída. Foi a cidade que mais recebeu bombardeios aéreos e navais, devido a sua posição geográfica estratégica.

A decisão de meu pai, então, foi buscar trabalho em outro país e como ele mantinha contatos no Brasil, não deixou escapar a oportunidade… Naquela época para entrar no país, somente com um prévio contrato de trabalho.  Chegamos aqui depois de 21 dias de viagem de navio, com muitas ilusões e sonhos: o Brasil era notadamente pacífico.                                 

São Paulo logo nos pareceu uma grande metrópole e não demorou para nos inserimos em um ambiente agradável: italianos, filhos e netos de italianos, “quatrocentões” — cujos filhos tinham estudado na Europa —  e outros descendentes de pais asiáticos.  

Povo alegre e colorido!

Eu, com 18 anos, observava que na maioria das vezes prevaleciam costumes afrancesados; de fato havia restaurantes franceses; a Aliança Francesa, muito frequentada que, além de cursos de língua, oferecia espetáculos teatrais. As lojas de moda de prestígio eram francesas. Ditava a moda, a tecelagem Francesa. Em vários programas de rádio eram tocadas música com cantores que faziam sucesso na França. 

Os colégios de freiras, mais conceituados, eram franceses; e  à época dos anos 1950-1960, numa São Paulo cosmopolita de mais de um milhão de habitantes, notava-se uma “média burguesia” em busca de afirmação e com uma boa bagagem intelectual.

Naqueles anos, a população contribuiu muito para o progresso de São Paulo por isso guardo no meu coração com carinho aqueles anos dourados cheios de promessas e ilusões.

Quando me perguntam se a pandemia de hoje se equivale a guerra que eu passei, respondo que esta é mais assustadora. Não obstante os cinco anos de perigo constante, nós conhecíamos o inimigo e suas estratégias. Agora, o vírus é um inimigo cruel, obscuro e imprevisível, mas tenho fé de que a humanidade vai conseguir desmascará-lo e superar este momento mesmo tendo pago um duríssimo preço..!  

Anna Maria Amato Nardellii é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “Pensão no Brás, avenida Mercúrio, reservada por Amigo”

Alceu Sebastião Costa

Ouvinte da CBN

Minha querida São Paulo, que eu escolhi como abrigo,

Há 52 anos, pela primeira vez, aqui desembarquei,

Pensão no Brás, Av. Mercúrio, reservada por Amigo,

Olhos postos no futuro, de lágrimas e esperança inundei.

 

Cidade em franco desenvolvimento, tijolos e cimento,

No teu colo, sem arrependimento, vivi cada momento

Da busca acelerada, mesclando terra, ar, água e fogo

Vezes sem escapatória do arrojo em detrimento do povo.

 

Muito sangue e suor derramados, caminhos sem volta,

Falta de moradia, a rua como último bastião alcançado

Pelo cidadão que, a bem do sucesso e do progresso,

Deu a sua contribuição solidária, voluntária e solitária

Ainda que consciente dos riscos sobre o fio da navalha.

 

Meu Amigo, que como eu, em Sampa um dia aportou,

Seja condescendente, generoso e renove a esperança

De vê-la livre das maracutaias, desrespeitos e mazelas;

Afinal, a nossa Urbe, que, no 25 de janeiro,

Alcançará orgulhosa seus 467 anos de esplendoroso vigor,

Traz também em seu histórico memoráveis feitos de Amor.

 

Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele já esteve outras vezes aqui no quadro, sempre com poesia e realidade. É só procurar lá no meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. E você já é nosso convidado para enviar seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e participar da série especial de aniversário de 467 anosa da nossa cidade.