Vitória 1×0 Grêmio Brasileiro — Barradão, Salvador (BA)
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Durante quatro dias, minhas redes sociais foram inundadas pelas imagens da vitória gremista no clássico pela Copa do Brasil. Eram os gols de Carlos Vinícius, os desarmes de Kannemann e as molecagens de Amuzu, driblando e cruzando de cara virada. Havia torcedores dançando valsa nas arquibancadas e jogadores exibindo alegria no vestiário.
O algoritmo agia a meu favor. Enchia de dopamina a mente do torcedor e me fazia acreditar que a história começava a ser reescrita nesta temporada. Depois da classificação para a semifinal da Copa do Brasil, viria a redenção no Brasileiro. Abrir o celular era motivo de satisfação — e retenção.
Assim foi durante o fim de semana e boa parte deste feriado de 7 de setembro. Ao menos até a bola começar a rolar na penumbra do Barradão, em Salvador.
A luz que atingiu nosso goleiro antes mesmo do apito inicial, derrubando-o no gramado, parecia um prenúncio: o brilho tricolor exibido nas redes sociais estava prestes a dar lugar à escuridão.
No primeiro tempo, mesmo oferecendo espaços para o adversário, o Grêmio se portou bem quando avançava. O meio de campo trocava passes, e as bolas esticadas encontravam seu destino. Faltava transformá-las em chutes a gol — detalhe que, no futebol, costuma separar intenção de perigo, expectativa de realidade.
Ainda havia em campo uma sombra do time que nos havia alegrado na quinta-feira. Era apenas sombra.
No segundo tempo, a realidade ficou escancarada. Mal atacávamos e nos defendíamos como era possível. O futebol mediano praticado pelas duas equipes não fluía. Em uma partida mergulhada na falta de criatividade, foi premiado quem demonstrou algum ímpeto para avançar.
O Grêmio segue sem vencer fora de casa no Brasileiro, uma competição de pontos corridos que já chegou à 25ª partida. A situação só não custa mais caro porque a concorrência também tropeça. Há uma multidão tentando fugir do escuro, e ninguém parece saber exatamente onde fica o interruptor.
A classificação na Copa do Brasil permanece. A vitória no Gre-Nal também. Não foram invenções do algoritmo. O problema é que aquelas imagens mostravam apenas a parte iluminada de um time que ainda convive demais com as próprias sombras.
Agora, por favor, deixem-me voltar à ilusão das redes sociais.
Crianças e adolescentes estão expostos a plataformas digitais projetadas para disputar sua atenção, estimular permanência e influenciar comportamentos. A discussão sobre proibir o acesso dos mais jovens às redes sociais foi tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com a educadora e terapeuta Amanda Zanetti e Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil.
Rafael argumentou que o Brasil já dispõe de um caminho diferente com o ECA Digital, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre os pontos destacados por ele estão o combate ao design abusivo — recursos construídos para induzir comportamentos ou prolongar o uso das plataformas —, a verificação de idade, a supervisão dos pais e limites à exploração comercial dos mais jovens.
Para ele, a proibição pode produzir uma sensação de segurança sem resolver o problema. Jovens poderiam contornar as barreiras usando VPNs, que permitem mascarar a localização do usuário, ou documentos de parentes. “O banimento parece uma resposta boa, mas é uma resposta muito simples, muito pobre”, afirmou.
Amanda defendeu que é preciso diferenciar inclusão digital de acesso às redes sociais. Restringir determinadas plataformas, argumentou, não significa afastar crianças e adolescentes do mundo digital. Para ela, não se pode transferir apenas às famílias e aos jovens a responsabilidade de enfrentar ambientes desenvolvidos para capturar atenção e explorar a busca por aprovação social.
“Uma restrição mais forte, uma política que vem regulamentando isso é necessário para que a gente não deixe isso só na mão ali dos adolescentes e das famílias”, disse. Amanda lembrou que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo a capacidade de autorregulação, o que aumenta a responsabilidade da sociedade e das empresas sobre os ambientes oferecidos a esse público.
O debate também avançou para uma questão anterior à proibição: o problema está no acesso ou na maneira como as plataformas funcionam?
Rafael sustentou que a prioridade deve estar no desenho das redes. Algoritmos de recomendação, feeds contínuos e outros mecanismos podem ser construídos para aumentar o tempo de permanência e estimular consumo. Para ele, responsabilizar as empresas por escolhas abusivas ataca diretamente esse modelo.
Amanda acrescentou outro elemento: educação digital. Para ela, famílias e escolas precisam preparar crianças desde cedo para compreender segurança, consentimento, proteção e os riscos do ambiente digital. Restringir o acesso, portanto, não elimina a necessidade de ensinar o jovem a lidar com essas plataformas quando tiver idade para utilizá-las.
As posições revelaram também uma área de convergência. Embora discordem sobre a necessidade de proibição, os dois debatedores defenderam maior responsabilidade das plataformas, proteção dos menores e educação para o uso do ambiente digital. A divergência principal está em até onde deve chegar a restrição e se o banimento é uma ferramenta necessária ou uma solução excessivamente simples para um problema mais complexo.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
As redes sociais deram voz a milhões de pessoas, e também ampliaram a circulação de desinformação, discursos de ódio e outros conteúdos prejudiciais. O desafio é criar regras para as plataformas sem transformar a proteção dos usuários em instrumento de censura. Esse foi o tema da série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, que teve as participações de Bia Barbosa, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e Rafael Pellon, advogado especializado em Direito Digital.
A principal divergência está menos na existência de regras e mais no alcance delas. Bia defende uma regulação que atue sobre o funcionamento e o modelo de negócios das plataformas. Rafael alerta para o risco de que essas regras avancem sobre o conteúdo publicado pelos cidadãos e restrinjam a liberdade de expressão.
Para Bia nem plataformas nem governos devem receber o poder de determinar o que é verdadeiro ou falso. Para ela, a regulação pode atuar por outros caminhos, como transparência, proteção de dados, combate à violência digital e identificação de conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial.
“Não se trata da gente dar para as plataformas o poder de definir o que que é verdade ou que não é, muito menos para o governo de plantão”, afirmou.
A representante do CGI.br também defendeu que a fiscalização das regras seja feita por uma autoridade independente, a partir de legislação aprovada pelo Congresso e submetida ao debate público.
Rafael concordou que determinadas regras podem existir, mas estabeleceu uma fronteira: elas deveriam se concentrar nos extremos e evitar interferência sobre a comunicação cotidiana entre os cidadãos.
“Na medida em que a gente tenta criar qualquer tipo de regulação que preveja algum tipo de avaliação prévia, a gente entra num risco de censura”, disse.
Outro ponto do debate foi a transparência algorítmica. Algoritmos são sistemas usados pelas plataformas para decidir, entre outras coisas, quais publicações serão recomendadas e ganharão maior visibilidade.
Bia argumentou que conhecer os critérios dessas decisões pode proteger o próprio exercício da liberdade de expressão. Ela citou casos de jornalistas e veículos que tiveram contas ou conteúdos suspensos sem explicações claras sobre os motivos ou sobre os mecanismos disponíveis para recorrer.
Para ela, o problema também está no modelo econômico das redes, construído para aumentar o tempo de permanência do usuário e, consequentemente, a coleta de dados e a receita. A regulação, portanto, deveria atuar sobre a arquitetura e os incentivos das plataformas, e não sobre cada conteúdo individualmente.
Rafael fez uma ressalva. O algoritmo também constitui parte do segredo comercial das empresas. Exigir sua abertura completa poderia prejudicar inovação e concorrência. A alternativa, segundo ele, seria exigir informações suficientes para compreender os efeitos do sistema sem obrigar as empresas a revelar todos os detalhes técnicos.
“Eu consigo divulgar os efeitos, mas não as regras exatas em que se trabalha”, afirmou.
O debate mostra que a discussão não cabe apenas na pergunta “regular ou não regular”. A questão central é definir o que regular, quem fiscaliza, quais informações as plataformas devem fornecer e onde estabelecer a fronteira para preservar a liberdade de expressão.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, isolamento e a sensação de acordar cansado mesmo depois de descansar podem ser sinais de fadiga emocional. Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbizan, esses sintomas podem aparecer quando os excessos do cotidiano se acumulam sem que a pessoa perceba. A exposição contínua às redes sociais, a busca por validação e a pressão para demonstrar produtividade, felicidade e equilíbrio fazem parte desse processo. O assunto foi tema de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.
Thaís define a fadiga emocional como “uma exaustão psíquica que a gente pode ter de acordo com os excessos do dia a dia e que a gente não vai percebendo”. Segundo ela, um dos problemas é justamente a dificuldade de reconhecer que o limite foi ultrapassado. A pessoa continua trabalhando, cuidando da família, respondendo mensagens e cumprindo compromissos. Por fora, a rotina segue funcionando. Por dentro, porém, pode haver um desgaste crescente.
Entre os sinais citados pela psicóloga estão alterações no sono, maior irritabilidade, vontade de se afastar das relações sociais e cansaço persistente. “Existe aquela vontade de descansar, mas você acorda cansada”, afirma.
A necessidade de validação
As redes sociais não são apresentadas por Thaís como responsáveis isoladas pelo problema. Ela reconhece seu papel na comunicação, no trabalho e na circulação de informação. A questão está na forma e na intensidade com que são incorporadas ao cotidiano.
A psicóloga chama a atenção especialmente para a diferença entre compartilhar momentos da vida e depender da reação dos outros para avaliar a própria vida. “Quando você vive tendo o tempo todo que ser validado pelo outro, por uma curtida, por um encaminhamento, por quantas pessoas que te seguem, quem tem mais seguidores”, diz.
Essa lógica pode ser mais intensa para quem depende profissionalmente da exposição digital. Produzir vídeos, acompanhar o engajamento e permanecer disponível transforma o celular em instrumento de trabalho, mas também dificulta estabelecer uma fronteira entre vida profissional e pessoal. Para Thaís, essa fronteira merece atenção: “Até que ponto é o tempo que a pessoa só vai usar para ela e para o trabalho, onde fica o público e o privado?”
A psicóloga também chama a atenção para a comparação permanente. Nas redes, as pessoas normalmente encontram recortes da vida dos outros. Um vídeo de poucos minutos ou uma fotografia não revelam o conjunto da experiência de quem aparece na tela.
A comparação entre a vida cotidiana e essas imagens editadas pode afetar a autoestima. “Há um rebaixamento dessa autoestima, sim. Há tendência à depressão, há tendência a transtornos de ansiedade, a necessidade o tempo todo de pertencimento, de sentimento de inadequação, de vazio”, afirma.
O piloto automático e a anestesia emocional
Outro ponto abordado por Thaís é a dificuldade de perceber o próprio estado emocional. Quando trabalho, mensagens, compromissos e estímulos digitais se sucedem sem interrupção, a pessoa pode entrar no que ela descreve como “piloto automático”. Nesse processo, até distinguir bem-estar de mal-estar pode se tornar mais difícil.
“A partir do momento que você vive nesse piloto automático, você não sabe mais diferenciar o que é estar bem ou o que é não estar bem.”
Thaís relaciona essa situação a uma espécie de anestesia emocional. A pessoa cumpre suas obrigações, participa de atividades e mantém a rotina, mas pode não conseguir identificar claramente prazer, tristeza, cansaço ou insatisfação.
O problema, segundo ela, se agrava quando qualquer sensação de vazio precisa ser imediatamente preenchida. “Esse vazio que precisa existir, mas que não é olhado, porque precisa ser preenchido com estímulos, com vídeos, com engajamento, com curtidas e com validações.”
Reconhecer e nomear o que se sente passa, portanto, a ser parte importante do cuidado emocional. “Tudo que a gente dá nome, a gente consegue ajudar, a gente consegue se ajudar. O nomear é muito importante”, diz.
Descansar exige aprendizado
A pressão por produtividade pode alcançar até os momentos destinados ao descanso. Fazer nada passa a produzir culpa porque existe a sensação de que todo período disponível deveria ser preenchido por alguma atividade.
Thaís propõe questionar essa lógica. “O nada é uma arte”, afirma. Esse “nada” não significa necessariamente permanecer imóvel. Pode envolver ouvir música, ler ou simplesmente passar algum tempo sem a obrigação de produzir um resultado. A questão central é permitir que nem todas as atividades sejam avaliadas por produtividade, exposição ou aprovação externa.
A psicóloga também sugere observar a frequência com que aparece a expressão “ter que” na rotina: ter que responder, ter que produzir, ter que publicar, ter que demonstrar alguma coisa. “Sempre quando a gente tem que algo, a gente acaba saindo do ser”, diz.
A hora de prestar atenção
Não existe uma quantidade única de minutos ou horas nas redes sociais que determine quando o uso se tornou prejudicial. Thaís sugere olhar para as consequências. É preciso observar quanto tempo se passa nas redes, que tipo de conteúdo é consumido e, principalmente, o efeito desse uso sobre a vida cotidiana.
Problemas de sono, ansiedade, irritabilidade, perda de concentração, isolamento e prejuízos nos relacionamentos aparecem entre os sinais mencionados. A necessidade de curtidas e engajamento para se sentir bem também merece atenção.
“Até que ponto isso tá tomando a sua vida, o seu sono, as suas relações?”, questiona.
Na experiência clínica relatada por Thaís, muitas pessoas não procuram ajuda porque perceberam que estão usando demais as redes sociais. Elas chegam pelas consequências: estão mais irritadas, não conseguem conversar com a família, sentem necessidade de se isolar ou têm dificuldade para se desligar do celular.
Quando a exaustão e o sofrimento começam a interferir na vida profissional, familiar ou afetiva, a psicóloga recomenda buscar uma rede de apoio e ajuda especializada.
Ao fim da conversa, Thaís resume sua orientação pela busca de equilíbrio e pela preservação da própria identidade diante das pressões externas.
“Tá tudo bem você querer estar virtualmente, tá tudo bem você querer estar presencialmente, tá tudo bem não ter nenhuma rede social. Isso não é ser normal. Ser normal é ser você.”
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A semana inteira minhas redes sociais insistiam em reproduzir um clipe com cenas de Gabriel Magalhães e Haaland se digladiando nos campos do futebol inglês. O zagueiro brasileiro se agarrava no grandalhão norueguês. Os dois caíam no chão, trocavam sopapos e se empurravam mutuamente. Eram imagens extraídas dos diversos confrontos entre eles na Inglaterra. Na batalha travada no TikTok, o Brasil parecia vencer, a despeito da fama do atacante viking.
As redes sociais oferecem boas edições e, com elas, a ilusão da perfeição. A moça tem o corpo ideal. O abdômen marcado do rapaz é fruto apenas de disciplina. As viagens nunca têm perrengues. Os pratos servidos à mesa são sempre irresistíveis.
O futebol pautado pelo algoritmo segue a mesma lógica. Também é uma ilusão. Assim como a nossa vida, o jogo é às veras. Não cabe em um clipe de poucos segundos. O resultado se constrói com organização, eficiência, talento colocado a serviço da equipe e bola rede de nylon, não na digital.
Na partida de hoje, Haaland subiu sozinho dentro da área brasileira para marcar de cabeça o primeiro gol. Ninguém estava agarrado no norueguês para, ao menos, dificultar sua subida, como eu havia visto tantas vezes na tela do celular. Em seguida, recebeu um passe na entrada da área e chutou fora do alcance do nosso goleiro. E a imagem da televisão revelava a distância fatal entre ele e seus marcadores — uma distância que não existia no meu Instagram.
Os dribles de Vini Jr, as escapadas de Endrick, as tentativas de Rayan e as firulas de Neymar talvez fizessem sucesso diante de milhões de seguidores. Nas redes, não é preciso mostrar a conclusão da jogada. Basta o risco na grama desenhado pelo pé do craque, o movimento em direção ao gol ou um passe de três dedos. Na vida real, a bola saiu pela linha de fundo, o chute desviou para fora e o drible se acabou nele mesmo.
O pênalti cobrado com perfeição por Neymar provavelmente fará partedo vídeo de despedida do atacante — que espero seja em breve. Ele corre, ginga, deixa o goleiro sem ação. Uma imagem bonita embora fugaz. Nas redes basta o instante. O restante desaparece.
Alguém mais antenado lembrará que aquele gol foi apenas o último suspiro de uma seleção que vive do passado, sustentada por uma fama que já não intimida os adversários. A Noruega nos eliminou das oitavas-de-final com a tranquilidade de quem acreditava na própria força e conhecia as fragilidades brasileiras. Quem disse isso talvez seja chamado de pessimista ou antipatriótico. Sim, porque até a camisa canarinho que simbolizava aquele futebol campeão foi politicamente desvirtuada.
O Brasil cai pela sexta vez Copa do Mundo consecutiva antes da final. É a pior campanha desde 1990 quando fomos elimiandos pela Argentina na mesma fase da competição. Antes do apito final, as redes sociais eram tomadas por pedidos de demissão, caça aos culpados e diagnósticos definitivos.
O problema é que nenhuma dessas manifestações mudará os rumos da CBF nem devolverá identidade ao futebol brasileiro.
Passamos a semana olhando para uma rede que nos fazia acreditar na vitória. Bastaram 90 minutos para outra rede — a de naylon — nos lembrar onde o futebol continua sendo decidido. O algoritmo pode fabricar favoritos, heróis e lances inesquecíveis. As partidas, porme, continuam sendo vencidas por quem marca melhor, ocupa os espaços, joga coletivamente e transforma talento em resultado.
A rede social distribui ilusões. A rede do gol distribui vitórias e derrotas.
Daqui para frente, menos algoritmo, mais futebol, Brasil!
Estar entre os primeiros resultados de uma busca ou reunir milhares de curtidas pode gerar vendas, mas não garante que uma marca tenha conquistado um lugar na preferência do consumidor. O alerta em relação a obsessão pelaperformance nas plataformas digitais foi tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.
O ponto de partida da conversa foi uma pergunta típica dos tempos atuais: o que acontece quando empresas passam a perseguir apenas indicadores de desempenho e deixam em segundo plano a construção de valor da marca?
Para Jaime Troiano, esse comportamento revela uma distorção provocada pela busca incessante por resultados imediatos. “Vivemos a tirania da performance”, afirmou. Segundo ele, muitas organizações concentram seus investimentos em campanhas que geram vendas rápidas, mas deixam de fortalecer a imagem que sustentará o negócio no futuro.
Jaime observa que esse foco excessivo nos números faz com que profissionais percam a visão do conjunto. A comparação usada por ele ajuda a entender o problema: é como enxergar apenas a árvore e deixar de perceber a floresta. Nesse contexto, o marketing passa a perseguir métricas diárias, enquanto a marca deixa de construir vínculos duradouros com o público.
Para ilustrar essa ideia, ele citou o caso do Airbnb. A empresa reduziu investimentos em anúncios voltados exclusivamente para performance e voltou a apostar em campanhas de marca, baseadas em histórias e experiências. O resultado foi o aumento do tráfego direto e o fortalecimento da marca.
Na avaliação de Jaime, depender apenas de plataformas de busca significa pagar continuamente pela atenção do público. “Se você só aparece quando paga para o Google ou hoje em dia também para IA generativa, você não tem uma marca propriamente, você tem um custo de aluguel de audiência.”
Outro ponto destacado foi a diferença entre comportamento e percepção. Os dados mostram o que as pessoas fizeram, mas não revelam, necessariamente, o que elas sentiram. Essa dimensão emocional explica por que curtidas e cliques não asseguram fidelidade. Um consumidor atraído apenas por uma promoção pode mudar de escolha assim que encontrar um desconto maior.
Cecília Russo ressaltou que isso não significa abandonar a tecnologia nem desprezar as informações produzidas pelos dados. Para ela, o desafio está em compreender o papel de cada elemento na estratégia. “O dado vai dar esse mapa, mas talvez a gente possa traduzir que a marca, numa linguagem metafórica, é a bússola.”
Essa distinção ajuda a entender um conceito importante do branding: o brand equity, expressão utilizada para definir o valor que uma marca ocupa na mente do consumidor. Em outras palavras, é a reputação construída ao longo do tempo, capaz de influenciar escolhas mesmo quando não há propaganda ou promoção diante do cliente.
Cecília lembrou que marcas como Natura, Granado e Boticário não dependem apenas dos algoritmos para vender. Elas acumulam uma reserva de reputação construída de forma consistente. O consumidor procura essas marcas porque já estabeleceu uma relação de confiança com elas.
Ela também chamou atenção para a diferença entre despertar um clique e despertar desejo. Quando uma empresa depende exclusivamente de impulsionamento para ser lembrada, torna-se refém desse investimento permanente. Em contrapartida, quando o consumidor digita espontaneamente o nome da marca na barra de busca, e não apenas o nome de um produto, existe um patrimônio construído que vai além da publicidade.
O resumo da conversa no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso veio na frase da Cecília: “os dados mostram o caminho, mas a gente tem que ir atrás do coração, da emoção”. Afinal, são as conexões emocionais que transformam uma compra ocasional em uma escolha recorrente.
A marca do Sua Marca
Os dados orientam decisões importantes, mas não substituem a construção de confiança, reputação e identificação com o consumidor. Performance gera resultados imediatos. Marca forte cria preferência duradoura e continua sendo escolhida mesmo quando o algoritmo aponta outras opções.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
A indignação pública passou a seguir a lógica dos algoritmos. O debate político foi substituído pelo entretenimento de guerrilha. Discussões que ocupavam palanques, tribunas e até panfletos espalhados pela cidade ou colados em postes, hoje se reproduzem em vídeos curtos, memes e disputas superficiais. Se manifestam a partir de objetos triviais: do chinelo ao detergente. O que deveria provocar reflexão coletiva, sinal de alerta e, em alguns casos, até motivo de crise institucional, transforma-se em combustível para engajamento.
A política ao mesmo tempo que ganha alcance se esvazia na dinâmica das redes sociais. Entre “jogar o chinelo para cima” ou “desperdiçar detergente pelo ralo” — imagens que resumem as polêmicas que dominam o feed — a polarização produz desgaste constante e deixa um rastro de mortos, feridos e cancelados.
Nesse ambiente, o objetivo não é o progresso social, soluções para problemas reais. O foco está na desmoralização de instituições e pessoas. O debate de ideias deu lugar a uma briga ferrenha entre torcidas organizadas que, cegas pela paixão ideológica, perdem a capacidade crítica.
Enquanto a população tira pouco proveito desse confronto, alguns grupos faturam alto com o caos. São plataformas digitais e influenciadores que lucram com o volume de acesso gerado pelo ódio e pela controvérsia.
A propaganda política se camuflou em temas virais que, embora barulhentos, são ocos — duram poucas horas e geram milhões de interações. Não se propõe soluções; apenas se alimenta o ciclo de curtidas, compartilhamentos e ataques.
Um dos pontos mais sensíveis desse processo é a disposição que alguns têm para defender figuras públicas como se fossem relações pessoais. Já tratei disso em outro artigo ao falar sobre “lutar por quem não conhecemos”. São apoiadores que lutam por pessoas que, sem pedir licença, mudam de lado conforme a conveniência política e abandonam seus defensores falando sozinho no campo de batalha. Ainda me surpreendo com esse comportamento embora trabalhe há anos próximo da política.
A lealdade a indivíduos, acima de projetos de país, explica parte da instabilidade do cenário político. Ao fim de cada ciclo eleitoral, o eleitor se vê diante de campanhas que dizem o óbvio e não oferecem uma direção clara para o futuro.
A política baseada em memes e virais é uma estrada que não nos leva a lugar nenhum. Enquanto nos distraímos com o próximo assunto do momento — seja um chinelo ou um detergente — os temas estruturais são esquecidos. Algumas vezes até negociados em acomodações partidárias.
Existem agentes políticos comprometidos em transformar a vida das pessoas. Há gente que vibra e cresce a cada vitória social. O problema é que esse esforço se perde na velocidade de quem desliza o dedo na tela do celular vasculhando o feed alheio.
O debate público precisa impulsionar ideias que aproximem as pessoas de soluções comuns, em busca de um amanhã melhor, e não estimular confrontos permanentes.
Para parcela da população que muitas vezes não tem o que calçar ou água para lavar o sabão das mãos, essas disputas virtuais nos levam ao nada. Apenas aumentam a distância de soluções necessárias para reduzir nossas desigualdades sociais.
Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).
Júlia estava com o olhar perdido sobre a mesa de trabalho. Passou o dia todo assim. Marcelo percebeu e, ao fim do expediente, lhe trouxe uma xícara de chá: “Espero que fique tudo bem”.
Antônio foi enganado e prejudicado por uma pessoa que considerava próxima, a quem admirava, e ainda foi apontado como desonesto. Em nome do respeito a essa pessoa, optou por calar-se — para não causar sofrimento a outros, para não propagar o ciclo de dor.
Ana esteve ao lado do ex-marido no momento do adoecimento dele e fez o melhor que pôde para suavizar a angústia de quem um dia já partilhou tantos momentos bonitos com ela.
Beleza moral.
Existem atitudes humanas que causam encantamento, fascínio, espanto. Há pessoas que caminham pelo mundo com harmonia, encaixando-se onde são necessárias gentileza e atenção, demorando-se onde o cuidado pede tempo e um olhar atento aos detalhes.
Beleza moral arrepia. Ela materializa a honestidade, a coragem, a justiça, a generosidade, a magnanimidade. Conecta-se com algo que temos dentro de nós, uma essência que pulsa e se expande quando presencia atos de bondade e ética.
E por que esses atos têm nos causado espanto e encantamento? Descrevendo assim, parecem tão simples. É que o simples já não vale tanto. A tecnologia, a vitrine nas redes sociais, a fama, o dinheiro, os bens materiais, “a diferenciação” — tudo isso abafa o simples.
A beleza moral parece não encontrar mais terreno onde crescer. Ela acontece, poucos veem. A pessoa desiste ou, quando não desiste (ainda bem!), caminha quase só, com pouca força para gerar grandes movimentos de mudança. A sociedade segue sem ver, sem valorizar.
Repare:: em um tempo em que reclamamos tanto de solidão, grosseria e egoísmo, não cairia bem uma boa dose de beleza moral?
Precisamos caminhar. A vida se constrói no movimento. Agora, a pergunta é: como estamos caminhando? Que rastros cada um de nós deixa para trás ao passar?
E se alternássemos o grupo de corrida, o grupo de futebol ou os encontros com amigos com o Grupo de Caminhada da Beleza Moral?
— Vamos juntos?
Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
O recente avanço, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 2.628/22, apelidado “ECA Digital”, é um marco na discussão sobre a proteção de menores na internet. Não há como negar a nobreza do objetivo: criar um ambiente online seguro para crianças e adolescentes é um imperativo de nossa era digital. No entanto, a boa intenção, sozinha, não é suficiente para fazer uma boa lei. Uma análise técnica do texto revela graves lacunas que, se sancionadas da forma como estão, podem criar mais problemas do que soluções.
O principal vício do projeto reside no excesso de abstrações. A forma como o PL foi construída revela um padrão preocupante: soluções simplistas e pouca atenção às realidades técnicas, operacionais e econômicas. Um exemplo flagrante é a introdução do conceito de “acesso provável” para determinar as obrigações das plataformas. Amplo e vago, este termo pode abarcar praticamente qualquer produto ou serviço digital que, ainda que não destinado a menores, possa eventualmente atrair sua atenção. Isso não cria proteção; cria um risco regulatório considerável, que pode resultar em insegurança jurídica, custos elevados de compliance e, em alguns casos, o afastamento de players internacionais do mercado brasileiro.
Outro ponto crítico é a proibição genérica de técnicas de perfilamento e análise de dados. Ao eliminar a possibilidade de usos positivos, o PL peca por excesso de zelo e compromete a inovação. No afã de proibir riscos potenciais, o legislador pode acabar inviabilizando mecanismos concretos de proteção que dependem justamente da tecnologia para identificar predadores, comportamentos de risco como cyberbullying e até mesmo casos de automutilação.
As exigências para redes sociais, como a vinculação de contas a responsáveis e a verificação de idade por “meios confiáveis”, carecem de parâmetros técnicos claros e de uma análise de proporcionalidade. Sem padrões mínimos definidos em regulamento, o risco é criar um mosaico de soluções improvisadas e potencialmente invasivas. O prazo de um ano para adaptação desconsidera a complexidade operacional de grandes plataformas e o impacto econômico devastador sobre pequenas e médias empresas.
O projeto atual, infelizmente, cai em uma contradição comum: a vontade de proteger grupos vulneráveis se converte em um texto normativo excessivamente rígido, pouco técnico e, no limite, contraproducente. O Congresso, mais uma vez, parece repetir o ciclo de normas bem-intencionadas, mas de difícil aplicação prática. Uma lei não pode ser refém de slogans legislativos; precisa enfrentar a complexidade do tema com rigor técnico e visão de futuro. Antes de virar lei, o ECA Digital precisa de amadurecimento, sob o risco de falhar em sua missão mais essencial que é proteger de verdade crianças e adolescentes.
Beatriz Haikal é sócia da área de Proteção de Dados & Inteligência Artificial do BBL Advogados.
A comida parece gostosa, mas não é. A bolsa parece da marca X, mas não é. O casamento parece muito feliz, mas não é.
Parecer é o verbo do momento. Parecer é a moeda de troca do mundo contemporâneo.
Parecer bem sucedido, bonito, bom, legal, interessante… já basta. Aliás, é o que importa.
Se é real mesmo, se é verdadeiro mesmo… que diferença faz? Se parece, é. Aos olhos do julgamento atual, a imagem que você passa e a narrativa que você transmite serão seu valor na sociedade.
“Olha, ela parece tão feliz!”; “Olha, ele mostrando o sucesso dele!”. Pronto, o rótulo já existe, o posto foi conquistado.
Castelo de cartas. Um sopro e tudo cai. Difícil viver criando e sustentando uma vida que não existe no mundo real. Preocupação com cada foto, roupa, imagem, atitude… Hipervigilância, tensão constante, necessidade de se provar e se reafirmar.
Receber elogios é mesmo muito prazeroso. A reflexão aqui é: qual o preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos, aplaudidos, “valorizados”?
Aguentamos viver uma vida falsa, trabalhosa de ser construída e mantida? Aguentamos viver em constante ansiedade e apreensão?
O vazio de parecer sem ser… Nem todos os elogios do universo preenchem.
Não ser verdadeiro consigo mesmo e sustentar máscaras custa caro, muito caro. Vamos nos deixar sequestrar ou vamos nos resgatar desse caos?
Parece inimaginável, mas não é. Basta ter coragem de ser. Sem vazios, cheio de si mesmo.
A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.