50 debates para o Brasil: “penduricalhos” dividem opiniões sobre o teto do serviço público

Uma parcela do funcionalismo recebe valores acima do teto constitucional por meio de verbas indenizatórias, pagamentos que não entram no cálculo do limite salarial. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Rafael Viegas, doutor em Administração Pública e Governo, professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas e integrante do Movimento Pessoas à Frente, e Francelino Valença, auditor fiscal e presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital, a Fenafisco.

O teto do serviço público corresponde à remuneração de um ministro do Supremo Tribunal Federal, atualmente pouco superior a R$ 46 mil. Pela Constituição, nenhum servidor deveria receber acima desse valor. A regra, no entanto, admite o pagamento de indenizações destinadas a ressarcir despesas relacionadas ao exercício da função, como transporte, mudança de cidade e viagens a trabalho.

A controvérsia começa quando parcelas pagas de forma recorrente e sem relação direta com uma despesa passam a ser classificadas como indenização. Esses valores ficam fora do teto e, em determinadas situações, também não sofrem a cobrança de Imposto de Renda.

Uma minoria concentra os supersalários

Rafael Viegas ressaltou que o problema não alcança a maioria dos servidores. Segundo ele, os pagamentos acima do teto estão concentrados principalmente nas carreiras jurídicas, entre magistrados, integrantes do Ministério Público e alguns setores da advocacia e da defensoria públicas.

“Quando a gente está discutindo supersalários, quando a gente está discutindo privilégios no serviço público, a gente está falando de um segmento muito restrito”, afirmou. De acordo com Viegas, aproximadamente 1% dos servidores recebe supersalários, enquanto metade do funcionalismo ganha entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil.

Para o professor, indenizações legítimas devem ser preservadas. O problema está na transformação de parcelas remuneratórias em indenizatórias para ultrapassar o limite constitucional. “A gente precisa tratar verbas indenizatórias como verbas indenizatórias. Elas não podem ser tratadas constantemente como a parte que agrega a remuneração”, disse.

Viegas também alertou para o risco de outras categorias reivindicarem os mesmos mecanismos. “A gente vai estar fazendo aqui uma redistribuição de privilégios e não contendo esses privilégios”, afirmou. Na avaliação dele, a solução passa por fazer cumprir o teto e discutir reajustes salariais de forma transparente.

Defasagem do teto entra no debate

Francelino Valença apresentou outra leitura. Para ele, parte das verbas indenizatórias surgiu como resposta à perda do valor real do teto constitucional. Segundo levantamento citado pelo presidente da Fenafisco, o limite era de aproximadamente R$ 24,5 mil em 2005. Se tivesse sido corrigido integralmente pelo IPCA, índice que mede a inflação, estaria hoje em torno de R$ 71,3 mil.

“O valor do teto constitucional de 2005 hoje é praticamente a metade, um pouco menos, do que deveria ser com esse reajuste natural da inflação”, afirmou. Na visão de Valença, a falta de correção adequada estimulou a criação de mecanismos compensatórios.

Ele reconheceu que existem pagamentos acima do que seria razoável, mas argumentou que as indenizações não se restringem às carreiras mais bem remuneradas. Profissionais da saúde e da segurança pública também recebem parcelas dessa natureza, mesmo sem se aproximarem do teto.

Valença defendeu uma revisão transparente do sistema. “Ao optar por verbas indenizatórias, termina-se não recolhendo os impostos devidos, e isso tem impacto também nas finanças públicas”, disse. Para ele, o enfrentamento dos abusos deve vir acompanhado de uma discussão sobre a atualização do teto e a remuneração das diferentes categorias.

O debate revelou um ponto comum: pagamentos destinados a contornar as regras reduzem a transparência e enfraquecem o teto constitucional. A divergência está no caminho para corrigir o problema. De um lado, a defesa de restringir as indenizações e impedir a disseminação de privilégios. De outro, a proposta de rever também a defasagem salarial que teria contribuído para a criação dessas parcelas.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: o cabelo cortado por ordem do senhor Natal

Rubens Batista Rodrigues

Ouvinte da CBN

Foto: Jean depocas on Pexels.com

A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.

Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.

Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.

Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.

A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.

Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.

Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:

— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.

No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.

Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.

Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.

No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.

A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.

Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.

Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.

E teve uma despedida que ficou na memória.

Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.

Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.

Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.

Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.

A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Batista Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Ser gay aos 40: o preço da nossa longevidade

Por Diego Felix Miguel

Foto de Download a pic Donate a buck! ^ no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos tempos, tenho revisitado as reflexões que compartilhei por aqui. Nesta semana, deparei-me com um texto que publiquei às vésperas de completar 40 anos: “É preciso rever nossos acordos com o tempo”. Dois anos depois, novamente às vésperas de celebrar mais um aniversário, parei para refletir sobre o quanto mudei depois dos 40.

Como especialista em envelhecimento, sempre desconfiei dos clichês que afirmam que, após os 40, ganhamos automaticamente mais assertividade e passamos a saber exatamente o que queremos e, sobretudo, o que não queremos para nossas vidas. Como disse Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra; logo, o pensamento crítico é nossa oportunidade de evitar generalizações que nos distanciam da realidade.

Nem todas as pessoas “quarentonas” têm as oportunidades que tive. Sou um homem branco, cisgênero (identifico-me com o gênero que me foi atribuído ao nascer) e, embora não seja herdeiro — a não ser de boletos e de muita criatividade para pagá-los —, pertenço a um grupo elitizado pelo acesso ao capital intelectual.

Reconheço que, apesar de todos os atravessamentos da homofobia, ainda ocupo um lugar confortável em razão dos privilégios que carrego desde o nascimento. Para outros grupos minorizados, como pessoas negras, pessoas com deficiência e pessoas trans — e aqui podemos pensar também na interseccionalidade entre esses aspectos —, a experiência de envelhecer em uma sociedade estruturalmente preconceituosa pode ser infinitamente mais violenta, traumática e excludente.

Contudo, ser homossexual aos 40 e, especificamente, ser um homem gay coloca-me em um lugar desconfortável diante de determinados estereótipos.

O primeiro deles, que percebi desde cedo, foi a autocobrança imposta pela expectativa social de “dar certo na vida”, um imperativo que questiono profundamente. Ser gay e carregar desde a juventude a pressão para “ser alguém”, sob a ótica de um viés capitalista tacanho, exige um bom salário e um apartamento próprio para garantir um suposto status quando a juventude e o corpo já não são atributos negociáveis nas relações superficiais impulsionadas pela homofobia.

Essa visão materialista e reducionista deposita, mais uma vez, nas costas das pessoas homossexuais a responsabilidade pelo preconceito que sofrem. Nem todas as pessoas dissidentes da norma conseguem cruzar o abismo que nos é imposto desde cedo. Reconheço que minhas conquistas até aqui tiveram um custo altíssimo, apesar de meus privilégios, sobretudo para a minha saúde mental.

Não é fácil manter-se vivo em uma cultura que tenta deslegitimar sua existência e ter de provar constantemente, para si e para os outros, que se é capaz.

O segundo ponto é o corpo. É quase impossível navegar pelas redes sociais e sair ileso, sem se sentir mal por ter um corpo que muda, engorda e envelhece. Parece que o algoritmo reproduz de forma obstinada o que já está enraizado na cultura: a ideia de que precisamos ser mais, dedicar-nos mais e nos tornar um padrão a ser seguido como resultado de um “envelhecimento bem-sucedido”.

A frustração que surge diante de uma suposta “falta de força de vontade” nada mais é do que o próprio cansaço de ter de lutar duas ou três vezes mais para ser minimamente aceito, visto e desejado e, mesmo assim, não alcançar o corpo socialmente idealizado.

Até as relações afetivas mudam nessa fase. Descobrimos que queremos mais do que os modelos superficiais que herdamos da cisheteronormatividade. Precisamos revisitar nossos prazeres, desejos e as ambições de uma vida a dois voltada para o longo prazo, apesar das dores e dos traumas causados pela homofobia. Afinal, queremos viver a velhice, mesmo sendo ela um lugar incerto, já que não temos garantias de proteção contra a homofobia institucional e social.

Recentemente, conversando com amigos que também estão na casa dos 40, notei um fenômeno curioso: a própria comunidade muitas vezes nos enxerga sob o estigma do “sugar daddy”. Para mostrar socialmente que estamos “bem na fita”, espera-se que exibamos um parceiro mais jovem, mas a um preço alto: o da suposição de uma troca puramente mercantil entre aparência e conforto financeiro.

É, minhas amigas e meus amigos, o idadismo consegue ser ainda mais perverso para os grupos minorizados. Não se trata de mensurar quem sofre mais, pois a dor e a exclusão são perversas de qualquer modo. É fato, porém, que certos grupos atravessam essas etapas sob a invisibilidade e o silenciamento impostos pelo sistema, pela ciência, pelo ativismo e pelas políticas públicas.

Não encerro esta conversa dizendo que envelhecer é ruim. Pelo contrário: chegar até aqui é uma conquista, uma grande conquista, e sinto-me profundamente motivado a continuar.

A questão central é: quando, de fato, vamos confrontar essas estruturas e entender que a velhice é plural — assim como são diversas as faces do preconceito e da discriminação —, exercendo uma escuta ativa e assumindo uma postura de aliados para torná-la digna para todas as pessoas?

Diego Felix Miguel é doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O sentir e o sentido

Por Beatriz Breves

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De onde viemos? Para onde vamos? Existe vida além da morte? A morte é o fim? O universo possui um propósito? Existe um sentido para a existência?

Essas perguntas acompanham a humanidade desde seus primórdios. Filósofos, cientistas, religiosos, poetas e pessoas comuns, em diferentes épocas e culturas, buscaram respostas para os grandes mistérios da vida. Talvez porque, em algum momento, todos nós nos deparamos com a mesma inquietação: qual é o sentido de existir?

A busca por respostas costuma acontecer por meio do pensamento. Refletimos, formulamos teorias, construímos explicações e criamos narrativas capazes de dar significado à experiência humana. Entretanto, por mais importantes que sejam, as respostas intelectuais parecem nunca encerrar completamente a questão.

Talvez isso aconteça porque o sentido da vida não seja somente algo a ser pensado, mas, quem sabe, também algo a ser vivido.

Existe uma dimensão da existência que antecede as palavras, os conceitos e as explicações. É a dimensão do sentir.

O sentir atravessa os tempos, as culturas, as crenças e as diferenças entre os povos. Sabemos reconhecer o amor, a tristeza, a alegria, o medo, a esperança ou a saudade em relatos escritos há séculos, mesmo quando pertencem a sociedades muito diferentes da nossa. Os conceitos mudam. As teorias mudam. As formas de interpretar o mundo mudam. Mas o sentir permanece como uma das experiências mais universais da condição humana.

Se nos sentimos em paz, o mundo parece mais acolhedor. Se estamos tomados pela angústia, tudo ao redor pode parecer ameaçador. Quando amamos, a vida ganha cores diferentes. Quando sofremos uma perda, o próprio tempo parece modificar seu ritmo.

Isso acontece porque não vivemos somente em um mundo de fatos. Vivemos em um mundo de experiências.

É o amor que sentimos por alguém, a ternura por um animal, a amizade compartilhada, a alegria de um encontro, a dor de uma despedida ou a esperança diante do futuro que vão tecendo o sentido singular de cada existência.

Por isso, talvez não exista um único sentido da vida válido para todos. Existem sentidos que emergem da forma como cada pessoa vive, sente e se relaciona com o mundo.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, o sentido não é algo que encontramos pronto, escondido em algum lugar do universo. Ele nasce da própria experiência de existir, da condição de estar vivo. Surge dos vínculos que construímos, das escolhas que fazemos, dos desafios que enfrentamos e da maneira como somos afetados pela vida.

Os sentimentos funcionam como uma espécie de bússola existencial. Eles não apenas revelam o que é importante para nós; também orientam nossa relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Talvez o sentido da vida não seja uma resposta definitiva para uma pergunta eterna, mas o próprio movimento de sentir, viver, transformar-se — enfim, de estar vivo.

E talvez seja justamente por meio do sentir que cada um de nós possa experimentar algo maior: a percepção de que não estamos separados da vida, mas somos uma de suas expressões singulares, uma forma única pela qual o universo se torna experiência de si mesmo.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de perda

Por Beatriz Breves

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O sentimento de perda pode ser compreendido por muitos ângulos, pois se estende por um amplo espectro de experiências humanas. Entretanto, quando descemos às suas profundezas, encontramos uma dor muito particular: a perda nos lembra, de forma quase brutal, que não somos donos de nada. Ela escancara nossa condição transitória na vida. Hoje acreditamos possuir algo — uma pessoa, um trabalho, um sonho, uma posição social ou até mesmo uma rotina — e, por vezes, muito rapidamente, tudo isso se desfaz.

Existem muitos tipos de perda. A mais evidente é a perda de alguém querido. Mas também podemos perder um emprego, um relacionamento, a dignidade, um projeto de vida, uma condição física ou o afeto de alguém que deixa de nos amar. Cada uma dessas situações costuma despertar outros sentimentos: tristeza, desespero, carência, solidão, insegurança ou luto. O sentimento de perda nunca vem sozinho. Ele agrega um conjunto de sentimentos que pode conduzir tanto ao crescimento pessoal quanto ao sofrimento profundo, dependendo da forma como a pessoa consegue elaborá-lo.

Contudo, é importante diferenciar o fato da perda do sentimento de perda. Nem toda perda produz sofrimento. O que realmente importa não é aquilo que foi perdido em si, mas o valor que a pessoa atribuía ao que perdeu. Muitas vezes, acredita-se que a questão central está no acontecimento objetivo. Não está. O elemento decisivo é o investimento afetivo realizado naquilo que se perdeu.

Um exemplo simples ajuda a compreender essa diferença. Uma pessoa obesa, ao perder peso, dificilmente experimentará tristeza por essa perda. Ao contrário, poderá sentir alegria, esperança, satisfação ou alívio. Nesse caso, houve uma perda concreta, mas não um sentimento de perda. Isso mostra que o sofrimento não decorre automaticamente do desaparecimento de algo, mas do significado que esse algo possuía para quem o perdeu.

Essa distinção revela um aspecto fundamental no campo dos sentimentos: acontecimentos não são sentimentos. Perder é um fato; sentir a perda é uma experiência subjetiva. Muitas vezes, as pessoas confundem o acontecimento com o sentimento correspondente, como se um determinasse, necessariamente, o outro. Não determina. O que produz o sentimento não é o fato em si, mas o significado que lhe é atribuído. É por isso que uma mesma situação pode gerar tristeza em uma pessoa, alívio em outra e até alegria em uma terceira. O acontecimento pertence à realidade objetiva; o sentimento pertence à forma como cada pessoa experiencia essa realidade.

Há também perdas que surpreendem. Uma pessoa pode ganhar na loteria e, algum tempo depois, sentir saudade da vida que levava antes. Pode mudar de carreira em busca de realização pessoal e, mais tarde, perceber que sente falta da antiga rotina, dos colegas ou da identidade construída ao longo dos anos. Em certas situações, aquilo que parecia representar um ganho traz consigo a sensação de que uma parte de si ficou para trás.

Entre todas as formas de perda, uma das mais dolorosas talvez seja a perda do tempo. O sofrimento surge quando a pessoa olha para trás e percebe que não realizou aquilo que desejava ou acreditava poder realizar, sentindo que as oportunidades passaram e não retornarão. Trata-se de uma dor profunda, difícil de elaborar, porque está associada à própria percepção da finitude da existência.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como lidar com a perda?

A resposta, embora pareça simples, é uma das tarefas mais difíceis de realizar: aceitar. Aceitar que nada nos pertence definitivamente, que tudo é transitório, que a vida é constituída por um movimento contínuo de encontros e despedidas, de conquistas e renúncias, de ganhos e perdas.

Esse processo de aceitação exige recursos internos importantes. Fé, esperança, confiança, paciência e capacidade de suportar a dor fazem parte do caminho. Não existe uma fórmula universal. Cada pessoa encontrará sua própria maneira de atravessar aquilo que perdeu e de reconstruir sua relação com a vida.

Mas a perda também pode se tornar um ponto de transformação. Quando a pessoa possui recursos internos para enfrentar o sofrimento, ela não fica aprisionada na revolta, na vingança ou no vazio da desesperança. Aos poucos, consegue transformar a experiência em aprendizado. Aquilo que inicialmente parecia apenas destruição pode revelar-se uma oportunidade de crescimento, amadurecimento e renovação.

Talvez seja por isso que a vida esteja continuamente nos ensinando que perder e ganhar são movimentos inseparáveis. O tempo todo, algo se encerra enquanto algo novo começa. O tempo todo, deixamos partes de nós para trás e construímos novas formas de ser e existir.

No fim das contas, é a aceitação que nos permite seguir adiante. A vida é feita desse movimento permanente entre perdas e conquistas. E é justamente nesse movimento que aprendemos, pouco a pouco, a viver.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O nada onde tudo pode acontecer

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

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Terra arrasada. Vazio. Falta.

Quando erguemos o olhar e vemos um terreno em que nada há: não há o namoro; não há mais o emprego; o dinheiro acabou; o casamento desmoronou … a autoestima inexiste.

Há momentos na vida que parecem filme de guerra: tragédia atrás de tragédia, recursos esgotados, tristeza profunda. Tudo cinza(s).

Há momentos em que parece não haver vida. Como pode dar tanta coisa errada? O que fazer com esse desespero e essa desesperança?

Onde nada há, pode existir tudo.

Quando não temos mais o que perder, podemos olhar para dentro de nós e fazer a pergunta: como seguir daqui pra frente?

Reflexões que nos ajudam: quem são as pessoas que ainda estão do meu lado (são aquelas que eu imaginava que permaneceriam)? O que antes eu odiava e que não quero voltar a suportar? Como posso construir uma rotina que não seja um inferno ou uma prisão sufocante?

Claro, nem sempre cabe tudo o que desejamos, queremos. Mas sempre cabe algo de bom, melhor que antes. Um hábito novo que fazemos só porque é gostoso, ainda que “não sirva pra nada”; um descanso em um momento do dia que “deixar tudo arrumado” era obrigação; o distanciamento de alguém que nos fazia tanto mal.

Está aí: o nada traz a permissão de refazer, reescolher, redecidir.

O que você quer de novo para sua vida? O que você pode incluir no seu dia a dia que te fará mais leve, mais alegre, com mais energia para sentir, pensar e agir?

Então — nessa sua terra arrasada — que castelo você construirá? Que história você contará e viverá?

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O Cerimonial da Gentileza

Por Christian Müller Jung

Foto: Mauricio Tonetto / SecomRS

Não planejei a profissão que tenho hoje. Cheguei a ela pelos caminhos que a insatisfação abre quando percebemos que algo já não nos serve. Aproveitei o patrimônio biológico que carregava desde sempre: a voz. Fiz o curso de Locução, Apresentação e Animação, acrescentando uma nova formação ao diploma de Publicidade e Propaganda pela PUC-RS.

Enquanto procurava um espaço para exercitar essa nova habilidade,  surgiu a oportunidade de atuar como Mestre de Cerimônias do Governo do Rio Grande do Sul. Ali, entendi que a voz e o cerimonial tinham mais conexão com gentileza do que eu imaginava.

Chego, assim, ao tema central deste texto.

Fui instigado a falar sobre ele em um programa de televisão, no Dia Mundial da Gentileza. Recordei imediatamente a rotina do cerimonial, esse conjunto de formalidades que orienta os atos solenes e exige, antes de qualquer protocolo, lidar com seres humanos: autoridades, convidados, pessoas que entram no Palácio Piratini por razões muito distintas.

Lembro do meu amigo e ex-chefe do Cerimonail, Aristides Germani Filho, apresentando as primeiras instruções aos estagiários: “Aqui todo mundo é Senhor e Senhora.”

Era um resumo elegante do ofício de receber: tratar com atenção, preservar a delicadeza, reconhecer o espaço do outro. Em poucas palavras, ser gentil.

Com o tempo, percebi que gentileza funciona como um distintivo social. Ela aproxima da comunicação não violenta, afasta a arrogância e abre espaço para relações mais transparentes. Falar sobre o tema me fez revisitar atitudes que venho praticando nesses anos de trabalho no Palácio do Piratini: acolher quem chega, perceber angústias escondidas nos gestos, manter a relação institucional do Governo firme e respeitosa.

Falar em público também tem sua dose de gentileza. A forma como colocamos a voz revela estados de espírito. Uma articulação clara acolhe; um tom cansado distancia; a irritação fere. A voz, quando bem usada, é uma ponte — e pode ser uma ponte suave.

Gentileza com quem está acima de nós é bom senso. Com quem trabalha ao nosso lado, é cuidado para evitar ressentimentos que se acumulam em silêncio e viram sabotagens involuntárias. Na vida profissional, ela funciona como instrumento discreto e decisivo.

E há um ponto essencial: escutar. Em uma época em que todos falam com absoluta convicção, a escuta virou raridade. Quem escuta exerce gentileza, mesmo quando discorda. A escuta é o gesto mais simples e, ao mesmo tempo, o mais exigente.

Antes de tudo, precisamos ser gentis conosco. Conhecer limites, saber dizer não, recusar a ideia de que ser gentil é agradar a qualquer custo. Gentileza não é submissão. Também não é manipulação. É autoconhecimento e respeito ao espaço do outro.

Ao longo da vida, encontramos pessoas que já nos conhecem e reconhecem nossas intenções. Mas grande parte dos encontros acontece com quem nada sabe sobre nós. E é nesses encontros que a gentileza se torna cartão de visita.

Alguns estudos mostram que pessoas que cultivam a gentileza relatam níveis menores de estresse e até pressão arterial mais baixa. Há pesquisas que relacionam essa prática à ocitocina: o hormônio produzido no hipotálamo, associado ao vínculo e à empatia. É a lógica da velha metáfora:

“Quando acendo a minha vela apagada na tua vela acesa, ninguém perde; todos ganham luz.”

Gentileza é exercício diário, daqueles que amadurecem com o tempo. E, justamente por ser prática contínua, encontra pela frente muita dureza, quase sempre fruto de ignorância, que não escolhe classe social, nível de escolaridade ou aparência.

Platão escreveu que precisamos de graça e gentileza por toda a vida. Concordo.

E se você chegou até aqui, agradeço pela gentileza da leitura!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

Avalanche Tricolor: esperança driblada no final

Grêmio 1×1 RB Bragantino
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Cristian Oliveira foi um dos destaques. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há um cansaço emocional em torcer por lampejos de melhora quando a realidade insiste em repetir os mesmos erros. Passamos a temporada em busca de sinais de recuperação: um empate nos minutos finais, uma classificação nos pênaltis, a simples melhora técnica de um jogador ou o surgimento promissor de alguém da base. Mas, a cada novo alento, a realidade se impõe — e fala mais alto.

Neste início de noite de sábado, a esperança se renovou especialmente no segundo tempo, quando Mano Menezes corrigiu o time com dois pontas de qualidade e um meio-campo mais criativo. A defesa já dava sinais de estabilidade desde o início da partida, apesar de alguns sustos pontuais. O problema estava do meio para frente: faltava agressividade e criação.

Com Monsanto no lugar de Nathan – o que ele estava fazendo em campo? – e Amuzu aberto pela ponta, o Grêmio passou a produzir mais. Cristian Oliveira, que havia sido destaque na etapa inicial pelo lado esquerdo, trocou de lado e manteve o ímpeto — até onde o físico permitiu. Arezo entrou e tornou o ataque mais contundente. As chances apareceram, e o torcedor, enfim, teve a sensação de que o time se encontrava.

O gol de Amuzu, aos 42 minutos da etapa final, parecia confirmar esse pressentimento. Não foi obra do acaso. A jogada começou no campo defensivo, com Arezo, passou por Braithwaite — que fez um lançamento longo e preciso — e chegou aos pés do atacante belga. Amuzu driblou seus marcadores e, de fora da área, finalizou com categoria, sem chances para o goleiro.

A vitória estava ao alcance, pronta para mudar o rumo da temporada. Ledo engano. Menos de dois minutos depois, uma rara desatenção defensiva, na partida de hoje, nos custou o empate. A frustração retornou com força, diluindo o otimismo que mal havia se formado.

Há pontos positivos? Sim. A defesa, mesmo com mais um gol sofrido — o 12º no Brasileiro —, demonstrou evolução tática. Jemerson, frequentemente alvo da torcida, jogou com mais segurança. Os dois laterais, Igor Serrote e Marlon, seguem como os mais confiáveis do elenco. Monsanto, saindo do banco, teve sua melhor atuação recente. No ataque, Cristian Oliveira e Amuzu foram os nomes mais perigosos, criando oportunidades com dribles e velocidade.

A esperança agora — e eu rejeito a falência da esperança — é que o time, sob o comando de Mano Menezes e observado por Luiz Felipe Scolari, continue evoluindo. Que essa evolução, finalmente, se transforme em vitórias. Porque só elas, no fim das contas, sustentam qualquer projeto.

Amor e fé caminham juntos?


Diego Felix Miguel

Foto de Hakan Erenler

Hoje à tarde, enquanto caminhava de volta para casa após o trabalho, decidi, diferentemente dos dias comuns, deixar os fones de ouvido guardados. Também deixei de lado os pensamentos voltados ao planejamento das próximas atividades. Quis, naquele momento, apenas me conectar com o que havia ao meu redor — com as pessoas, os movimentos, os pequenos detalhes do trajeto.

Foi assim que notei duas senhoras idosas caminhando à minha frente. Uma delas carregava uma sacola florida e colorida, que parecia guardar um guarda-chuva e uma blusa de frio. A outra usava uma bengala e exibia um sorriso acolhedor, desses que se oferecem sem pressa a quem cruza seu olhar. Conversavam sobre a Semana Santa e faziam planos para participar dos ritos da igreja que frequentavam.

Ao ouvir essa conversa, fui transportado de imediato à minha adolescência. Lembrei de como essa época do ano me era especialmente difícil. As atividades religiosas eram impostas por minha família, sem qualquer possibilidade de escolha ou negociação. Recusá-las era um desafio à fé — para mim, motivo de angústia. Não havia espaço para questionamentos, tampouco para que eu expressasse o que não sentia ou não acreditava. A ameaça implícita era sempre a de uma retaliação divina.

De volta ao presente e ainda tocado por essa lembrança um tanto dolorosa, recordei que, por coincidência — ou talvez por força desse tempo simbólico da Semana Santa — um amigo médico havia me perguntado, dias antes, se eu era adepto da religiosidade, da espiritualidade ou de ambas. A pergunta, feita de forma casual, mexeu comigo. Percebi que aquele acaso precisava ser mais bem elaborado internamente.

É importante lembrar que há muitas pesquisas que apontam a relevância tanto da religiosidade quanto da espiritualidade ao longo da vida, especialmente na velhice. Elas aparecem como fontes de conforto e resiliência diante dos desafios existenciais — como a doença, a finitude e o luto.

Mas é essencial distinguir os dois conceitos. A religiosidade diz respeito à vivência institucional da fé: práticas, rituais, doutrinas. Já a espiritualidade refere-se à conexão com algo maior — com a essência, a transcendência, o divino — e pode surgir a partir de experiências subjetivas, da natureza, da arte, dos afetos. Ambas podem coexistir, mas também podem ser vividas de maneira independente.

Chegando em casa, preparei-me para um cochilo, como de costume. No entanto, antes que o sono viesse, comecei a reorganizar em pensamento essas ideias que agora compartilho neste texto.

Falo, aqui, a partir da minha experiência, sem qualquer pretensão de generalizar: a igreja sempre foi, para mim, um “não-lugar”. Um espaço de não pertencimento. Sempre me pareceu distante — e, em muitos momentos, hostil — às realidades dissidentes, como a minha, de um homem gay.

Ao longo do meu processo de envelhecimento, essa sensação não desapareceu. A maioria dos espaços religiosos ainda me parece insegura. Sinto que, a qualquer momento, posso ser “carinhosamente discriminado” com frases como: “Deus abomina o pecado, mas ama o pecador”. Uma tentativa de acolhimento que, na prática, anula aspectos fundamentais da minha existência — como a sexualidade — e estabelece uma hierarquia moral de afetos e de valor humano. Isso está muito distante do amor que tantas religiões afirmam disseminar.

Acredito que muitas pessoas também se identificam com esse “não-lugar”. E não apenas por conta da sexualidade, mas por diversos aspectos sociais que atravessam nossas vidas: classe, cor, etnia, gênero, origem. Sei, também, que há quem busque enxergar e opinar apenas a partir de suas experiências individuais — e, assim, negar realidades que certos grupos vivem cotidianamente. Ainda assim, é importante nomear o que sentimos. É preciso trazer visibilidade para essas vivências.

A provocação está justamente aí: será que o amor e a fé caminham sempre juntos? Será que há um amor capaz de ultrapassar barreiras culturais e sociais, e envolver indistintamente todas as pessoas em afetos sinceros, livres de julgamentos e condições?

Talvez por isso a espiritualidade me pareça tão essencial. Ela nos permite construir, a partir de nossas vivências e subjetividades, um espaço íntimo e seguro de conexão com o universo. Um lugar onde somos aceitos integralmente, onde podemos ser quem somos, com verdade e liberdade — muito além de cultos, normas ou lideranças religiosas.

Na velhice, essa dimensão torna-se ainda mais significativa. Independentemente de se viver a religiosidade, a espiritualidade ou ambas, o mais importante é sentir-se confortável e seguro nesse encontro com o divino — um encontro único, íntimo e profundo. Um espaço onde todas as pessoas sejam acolhidas em sua plenitude. Porque só assim o amor e a fé poderão, enfim, caminhar juntos.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Como começar o ano novo: reflexões com Rossandro Klinjey

Hoje, 1º de janeiro, inauguramos um novo ciclo no calendário e, com ele, a oportunidade de refletir sobre o que esse marco realmente significa para cada um de nós. Aproveitando a chegada recente ao Jornal da CBN de Rossandro Klinjey, psicólogo e agora parceiro no quadro Refletir para Viver, o convidei para uma conversa mais profunda sobre como iniciar o ano com leveza e acolhimento, além da necessidade de termos um olhar mais atento para dentro de si. Como era de se esperar, Rossandro nos permitiu uma entrevista de altíssima qualidade e rica em ensinamentos.

Ao abrir o diálogo, perguntei a Rossandro sobre o que representa o começo de um novo ano. Ele destacou que, embora o “arquétipo do novo ciclo” seja poderoso, nem sempre nossas emoções acompanham a virada do calendário. Muitas vezes, carregamos pendências emocionais e práticas de anos anteriores, o que pode gerar uma sensação equivocada de incompetência.

“A concretização de certas metas exige tempo”, explicou ele, “assim como um projeto de vida, como se tornar jornalista ou psicólogo, é fruto de anos de dedicação. Plantamos em alguns anos para colher em outros.” Essa reflexão nos desafia a adotar uma postura mais acolhedora consigo mesmos, reconhecendo o valor das pequenas conquistas e não permitindo que metas não cumpridas minem nossa autoestima.

A pressão social e a busca por autenticidade

Lembrei durante a entrevista sobre a pressão social que nos impulsiona a entrar no ano com todas as metas definidas e resolvidas. Em um mundo saturado por “receitas prontas” — como as que vemos nas redes sociais —, Rossandro nos convidou a pausar e ouvir mais o nosso interior.

“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro, acorda”, citou ele, parafraseando Carl Gustav Jung. Ao priorizarmos o que é relevante para nós, em vez de seguir a onda do que é “moda”, conseguimos criar metas mais autênticas e alcançáveis.

Embora o foco em si mesmo seja essencial, Rossandro destacou o papel vital das relações humanas no recomeço de um ano. Somos seres gregários, disse ele, e a conexão com os outros nos ajuda a construir uma vida mais equilibrada. No entanto, é crucial saber com quem nos conectamos. Ele sugeriu que, assim como deixávamos os sapatos na porta durante a pandemia, talvez seja hora de “deixar para fora” de casa relações tóxicas ou ideias que não fazem mais sentido.

“Reaproximar-se de pessoas que nos fazem bem é essencial”, afirmou ele. Seja nutrindo amizades antigas ou estabelecendo limites claros em relações desgastantes, cultivar boas conexões é um passo fundamental para o bem-estar mental.

A importância do autocuidado e da paz interior

“A paz do mundo começa em mim”, disse Rossandro, ecoando a letra de uma música de Nando Cordel. Ele nos lembrou que, em um cenário turbulento, onde temos pouco controle sobre as transformações externas, cuidar da nossa saúde mental e emocional é uma prioridade. Ao investir em nosso mundo interno, criamos uma base mais sólida para enfrentar os desafios inevitáveis que o ano trará.

Encerramos a conversa com um olhar otimista, e realista. Rossandro destacou que o desejo de um “Feliz Ano Novo” não significa a ausência de dificuldades, mas sim a capacidade de enfrentá-las com coragem e resiliência.

Que possamos, como ele disse, usar este começo de ano para refletir sobre nossas próprias metas, fortalecer nossas relações e acolher nossas emoções. Assim, estaremos mais preparados para aproveitar o que 2025 nos reserva — com serenidade, coragem e, acima de tudo, autenticidade.

Ouça a entrevista com Rossandro Klinjey