Se o esporte é o espetáculo, não pode ser submetido ao espetáculo

 

 

 
Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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reprodução de imagem do SporTV

 

 

Na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Júnior, segunda-feira, em Barueri – região metropolitana, o futebol foi ignorado pelo árbitro Thiago Luis Scarati, ao dar inicio do segundo tempo da partida entre São Paulo e Internacional, num campo cujo piso estava totalmente alagado e recebendo enorme quantidade de raios nas proximidades.

 

 

A assustadora imagem de uma imensa poça de água protagonizada por um festival de raios e trovões não foi suficiente para Scarati absorver um mínimo de equilíbrio mental e paralisar a partida, que jamais deveria ter sido reiniciada.

 

 

Só mesmo a força da natureza, embalada em um raio que caiu nas proximidades dos jogadores, fazendo com que vários atletas sentissem nos pés a alteração gerada e um repórter da Globo tivesse seu corpo absorvido parte da descarga, fez com que Thiago Luis paralisasse o jogo.

 

 

O futebol e os demais esportes que se profissionalizaram têm se curvado ao capital que os mantém. Entretanto, é hora de proteger os atletas, também valiosos e valorizados pelo mesmo capital.

 

 

A melhor forma deverá ser a criação de normas de condições mínimas para a prática de cada modalidade. E, neste caso, o futebol está atrás de vários outros esportes que já possuem limites. É evidente que deixar a critério de uma única pessoa, que no caso do futebol nem é profissionalizada, não funciona e estaremos correndo riscos como o de Barueri.

 

 

A grande desvantagem do futebol no contexto geral dos esportes é que os jogadores são a parte de menor poder em todo o sistema. Os atletas por várias vezes tentaram um espaço mais participativo, mas pelas ameaças de clubes e federações nunca lograram sucesso.

 

 

Os recentes astros aposentados poderiam abraçar esta missão, principalmente os que tiveram maior notabilidade na carreira e aptidão de comunicação.

 

 

De pé de obra à mão de obra com microfone na mão.

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Sem recurso eletrônico, torcedor vira idiota

 

Direto da Cidade do Cabo

 

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O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da Fifa, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir à Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.

 

Um jogo desta importância não pode ser decidido por um homem só como ocorre, atualmente, mesmo que ajudado por dois auxiliares. Ou atrapalhado por eles, como ocorreu, nesta sétima rodada de partidas da Copa da África do Sul, com o árbitro maliano Koman Coulibaly, que anulou gol legítimo dos Estados Unidos contra a Eslovênia. A bola cruzada por Donovan partiu do lado direito e passou sobre parte da defesa eslovena para ser jogada às redes por Maurice Edu.

 

Os americanos que se consagrariam com uma vitória histórica, pois teriam virado o jogo depois de estarem perdendo por 2 a 0, reclamaram no ato, mesmo sabendo da incapacidade deles mudarem a decisão. A torcida chiou nas arquibancadas e deve ter se voltado para os dois telões que reproduzem imagens da partida no estádio, mas não tiveram o direito de rever o lance, pois estas são “censuradas” pela Fifa e pelas regras do futebol. A questão é que apenas eles, diretamente envolvidos no jogo, tiveram este direito cassado.

 

A imensa audiência das emissoras de televisão viu e reviu a jogada de longe e de perto, por trás e pela frente, a partir de câmeras com capacidade de gerar slow motion de alta definição. Recursos com área sombreada, linhas imaginárias e imagem digitalizada deram suporte a opinião dos comentaristas. E foram unânimes em apontar o erro fatal.

 

A Fifa que faz acordos milionários com empresas de desenvolvimento tecnológico – a cada Copa temos uma explosão de vendas de aparelhos de televisão mais modernos, por exemplo – é a mesma que se nega a permitir o uso desses recursos no futebol sob a alegação de manter a igualdade de condições na disputa do jogo em qualquer canto do mundo. A entidade entende que para a prática do esporte bastam as traves, as redes, os uniformes e a bola, que podem ser usados por ricos e pobres, sem diferenças.

 

Primeiro, é irônico a instituição que lucra quase U$ 4 bilhões na Copa da África, doa a quem doer, nesta hora ser a porta-voz dos desvalidos. Segundo, a persistir a tese, deveríamos questionar o uso de técnicas avançadas de preparo físico, médico e psicológico dos atletas, afinal os time do Mali não conseguem oferecer a seus jogadores as mesmas condições que os times da Espanha.

 

Curioso ainda constatar que o mesmo futebol que abre mão desta tecnologia, aceita punir após a partida jogadores flagrados cometendo algum ato de violência. Flagrados pelas mesmas câmeras “cassadas” na hora do jogo.

 

Houvesse o “árbitro eletrônico” – se me permitem chamar assim o uso do vídeo para conferir lances polêmicos -, não teríamos sido obrigados a ver o futebol medíocre da seleção da França aqui na África. Em lugar dela, estaria a Irlanda, que vinha jogando muito mais, contudo acabou punida com um gol de mão de Tierry Henry. Tão pouco, os Estados Unidos estariam ameaçados de uma desclassificação pré-matura nesta Copa.

 

Pena os americanos não serem no futebol a potência que o são em outros esportes, pois talvez tivessem força para pressionar a Fifa a aceitar mudanças na regra, como ocorreu, em 2006, com o tênis. Graças a injustiça sofrida pela tenista Serena Williams, na partida contra Jennifer Capriati, pelo US Open, dois anos antes, iniciou-se um movimento em favor do replay-instantâneo. Atualmente, o tenista tem o direito a três pedidos de revisão por set e um adicional caso haja tie-break. O Hawk-Eye – Olho de Águia, em português – não é obrigatório em todas as competições, sendo usada apenas nas que distribuem maior premiação.

 

Na época em que a regra foi implantada, o número 1 do tênis Roger Federer fez duras críticas, sendo hoje um dos que mais se utilizam do recurso. Marat Safin, agora aposentado, chegou a dizer que eram idiotas os que defendiam o Hawk-Eye.

 

Idiotas somos nós, torcedores do futebol, enganados por árbitros que têm cada vez mais dificuldade para acompanhar a velocidade dos jogadores e da bola. Enquanto o futebol não aceita implantar os Olhos de Águia nos estádios da Copa do Mundo, estaremos sempre vulneráveis a manipulação dos Gaviões da Fifa.

 


A imagem acima é da galeria de Tiago Celestino, no Flickr