Deixem-me em paz, pombas!

 

O artigo a seguir foi escrito em 2012, ano em que tive o privilégio de ocupar a coluna da última página da revista Época São Paulo — hoje extinta. Lembrei dele quando li, semana passada, que a cidade aprovou lei que proíbe as pessoas de alimentarem e confinarem pombos e obriga os moradores a usarem redes de proteção e outros obstáculos em suas casas para impedirem que as aves se alojem no local. A boa notícia é que os pombos sumiram lá de casa depois deste artigo — será que eles leram?

 

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Escrevo este texto com um olho na tela e outro no telhado, de onde partem ameaças à minha integridade física e moral. Os ataques não são recentes, ocorrem desde que cheguei a São Paulo, em 1991, e fui trabalhar na antiga sede da TV Globo, na Praça Marechal Deodoro, de frente para o Minhocão. No alto daqueles prédios antigos viviam centenas de pombos, que pareciam ter me escolhido como alvo preferencial para suas necessidades. Não foram poucas as vezes em que tiveram sucesso, manchando meu terno e me impedindo de trabalhar. Cheguei a fazer uma “pindura” na lavanderia mais próxima – que, desconfio, era financiada pelo estrago que os pombos causavam aos indefesos pedestres.

 

Ao trocar de emprego, imaginei que estaria livre das famigeradas aves, mas logo percebi que minha vida não seria fácil na cidade. Os pombos me seguiram até em casa e lá se estabeleceram. Vizinhos afirmam que eles chegaram antes de mim, atraídos por um morador antigo, que, acredite, alimentava os bichinhos e cuidava deles como se fossem de estimação. Atitudes desse tipo só contribuem para infestar São Paulo e emporcalhar fachadas e calçadas.

 

Os estudiosos culpam os navegantes europeus, que trouxeram a espécie ao Brasil no século XVI, para servi-la no almoço. O prato não deve ter agradado os nativos, o que ajudou as aves a se multiplicar com extrema rapidez. O imaginário popular também não colaborou em nada a conter sua proliferação: tem gente que insiste em enxergar o símbolo da paz onde deveria ver um rato com asas. O que sei é que os pombos me deixaram paranóico – e nada me tira da cabeça que sua presença está ligada a uma conspiração dos columbiformes para me atazanar.

 

Assim que aterrissaram em casa, os pombos ocuparam o parapeito das janelas e começaram a confabular num idioma que eu desconheço. Às vezes se atreviam a olhar para dentro do quarto, com aquele jeito de gente intrometida, como se estivessem em busca de um lugar mais confortável para morar. Descobri uma cola que causaria desconforto ao bando e o expulsaria sem provocar males aos pombos. Esse ponto é importante, e faço questão de divulgá-lo, porque a espécie é protegida pelo Ibama. Sim, meu senhor: embora eu não POSSA prejudicar a saúde deles, os pombos são livres para me transmitir piolhos e até 70 tipos de doenças, como a complexa criptococose, que atinge o sistema nervoso. Isso mesmo, minha senhora: esses animais com cara de santo (ao menos do Espírito Santo) são um risco à saúde pública. E praticamente imbatíveis, conforme minha experiência.

 

A tal cola só foi capaz de transferir os pombos por poucos metros, da janela para o telhado. Lá no alto, construíram casa, constituíram família, invadiram o forro e passaram a fazer um barulho insuportável farfalhando suas asas para lá e para cá. Não respeitam sequer a hora da novela. O pátio, de tão sujo, precisa ser limpado diariamente. Apelei para outros expedientes. Recomendaram-me um apito que os espantaria, uma pílula anticoncepcional capaz de impedir sua reprodução, um revólver de pressão para abater os mais inconvenientes, e até a estátua de uma coruja, considerada seu predador natural. Fiasco atrás de fiasco. Logo a estátua da coruja se transformou num heliponto de pombos. Na última investida, cerquei a casa com uma rede de proteção. Desconfio que, mais uma vez, não vá dar em nada. É o que parece me dizer o olhar tranquilo e vitorioso do pombo que, pousado no telhado, me observa neste instante, enquanto termino de escrever.

MacMais se despede dos leitores e deixa minha banca de revista sem graça

 

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Das bancas de revista tenho aproveitado muito pouco apesar de sempre me chamar atenção aquela diversificação de capas expostas. Gosto de ver o que as publicações estão anunciando, desde as fórmulas matadoras para nos transformarmos em profissionais de sucesso até as belas moças que nos convencem de que com pouco esforço e muita dieta a barriga que nos assusta desaparecerá para sempre – ou até a próxima edição da revista. As semanais, que deveriam ser chamadas jornalísticas, já impactaram mais o noticiário com suas denúncias bombásticas. Acredito que a fugacidade das notícias tenha levado os furos para suas páginas na internet, antecipando-se a edição do fim de semana.

 

Para ser sincero, meu interesse comercial nas bancas tinha um único alvo: a MacMais, única revista especializada em equipamentos da Apple escrita em língua portuguesa. A tenho guardada em coleção desde a época em que se chamava MacMania, quando fui apresentada a ela pelo colega José Roberto de Toledo, com quem dividi redação no Portal Terra, lá pelo início do século (século 21, lógico!). Se não me falha a memória ainda não havia comprado meu primeiro Mac e usei a revista para entender melhor os benefícios que teria nesta mudança. A troca de nome da revista veio acompanhada de mais organização e periodicidade, o que me fez comprador ainda mais assíduo e levando minha coleção a ocupar uma das partes do armário que tenho no escritório de casa. Se nenhum enxerido se atreveu a mexer por lá, devo ter todos os números publicados até hoje.

 

Na MacMais encontrei várias dicas salvadoras para manipular minhas máquinas da Apple, garantindo uma relação que se iniciou com um poderoso PowerBook G4 para depois migrar a todo lançamento legal anunciado por Steve Jobs. Hoje, em casa, tem um iMac, um MacBook, um MacAir, Iphones e Ipods todos incluindo aplicativos ou soluções oferecidas na revista. Tive o prazer de escrever na última página da edição de abril de 2013, reservada a coluna Mais ou Menos, na qual pude expor meu incomodo aos maus serviços prestados por boa parte das assistências técnicas da Apple, em São Paulo. Estão anos luz distantes da qualidade dos produtos desenvolvidos em Cupertino. Foi também a revista quem incentivou a criação do blog MacFuca, escrito por meu irmão, o Christian, que se dedica a falar sobre um dos carros mais apaixonantes no Brasil. A partir de uma foto em que o fusca dele aparecia com o adesivo da maça da Apple e a placa com as iniciais AIR, surgiu a brincadeira que uniu o nome de duas marcas que mantém uma quantidade incrível de fãs pelo mundo.

 

Durante muito tempo ensaiei carta (perdão, e-mail) ao editor Sérgio Miranda propondo a reedição, em minha casa, de um esquadrão que ele e colegas de redação criaram. O grupo, aos moldes do Ghostbuster, era chamado para oferecer soluções múltiplas a usuários de Mac, conectando os equipamentos, baixando programas, ensinando truques e tornando a vida ainda mais prática. Não tenho certeza se chegaram a realizar esta brincadeira por mais de uma edição, mas adoraria tê-los por aqui para me ensinar a explorar 100% ou quase do potencial das máquinas que tenho. Jamais me atrevi a escrever pois não gostaria que minha condição de jornalista e conhecido do editor influenciasse a decisão deles. Até porque se quisesse mesmo resolver todos os problemas que contratasse técnicos especializados, não é mesmo?

 

Neste fim de semana, fui a banca mais uma vez em busca da revista e lá estava a capa dela me oferecendo um guia completo de sobrevivência na nuvem, com informações sobre o iCloud Drive. Mal havia pago, fui surpreendido com o editorial assinado pelo Sérgio no qual a revista se despedia de seus leitores. Sim, a edição 103, de fevereiro de 2015, da MacMais será a última publicada pela editora Escala. Sérgio não explica os motivos desta decisão, mas a realidade do mercado editorial talvez seja suficiente para justificar a medida. Está cada vez mais complicado manter revistas rodando pelo custo da produção (especialmente se forem qualificadas e responsáveis), o baixo número de leitores e o sumiço dos anunciantes. O que surpreende é saber do fim da Macmais no momento em que a Apple está bombando e supera suas principais concorrentes nos mais diferentes rankings de mercado.

 

Os fãs do Mac provavelmente estejam buscando informações em outra freguesia há muito tempo, afinal a internet está por aí a desafiar todos os modelos de negócio. Muita gente talvez nem soubesse da existência da revista ou ao vê-la exposta a confundia com mais uma das muitas publicações tentando sobreviver na banca. A verdade é que fiquei triste em saber que nunca mais terei o prazer de, ao passar na revistaria, perguntar se a “Mac” chegou. Mais triste ainda em perder uma publicação que desenvolvia um trabalho tão sério quanto difícil, levando em consideração a infraestrutura oferecida ao pessoal da redação e a disputa feroz com os demais meios de informação. Ali você não ficava sabendo de boatos, o que se lia era a verdade. Mesmo fãs da marca, não se acanhavam em reclamar sempre que algo não dava certo. Os leitores tinham a certeza de que as dicas não eram impulsionadas por interesses comerciais. As sugestões tinham conquistado o coração da redação e não o bolso. Eu , em particular, comprava a MacMais pelo o que eles me ofereciam de maior valor: credibilidade. Por terem mantido esta marca até o fim, Sérgio e equipe estão de parabéns.

 

Espero encontrá-los em breve em uma banca qualquer da cidade!

Conte Sua História de SP: minha namorada de revista

 


Por Raul Ferreira Gomes
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouvi a narrativa da ouvinte-internauta Júnia Lopes contando a história dela ligada a uma revista, isto me animou a também contar minha história intrinsecamente ligada a uma revista dos anos 60: “Sétimo Céu”:

 

 

No fim de dezembro de 1960, eu, com 19 anos, trabalhava com meu pai no armazém de secos e molhados da família, quando meu amigo Antonio Carlos me mostrou essa revista que era muito apreciada pela mãe dele que adorava as fotonovelas e na qual havia a seção “Clube dos Correspondentes”, em que rapazes e moças procuravam amizades e namoros. Informava-se o tipo físico, gostos, e o desejo de se corresponder. A principio relutei em mandar uma correspondência, mas devido a insistência de meu amigo, acabamos os dois redigindo cartas para a revista com os nossos dados, embora acreditasse que nada seria publicado. Para minha surpresa, no início de janeiro de 1961 começaram a chegar cartas de garotas do Brasil inteiro em resposta ao meu anúncio. Corri à banca comprei a edição nº 57 da primeira quinzena de janeiro e efetivamente lá estava. Foram centenas de cartas suficientes para encher 5 caixas de sapato. Li quase todas, mas poucas delas foram respondidas por mim, pois achava aquilo tudo uma grande brincadeira. Por volta do dia 25, entre várias cartas recebidas, uma me chamou a atenção: era de uma menina de 16 anos que morava no bairro, descrevia seu tipo físico, seu endereço e finalizava com um p.s “Se quiser me conhecer, estou às ordens” 

 

Em 30 de janeiro, enviei-lhe uma carta da qual não obtive resposta. Quis o destino que passados 15 dias, numa manhã de domingo de sol, estava eu e meu amigo Antonio Carlos, dando uma volta pelo bairro com o carro do meu pai, um Pontiac 1963, quando passamos por uma rua que reconheci pelo nome como sendo a que a tal menina morava. Por não lembrar o número da casa, batemos palmas na primeira que encontramos, perguntando se conheciam a Jane. O morador nos disse que ela morava um pouco mais abaixo no nº 36 e como era próprio da juventude tomei a decisão de ir lá conhecer a “figura”. Fui atendido por uma loirinha linda, cabelos compridos, olhos azuis. Me identifiquei e num misto de surpresa e curiosidade, conversamos e resolvemos nos conhecer melhor, como um “pré-namoro”. Saímos juntos naquela mesma tarde e os encontros foram se sucedendo. Era a época de namoros inocentes, passeios pela Praça Sílvio Romero, matinês no Cine Leste, bailinhos em casa de família, tudo isto com a concordância de seus pais. Passeávamos juntos sem qualquer contato físico. Para segurar sua mão e andar de braços dados foram quatro meses. O primeiro beijo demorou mais seis longos meses. Encontros só aos sábados e domingos e até nove da noite no portão da casa dela e com uma tremenda luz acesa para facilitar a vigilância pelos pais. São Paulo, na época, contava, creio eu, com menos de quatro milhões de habitantes. Curtíamos os discos de Elvis Presley, as baladas românticas italianas e não perdíamos o programa “Jovem Guarda”  nas tardes de domingo.

 

O mais curioso dos detalhes desta aventura que se iniciou nas páginas da revista Sétimo Céu: descobrimos que já havíamos brincado juntos nos anos de 1948/1949, quando eu estava com 7 ou 8 anos. Nos fundos do nosso armazém, havia uma pequena vila de casas que pertencia ao meu avô. Em uma dessas casas morava o Senhor José com Dona Antônia, a esposa dele. Seu José era um gentil sapateiro muito querido por mim, adorava ficar ao lado dele enquanto consertava sapatos, ouvindo e me deliciando com suas histórias. Eles eram os tios da Jane, visitados por ela a cada 15 dias. Nós brincávamos naquele grande quintal sem que ninguém pudesse imaginar que dali sairia um casamento que se transformou em 46 anos de felicidade e do qual nasceram três belas meninas.

 

Raul Ferreira Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Debate em vídeo sobre os protestos históricos no Brasil

 

 

Os protestos pela qualidade do serviço público, a corrupção e mais uma variedade de temas que mobilizam o Brasil há duas semanas motivaram debate que realizei com leitores e equipe da revista Época São Paulo, através do serviço de hangout do Google. A discussão foi durante os manifestos da semana passada, dia 17 de junho.

 

Mais do que afetar a cidade, os protestos precisam ser entendidos como uma manifestação democrática. E que, como tais, eles integram a cartilha de direitos dos cidadãos paulistanos. Não tinha dúvidas de estar diante de um momento histórico para o Brasil capaz de mudar nosso destino.

 

Se você perdeu o hangout ao vivo, assista no vídeo acima.

Conte Sua História de São Paulo: a cidade das revistas

 

PorJúnia Lopez
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Quando era pequena, morava na região central do país. Lá naquelas terras longínquas onde muitos sulinos na ignorância acreditam ser terra de índios e feras. Naquela época os índios já haviam sido extintos e as feras quase totalmente.  Isso foi por volta dos anos 1980, quando ainda vivíamos às sombras da ditadura militar. Os meios de comunicação eram precários, nem todas casas tinham um televisor e mesmo assim sobressaíasse à censura.

 

Mas uma coisa  lembro-me com clareza. Semanalmente, a revista Veja chegava com as principais notícias do país e do mundo. Raramente uma matéria sobre as regiões menos povoadas como o estado de Goiás. Era a melhor revista que recebíamos. E  sempre trazia propagandas sobre lojas que não existiam por lá ou marcas que não vendiam em nosso comércio. Nossa cultura era outra e bem menos consumista.  Esta época não era de globalização.

 

Quase três décadas após,  uma história de amor trouxe-me  à capital paulista  e , meses depois,  a São Paulo das revistas tornou-se a minha rua, a minha casa, o meu bairro  Higienópolis. Tudo aquilo que parecia longe à minha imaginação infantil, está há poucas quadras, há poucas ruas ou há poucos “minutos”  como os paulistanos costumam dizer.

 

Quando saio nas ruas de meu bairro, começo  reviver cada imagem que na minha infância era apenas coisa de  revista.  E cada semana quando as revistas chegam,  ponho-me a analisar cada foto, cada reportagem e fico a pensar quantas pessoas conhecem a grande metrópole apenas pelas revistas.

 


Conte você também mais uma historia da nossa cidade. Agende uma entrevista, em audio e video, no Museu da Pessoa. Ou então, mande seu texto por escrito para milton@cbn.com.br.

As novas bancas de jornal

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

As bancas de jornais de São Paulo chamam minha atenção desde que desembarquei por aqui, em 1991. Morava no bairro de Pinheiros, na zona oeste, e tinha prazer em visitar as que ficavam ao meu redor, especialmente nos domingos, quando fazia questão de comprar a Folha, apesar da insistência de amigos para assinar o jornal e recebê-lo em casa. Não tinham ideia do prazer que era caminhar até uma das bancas próximas e seguir o passeio com o jornal sendo lido aos pedaços. Nem tanto pelo jornal, muito mais pela caminhada, durante a qual saboreava um doce qualquer comprado na própria banca. Aliás, a variedade de produtos tanto quando de títulos à disposição eram atrativos para este programa dominical. Gostava também do espaço para caminhar nos estandes e da organização do jornaleiro para distribuir os jornais e revistas. Se a memória não me falha, e esta costuma falhar, não conhecia bancas com este formato em Porto Alegre. A mais famosa na época era a da Cidade Jardim, me parece pelo sucesso como ponto de encontro nas madrugadas paulistanas. Não sei se mantém a fama, mas mesmo naqueles tempos visitava pouco o local, devido à distância de casa. Em algumas conseguia ler jornais gaúchos, principalmente a Zero Hora (desculpe-me pelo artigo feminino, mas é assim que chamamos lá no Rio Grande o jornal dos Sirostsky).

 

Soube pelo amigo Marcos Paulo Dias, de família ligada às bancas, que, nesta semana, foi divulgado o resultado de concurso que incentivava a apresentação de projetos inovadores como parte de um programa de revitalização do Largo da Batata, em Pinheiros, promovido pela Editora Abril. O desenho vencedor foi feito pelo arquiteto João Paulo Guedes (acima) com material de aparência natural (aço corten) que oferece um visual limpo e moderno, além de ser reciclável. Dos 15 finalistas, gostei da proposta de Cláudia Strutz (abaixo) com teto verde e coletores de energia solar, apesar de todos terem algum ponto de interesse.

 

 

Hoje, vou menos às bancas, pois o tablet me oferece boa parte dos jornais que me interessam e as revistas encontro nas livrarias, mesmo assim sigo sendo atraído para estes locais. E o que me leva a eles, independentemente do formato da banca, segue sendo o bom atendimento do jornaleiro e a variedade de revistas e jornais.

Não sou uma pomba, mas sou da paz

Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

Bom dia, Revista Època,

Sr. Milton Jung será que o senhor não tinha nada mais útil à sociedade para escrever do que relatar essa sua perseguição as pombas???? Será mesmo que o problema são elas, ou você que em seu texto transborda ódio e raiva dos animais????? Sinceramente se elas o perseguem por toda parte, o senhor deve ter feito alguma coisa para tal reação da vida contra o senhor. De fato os animais podem causar doenças, mas garanto que usar cola para espantar o bando não é a atitude mais digna de um ser racional. Com certeza elas, sim, sim o símbolo da PAZ, talvez bem mais que sua atitude egoísta de escrever numa revista uma situação particular, ao invés de se preocupar com assuntos bem mais importantes, que com certeza a cidade de São Paulo tem. Boa sorte ao SENHOR, espero que como jornalista dê o exemplo às pessoas para que trate os animais bem , pois já vivemos num clima de violência incomensurável, bons exemplos sempre são bem vindos. Use seu espaço para tentar ajudar mais seu próximo,sua cidade,etc. garanto que a vida lhe será mais grata, até os pombos te libertaram de tal perseguição.

Sônia Pirrongelli

 

Minha coluna na Época São Paulo, de novembro, quando dediquei a última página da edição aos problemas que os pombos me causam – e à cidade, também -, provocou protestos da cara leitora Sônia Pirrongelli, a quem agradeço pela mensagem eletrônica enviada a sessão de cartas da revista (perdoe-me, inicialmente, por chamar assim este espaço dedicado aos leitores que há muito, imagino, não perdem tempo escrevendo missivas às redações quando podem, facilmente, enviar um e-mail). A bronca da leitora a este “perseguidor de pombas” me permite, no mínimo, retomar o assunto que se estendeu ao programa que apresento na rádio CBN. Os ouvintes-internautas, aliás, foram muito mais solidários a minha causa, o que, por si só, já desmonta o argumento de que o tema não tem importância para os cidadãos paulistanos. Imagine que no Centro de Zoonose existe um departamento especializado em combater as tais aves. Calma lá, combater não é a melhor palavra. Vamos dizer que os funcionários públicos têm o desafio de conter a proliferação de pombos.

 

O problema não se restringe a minha casa ou a cidade onde moro. Do Rio, soube que a prefeitura demonstrou preocupação com a superpopulação de pombos, enquanto do Paraná chegou alerta para a necessidade de aplicar com estas aves os mesmos conceitos de combate a pragas na agricultura. Algumas cidades do interior do Brasil lançaram campanha para que os moradores não deem comida aos pombos e espalham pílulas anticoncepcionais para as mocinhas de asa na esperança de que os estragos a prédios públicos e à saúde da população diminuam. Aproveito para informar que de nada adiantará o senhor ou a senhora que me lê comprar uma cartela na farmácia e espalhar pílulas pelo telhado ou pátio da casa. Para a prática dar resultado seria necessário que as pombas ingerissem uma quantidade inimaginável de anticoncepcional e durante um tempo muito longo.

 

Aliás, não me faltaram sugestões para espantar as pombas que me cercam. Falaram em um apito que causaria incômodo, sugeriram a contratação de gaviões e até mesmo que me mudasse de casa – o que está fora de cogitação. Não a abandonei nem quando foi ocupada por bandidos, imagine se me renderei aos invasores alados. A dica mais bem humorada enviada por um dos ouvintes, ao qual peço desculpas por não ter registrado o nome, foi pintar o telhado de verde. Como? A pomba vai pensar que é do Palmeiras e abandonar o lugar com medo de cair junto – disse ele.

 

Para Dona Sônia, autora da revoltada carta enviada à revista, quero dizer que apesar de não gostar das pombas nunca aceitei que fizessem maldade com elas. A tal cola citada no meu artigo na Época SP, é, na realidade, um gel que não causa qualquer dano, apenas deixa desconfortável o local ocupado. Tem mais ou menos o mesmo o efeito da rede de proteção que coloquei em parte do meu telhado (e que ainda não deu resultado). Um amigo que apareceu com arma de pressão foi mandado embora. O veneno recomendado, sequer levei em consideração. Não sou uma pomba, mas sou da paz.

 

Qualquer dúvida sobre como trato os animais, pergunte ao Eros, ao Ramazzotti e ao Boccelli – o labrador, o shitzu e o persa que moram na minha casa há uns bons anos. Pensando bem, é melhor deixar o Ramazzotti fora dessa, pois ontem, por recomendação médica, tive de castrar o baixinho, e creio que a opinião dele sobre minha pessoa, neste momento, não deve ser das melhores.