Avalanche Tricolor: Fora, Renato!

Sampaio Correa 2×1 Grêmio

Brasileiro B – Castelão, São Luis/Maranhão

Renato em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Calma! Antes de me condenar, perceba a vírgula que precede o nome próprio e se expressa logo após o vocativo. Muda o sentido daquilo que você, caro e cada vez mais raro leitor, deve ter imaginado assim que deparou com a ‘manchete’ desta Avalanche. 

Não o culpo por ter interpretado o título de forma errada. Seria natural no futebol pedir a cabeça do treinador que, em momento decisivo, abrisse mão de seu time titular e reduzisse o ritmo de treino e mobilização do elenco porque a partida é fora de casa — bem distante da sede — e, com essa decisão, prolongasse a agonia da presença na Série B. 

Por muito menos, parte do torcedor fez isso com Roger — e olha que o treinador em nenhum momento baixou a guarda, fez seus jogadores pensarem que o compromisso à frente era de menor importância, afastou-se do clube para aproveitar a praia e tenha dado folga a seus principais e poucos talentos. Alguns gremistas foram além: o condenaram pela “petulância” de proferir discurso de cunho político quando tinha de estar preocupado com o baixo rendimento do time — algo muito mais relevante para vida das pessoas do que combater o racismo, por exemplo (atenção, atenção: contém ironia nessa frase e se você não entendeu azar o seu!).

Das arquibancadas da Arena, ouvia-se a vaia sempre que o nome do técnico era anunciado. Quando se atrevia a escalar os “malditos”, até porque faltavam (na verdade, faltam) opções no elenco precariamente montado para a Série B, era desconjurado. Os idólatras, que costumam ser pobres de espírito e fracos de memória, além dos apupos, gritavam o nome de Renato — como se o técnico consagrado em uma estátua nos arredores da Arena não tivesse sido uma das causas pela tragédia que nos colocou na segunda divisão. 

Pensar que “Fora, Renato!” tivesse o mesmo sentido de “Fora Renato!” , depois de mais uma derrota na casa do adversário, seria muito lógico para quem acredita que o futebol é movido pela lógica. Até porque o aproveitamento de Renato, desde que voltou ao time, após a aclamação de parte da torcida, é de apenas 50%. Ganhou os dois jogos disputados na Arena e perdeu os dois jogados fora — a partida vencida, logo depois da demissão de Roger, não conta, né, afinal, Renato preferiu fazer ‘home office’, no Rio de Janeiro, em lugar de assumir a responsabilidade de comandar o time na casamata — imagino que tivesse algo mais importante a fazer na cidade fluminense.

Não! Definitivamente, não! Eu não estou aqui liderando qualquer grito pela demissão do nosso treinador — não é do meu estilo nem seria apropriado para o momento. Espero que Renato permaneça até a rodada final (e só) e, antes que esta chegue, tenha conseguido nos elevar à primeira divisão. Vencer ao menos duas das três partidas na Arena, imagino, serão suficientes para alcançar esse objetivo que já estava bem encaminhado por Roger, apesar dos pesares e das críticas de gente que colocava seus preconceitos acima dos interesses do clube.

O título desta Avalanche, esclareço, é apenas uma forma de chamar atenção para o momento que estamos vivenciando, em que a lógica no futebol tende a ser ofuscada pela paixão — no futebol e na política, também. De lembrar que, talvez, se estivermos dispostos a conquistar um ou dois pontos “fora, Renato”, a classificação chegará antes da rodada final. 

Avalanche Tricolor: Diego Souza, um oportunista

Grêmio 2×0 Sampaio Corrêa

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Diego comanda a comemoração do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Pode me chamar de oportunista — se é que você, caro e raro leitor desta Avalanche ainda desperdiça seu tempo me chamando de alguma coisa. Pelo que li, se não neste blog, ao menos nas redes sociais, ainda tem quem perca seu tempo me criticando. Verdade que a avalanche de comentários não veio pelo que falo e penso do futebol. O tema era outro: política. E o clima anda quente por aquelas bandas.

Sendo assim, de volta ao futebol e ao meu oportunismo. Foi estratégico de minha parte esperar o fim da rodada de sábado para escrever sobre o Grêmio. Em outros tempos, teria feito meus elogios (?) logo após a vitória na Arena. Os três pontos conquistados, porém, não eram a garantia de permanência no G4, pois dependeríamos do revés de um dos adversários, que se realizou já nos embalos de sábado à noite. 

Diante da intolerância de alguns ‘amigos’ de rede social — que são incapazes de procurar um só mérito no time do Grêmio, pois parecem mais interessados em atacar seus desafetos e eleger como salvador seus ídolos —, achei que comemorar a vitória com os dois pés dentro do G4 fortaleceria meus argumentos.

Oportunista portanto que sou, aqui estou, na manhã de domingo, festejando o resultado que o Grêmio alcançou diante de 30 mil torcedores, dentre os quais alguns — ou seriam muitos —- impacientes, que vaiam mais forte do que cantam nossos hinos de louvores. Ainda bem que a turma da ‘arquibancada norte’ agora está mais próxima do gramado e consegue, assim, com efeito, entoar nossas músicas e empurrar o time e os demais torcedores. 

Preferiria que os protestos contra os desafetos viessem ao fim da partida e não enquanto a bola está rolando, pois atinge, também, a segurança dos demais companheiros que estão em campo. Como sou otimista, porém, melhor a vaia na Arena do que a ausência no estádio; melhor o apupo na arquibancada do que a violência que assistimos de torcidas, que ameaçam jogadores e treinadores. 

Quero crer que o time, por maduro que seja, e seu técnico, com inteligência emocional elevada, tenham personalidade para driblar essas situações e superar às críticas — o que só vai ocorrer quando demonstrarem capacidade de se manter entre os quatro primeiros colocados da competição. Só os resultados em campo serão suficientes para acalmar os ânimos e calar os desânimos. 

Por falar em oportunista …

O gol que abriu o placar no sábado foi de puro oportunismo. Diego Souza estava, como sempre costuma estar, no lugar certo e na hora certa para cabecear a bola para as redes, depois do lançamento de Diogo Barbosa — sim, foi do desafeto da torcida o cruzamento lá do outro lado da área que permitiu a chegada de Bruno Alves pelo alto, o cabeceio no travessão e a sobra para o nosso atacante. Foi dele, Diego, o lance do pênalti tanto quanto a cobrança paciente e precisa na bochecha da rede e distante do goleiro que definiu a vitória.

Diego Souza este oportunista é o goleador do Brasileiro B, com sete gols, e o gremista que mais marcou no Século 21, com 80 gols. Aos 37 anos, completados na semana passada, é referência também fora de campo. Muita gente o chamava de ‘cansado’, sem entender que havia sido acometido duas vezes pela Covid e jogava em um time que tinha uma série de dificuldades técnicas — sem nunca deixar de marcar seus gols. Chegou a ser dispensado pela diretoria e aceitou voltar em um gesto de humildade e resiliência. E foi assim, resiliente e oportunista, que calou os críticos.  E só assim, com humildade, resiliência e resultado após resultado, o Grêmio voltará a conquistar a confiança da totalidade de seu torcedor.