Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o dia em que andei de ônibus com o criador da estátua de Borba Gato

 

Por Durval Pedroso da Silva Jr
Ouvinte da CBN

 

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A estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, em foto do site da ALESP

 

 

Nasci no Bairro do Bexiga, próximo da Avenida Paulista, em janeiro de 1951. Morei nela por quase 40 anos, o que por si só daria para contar  muitas histórias. Resolvi, porém, relatar uma que reputo interessante.

 

Estava eu em companhia de meu pai, no inicio de fevereiro de 1963 — eu com apenas 12 anos — abordo de um ônibus da Viação Bola Branca, que saiu do Largo de Pinheiros com destino a Santo Amaro, onde morava a maioria de nossos parentes.

 

Quando entramos pela Avenida Santo Amaro, perto da Vila Nova Conceição, subiu ao ônibus, que estava bem lotado, um velho amigo do meu pai: o escultor Julio Guerra. Meu pai apresentou o seu amigo a mim, com toda a pompa e circunstância, explicando suas habilidades como pintor e escultor. Em contra partida, o Julio falou maravilhas das habilidades esportivas de meu pai, mas como estas eu já conhecia sobejamente, tratei de fazer o maior número de perguntas, ao primeiro pintor e escultor que conheci na minha vida — ao ponto de meu pai me dar um beliscão bem dado, para eu parar de metralhar seu amigo com perguntas.

 

Quando estávamos passando no Alto da Boa Vista, demos de cara com a enorme estátua do Bandeirante Borba Gato, que tinha sido inaugurada há alguns dias. Eu maravilhado com aquela grandeza toda, ouvi bem baixinho no meu ouvido: — “esta é uma das minhas obras”, disse Julio. Mas a esta altura já tínhamos ouvido muitos comentários dos passageiros. Uns, inclusive, não muito elogiosos com relação à obra. Antes que eu abrisse a boca para falar em alto e bom som que estávamos com o autor daquele monumento dentro do nosso ônibus, meu pai que conhecia a tagarelice do filho, tampou levemente a minha boca. Mas o grande momento veio a seguir. O Julio vira-se para mim, num tom bem baixo, e diz: — “esta é a razão maior de uma obra de arte, provocar sensações e comentários”.

 

Mais um ensinamento que aprendi nesta nossa maravilhosa cidade.

 

Durval Pedroso da Silva Jr. é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP – 462 anos: o “casarão” do meu amigo Reis

 

Por José Salomão da Silva

 

 

20 de janeiro de 1985, domingo, 10 horas da manhã.

 

Estava eu chegando na rodoviária do Tietê, vindo de Ilhéus, na Bahia. Do lado de fora, uma mão se erguia freneticamente na minha direção, fazendo-me entender que ali se encontrava alguém a me esperar. Era o meu grande amigo Reis, assim como havíamos combinado. Nos cumprimentamos e saímos em direção ao Metrô.

 

Em tom de brincadeira que fiquei sabendo depois, Reis falou:

 

– dá a mão para o trem parar. (e o trem parou)

 

Descemos na estação São Bento. Logo ali no Anhangabaú existia ponto final da CMTC que nós levou até o Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, próximo a residência dele. Lá chegando deparei-me com uma grande quantidade de pessoas. Música alta, muito churrasco e todos os tipos de comida nordestina, em todos os cantos da enorme casa. Aí comecei a perceber que meu amigo tinha preparado uma grande festa para minha chegada.

 

E qual grande era a nossa casa? O meu amigo, viu, morava bem!

 

Ficamos ali horas a fio, conversando, bebendo e comendo com todos presentes. O tempo foi se passando até a hora de descansar, dormir. Afinal, foram 32 horas de viagem.

 

Fui na direção do Reis e perguntei:
Qual vai ser o meu quarto? Onde eu vou dormir?

 

Ele apontou na direção de um cubículo e tascou:
A nossa casa é este espaço aqui, ó!

 

Foi neste belo dia ensolarado de janeiro que fiquei sabendo o que era um cortiço, tal qual um dia havia sido descrito por Aluísio Azevedo.

 

José Salomão da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. O programa, em homenagem aos 462 anos da cidade, vai ao ar, nesta semana, às 7h15, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: vai plantar batata!

 

Por Mário Cúrcio e Onéia Rodrigues

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, nós vamos conhecer história escrita por Dona Oneia Rodrigues, que nos chegou através de seu sobrinho e afilhado Mário Curcio. Dona Oneia morreu em 2011, mas antes deixou esta lembrança para nós:

 

Meu nome é Onéia Rodrigues. Sou de Rio Claro, interior de São Paulo, cidade do ilustre Ulysses Guimarães. Fui a segunda de oito filhos e nasci em 1930. Naquele tempo, Rio Claro ainda era pequena, mas já cortada por ferrovias. Andei muito de trem porque também tinha parentes na vizinha Limeira. Casei em 1952 e tive três meninas, todas nascidas naquela cidade a 163 quilômetros de São Paulo. Trabalhei como professora em diferentes escolas no interior.

 

Na primeira metade dos anos 70 eu me separei. Poucos anos depois, acho que em 1976, vim sozinha a São Paulo para trabalhar como bibliotecária na assembleia legislativa. As meninas, já crescidas, ficaram em Rio Claro num primeiro momento, morando em nossa casa na Rua 3. Ficar longe delas deixou meu coração apertado, mas foi uma decisão acertada.

 

O primeiro bairro em que morei aqui foi Santo Amaro, na casa de minha irmã, onde dividi o quarto com meu sobrinho e afilhado Mário Augusto, na época um menino com dez anos, muito falante. Uma vez por semana eu comprava para ele um saquinho daquelas balas de leite de uma loja famosa por seus chocolates e percebia que ele comia cada uma como se fosse a última. O pai dele, meu cunhado João, sempre fazia piadas sobre meu ex-marido e a falta que eu sentiria dele. “Ah, João, vai plantar batata!” Era só o que eu podia dizer.

 

Um ano depois de chegar a São Paulo, eu consegui alugar um apartamento e pude trazer de Rio Claro as três filhas. Ficamos alguns anos ali na Rua Abílio Soares, bem em frente ao quartel. Vira e mexe, os soldados, com seus 18 ou 19 anos, acabavam se distraindo ao ver as meninas na sacada. O lugar era agradável e bem próximo ao meu trabalho.

 

Dali nos mudamos para um apartamento no Largo do Arouche. O prédio ficava bem ao lado de um cinema decadente mas de uma boa padaria. Quando minha irmã e meu cunhado me visitavam com aquele sobrinho, descíamos para comprar frios e doces, tudo sempre muito fresquinho.

 

Nunca fui de muito luxo, mas adorava meus móveis, objetos e mantinha minha casa sempre arrumada. Já os meus discos do Ray Conniff e do Paul Mauriat eu empilhava no prato da vitrola. Não me dava ao trabalho de tirar um e por o outro. “Besame Mucho” estava quase sempre na ponta da agulha. Aquele apartamento de paredes grossas me dava segurança, mas precisávamos de mais espaço. E como gostava do Arouche, saí daquele para outro apê um pouco maior, também no Arouche.

 

Bem de frente para a nova sacada ficava uma igreja no largo Santa Cecília. Com um bom binóculo dava para espiar até mesmo o altar. Já aposentada, gostava de descer e almoçar por ali nos fins de semana. Com menor frequência, minha irmã vez ou outra aparecia para conversar. Minhas filhas sempre estiveram perto de mim nos últimos anos e foram muito companheiras.

 

O tempo passou e a saúde não permitiu que eu continuasse no Arouche. Por causa disso acabei voltando para Rio Claro. Estou aqui desde 2011, mas sempre lembro com saudade do velho centro de São Paulo, do comércio, das minhas meninas e do corre-corre de quem vive aí.

 


Dona Onéia Rodrigues foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi enviado por Mário Curcio. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar com textos enviados para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História: Ronnie Von vai a Santo Amaro

 

Ronnie Von era garotão, nascido e vivido no Rio, quando foi convidado para visitar a casa de Nilton Travesso, em São Paulo. Era fácil chegar lá. Bastava pegar um táxi no aeroporto de Congonhas, ir até a avenida Santo Amaro e entrar no segundo farol à direita. A primeira surpresa foi saber que o nome do santo batizava uma estrada, uma rua e uma avenida – havia um bairro, também. Pediu para ir na mais famosa e teve sorte, aquele era o caminho. Procurou o farol e não encontrou nenhum. Ao fim da avenida, ouviu do motorista: “Terminou aqui, onde o senhor quer descer”. Foi quando descobriu que o farol paulistano era o semáforo no Rio.

Esta foi uma das muitas histórias de São Paulo contada pelo cantor, compositor, publicitário e apresentador de Tv Ronnie Von no programa que abriu a série em homenagem aos 457 anos da capital paulista. A entrevista, ao vivo, no CBN SP foi marcada por momentos de emoção, ao menos para este jornalista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Ronnie Von

Nesta semana, personagens e personalidades serão convidados do Conte Sua História de São Paulo – 457 anos. Você também pode participar do progama que vai ao ar, tradicionalmente, aos sábados, às 10 e meia da manhã. Envie seu texto ou marque uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Saudades de Santo Amaro

 

Agenor Borba Junior nasceu em 1939 no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Em texto enviado para o Conte Sua História de São Paulo, através do Museu da Pessoa, em março de 2010, ele fala de momentos inesquecíveis da vida passada no bairro.

Ouça a história de Agenor Borba Junior sonorizada por Cláudio Antônio

Eu, Agenor Borba Junior, conhecido por todos como Nonô, gostaria de contar algumas passagens da minha infância em Santo Amaro, lugar onde nasci, em 1939.
Tinha eu mais ou menos 7 anos de idade, meus pais me levavam para ver a festa do Divino, no Largo 13 de Maio. Era uma festa muito bonita, com muitas barracas e muita gente que vinha dos povoados vizinhos.

No mês de junho tinha muitas festas nas casas, erguiam o mastro em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro, tinha fogueira, soltavam balões e muitos fogos, era muito alegre. Cheguei até ver carros de boi trazendo lenha para o meu vizinho.

Estudei no grupo escolar Paulo Eiró, onde fiz até o 4º ano do primário. Aos 12 anos de idade já comecei a ter meus amigos, como dizia antigamente “minha turma”.

E que turma! Na rua Anchieta, esquina com a rua Santo Antônio, onde eu nasci, tinha muitas árvores dos dois lados da rua. Nós subíamos nas árvores esperando a boiada passar e, quando estava no meio da boiada, com um galho da árvore nós espantávamos os bois, até que um ou dois bois se assustavam e saíam correndo pelas ruas. O boiadeiro ia logo atrás do boi fujão, laçava e amarrava as patas até que um caminhão viesse buscar, às vezes, no dia seguinte.

Aí era a parte mais gostosa da brincadeira: passando algumas horas, lá estávamos nós para desatar as amarras das patas do boi, ele levantava e saía correndo pelas ruas, chegava até o Largo 13 de Maio assustando a todos. Era a farra do boi.

Na avenida João Dias, próximo ao Mercado Velho, existia uma chácara de verduras, onde entrei correndo para pegar um balão que estava caindo. Estava olhando para cima quando caí num poço com água, me molhando todo, levando um baita susto.

Em Santo Amaro tinha dois cinemas: São Francisco e Cine Mar. Todos os domingos nós íamos assistir a matinê. Quando terminava o filme, eu e meus amigos íamos para a Rua Direita passear e ver a banda de música tocar no coreto do jardim. Esse era o nosso domingo…

Na avenida João Dias morava o famoso escultor e escritor Julio Guerra, que na época estava fazendo no quintal de sua casa a estátua do Borba Gato.
Por eu ser de uma família tradicional de Santo Amaro e o Julio Guerra ser muito amigo de meus pais, ele me deu um quadro do Mercado Velho de Santo Amaro pintado por ele em 1928, que guardo com muito carinho.

O bonde que vinha da Praça João Mendes até o Largo do Socorro era nossa diversão. Na porta de trás do bonde ficava uma pessoa para abrir e fechar a porta, quando essa pessoa faltava, era eu que estava lá, abrindo e fechando a porta. Às vezes, antes de o bonde parar, eu abria a porta, o bonde dava um tranco e um estouro. Levava uma bronca do motorneiro.

Todos os anos saíam de Santo Amaro duas romarias a Pirapora, com muitos cavaleiros, charretes e ônibus. Uma era do Cinerino, que tinha um armazém. Na calçada, havia uma argola no chão para amarrar os cavalos dos donos que vinham fazer compras.
A outra romaria era do Vereador José Oliveira de Almeida Diniz, conhecido na época como Zé da Farmácia, pai do Zezito, grande amigo meu. Nós íamos amansar os cavalos que vinham das olarias para levar na romaria, isso era no Varjão onde hoje é a Marginal do Rio Pinheiros.

Dos 13 aos 14 anos formamos um time de futebol num pequeno campinho da rua Anchieta, e demos o nome de Anchieta. Tinha bons jogadores, mas quem se destacava mais eram Irineu, Maloquinha e o Rivelino, que na época começou a jogar no Banespa Futebol de Salão.

Saí com eles várias vezes, no carro do Rivelino, um fusquinha, para ver o “Palmeirinha” jogar, um grande time na época, onde jogavam bons jogadores, inclusive José Maria Marim, que foi Governador de São Paulo.

Você também pode participar do Conte Sua História de São Paulo, enviando seu texto ou gravando seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História de São Paulo: Carta dos Fernandes

 

No Conte Sua Historia de São Paulo, o texto escrito em carta por Rogélio Fernandez enviado de Fortaleza, onde mora atualmente, para a sobrinha Luciana Fernandez, ouvinte-internauta do CBN SP:

Ouça o texto “Carta dos Fernandes” sonorizado por Cláudio Antônio

Os Fernandes moravam a cem metros do Rio Pinheiros – falo do natural, de margens serpeantes de águas claras, muito peixe e ingazeiros nas duas margens.

A casa era de alvenaria, com uma cozinha de zinco e um enorme fogão de lenha que a molecada, nos dias de chuva, se empoleirava para se esquentar do frio e comer bolinhos de chuva que a dona Letícia se cansava de fazer e não vencia a voracidade de cinco meninos e duas meninas. Era situada na Rua Visconde de Taunay, nº 39, no bairro de Santo Amaro.

O patriarca Rogério foi pai de doze rebentos, três dos quais morreram nos primeiros anos de vida e de dos quais pouco se falaram, até porque, a cada dois anos nascia de parto normal, com a ajuda da avó paterna, sete robustos pimpolhos. Dita casa não tinha forma geométrica definida, seria algo como octaedra ou poliédrica. Fato é que, à medida que a família aumentava, e isso ocorria de maneira geométrica, construía-se mais um cômodo. O narrador pertence a esta ninhada e é exatamente o quinto, de cima para baixo e de baixo para cima.

O terreno era enorme (se não me engano tinha 20 de frente por 45 metros de fundo), que meu avô materno Tizziano-Giovani, nascido em Legnano, Norte da Itália, cultivava com muito carinho frutas e hortaliças.

A vizinhança era parca mas a natureza era pródiga ao redor. Além da chácara dos Matarazzo, com ruas de jabuticabeiras, ruas de caquis, quadras de uvas, quadras de abacaxis que faziam fundo com nosso terreno, havia por todos os lados que se olhasse mata com goiabeiras, gabirobeiras, araçazeiros. A molecada se fartava de comer fruta da natureza ou as cultivadas que, quando não dadas, eram velozmente surrupiadas por debaixo da cerca de arame farpado.

Os vizinhos, contava-se nos dedos de uma mão: seu Henrique, caseiro da chácara dos Matarazzo; em frente dele, seu Fernando, dono da vacaria, também num terreno enorme do milionário número de um São Paulo que, àquela época que vendia leite em litros; mais abaixo, próximo ao rio, o Giardello, oriundo da Calábria, conhecido com tripeiro, que, além de vender tripas que matadouro dava de graça, promovia barulhentas tarantelas com sua sanfona de oito baixos; depois do rio, seu Roque balseiro, que atravessava as pessoas de barco ou, quando os raros veículos que naquele tempo por ali navegavam, fazia-o com a balsa, manejando os cabos de aço que atravessavam o rio; mais abaixo do rio ainda, na chácara de flores dos Dierberger, morava seu Arthur Schenor, marido de dona Nena, que freqüentávamos todos os finais de semana para andar de carroça e comer centenas de morangos que lá se cultivava às pampas.

Nem tudo era bonança, porém. Nossa casa era de telha vã e nas muitas noites de chuva a garotada tinha que cobrir o rosto com a colcha para não ficar respingada. De qualquer sorte, aquele pedaço da Vila de Santo Amaro, naquele tempo, era um paraíso: lagoas de chuva, lagoas perenes (como a do fundão), várzeas enormes e matas para se catar lenha que abastecia o fogão.

Mesmo com as dificuldades próprias de família pobre, do essencial nada nos faltava. Meu pai comprava tudo de saco de 60 quilos: farinha de trigo para fazer pão em casa, batatinha, feijão, arroz, açúcar, manta de carne seca e até bacalhau inteiro que se pendurava na porta do armazém. Afinal era tempo de segunda guerra mundial e todos os gêneros alimentícios eram racionados. Além disso, minha mãe criava galinha, pato, cabra e vaca de leite para reforçar a merenda dos muitos marmanjos, parentes e aderentes, que aportavam diariamente em casa para comer.

Fortaleza, 09 de Abril de 2008.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. E agora está em nova fase (leia o post)

Conte Sua História: Lembrança de Santo Amaro

 

Por José Roberto Leone
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de José Roberto Leone com sonorização do Cláudio Antônio

Nascido em São Paulo. Sou de 1946. Muitos dessa época devem se lembrar do respeito aos mais velhos, às instituição. Lembram das boas escolas públicas e dos professores dedicados e competentes.

Estudei no Grupo Escolar Paulo Eiró e no Instituto de Educação Professor Alberto Conte, na época considerado o melhor colégio estadual do Brasil. Os dois ficam bem no centro de Santo Amaro.

O Paulo Eiró teve seu prédio, uma verdadeira relíquia dos santamerenses, derrubado na gestão Paulo Maluf, e seu espaço ocupado por um camelódromo. Em lugar do murmurio dos alunos na hora do recreio, na entrada e saída das aulas, ganhou-se o mau cheiro, a imundície e um barulho de poucas referências.

Do Alberto Conte restou pouco daquele que conheci. Parece um galinheiro, frequentado por alunos da região.

Sinto saudade do bondinho que nos transportava para bairros próximos, como Brooklin, Piraquara, e Campo Belo. As pessoas tinham aspecto diferente, eram habitantes de um país civilizado, com todos seus problemas, é lógico. Mas naquela época eram felizes, sim.

A gente podia andar sem medo pelas ruas, frequentar festinhas e ao chegar à noite em casa, encontrar a porta da sala “encostada com uma cadeira”. As crianças podiam ir à padaria, no empório, brincar no parque infantil sem qualquer risco. Uma das diversões mais esperadas era a aguardar a boiada que chegava de trem, acompanhadas pelos boiadeiros através do bairro até o matadouro local. Era uma festa quando um animal se desgarrava do grupo e promovia um verdadeiro show.

Com o passar do tempo, já quase adolescente, trabalhando e indo a todos os lugares da cidade como office boy, me encantava todos os dias com as coisas mais simples, como cartazes de filmes dos cinemas do centro, as belas vendedoras do Mappin , da Mesbla, aquela das Lojas Americanas (aquelas sim, exemplo de beleza natural e educação). Não essas que nos atendem mal, que usam tatuagem, piercings e todo tipo de maquiagem de péssimo gosto, além da natural deselegância.

Lembranças, apenas lembranças, de uma época que, tenho certeza, vai ficar na saudade.



Participe do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar, sábado, às 10h30, no CBN SP

Conte Sua Historia: O penico

Ouça o texto de Suely Aparecida Schraner

A Loja das Folias era mesmo uma folia. As coisas, empilhadas no chão de
cimento, encerado com vermelhão e em cima de plásticos, que prateleira não
tinha não. Tinha de um tudo: roupas, panelas, cordas, lampiões, redes,
pratos, talheres e, penicos.  Competia às vendedoras meninas moças,
acompanhar o cliente e ajudá-lo a carregar a compra até o setor de pacotes.
Ah, trabalhar no pacote, o objeto de desejo de todas elas. Era o lugar mais
limpo e discreto. E ninguém tinha que andar pela loja segurando um penico
pela alça.

A rotina: no alvorecer, levar as duas pilhas de penicos (uma esmaltada e a
outra de alumínio) e deixar na frente da loja, em destaque. Como ninguém
gostava e dava vergonha, esta tarefa era feita por sorteio. Cada dia da
semana, uma garota ‘sortuda’, bem cedo, ao alvorecer, tinha que levar as
pilhas e postar na entrada da loja. Na boca da noite, ao escurecer, a
obrigação era recolher os bispotes para o interior da loja. Fim do
expediente que era das 7h as 19h.(E hoje em dia, ainda falam em crise…).

Ano 1965,a Loja das Folias, funcionava na Barão de Duprat em Santo Amaro.
Em frente, ficava o ponto final do ônibus Pedreira. Ela era a balconista
mais jovem. Tinha 15 anos, pagava I.A.P.I. e ganhava metade do salário
mínimo. Assim era a lei, que ECA não tinha não.

Naquele dia, trajava saia justa vermelha, blusa branca de  jabot (voltou a
moda)  e usava delicada sandália, com saltinho de metal. Tac-tac-tac.Num
átimo, era só pegar a pilha de urinóis e entrar correndo antes de alguém
ver. Num átimo a estratégia falhou. Escorregou. Caiu de bunda. Na queda, seu
pé esbarrou nas pilhas e lá se foi penico pra tudo quanto é lado. Bem no
meio da rua. O som dos penicos rolando no asfalto doeu na alma. Ninguém
podia saber que se faz isso naquilo.  Seu Geraldo, o gerente, gritando: “Vai
lá logo recolher os urinóis, menina!Os carros buzinando sem parar.

De relance ela visualizou a fila inteira do ônibus Pedreira, com seus
paqueras habituais, rindo desbragadamente. Prostrada estava, prostrada
ficou. Queria que o chão se abrisse e a tragasse como naquele acidente do
metrô há pouco tempo. Que Deus a perdoe.

Foi correndo chorar no banheiro.  Benedito, o menino laçador e que ficava
na frente da loja, cuidando  pra ninguém roubar, é quem teve que catar a
penicada sob risos gerais.

Do banheiro ela não queria sair nunca mais. Já que o chão não se abriu,
melhor era morrer de vergonha na privada. Os gritos do Seu Geraldo nem mais
a incomodavam. Depois de muito insistirem e na certeza que a fila do ônibus
já tinha entrado, ela deixa seu sonho de um dia ser promovida ao ‘setor de
pacotes’. Saiu de fininho.
No breu da noite alguém ainda comentou: ‘Foi aquela ali que derrubou os
penicos’.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. E você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br