Conte Sua História de São Paulo: Carta dos Fernandes

 

No Conte Sua Historia de São Paulo, o texto escrito em carta por Rogélio Fernandez enviado de Fortaleza, onde mora atualmente, para a sobrinha Luciana Fernandez, ouvinte-internauta do CBN SP:

Ouça o texto “Carta dos Fernandes” sonorizado por Cláudio Antônio

Os Fernandes moravam a cem metros do Rio Pinheiros – falo do natural, de margens serpeantes de águas claras, muito peixe e ingazeiros nas duas margens.

A casa era de alvenaria, com uma cozinha de zinco e um enorme fogão de lenha que a molecada, nos dias de chuva, se empoleirava para se esquentar do frio e comer bolinhos de chuva que a dona Letícia se cansava de fazer e não vencia a voracidade de cinco meninos e duas meninas. Era situada na Rua Visconde de Taunay, nº 39, no bairro de Santo Amaro.

O patriarca Rogério foi pai de doze rebentos, três dos quais morreram nos primeiros anos de vida e de dos quais pouco se falaram, até porque, a cada dois anos nascia de parto normal, com a ajuda da avó paterna, sete robustos pimpolhos. Dita casa não tinha forma geométrica definida, seria algo como octaedra ou poliédrica. Fato é que, à medida que a família aumentava, e isso ocorria de maneira geométrica, construía-se mais um cômodo. O narrador pertence a esta ninhada e é exatamente o quinto, de cima para baixo e de baixo para cima.

O terreno era enorme (se não me engano tinha 20 de frente por 45 metros de fundo), que meu avô materno Tizziano-Giovani, nascido em Legnano, Norte da Itália, cultivava com muito carinho frutas e hortaliças.

A vizinhança era parca mas a natureza era pródiga ao redor. Além da chácara dos Matarazzo, com ruas de jabuticabeiras, ruas de caquis, quadras de uvas, quadras de abacaxis que faziam fundo com nosso terreno, havia por todos os lados que se olhasse mata com goiabeiras, gabirobeiras, araçazeiros. A molecada se fartava de comer fruta da natureza ou as cultivadas que, quando não dadas, eram velozmente surrupiadas por debaixo da cerca de arame farpado.

Os vizinhos, contava-se nos dedos de uma mão: seu Henrique, caseiro da chácara dos Matarazzo; em frente dele, seu Fernando, dono da vacaria, também num terreno enorme do milionário número de um São Paulo que, àquela época que vendia leite em litros; mais abaixo, próximo ao rio, o Giardello, oriundo da Calábria, conhecido com tripeiro, que, além de vender tripas que matadouro dava de graça, promovia barulhentas tarantelas com sua sanfona de oito baixos; depois do rio, seu Roque balseiro, que atravessava as pessoas de barco ou, quando os raros veículos que naquele tempo por ali navegavam, fazia-o com a balsa, manejando os cabos de aço que atravessavam o rio; mais abaixo do rio ainda, na chácara de flores dos Dierberger, morava seu Arthur Schenor, marido de dona Nena, que freqüentávamos todos os finais de semana para andar de carroça e comer centenas de morangos que lá se cultivava às pampas.

Nem tudo era bonança, porém. Nossa casa era de telha vã e nas muitas noites de chuva a garotada tinha que cobrir o rosto com a colcha para não ficar respingada. De qualquer sorte, aquele pedaço da Vila de Santo Amaro, naquele tempo, era um paraíso: lagoas de chuva, lagoas perenes (como a do fundão), várzeas enormes e matas para se catar lenha que abastecia o fogão.

Mesmo com as dificuldades próprias de família pobre, do essencial nada nos faltava. Meu pai comprava tudo de saco de 60 quilos: farinha de trigo para fazer pão em casa, batatinha, feijão, arroz, açúcar, manta de carne seca e até bacalhau inteiro que se pendurava na porta do armazém. Afinal era tempo de segunda guerra mundial e todos os gêneros alimentícios eram racionados. Além disso, minha mãe criava galinha, pato, cabra e vaca de leite para reforçar a merenda dos muitos marmanjos, parentes e aderentes, que aportavam diariamente em casa para comer.

Fortaleza, 09 de Abril de 2008.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. E agora está em nova fase (leia o post)

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