Conte Sua História de São Paulo: os livros que comprei no Largo São Bento

 

Por Lilian Contreira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Morava no bairro do Aeroporto, em Congonhas. Meu avô me levava, aos domingos, para ver os aviões decolarem. Era incrível! O saguão de Congonhas era inesquecível. Bons tempos em que uma criança ficava maravilhada apenas com o levantar e o pousar de um avião – nem percebíamos que naquela época o Brasil vivia sob uma ditadura. O que só fui entender tempos mais tarde quando trabalhei com o professor Paulo Freire já aos 20 e poucos anos.

 

Nós brincávamos na rua, sem violência, sem medo. As casas não tinham muros nem portões. Os vizinhos eram amigos. Faziam bolo e traziam um pedaço para nós. Minha avó fazia pão e levava um pedaço para eles. A minha rua não tinha saída, terminava em uma descida, na Avenida dos Bandeirantes. Os meninos faziam carrinhos de rolimã e, às vezes, um trenzinho de rolimã, era o auge da alegria…

 

Meu avô era barbeiro, de Sevilha. José Maria, de quem herdei o nome Contreira, era imigrante espanhol e chegou com o único bem que possuía: as próprias botas. Tinha uma barbearia no Largo São Bento. Minha avó, de Granada, pessoa mais doce não havia nesse mundo. Tiveram seis filhos, doze netos, muitos bisnetos… da minha avó herdei o gosto pela Espanha: a cultura, a língua – hoje sou professora de espanhol – e pela cozinha. 

 

Lembro-me que o cúmulo da felicidade para mim era quando a escola pedia um livro e o meu avó – cresci com meus avós paternos – me levava para comprá-lo na Saraiva do Largo São Bento. Era para mim – que sempre gostei de ler – o máximo de alegria que alguém poderia ter. Além de comprar os livros pedidos pela escola, ele me permitia escolher um outro por puro gosto. Eu ficava exultante, como em Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, andava aos saltos pelas ruas do Centro. E antes de voltar para casa, ainda saboreava um café com pastel no Café Girondino na companhia do meu avô.

 

 
Lilian Contreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: passou por minha lente

 

Por Marcos Falcon

 

 

 
Ocupado que estou em criar o site e o portfólio da empresa onde hoje trabalho, acabei envolvendo-me ainda mais com a Cidade de São Paulo. Após várias seções de “brainstorming” concluímos que deveríamos associar a comunicação visual de nossa empresa, que acaba de completar 50 anos, à imagem da Cidade. Um de nossos colaboradores colocou em pauta que a arquitetura de uma cidade é um de seus maiores valores históricos e sugeriu que a evolução arquitetônica de São Paulo fosse a linha mestra da comunicação de nossas peças de divulgação mercadológica. A idéia foi aceita de imediato sem restrições e a partir desse momento saímos a escolher as imagem que ilustrariam  esses veículos.

 

Não tive dúvidas e passei a andar diariamente com minha máquina fotográfica, minha entre aspas, da minha esposa a tira colo e registrar tudo que julgava belo no Centro Velho. Quanta beleza e quanta história eu vi. Encontrei locais onde convivem prédios do século 19 de Ramos de Azevedo com prédios ainda contemporâneos das décadas de 70 e 80, e a arquitetura futurista.

 

Fotografei por vários ângulos a Faculdade de Direito do Largo São Francisco com seus lindos arcos e vitrais maravilhosos. Também estiveram no foco de minha lente a Escola Técnica Álvares Penteado, o prédio do Palácio da Justiça e o Tribunal de Justiça.

 

Vi a obra prima da estrutura em aço com o qual fora forjado o Viaduto Santa Efigênia ligando o presente a visão de futuro de nossa cidade. Pude contemplar ali da São João com o Vale a vista do magnífico Edifício Martinelli em contraste com o cartão postal do Prédio do Banespa “agora Santander” (o banco mudou de nome, porém o prédio será sempre do Banespa).

 

Vi a esquina da São Bento com a Patriarca, onde um edifício de mais de um século contrasta com o imponente prédio do Unibanco, ou será do Itaú, na esquina com a Rua Direita.

 

Vi a Catedral, cujas pedras meu avô paterno Manoel Vilanueva Falcon talhou nas pedreiras de Itaquera. Meus olhos brilhavam e minha lente registrava a beleza do Pátio do Colégio onde a história teve início.

 

Também vi muita gente no chão, cheirando a urina e vivendo como animais abandonados.

 

Eu vi São Paulo. 
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade. Marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net ou mande um texto para mim: milton@cbn.com.br.
 

Conte Sua História de SP: a revolução nas minhas aulas de taquigrafia

 

Por Neide de Souza Praça
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Há algumas semanas ouvi de uma participante deste quadro que, em 1968, ela presenciou as manifestações estudantis que dominaram o país naquele período. Ao contrário dela, não tive a oportunidade de ver o presidente da UNE, mas também tenho recordações daquele tempo.

 

Nasci em São Paulo na década de 1950. Em 1968, cursava o quarto ano do ginásio (atual oitava série do ensino fundamental), e morava em Itaquera, bairro do subúrbio do município de São Paulo. Na época, o bairro era servido por trens da Central do Brasil, que precedeu a CPTM. Eram trens que, partindo da estação Roosevelt, no bairro do Brás, chegavam à cidade de Mogi das Cruzes. Itaquera ficava no meio deste trajeto, a trinta minutos do Brás. Outro meio de transporte eram os ônibus que ligavam o subúrbio ao centro da cidade transitando pela Avenida Celso Garcia, como rota principal, já congestionada. Os carros ainda eram bens de poucos.

 

Com o propósito de me preparar para o futuro, frequentava o ginásio pela manhã, no mesmo bairro onde residia, e às terças e quintas-feiras, juntamente com uma colega, fazia um curso de taquigrafia, cuja escola situava-se à Rua Riachuelo, no centro da cidade. Para chegarmos até ela, íamos de trem até o Brás, e depois pegávamos um ônibus até a região central, num percurso total de aproximadamente uma hora e meia. A Rua Riachuelo se localiza exatamente atrás da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. As aulas terminavam em torno de cinco da tarde, horário difícil para o retorno à Itaquera. Na época, meu pai era motorista em uma empresa que permitia que ele levasse para casa o carro que dirigia, de modo a facilitar seu acesso. Só que seu dia de trabalho se encerrava às sete da noite. Portanto, às terças e quintas, eu e minha colega esperávamos por ele para nos levar para casa. No intervalo entre o final da aula e a “carona”, passeávamos pelo centro da cidade visitando as lojas da Rua Direita, Rua José Bonifácio, Rua São Bento. Toda semana, calmamente, olhávamos as mesmas vitrines até que meu pai nos pegava em um determinado ponto na Rua Boa Vista.

 

Quando nosso curso de taquigrafia estava próximo do final, começaram as manifestações. Estávamos em sala de aula e ouvíamos os estrondos das bombas disparadas pelos militares contra os estudantes que se reuniam no Largo São Francisco. Os estrondos eram tão altos que pareciam que ocorriam na sala ao lado. O medo tomava conta dos alunos que teriam de sair às ruas após o término da aula, correndo o risco de se ver em meio ao tumulto. O que fazer para esperar pela carona de meu pai, por duas horas, em um clima tão hostil?

 

Tínhamos conhecimento do que estava ocorrendo, porém, ainda adolescentes, não dimensionávamos a situação. Ao sair às ruas, por várias vezes nos deparávamos com jovens correndo em várias direções e quase sempre havia muita fumaça. Não me lembro se as lojas fechavam as portas, provavelmente sim, mas não seriam lugar seguro.
Neste contexto, quando a aula terminava, eu e minha colega, rapidamente nos esgueirávamos pelas ruas menos tumultuadas e nos escondíamos no local que nos parecia o mais apropriado, pois o julgávamos livre de invasão: a Igreja de São Bento, no Largo São Bento, próximo à Rua Boa Vista onde às 19 horas meu pai nos apanharia.
Lembro-me que o interior da igreja era escuro, silencioso e sombrio, mas nos fazia sentir seguras. Ficávamos lá, de onde, por vezes, ouvíamos gritos e estrondos pelas ruas da região. Quando os grupos eram dispersos, saíamos de nosso refúgio, embora temêssemos ser abordadas pelos militares, ou cair no meio de novo conflito, que a cada semana se intensificava. Quando escurecia, o medo era ainda maior. Enfim, o curso terminou e voltamos ao nosso cotidiano em Itaquera, distantes das manifestações.
Foi dessa maneira que conheci a Igreja de São Bento. Hoje sei que ela é um marco da história da cidade.

 

O curso de taquigrafia valeu para eu captar com maior rapidez o conteúdo dos cursos que frequentei, mas por outro lado, me levou a ser um ator daquele momento histórico inesquecível do país.

 

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: o Sargento salvou meu casamento

 

Por Bernadete Areias Borges
Ouvinte-internauta

 

Mosteiro de São Bento

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio, no Jornal da CBN

 

Rodrigo e eu marcamos nosso casamento no Mosteiro de São Bento, centro da cidade, para o dia 17 de janeiro de 2004. A escolha do local foi feita depois de termos rodado São Paulo inteira a procura de alguma igreja diferente de todas que já tínhamos ido. Visitamos a Capela da PUC, mas era pequena para os 300 convidados. A Catedral da Sé, mas era grande demais… Enfim, decidimos com um ano e meio de antecedência que o Mosteiro de São Bento seria a igreja ideal. Durante este período, nos aproximamos dos monges e aprendemos a apreciar ainda mais as belezas do Mosteiro. As exigências foram cada vez mais fazendo sentido. Eram proibidas velas para não estragar as madeiras, flores grandes para não diminuir a beleza … Tivemos muita dificuldade de contratar um coral que não tivesse voz feminina, pois mulheres não poderiam passar pela clausura, acesso até o lugar das vozes.

 

Tudo estava perfeito, atendendo nossos sonhos e respeitando a importância do Mosteiro de São Bento, até que recebi uma ligação do meu avô Roberto. Paulistano de 80 anos, aposentado do Jockey Club de São Paulo, conhecia o Centro de São Paulo como ninguém e foi ele quem me alertou: – “Você está sabendo que haverá uma caminhada pelo Centro Histórico de São Paulo para comemorar os 450 anos da cidade no dia do seu casamento?”.  Pronto, já não sentia mais minhas pernas e meus sonhos tinham desabado!

 

 
Procurei mais informações e descobri que todo o Centro seria fechado para carros e a caminhada passaria pelo Mosteiro de São Bento por volta das cinco horas da tarde. Meu casamento estava marcado para as seis, impreterivelmente, após as 18 badaladas dos sinos da Igreja. Falei com todas as secretarias envolvidas, prefeitura, DSV, até que descobri uma Base da Polícia Militar em frente ao Mosteiro. Liguei, expliquei para um Sargento minha situação e ele, provando de que ainda existe gente boa neste mundo, de a solução. Uma vez que os acessos estariam fechados, pediu que eu comunicasse a todos meus convidados que viessem pela Rua Florêncio de Abreu e subissem a ladeira lateral ao Mosteiro (que é contramão e tem trânsito proibido), pois haveria um acesso permitido apenas aos convidados do casamento.

 

 
Claro que não acreditei que isso funcionaria, mas como não havia nenhuma outra opção, fizemos as comunicações devidas  e começamos a rezar para São Bento. A semana foi longa, mas a espera foi compensada: ao seguir as instruções, passei pela caminhada como alguém famosa, com toda a pompa dentro de um Rolls Royce (que pertenceu a Getúlio Vargas), sendo fotografada por todas pessoas que estavam admirando e prestigiando a mais linda das cidades brasileiras, São Paulo. Ao chegar no Largo São Bento, quem veio me receber? Ele, o Sargento. Mesmo estando de folga fez questão de organizar a chegada dos convidados e me dar todo suporte para o grande dia. Batedores da Polícia Militar escoltaram meu carro, que ficou parado em um isolamento da PM até a entrada na Igreja. Infelizmente – seja pelo nervosismo seja pela emoção – não me lembro do nome do Sargento que tanto me ajudou, mas é a ele que dedico minha homenagem à São Paulo.

 

Bernadete Areias Borges é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br e comemore conosco os 459 anos de São Paulo.