Conte Sua História de São Paulo: quando cheguei de Angola ainda tinha garoa

 

Por Matilde Alexandrina Silveira Cristiano Moniz
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei em São Paulo, em 14 de dezembro de 1982, de uma pequenina cidade, no litoral de Angola. Na época, com apenas 17 anos e meio, desembarquei no aeroporto de Viracopos. Estava acompanhada de um irmão, um ano mais velho e, juntos, fomos para a Vila Mariana, morar com duas tias, irmãs da minha mãe.

 

Na bagagem, um mundo de expectativas, sonhos e medos.Deixávamos para trás, nossos pais, uma irmã mais velha, amigos, animais de estimação, histórias da infância.

 

Na época, São Paulo ainda era da garoa. Lembro-me bem da minha decepção ao constatar que, em pleno verão, tínhamos dias frios, cinzentos e com uma constante chuvinha. Eram dias tristes e me deixavam ainda com mais saudade da família. Mas esse era apenas um detalhe.

 

Deparei com uma cidade grande, desajeitada, porém com um enorme e acolhedor coração, que recebia com carinho e compaixão todos que aqui queriam prosperar — nordestinos, sulistas, nortistas, brancos, negros, asiáticos… e a todos oferecia inúmeras oportunidades.

 

Em São Paulo reconstrui minha vida e fui atrás dos meus sonhos: casei, estudei, trabalhei e tive filhos. Aqui, vivi momentos de alegria e tristeza. Porém, cada tijolo dessa reconstrução aumentou e fortaleceu meu encantamento e paixão pela metrópole.

 

Hoje me pergunto qual região elegeria como símbolo da cidade e chego à conclusão que seria, sem dúvida, a da Avenida Paulista, pelo significado que tem para mim, por sua presença constante em minha vida. Na Paulista, trabalhei por 23 anos, conheci meu marido e companheiro de jornada, nasceram e estudaram meus filhos, até a conclusão do ensino médio. E sempre acompanhei as grandes mudanças que nela aconteceram: da avenida glamorosa, das décadas de 1980 e 1990, à avenida das grandes manifestações e de lazer, dos dias de hoje. A Paulista é, para mim, a cara de São Paulo.

 

Matilde Alexandrina Silveira Cristiano Moniz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

O que não tem remédio, remediado está

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Depois de escrever inúmeros textos em diversas versões do Windows, fui obrigado a passar para o número 10. A Microsoft me deu um ultimato: ou usava a novidade ou os computadores aqui de casa estariam superados e, portanto, tão inúteis quanto as romãs que nasciam atrás do muro dos fundos da casa paterna,isto é, as que roubávamos do vizinho e não tínhamos como saboreá-las:não prestavam para comer. Minha avó,em um caso como o que estou vivendo,prontamente dizia:meu neto,o que não tem remédio,remediado está. Já me dei conta de que este é um caso que não tem remédio. Então…remediado está. O diabo é que o primeiro texto que comecei a escrever para o blog desta quinta-feira,envergonhado por deixar passar uma semana sem dar o ar da minha graça para o Mílton, era,ao mesmo tempo,o primeiro texto que brotaria do Windows 10. Estava chegando à segunda parte quando,ao tentar corrigir uma batida errada no teclado do meu HP e o que eu já escrevera desapareceu como em um passe de mágica do tipo daquele que eu assistia no circo comandado pelo Orlando Orfei,que lembro com saudade.

 

Saudade estou sentindo,igualmente,dos Windows anteriores a este que me obrigaram a utilizar. Não reparem os leitores,se é que tenho algum,para a súbita diminuição das letras. Não encontrei onde as ampliar em nenhum lugar,mesmo depois de ter lido as instruções ou sei lá como chamam o que fica acima do texto. Peço aos deuses dos escritores para que me mantenha escrevendo. Não sei se esses deuses piscam os olhos ou,o que seria bem melhor,fechem completamente os olhos e façam de conta que não viram a minha falha. E ainda pedindo o auxílio dos deuses para que os erros deste vivente sejam desculpados,passo para assuntos imensamente mais sérios.

 

Por falar em seriedade,a dor que sentirá pelo resto de sua vida com a trágica morte do seu jovem filho,agredido que foi por 14 bandidos,4 deles menores de idade. Lembro,se é que nem todos conhecem a triste história,que o pai do menino,que temia festas longe da casa paterna,foi,como era o seu hábito,buscar o garoto ao final da festa. Não adiantou. Os facínoras, só a muito custo foram espantados,não antes de quebrar uma garrafa na cabeça do menino que já estava sentado no carro do pai. Roney Wilson chora e me levou a chorar também,ao dizer aos repórteres que perdeu o seu compnheiro,o seu guardião, culpando-se por não ter conseguido ajudá-lo. O jovem chegou a ser trazido para Porto Alegre,mas não resistiu ao ferimento. No Dia dos Pais,também em Charqueadas,presos fizeram reféns 112 familiares. Por falar no local onde ficou ferido de morte o filho de Roney,o policiamento é precário:um PM pela manhã,outro à noite.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está na disputa, sim senhor!

 

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Grêmio 2 x 1 Atlético PR
Brasileiro – Arena Grêmio

A Arena era destaque na Porto Alegre que via lá da janela do avião, assim que partimos da cidade. Até pouco antes, enquanto aguardava a decolagem, assistia ao jogo na tela do meu celular, que se parecia minúscula diante do futebol que jogávamos contra o líder do campeonato.

 

Marcação na saída de bola, pressão no meio de campo e defesa firme se uniam a velocidade na troca de passe e deslocamentos pelos lados com a entrada em diagonal na área. Chegávamos à linha de fundo e de lá disparávamos cruzamento ou passes para quem viesse de trás, conforme a conveniência.

 

Foi em uma dessas investidas, com bola aberta pela direita, boa condução até a proximidade da área e cruzamento forte e rasteiro para o meio que saiu o primeiro gol, de Giuliano, e único que consegui assistir dos três marcados na partida desse domingo à tarde.

 

Por força dos compromissos, e algo que o destino insiste em fazer comigo, afastar-me da Arena em dias de jogos, precisei deixar a capital gaúcha em meio a partida. Havia aproveitado muito bem os dias anteriores – cheguei à cidade no fim da tarde da sexta-feira – com a família. Matei a saudade dos irmãos e sobrinhos, colocamos os assuntos em dia, relembramos os bons momentos em que crescemos unidos e sentamos entorno do pai para aproveitar o carinho que ele transpira por todos nós, mesmo quando os filhos defendem restrições para que ele preserve sua saúde.

 

As curtas caminhadas em volta da casa de infância, o cumprimentar dos vizinhos que resistiram às investidas imobiliárias e a visão do estádio Olímpico, que fica logo ali ao lado, sendo colocado à baixo, tijolo por tijolo, ofereceram um ar de nostalgia à visita. Porto Alegre sempre me faz bem, especialmente quando para comemorar conquistas como o aniversário da minha sobrinha Vitória.

 

Quando o avião partiu, fui obrigado a desligar o celular e fiquei com a imagem da Arena na janela. Dali pra frente, tudo ficaria por conta do Grêmio e sua capacidade de suportar a pressão adversária que, inevitavelmente, ocorreria. Somente conseguiria manter contato com o time e saber de seu desempenho quando tudo estivesse decidido. Sem nenhuma condição de secar as investidas contra nossa defesa e menos ainda de torcer por um placar mais tranquilo. Naquela altura, em meio as nuvens, meu desejo é que nada mais acontecesse em campo e de lá saíssemos com os três pontos.

 

O avião acabara de taxiar na chegada a São Paulo quando voltei a ligar o celular e descobri que muitas coisas aconteceram depois daquele gol. E, felizmente, a nosso favor. Mesmo com o empate na cobrança de falta, conseguimos retomar a vitória com uma bola lançada dentro da área e o desvio de cabeça de Rhodolfo. Mais do que isso, se é que fosse necessário, enfrentamos um jogo disputadíssimo e de alto nível. E fomos fortes o suficiente para vencer.

 

O resultado desse domingo contrastou com o do fim de semana anterior. E nos aproximou do que havíamos feito duas rodadas antes. Os altos e baixos na competição se explicam pelo rejuvenescimento do elenco e o amadurecimento do time sob nova direção. Ao contrário do que disseram e li, o Grêmio está sim, na disputa!

 

A foto que ilustra este post é reprodução feita da tela do meu celular

Conte Sua História de SP: pássaros, cheiros e sabores da cidade

 

Por Elisabeth Cury

 

 

Nasci em São Paulo e aqui estou até hoje. São anos e anos!

 

Vou puxar pela memória, buscar acontecimentos. Mas não vou puxar muito, não. Drummond dizia que o que for preciso de esforço para lembrar é que não foi importante.

 

Sei de uma coisa: desde muito cedo me deixei impressionar pelos sentidos. Foi meu jeito de captar o mundo, a vida, esta cidade. Então vai ser fácil.

 

Eu morava na periferia, quando ainda havia trechos de mata – a Atlântica – no caminho para o centro, para a “cidade” como se dizia.. Procurava ver, ouvir, sorver os aromas, saborear, pegar, vendo tudo que podia com minhas próprias mãos. – sentir.

 

Que céu! O ar transparente: de dia, quando havia sol, nuvens espetaculares, sobre azul, com formatos que eu queria sempre associar a bichos, gente, coisas, como fazem as crianças. À noite, estrelas no azul-marinho. Nessa hora, meu pai, que fora pescador marítimo em sua terra, me dava aula de céu – o que era estrela, o que era planeta, constelações e o nosso Cruzeiro do Sul.

 

O cheiro da terra molhada, quando chovia. Delícia! Natureza. Nas trovoadas, minha mãe punha-nos, a mim e a meu irmão, debaixo de uma mesa, embrulhava a tesoura que usava nas costuras em um pano, toda a casa ficava fechada. Ninguém podia fazer nada, até que o mau tempo passasse. Então podíamos sair. Era hora de ver a enxurrada em ruas e terrenos de bairro que principiava.. Era pôr o pé na água, sem ninguém falar às crianças que podia dar leptospirose. Era muito divertido molhar os pés, soltar barquinhos de papel.

 

Revoada de pardais no amanhecer e no entardecer. É que nos fundos do meu quintal havia um riozinho, ainda limpo naquele tempo, e, na beirada, uma touceira de bambu, opulenta. Era dormitório de um sem número de pardais. O dia acordava com uma cantoria inesquecível. À tardinha, eles iam chegando. O movimento deles nessa hora era curioso: não chegavam e iam quietinhos para o abrigo noturno. Não. Em bandos incontáveis, pousavam e logo saíam em revoada, descreviam um círculo e voltavam. Outro bando partia. Assim ia até ir escurecendo e eles se aquietando em seus lugarezinhos.

 

Os parentes que iam em casa – nesse tempo usava-se receber e fazer visitas – desfrutavam desse acontecimento. Era até uma atração turística da minha casa. Além dos pardais, os bem-te-vis, os sabiás, as rolinhas e o arrulho dos pombos da comadre, vizinha, que mantinha um pombal.
Perfumes. Principalmente o de gardênia, que minha mãe chamava de jasmim-do-cabo e que ela conservou em nosso jardim por muito tempo, quase sempre.

 

Sabores: de uva, azedíssima e de mexerica, já que havia nove pés no quintal. Eu só tinha uma pena: eu queria que elas dessem no verão, que eu ia aproveitar mais. Elas ficavam prontas no outono, quando já estava frio.

 

Era a São Paulo da garoa, muitos meses do ano em cinza. Que frio!… Acho que é por isso que eu estou sempre pronta para o inverno, foi meu princípio, foi como conheci o meu lugar no mundo.

 

Saudades dessa São Paulo!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade, escrevendo seu texto e enviando para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: saudade de comer bisnaguinha com Diamante Negro

 

Por Giuseppe Carlo Tudisco

 

Após morar 40 anos na cidade de São Paulo, Zeppa Tudisco foi para Ribeirão Preto, no interior paulista, onde já vive há 12 anos e preserva sua saudade pela capital, como é possível perceber no texto enviado ao Conte Sua História de São Paulo:

 

 

Saudade das luzes azuis fritando as moscas nos bares bem menos freqüentados. Saudade de acabar a madrugada acabado no Sujinho. Dos jantares sociais completos. Dos amigos, sempre amigos e que sempre serão.

 

Saudade de meu pai me ensinando a comer bisnaguinha com diamante negro na padaria. Das cenas noturnas que apaixonam e assustam. Das cenas de cinema que escapavam da tela do Belas Artes e enchiam minha imaginação.

 

Saudade do dia que encontrei meu grande amor. Das horas de amor. Das batatas assadas na lareira. De ver meus filhos nascerem. Daquele cara do algodão doce do Ibirapuera. De minhas mãos soltando a bicicleta para o primeiro grande ato de liberdade independente de meus filhos.

 

Saudade de cada manhã de domingo. De cada gota de garoa que descia pelo vidro da janela. De cada riso, de cada lagrima, de cada espanto, de todo canto. Saudade de meu primeiro emprego, segundo, terceiro, quarto. Saudade do primeiro job.

 

Saudade do momento da nossa decisão de sair de São Paulo. De nossa partida pela estrada. Saudade de cada esquina, de cada encontro, de cada desencontro. Saudade de quase tudo dessa cidade. Cidade onde nasci duas vezes. Cidade que em mim sempre revive. 

 

Eita saudade de São Paulo.
Às vezes te difamo. Mas daqui sempre, sempre, sempre, te amo.

 

Zeppa Tudisco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: envie o texto para milton@cbn.com.br

Com o sapato errado, no lugar errado, mas com a camisa certa

 

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Confesso que foi a camisa do Grêmio, vestida pelo rapaz que faz pose diante da Baia de Guanabara, que primeiro me chamou atenção na reportagem publicada no site da NPR – a rede de rádios públicas dos Estados Unidos, que ouço quase que diariamente pelo aplicativo no meu celular. O interesse tricolor me levou, porém, para uma história bastante curiosa protagonizada pelo estudante Robert Snyder, que faz doutorado em epidemiologia, na Universidade da California, e esteve por seis vezes no Brasil, algumas para se divertir e outras para pesquisar como doenças afetam algumas das comunidades mais pobres.

 

Entrevistado pela jornalista Linda Poon, que relata histórias de vida que mudam o mundo, Snyder lembra do dia em que estava no lugar errado, na hora errada e, descobriu mais tarde, com o sapato errado. Ele conta que foi assaltado por um casal de crianças durante passeio domingo à noite, no Rio de Janeiro, que o ameaçou com uma faca e levou carteira, dinheiro e celular. Foi ao posto de polícia mais próximo, mas pediram para ele atravessar a cidade onde havia uma delegacia especializada em turistas, onde ouviu a recomendação de uma policial que o atendeu: “na próxima vez dá um soco na cara dele”.

 

O que mais impressionou o estudante americano, porém, foi o motivo que o teria tornado alvo dos assaltantes: o calçado. Descobriu que para ter um pouco mais de tranquilidade nos passeios deveria usar as tradicionais sandálias Havaianas em lugar do seu tamanco de plástico Birkenstock: quando você não está vestindo uma Havaiana, especialmente no Rio, as pessoas logo sabem que você não é de lá – disse à repórter. O mais irônico é que ao ser assaltado, Snyder contribuiu para as estatísticas que fazem parte de sua pesquisa, pois violência, assalto e homicídio têm sério impacto sobre a saúde pública de uma comunidade e são motivos de análise no estudo.

 

Apesar do assalto, Snyder dá sinais de que gosta de estar por aqui. Nas favelas em que realiza seu trabalho, aprendeu que estes não são locais homogêneos como costumava pensar à distância, e encontram-se muitas pessoas felizes e orgulhosas da vida que tem: “há uma ideia de capital social, as pessoas se dão muito bem e cuidam uma das outras”.

 

Destaca para a repórter que a palavra que todos que vão para o Brasil devem saber é saudade que não tem uma boa tradução para o inglês mas descreve o sentimento de quem se preocupa com você ou seu país. Brinca ao dizer que dos Estados Unidos tem saudade da manteiga de amendoim que quase não encontra por aqui e quando encontra é muito cara, por isso sempre que retorna para lá faz estoques extras para a viagem.

 

A repórter pede uma recomendação aos turistas que pretendem visitar o Brasil: compre uma Havaiana e você vai ser capaz de se misturar com as pessoas.

 

Pela bela camisa que está vestindo, percebe-se que Snyder está por dentro das boas coisas que o Brasil tem.

 

Leia a reportagem completa no site da NPR

Avalanche Tricolor: para matar a saudade

 

Grêmio 0 x 0 Goiás
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Estava com saudades do Grêmio. Imagino que você, caro e raro leitor gremista deste blog, também estivesse. Depois da overdose de Copa, com seu cerimonial pré-jogo, partidas bem jogadas, arenas lotadas e cenas incríveis registradas por mais de uma dezena de câmeras, não via hora de voltar a realidade do futebol brasileiro. Por estar de férias, cheguei a planejar um retorno em alto estilo, com viagem a Porto Alegre e direito a ingresso para ver o Grêmio, ao vivo, pela primeira vez na Arena. Sim, eu confesso envergonhado: até hoje não consegui chegar perto do nosso novo e bonito estádio. E não foi desta vez, pois intempéries familiares me impediram de viajar. Restava-me repetir a tática das partidas anteriores – ficar sofrendo em frente a televisão – com a vantagem de não ter de acordar de madrugada no dia seguinte, o que me permitiu abrir uma garrafa de vinho e cantarolar enquanto a bola não rolava: “eu sou Borracho, sim senhor/ E bebo todas que vier/ Canto pro meu tricolor/ Meu único amor/ E dale daaaaaaaale Tricolor…

 

Apesar da viagem frustrada, havia outras expectativas para o jogo desta noite de quarta-feira. A começar pela estreia de Giuliano de quem mais ouvi falar do que vi jogar, pois nunca fui de prestar atenção no desempenho da turma lá próxima do Guaíba. Meu pai, que entende de futebol bem mais do que eu e acompanha de perto as coisas que acontecem entre o Humaitá e a Praia de Belas, por telefone, me garantiu que o cara joga bola de verdade e voltou ao Brasil fisicamente mais forte (e parece que feliz pela oportunidade de jogar pela primeira vez em um grande time brasileiro – calma, isso é só uma brincadeira!). Pelo que se percebeu em campo, realmente pode ajudar na campanha deste ano. Além dele, havia algumas trocas de posição, como a presença de Saimon na lateral esquerda, Geromel de titular na zaga, um meio de campo redistribuído e o ataque com esperança renovada. Sem contar o banco mais bem reforçado. Ou seja, Enderson Moreira tinha mais recursos em mãos.

 

Noventa e poucos minutos e uma garrafa de vinho depois, vimos que a frustração não se resumiu a viagem não realizada. Assim como no primeiro semestre do ano, os gols seguem sendo peças raras do nosso lado. E para deixar a coisa ainda mais angustiante, a bolinha que aparece na tevê para anunciar gols nos outros jogos da rodada insistia em saltitar à minha frente para provar que era possível marcar. Nós é que não sabemos como. Justiça seja feita, não faltaram tentativas de gols, com chutes para um lado e para o outro, alguns bem mais para cima do que para os lados. Houve até bola no poste e por cobertura. Nenhuma, porém, fez a gentileza de entrar. Quem entrou bem foi Dudu, esforçado, driblando, tentando cruzar para área, como sempre fez desde que esteve no time. Luan deu sinais de que pode entregar o futebol que promete ter. Barcos segue tentando. E Pará, pintou o cabelo com a mesma tinta de Daniel alves, esta sim a mudança mais visível em relação ao primeiro semestre.

 

De resto, o Grêmio matou a minha saudade (e entenda isso da maneira que bem quiser).

As aulas de direção do guri friorento

Por Milton Ferretti Jung

 

Quinta-feira da semana passada escrevi, neste blog, que a saudade é um sentimento permanente na cabeça das pessoas idosas. Referia-me, especialmente, àquela que sinto das Kombis da Companhia Jornalística Caldas Júnior. Se é que alguém leu o meu texto, ficou sabendo que viajei por várias cidades brasileiras, revezando-me com alguns companheiros da Rádio Guaíba (os possuidores de carteira de motorista) na pilotagem de um desses veículos. Se, antes de escrever sobre Kombi, eu tivesse consultado a Wikipédia, tomaria conhecimento do seu nome completo, no idioma alemão. Sugiro respirar fundo antes de tentar pronunciá-lo: Kombinationsfahrzeug.

 

Volto a tratar, nesta quinta-feira, se me permitem, do tema saudade. Ocorre que o inverno gaúcho tem sido duro de suportar. As pessoas fazem de tudo para enfrentá-lo ou, em certos casos, para sobreviver a ele. Anda-se quase de maneira permanente com os pés e as mãos gelados. Houvessem meus pais me mantido em Caxias do Sul durante a minha infância, talvez tivesse me acostumado ao frio intenso. Como me trouxeram para Porto Alegre com uma semana de vida, sou, como a maioria dos nascidos na capital gaúcha, um baita friorento.

 

Fiquei pouco mais de um ano internado em um colégio da cidade serrana de Farroupilha. Resolvi ir ao encontro do desejo de meus pais ao concordar com eles na troca do Colégio Roque Gonzales, em Porto Alegre, pelo Ginásio São Tiago. Sabem por quê? Porque, nesse, as férias de julho duravam trinta dias e não quinze, como no internato. Se eu disser que sinto saudade do tempo em que passei internado e em que era liberado apenas para visitar a casa paterna no feriado prolongado da Páscoa, os supostos leitores têm todo o direito de duvidar. Justifico, porém: minha saudade refere-se somente ao curto período no qual me permitiam permanecer em casa. Então, me reencontrava com os amigos, jogávamos futebol nos terrenos baldios da Rua 16 de Julho, que eram muitos na época, ou futebol-de-mesa no quintal da minha casa.

 

Para falar a verdade, tenho saudade até mesmo das minhas dramáticas voltas ao internato depois das feriazinhas de Páscoa. É que o meu pai me deixava dirigir o Citroën dele. Não se espantem. Eu tinha direito de pegar somente o guidão do carro. Pena, entretanto, que lá em Farroupilha, o inverno, meu tema desta quinta-feira, era bem mais duro do que o de Porto Alegre. Acordávamos cedinho, descíamos o declive existente entre o São Tiago e a Igreja Matriz, em geral escorregando na geada, e assistíamos à missa rezada pelo Monsenhor Brambilla.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Que saudade daquela Kombi!

 

Por Milton Ferretti Jung

 

A saudade é companheira inseparável quando envelhecemos. Digo isso com a experiência de quem está perto de completar 78 anos. Quinta-feira passada, se é que alguém leu o meu texto do dia 15 deste mês, detive-me a relembrar detalhes, inesquecíveis para mim, da casa dos meus avós por parte da mãe, na qual nasci no longínquo ano de 1935. Hoje, a saudade voltou a se manifestar. A culpa se deve a uma decisão da Volkswagen. Não é que essa empresa decidiu deixar de produzir um de seus veículos que fez história no Brasil durante 56 anos? Estou me referindo à aposentadoria da Kombi. Quem leu os jornais da semana passada, embora a notícia não tenha sido publicada com destaque, deve ter conhecimento disso.

 

Por que – talvez alguém esteja se perguntando – a velha Kombi causou neste escriba um acesso de saudade? Explico: este utilitário, cuja saída do mercado será marcada pelo lançamento de uma série especial, chamada de Last Edition, que constará de 600 unidades por 85 mil reais, deu-me a chance de percorrer o interior do Rio Grande do Sul e de boa parte do Brasil.

 

A Companhia Jornalística Caldas Júnior, proprietária do jornais Correio do Povo, Folha da Tarde, Rádio Guaíba e, mais tarde, da TV Guaíba, possuía uma frota de jeeps para o deslocamento de seus funcionários. Eram dirigidos por motoristas profissionais. Um desses inseguros veículos – todos com capotas de lona – acabou capotando durante viagem a Pelotas para a realização da cobertura de um jogo do campeonato gaúcho. O narrador Ataídes Ferreira e o comentarista Jaime Eduardo resultaram feridos, esse último, com gravidade. Daí para frente, a equipe esportiva da Rádio Guaíba passou a viajar de Kombi.

 

Mendes Ribeiro, principal narrador da Emissora, tinha medo de viajar de avião. Nas Eliminatórias da Copa de 1958, no jogo entre Paraguai e Brasil, lá foi a equipe da Guaíba por péssimas estradas, muitas delas inundadas, o que obrigou os radialistas e técnicos realizar desvios que alongaram em muito o trajeto. A turma chegou a Assunção quase na hora de o jogo se iniciar.

 

Acompanhei a Copa pela Guaíba, para a qual me transferi em abril no dia 10 de abril de 58, depois de atuar quatro anos na Rádio Metrópole. Novamente, Ribeiro quis que fossemos de Kombi. Dessa vez, para Águas de Lindóia-SP,onde a Seleção Brasileira fez um jogo-treino. Fui um dos que pilotaram a Kombi. Já nos preparativos do Brasil para a Copa de 66, a equipe da Guaíba, com um enorme transmissor ocupando o que seria o banco do meio do veículo, estivemos em Lambari e Caxambu, estâncias hidro-minerais, em Niterói, Teresópolis e onde quer que a Seleção treinasse.

 

Minha saga “kombeira”, me permitam neologismo, não se resumiu a viagens longas. Visitávamos o interior do Rio Grande com regularidade. Nessas, cada um dirigia a Kombi, no sistema de revezamento, de hora em hora. Eu era o piloto mais fominha. No tempo em que a gente aliava o trabalho de radialista com o de motorista – sem cobrar nada pela dualidade de funções – o autor dessas mal digitadas linhas ainda não tinha carro. E ficava felicíssimo dirigindo Kombi.

 

Ah,que saudade daquelas Kombis da Caldas Jr.!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: para matar a saudade

 

Grêmio 2 x 1 Botafogo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Cheguei de viagem logo cedo, neste domingo, após 10 horas de vôo e cinco horas de fuso que atrapalham o sono, mas não tiram a satisfação de duas semanas de férias. Ao trabalho volto na terça-feira, oportunidade para matar a saudade de colegas, do programa e dos ouvintes. Hoje, porém, dedico-me a escrever sobre outra saudade resolvida: a do Grêmio. Não que eu tenha comparecido em corpo e alma na Arena, coisa que ainda estou devendo a mim. Assisti ao jogo em casa, já aqui em São Paulo, diante da televisão. E gostei muito do que vi, mesmo sendo submetido a forte pressão do adversário que, não se deve esquecer, era o líder e tem um jogador excepcional (quase tão bom quanto Zé Roberto – acho melhor deixar este comentário fora, vão dizer que é só porque sou gremista).

 

Fazia tempo não havia jogadores vestindo nossa camisa com tanta dedicação e, curiosamente, alguns deles estão há algum tempo por lá. A vibração nas bolas despachadas para fora, como fizeram Pará e Alex Telles, e com carrinhos salvadores que impediram o gol de empate, como ocorreu com Werley e Bressan, nos minutos finais, demonstra nova disposição da equipe. Arrisco dizer que até o impassível Dida se deu o prazer de comemorar defesas. Pra frente não foi diferente, seja com a dupla Zé Roberto e Elano, seja com Kleber e Vargas, este último com destaque especial ao marcar dois golaços. Por falar em gringo, apesar de mais uma vez ter o direito de jogar apenas alguns minutos, Maxi Rodríguez, que já conquistou o torcedor, segue mostrando utilidade.

 

Em meio a divididas duras, riscos de gol, algumas jogadas atabalhoadas e ao bom toque de bola do meio para o ataque, lembrei que Renato Portaluppi, durante a semana, havia alertado para o fato de estarmos disputando uma decisão de seis pontos contra o líder e da necessidade de se vencer os três primeiros, que poderiam fazer uma tremenda diferença no final. E sabemos bem que fazem. É importante que se tenha esta visão a cada partida em um campeonato de pontos corridos. É assim que se chega ao título e foi assim que perdemos vários deles, nesses anos todos.

 

Ao ouvir o jovem lateral esquerdo Alex Telles falando com repórteres de campo, assim que a vitória foi garantida, não tive dúvidas de que o espírito do qual tinha tanta saudades estava de volta: “Desde que chegou, o Renato falou que, quando ele foi campeão do mundo, precisou de muita entrega. Se a técnica não prevalecesse sempre, hoje a vontade prevaleceu. Nosso time está muito preparado, marcando muito forte. O Renato implantou isso na gente: nunca desistir”.

 

Vamos precisar mais do que vontade, mas enquanto esta estiver presente, não vamos desistir nunca.