Conte Sua História de São Paulo: o chiado do rádio na Copa do Mundo de 1958

Laudizio Jorge Marquesi

Ouvinte da CBN

Foto de Athena Sandrini on Pexels.com



Meu pai, alfaiate, Luiz Marquesi. Minha mãe, excelente dona de casa, Albonea  Marquesi. Família que na época eu já considerava grande: quatro homens, com nomes iniciando pela letra L, e três mulheres, toda com nomes começando com N. Eu, por ser o caçula, escapei de me chamar Lauro. Meu pai, ouvindo a rádio Nacional do Rio, descobriu o “Laudizio, mago das joias”. E o acréscimo veio do dia de nascimento, inspirando no dia do santo, São Jorge.


De Garça, interior de São Paulo, para o bairro da Casa Verde, na São Paulo de 1955, foi um pulo. Minha irmã Neide veio na frente, em 1954, e foi ser telefonista no Hotel Jaraguá, na rua  Major Quedinho, edifício do Estadão. Ano da comemoração do IV Centenário da cidade. Era uma São Paulo festiva e brilhante. Recebeu artistas do cinema americano. Na époica já havia transmissões de TV para os privilegiados. O rádio segui imbatível.

Como disse, cheguei uma ano depois, mas me permita dar um salto no tempo: 1958. Que ano maravilhoso! Brasil, campeão do Mundo na Suécia. Foi quando Pelé nasceu para o futebol. As transmissões de rádio eram em ondas curtas e retransmitidas pelas grandes emissoras da época, casa uma em um estado diderente. 

Ao microfone da Bandeirantes, Edson Leite e Pedro Luiz. E apesar do chiado a festa era enorme a cada gol do Brasil. Lembro da final da Copa, em 28 de junho. Dia de São Paulo. 5 a 2 para o Brasil. Terminada a partida, nos céus, milhares de balões com as cores do Brasil e um foguetório enormo. Que emoção. Que alegria. Imagine o que era ouvir, pela primeira vez, o Brasil ser campeão do Mundo. 

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Laudizio Jorge Marquesi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor na Copa: o gol que faltou

Brasil 3×0 Haiti
Copa do Mundo – Filadélfia, EUA

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Faltou um gol.

Não para o Brasil vencer. Não para o Brasil se classificar. Faltou um gol para melhorar meu desempenho no bolão da firma.

Apostei em quatro a zero sobre o Haiti. Parecia um palpite razoável diante da fragilidade do adversário. A Seleção fez quase tudo o que eu esperava. Ficou devendo apenas o quarto gol.

Alguns manuais de jornalismo consideram goleada qualquer vitória por três gols de diferença. No meu manual privado de torcedor, goleada começa no quarto gol. Por isso, assisti aos minutos finais da partida com uma esperança diferente da maioria dos brasileiros. Não buscava a confirmação da vitória. Procurava aquele golzinho extra que me renderia pontos preciosos na classificação do bolão.

O curioso é que o gol que me faltou pode acabar fazendo falta também ao Brasil.

A disputa pela liderança do grupo deverá ser travada com Marrocos na última rodada. Enquanto enfrentaremos a Escócia, os marroquinos terão pela frente justamente o Haiti. Dadas as circunstâncias, os africanos parecem ter uma oportunidade mais favorável para ampliar o saldo de gols e garantir a primeira colocação da chave.

Mesmo sem o quarto gol, a vitória merece ser celebrada.

O Brasil apresentou um primeiro tempo de boa qualidade e confirmou uma impressão deixada na estreia: Vinicius Junior é, até aqui, o principal jogador da equipe. Marcou seu segundo gol na competição, participou diretamente dos outros dois e mostrou ser o atleta mais capaz de mudar o rumo de uma partida por iniciativa própria. Em uma Copa do Mundo, isso costuma fazer diferença.

Matheus Cunha também cumpriu o que se espera de um centroavante. Fez dois gols. No primeiro, aproveitou o rebote diante do goleiro. No segundo, movimentou-se bem para receber o passe e concluir com precisão. Nada de extraordinário. Apenas aquilo que todo torcedor deseja de quem veste a camisa 9.

A equipe de Carlo Ancelotti mostrou mais mobilidade do meio para a frente e pareceu mais leve do que na estreia. Houve ainda espaço para atender a um desejo da torcida. Endrick entrou no segundo tempo e chegou a balançar as redes. O impedimento impediu que o lance entrasse para a estatística, mas não diminuiu a expectativa em torno do jovem atacante.

Na verdade, não foi apenas o Brasil que me deixou esperando um gol a mais. Marrocos venceu a Escócia por apenas um a zero. Paraguai e Estados Unidos também triunfaram sem colaborar com meus prognósticos. Bastava um golzinho adicional aqui, outro ali, e eu teria gabaritado a rodada.

Apesar disso, não tenho do que reclamar. Pela primeira vez acertei todos os vencedores. Não é exatamente um feito destinado aos livros de história dos bolões, mas já representa algum avanço para quem começou a Copa colecionando tropeços.

Assim como a Seleção Brasileira.

E, quem sabe, tanto eu quanto o Brasil estejamos guardando nossos melhores resultados para os jogos decisivos.

Avalanche na Copa: nem o Brasil salvou meu bolão

Brasil 1 x 1 Marrocos
Copa do Mundo — New Jersey/New York, EUA

Allez Brasil!
Foto: Breno Peck/Flickr

A parada da Copa me deixou com saudades desta Avalanche, espaço em que divido com o caro — e cada vez mais raro — leitor alegrias e angústias provocadas pelo meu time. Sem o Grêmio em campo desde o fim de maio, não via a hora de o Mundial de Seleções começar. Copa do Mundo é sempre um grande evento. Até mesmo esta, em que a FIFA ampliou o número de participantes, prejudicando a competitividade, e Donald Trump se esforça para estragar a festa.

Confesso que comecei mal nos palpites. Minha participação no bolão que criamos lá na rádio é pífia — consegue ser mais sofrível do que o desempenho do Grêmio na primeira parte da temporada. Próximo do encerramento do terceiro dia de jogos, alcancei míseros 20 pontos de 150 possíveis.

Antes de me zoar pelo aproveitamento irrisório, saiba que a culpa não é minha. Minhas apostas eram muito boas, calçadas na lógica e sustentadas pelo histórico de cada seleção. Que responsabilidade tenho eu se os protagonistas não entregam o que deles se espera?

Veja o caso do Catar. Chegou à Copa predestinado a ser goleado no Grupo B. Não apenas resistiu à pressão da Suíça, que chutou 27 vezes, dez delas no gol, como ainda surpreendeu os astros europeus ao empatar a partida nos minutos finais. E a Coreia? Em vez de se contentar com uma derrota simples — que me garantiria 25 pontos —, virou o jogo sobre a Tchéquia. Sem contar o Paraguai, seleção que sempre foi aguerrida, vendia caro suas derrotas, tinha uma defesa firme e uma marcação no limite da violência permitida. Levou quatro gols dos Estados Unidos.

Eu havia apostado em uma vitória brasileira. Palpite enviesado, é lógico. É difícil registrar um placar desfavorável para o Brasil. O coração fala mais alto. Fui de 2 a 1, considerando que Marrocos era o adversário mais forte da chave e vinha se destacando positivamente — atual campeão mundial sub-20 e quarto colocado na Copa de 2022.

Levar um gol de contra-ataque, com os dois zagueiros sendo surpreendidos pela velocidade do atacante adversário aos 21 minutos do primeiro tempo, não me espantou. Estava na conta. E, convenhamos, os marroquinos dominavam a partida até aquele momento. Mal conseguíamos organizar um ataque, errávamos passes na saída de bola e o risco era iminente. Apesar disso, bastaria uma virada, como a Coreia havia conseguido diante da Tchéquia. Por que o Brasil não seria capaz?

O empate não demorou a chegar, especialmente pelo talento de Vini Jr., que desde o início era o principal jogador brasileiro. Era Vini e mais dez. Ou seria Vini e menos dez? Aos 32 minutos, em um dos raros momentos em que a seleção conseguiu trocar passes com qualidade, ele recebeu a bola, driblou um marcador, deixou outro para trás e estufou a rede. Era o empate abrindo caminho para a virada e para a confirmação do meu bolão.

Ledo engano. Mesmo com Marrocos reduzindo o ritmo, seguia sendo a seleção mais organizada em campo. O Brasil até aumentou a intensidade, mas a dificuldade para articular jogadas, trocar passes com precisão e demonstrar força ofensiva impediu a virada.

Para piorar, à medida que assistia ao Brasil de Ancelotti e àquele latifúndio sem dono no meio de campo, relâmpagos iluminavam minha mente e me faziam imaginar a utilidade que teria um jogador com a qualidade de Arthur, do Grêmio. Como pode o Brasil, essa máquina de exportar jogadores, não ter alguém capaz de segurar a bola, cadenciar o ritmo conforme a partida exige e distribuir o jogo de maneira organizada e produtiva?

Cheguei a delirar em alguns momentos. Imaginei Pavón ocupando a ala direita, diante da ineficiência dos laterais utilizados por Ancelotti. E até Carlos Vinícius dentro da área para aproveitar alguma bola alçada sobre os zagueiros adversários.

Sim, eu sei. Essas alucinações talvez expliquem por que meus palpites no bolão têm sido um desastre. Mas, se a seleção tivesse jogado um pouquinho melhor, provavelmente essas ideias malucas nem teriam passado pela minha cabeça.

Que Ancelotti tenha mais sorte do que eu — ou mais critério — nas próximas escalações.

Conte Sua História de São Paulo: a seleção na Copa, meu irmão de begala e o velório da prima

Gercyvania Lucia Fernandes Lima

Ouvinte da CBN

Allez Brasil!
Foto: Breno Beck/Flickr

Comigo não poderia ter sido diferente! Copa 2006. Dia de jogo do Brasil. Contra o Japão. Fomos dispensados às duas e 15 da tarde. Eu estava triste. Logo cedo soube que havia perdido minha prima. O velório seria no Tatuapé. Antes passaria na minha tia que chorava a morte da filha, em Cachoeirinha.

Saí da empresa na Leopoldina e fui até a Lapa. Não conhecia nada por lá. E precisava encontrar o ônibos com destino ao Terminal Cachoeirinha. A SPTrans havia prometido aumentar a frota porque era dia de jogo da seleção. Esperei 50 minutos. Neste tempo, um bêbado deu um gole para o santo … bem no meu pé.

Quase no fim do jogo cheguei na casa da tia. Quando seguimos para o velório, o Brasil já ganhava por 4 a 1. Fiquei por lá até às nove e meia da noite. Como estava difícil de ligar, meu marido não sabia onde eu estava. Para que eu não voltasse sozinha, minha irmã e meu irmão, de muleta devido a um acidente, pediram para me fazer companhia até em casa.

Embarcamos no metrô do Tatuapé até a Barra Funda. Não havia quase ninguém nas ruas. Nem parecia São Paulo. Um deserto. Enquanto esperávamos o trem, sentido Itapevi, chegou uma molecada jovem e trabalhadora. Todos gritavam e brincavam. Por óbvio, nós não estávamos em clima de Copa. Entramos no vagão e nos recostamos em um canto do trem. 

De repente o celular da minha irmã tocou: era o marido dela. Queria saber onde ela estava. A coitada, inutilmente, gritava tentando fazê-lo entender que, apesar da algazarra, não estava em uma festa. Quando disse que vinha de um velório, o marido ficou mais confuso ainda. Le-le-le-o-Le-le-o- Le-le-le-o … era tudo que ele conseguia ouvir. 

Uma das meninas que estava entre os torcedores animados percebeu o esforço da minha irmã e pediu para todos se calarem: tem uma mulher querendo falaro ao telefone! Quando o silêncio invadiu o vagão, a inocente da minha irmã gritou ao celular: Não, eu já saí do velório. Agora estou no trem! Caímos todos na gargalhada diante da cena inusitada. O riso foi com a gente até o desembareque.

Em Osasco, pegamos o trem para Santo Amaro. E o episódio foi motivo da nossa conversa na viagem. Passavam das 11 da noite. Mais uma baldeação: entramos no metrô em direção ao Largo Treze. No fim da linha, percebi que havia um carteiro dormindo no vagão. Tentei chamá-lo, em vão. Só me restou avisar os funcionários na plataforma que tinha alguém no trem que seria recolhido para a garagem. 

E o dia ainda nõa havia se encerrado. Faltava um ônibus para chegar em casa. Eram 11 e meia da noite quanto chegamos no Terminal Santo Amaro. O próximo ônibus, só à meia-noite e 23. Meu irmão ainda comentou: “por hoje chega, né. Não tem mais nada para acontecer?”. Tinha. O ônibus quebrou.

Meu irmão, de bengala, teve de subir a pé até a avenida. Que dó! A gente não chorava mais. Afinal, minha prima, a falecida, descansava. Quem cansava éramos nós. Embarcamos em outro ônibus,m depois outro e o restante fomos a pé. Cheguei às três da madrugada, morrendo de dar risada. E quando meu marido perguntou onde eu estava até aquela hora, não hesitei em responder:

— No velório!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Gercyvania Lucia Fernandes Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Quando o futebol tenta nos lembrar quem somos

Por Beatriz Breves

Allez Brasil!
Foto de Breno Peck no Flickr

Brasil, pentacampeão mundial!

Pensar a seleção brasileira como um grupo de 26 jogadores e uma comissão técnica é reduzir demais o que ela representa. A seleção sempre foi muito maior do que o próprio futebol, pois a cada jogo, o país parece reencontrar algo raro: um sentimento coletivo de pertencimento. Fato é que, por algumas semanas, 26 jogadores se tornam 214 milhões de torcedores. A nação lembra que ainda sabe torcer junto, sonhar junto, vibrar junto. Enfim, o futebol vira espelho de uma autoestima tantas vezes ferida no cotidiano.

Quando a bola rola, sem sombra de dúvida, não são somente onze atletas em campo, mas o imaginário de milhões projetado em cada passe, em cada defesa, em cada gol. É cada brasileiro driblando as dificuldades da vida, transformando as frustrações em persistência, buscando, simbolicamente, o gol da esperança.

Mas o Brasil mudou, e o futebol sentiu.

O que sempre foi território neutro agora parece atravessado por disputas que antes ficavam do lado de fora do estádio. As cores da seleção, antes símbolo de união, passaram a ser vistas por alguns como algo a ser rejeitado, a ponto de querer modificar a própria cor da camisa. Jogadores são julgados por ideias, não por jogadas. Até a presença de um italiano no comando da seleção brasileira desperta estranhamento — ironia ainda maior com a Itália fora da Copa.

É natural que a política, tão presente no cotidiano, acabe também representada no futebol. O problema é quando essa polarização chega de forma ruidosa, desgastante, tirando a leveza, abafando a alegria, diminuindo o brilho da esperança.

Resultado: muitos brasileiros já não sabem os nomes dos convocados, nem a data da estreia, nem o adversário da primeira partida. Quem imaginaria isso algum dia?

Assim, o futebol, que deveria ser um momento de descontração, se torna espelho das tensões que transbordam para todas as outras áreas da vida nacional. A leveza se perde. A alegria é abafada. A paixão vira disputa. Aquilo que antes unia, agora divide.

O campo reflete a mesma fratura que atravessa o cotidiano dos brasileiros, que reconhecem a divisão política do país, mas ainda encontram dificuldade para superar essa divisão que insiste em permanecer, inclusive tentando tirar o brilho e o encanto de ser brasileiro.

Mas o Brasil é Brasil e o Brasil de chuteira não desaparece.

O futebol continua sendo uma das poucas linguagens que todos nós, de algum modo, entendemos, especialmente quando consegue fazer desconhecidos se abraçarem na rua, despertar orgulho, emoção e pertencimento. E, ainda, quando mostra ao mundo um país que, mesmo ferido, continua vibrante.

Talvez o desafio seja justamente esse: resgatar o futebol como exemplo de um espaço de encontro, não de conflito; de celebração, não de enfrentamento; de compartilhamento, não de separação, pois somos torcedores de, em média, mil times diferentes, que apesar das diferenças, com a seleção brasileira, se unem por um único ideal: o ideal de um Brasil vitorioso, de um povo feliz.

Sim, apesar de tudo, o Brasil de chuteira segue vivo.

E basta o apito inicial para lembrar que, no fundo, ainda vamos conseguir vibrar juntos e, como na canção de Miguel Gustavo, cantar “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil…”.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Minha estreia no futebol da Guaíba, ao vivo, da sala do seu Oquelesio

 

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Foto: Pixabay

 

Era o ano de 1986. Mauro Galvão, um dos grandes zagueiros que o Brasil já teve, faria a sua estreia na seleção brasileira. Eu faria a minha no futebol da rádio Guaíba de Porto Alegre. Já trabalhava na casa há uns dois anos, mas no que costumavam chamar de esporte amador — esporadicamente fazia uns “frilas” no futebol. E assinava as reportagens como Mílton Júnior, para que não houvesse confusão com o nome do pai, já que ele, o Milton Jung original, era também narrador esportivo da emissora.

 

Minha primeira tarefa no futebol: assistir ao lado da família do zagueiro, que na época jogava no Internacional de Porto Alegre, à primeira partida dele com a amarelinha da seleção. Era um jogo amistoso, se não me engano em Goiânia, Goiás.

 

Cheguei na casa da família Galvão que ficava próxima do estádio colorado e fui recebido por seu Oquelesio, pai do Mauro, de braços abertos. Ele lembrava do tempo em que eu havia jogado ao lado do filho na escolinha de futebol do Grêmio — sim, Mauro sempre foi gremista apesar de ter iniciado carreira e ganhado títulos importantes no Internacional. A lembrança de seu Oquelesio, evidentemente, não se devida às minhas qualidades técnicas em campo, mas por eu ser filho de quem eu era —  e o pai sempre esteve presente nos nossos jogos.

 

Se para a família de seu Oquelesio a ansiedade era resultado da estreia de Mauro na seleção, a minha era pela oportunidade de participar de uma jornada esportiva que tinha no comando, como narrador, exatamente o meu pai.

 

Galvão estava no banco da seleção. Eu, sentado no sofá da sala de seu Oquelesio.

 

Ao meu lado, além do pai, estavam a mãe, a mulher e o filho recém-nascido de Mauro. Durante todo o primeiro tempo sem o filho famoso em campo, a família aliviava a ansiedade com alguns salgadinhos aqui, uns pasteizinhos ali e muitos goles de cerveja.

 

Constrangido por estar na casa dos outros e nervoso por participar da primeira jornada esportiva, não conseguia sequer aproveitar os petiscos oferecidos. A cerveja, nem pensar. Mesmo alguns anos depois de deixar a prática esportiva de lado, mantinha o hábito de não beber nada que tivesse álcool.

 

O momento tão esperado chegou no segundo tempo. Mauro Galvão aquecia ao lado do gramado. Eu preparava a garganta para a primeira intervenção. Assim que o craque entrou em campo, eu fui ao ar. Por telefone, relatei a satisfação da família como se aquela fosse a mais importante reportagem de todos os tempos.

 

A felicidade da família com a entrada do filho na seleção só não era maior do que a minha com a primeira participação na jornada esportiva. Alegria que me fez esquecer alguns cuidados básicos e aceitar o primeiro gole de cerveja depois de anos. Afinal, tínhamos todos motivos de sobra para um brinde. Um não. Dois, três, quatro copos — sei lá quantos mais.

 

Bola prá cá, cerveja prá lá. E o jogo chegando ao fim. Galvão fez em campo o que se esperava de um jovem zagueiro em dia de estreia. Não comprometeu. O novato aqui também estava bem. Até o último gole, ops, até o último apito.

 

Com o jogo encerrado, corri para o telefone, liguei para a rádio e pedi para ir ao ar.

 

O pai, Milton Jung, orgulhoso de chamar o filho mais uma vez, logo passou a bola para mim. Já na primeira frase senti os efeitos da cerveja. As palavras saíram arrastadas. O pensamento estava lento. As ideias, esquecidas na sala.

 

Apesar disso consegui aos trancos e tropeços passar algumas informações, mas na hora de devolver a bola para o velho Mílton, o jovem aqui se atrapalhou com o próprio nome e tascou de forma solene: “eram essas as informações, ao vivo, diretamente da casa da família de Mauro Galvão. Agora é com você, caro Mílton Júnior!”.

 

O silêncio do outro lado da linha foi o mais doloroso puxão de orelha de pai para filho que já recebi.