Avalanche Tricolor: que os deuses nos perdoem

Vasco 1×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Gustavo Martins comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia depositado minhas esperanças na interrupção das partidas devido à Copa do Mundo de Futebol da Fifa. Imaginei que seria a oportunidade de o time se reorganizar, recuperar fisicamente seus jogadores e permitir que Mano Menezes descobrisse uma fórmula que fizesse os escalados oferecerem o que tivessem de melhor. Porém, desde que o calendário foi retomado, com exceção daquela vitória na Recopa Gaúcha, estamos em dívida com o futebol.

Goleado na volta do Campeonato Brasileiro e tendo colocado em risco a sequência na Sul-Americana, depois de perder a primeira partida do play-off por 2 a 0, cheguei a imaginar que hoje teríamos alguma felicidade à disposição. Apesar de estarmos jogando fora, tínhamos um adversário também fragilizado e poderíamos tirar vantagem da tensão que vinha das arquibancadas. Ledo engano!

Tivemos de contar com o excelente desempenho de Tiago Volpi — que evitou mais um desastre —, com a visão milimétrica do VAR — que anulou um gol ainda no primeiro tempo —, e com o voluntarismo de Gustavo Martins.

O guri, que está prestes a completar 23 anos (11/08), é zagueiro de origem e tem sido improvisado para resolver a ausência de nossos laterais direitos. Geralmente se destaca dentro da área adversária nas cobranças de escanteio e de falta. Foi dele o gol que nos levou à final do Campeonato Gaúcho, resultado de uma bicicleta já nos acréscimos. Hoje, no início da partida, Martins havia arriscado lance semelhante, mas a bola foi por cima da goleira.

Quando já estávamos perdendo e sob o risco de vermos o placar se ampliar, foi novamente Gustavo Martins quem apareceu para nos salvar (e veja só: uso o verbo “salvar” para um gol de empate). Depois de uma cobrança de falta do lado esquerdo, afastada pela defesa, Pavon ficou com o rebote e cruzou para dentro da área, encontrando nosso zagueiro-lateral entre os marcadores. Gustavo Martins fez de cabeça o gol que evitou a derrota.

André Henrique, que entrou no segundo tempo, quase conseguiu o gol da virada ao aproveitar um lançamento da nossa defesa que acabou batendo no travessão. Para um time que ofereceu tão pouco e foi dominado na maior parte do jogo, seria um prêmio imerecido (apesar de que eu ando aceitando qualquer coisa positiva que venha do campo).

No meio da semana, o torcedor gremista haverá de fazer sua parte enchendo as arquibancadas para comemorar a nova relação do clube com o seu estádio. Quero crer que o time entenderá a relevância deste momento e o que significará iniciar esse capítulo da nossa história com uma vitória capaz de nos levar à próxima fase da Sul-Americana.

Que os deuses do futebol nos perdoem pela escassez de talento e, ainda assim, nos abençoem neste encontro com a “Arena, verdadeiramente, do Grêmio”.

Avalanche Tricolor:  a Arena é do Grêmio, verdadeiramente!

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu vivi as arquibancadas ainda descobertas do Olímpico, em Porto Alegre. Época em que a vibração do torcedor era ritmada por uma corneta impulsionada por ar comprimido. Forjei-me como torcedor quando o alambrado era a barreira que nos impedia de invadir o gramado e levar o time às conquistas impossíveis. 

Quando já éramos Monumental, cantei em coro o grito de “Grêeemioooo, Grêeemioooo, Grêeemioooo…” com suas sílabas esticadas, que mais pareciam um chamado à equipe para que encorpasse nossa imortalidade e superasse suas dificuldades. Foi com este grito que vencemos todos os títulos que estiveram a nosso alcance. 

Experimentei a Avalanche Tricolor que desaguava pelas arquibancadas inferiores em uma sintonia inexplicável, considerando a quantidade de pessoas que participava daquele êxtase. Um movimento desfeito quando tivemos que mudar de endereço, deixando para trás parte de nossa história e levando mala e cuia para o Humaitá. 

O estádio na Azenha era meu vizinho de infância e foi lá dentro que cresci como gente, aprendi com o sofrimento e entendi  o valor de virtudes como coragem, lealdade e fortaleza. Assim como eu, gerações inteiras de torcedores se formaram e lembram com saudade do velho casarão. Uma conexão que nunca se realizou de verdade com a Arena, apesar de, na nova sede, termos reconquistado Copas do Brasil e Libertadores, além de uma sequência de campeonatos gaúchos.

Hoje, 15 de julho de 2025, essa história começa a mudar. Marcelo Marques, um torcedor criado no Olímpico Monumental, assim como eu, você e uma nação inteira de “imortais” — apenas mais rico do que todos nós juntos —,  comprou a gestão da Arena e doou ao Grêmio. Algo que nos parecia inacreditável. Foi um anúncio nada formal, com lágrimas, palavrões, gritos de guerra e aplausos intermináveis. Não me atrevo a explicar a negociação que teria custado cerca de R$ 130 milhões em acordo assinado com a Revee e a Arena Porto-Alegrense, responsáveis até agora pela gestão da Arena. Sou incapaz de endossar as projeções financeiras feitas pelo empresário, maior fabricante de pão francês do mundo. Torcerei muito para que o tempo ratifique o sucesso das contas feitas por ele.

O que importa neste instante, e por isso esta data entra para a história do Grêmio, é que Marcelo Marques, na eloquência de sua paixão, concretizou um sonho que começou a ser sonhado na gestão de Fábio Koff, em 2014, dois anos depois da nossa mudança para o Humaitá. O presidente do Mundial, da Libertadores, do Brasileiro, das Copas e tantos outros títulos anunciara naquela época um acordo com a OAS para a compra dos direitos de exploração da Arena. Foi dele a frase que, somente agora poderá ser gravada nas paredes de nosso estádio: “A Arena é do Grêmio, dos meus filhos, dos meus netos …”.

Havia dificuldades financeiras, imbróglios jurídicos e uma complexa burocracia envolvendo diversos interesses e empresas, algumas de idoneidade questionável. Havia desrespeito ao torcedor, tratado como se a ele não pertencesse aquele espaço, mesmo sendo a razão da existência daquela Arena. Havia entraves, quase intransponíveis. 

Mas o Grêmio foi forjado diante do impossível: foi assim quando calou um Morumbi inteiro para ser Campeão Brasileiro, quando surpreendeu o mundo ao superar os alemães em Tóquio, quando se sobrepôs à violência de La Plata e à garra sul-americana para ganhar suas Libertadores ou quando conquistou a Batalha dos Aflitos.

O Grêmio alcançou hoje uma das vitórias mais importantes de sua história, porque resgata o protagonismo do seu torcedor — que, imediatamente, correspondeu associando-se em grande número e depositando seu entusiasmo em uma era que se inicia. Garante que cada novo gremista possa sentir o significado de ser o dono de sua própria casa. E dará às novas gerações a possibilidade de eternizar na Arena a alma imortal que nasceu no Olímpico — um balé de corpos em avalanche, um sopro agudo e valente da corneta, e um grito que ecoará, eterno, pelos séculos tricolores.

Mundo Corporativo: “Liderança não é protagonismo”, diz Rafael Mayrink, da NP Digital


“Liderança não pode se colocar como protagonista. Ela precisa ser um guia, ajudar, auxiliar.”

Rafael Mayrink, NP Digital

O sucesso das empresas hoje vai além das competências técnicas e depende, sobretudo, da maneira como as pessoas se comportam, se relacionam e aplicam a tecnologia a seu favor. Este é o alerta de Rafael Mayrink, CEO da NP Digital Brasil, que participou do programa Mundo Corporativo para discutir a importância das habilidades comportamentais, o papel transformador da liderança e o impacto crescente da inteligência artificial no ambiente corporativo.

Ao longo da conversa, Mayrink destacou que “a pessoa precisa ler, ser curiosa, correr atrás, aprender mais sobre tecnologia e inteligência artificial para que ela use isso ao seu favor”. Para ele, o pensamento crítico se torna indispensável em um contexto em que as decisões precisam ser constantemente revisadas e alinhadas ao verdadeiro objetivo do cliente ou do projeto. “Se eu não tiver senso crítico para entender, perguntar e conhecer quem está do outro lado, não vou conseguir entregar o que realmente é necessário”, afirmou.

Treinar comportamento desde cedo

Mayrink defendeu que as competências comportamentais não nascem prontas e podem — e devem — ser desenvolvidas desde a infância. “Soft skills têm que estar lá na escola, desde o momento em que a criança começa a formar frases”, explicou. Segundo ele, é nesse processo que se aprende a falar em público, ouvir com atenção, lidar com frustrações e desenvolver empatia.

Ao falar sobre liderança, o executivo enfatizou que o líder precisa abrir espaço para os outros, ouvir ativamente e atuar como um orientador. “Nem sempre a liderança tem razão, mas por ter mais experiência, vai saber ouvir e guiar as pessoas para resolverem seus próprios problemas”, pontuou.

Inteligência artificial e o novo marketing

A tecnologia e a inteligência artificial já estão profundamente integradas ao marketing digital, e Mayrink apontou que isso exige um novo olhar sobre as funções e as relações de trabalho. “A inteligência artificial vem para aumentar produtividade, dar mais tempo e permitir que as pessoas desenvolvam outras habilidades”, comentou. Ele alertou, porém, que as mudanças exigem adaptação contínua e capacidade de aprender novas funções.

No encerramento, Mayrink aconselhou os jovens profissionais a ampliarem o repertório: “Faça algo fora do seu dia a dia. Aprenda um instrumento, pratique um esporte, explore novas experiências. Isso ajuda a desenvolver criatividade e habilidades de comunicação, fundamentais para qualquer carreira.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: os coletores de lixo e as crianças do Alto da Lapa

Ana Maria Oliva

Ouvinte da CBN

Foto Divulgação Loga

Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:

Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada. 

Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria. 

O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão. 

No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.

Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode. 

– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos. 

O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.

Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia. 

Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.


Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ana Maria Oliva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu text agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: a taça não é do Mundo, mas é nossa!

Grêmio 2×0 São José

Recopa Gaúcha – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Estava cansado de torcer para os outros. O mês que passou me proporcionou sensações estranhas. Na ausência do Grêmio, acompanhei a Copa do Mundo de Clubes da Fifa — confesso que, antes do início, não dava muita bola para a disputa. Mas alguma coisa aconteceu no meu coração ao cruzar pela televisão e assistir aos times brasileiros enfrentando os estrangeiros, especialmente os europeus. 

Fui flagrado sofrendo e vibrando pelas graças alheias — reação que me causou espanto, já que sempre me considerei torcedor de um time só. O bom desempenho de alguns clubes nacionais, me animou com as possibilidades do futebol brasileiro, embora não acreditasse que chegaríamos ao título. Em alguns instantes, confesso: senti inveja da oportunidade que os quatro representantes do país tiveram nesta competição inédita. 

Que baita vontade de estar lá na gringa com meu Grêmio!

A realidade, como sempre, se impôs. Nem o Grêmio tinha condições de se credenciar para a competição no momento atual, nem os times do Brasil estavam à altura dos europeus — apesar de terem conseguido vitórias e resultados dignificantes até a semifinal da competição. 

Por coincidência do calendário, assim que o último brasileiro foi eliminado do mundial, o Grêmio voltou à ativa diante de seu torcedor na decisão da Recopa Gaúcha. Com pouco mais de 12 mil testemunhas na Arena, o time  de Mano Menezes teve a chance de mostrar um esboço do que conseguiu reconstruir no recesso.

Do ponto de vista de formação, praticamente nenhuma mudança no Grêmio. A única novidade no time principal foi o volante Alex Santana, recém-chegado, que fez boa estreia. Fiquei decepcionado ao perceber que a parada não foi suficiente para recuperar alguns jogadores fisicamente — e, pior, ainda levou outros ao departamento médico. Esperava mais, tanto da recuperação como das contratações.

O principal destaque da partida foi Alysson. No primeiro gol, demonstrou qualidade no domínio e força no chute, depois de ter sido presenteado por Dodi dentro da área. No segundo, foi dele a arrancada pela direita em alta velocidade e o cruzamento preciso que encontrou Amuzu para estufar as redes. O atacante pela direita ganhou a posição de titular desde que Mano Menezes assumiu. Tende a ser cada vez mais decisivo, à medida que o seu futebol amadureça e encontre companheiros que acompanhem seu raciocínio.

Espero que, em breve, a diretoria consiga driblar as dificuldades para contratar os reforços necessários. Também torço para que os problemas físicos cessem e todos os jogadores fiquem à disposição de Mano Menezes, permitindo escolhas de fato — e não apenas as possíveis. Precisaremos de muito mais para alcançar os objetivos que nos restaram na temporada. 

A despeito disso, aqui estou, retomando essa Avalanche, para comemorar com você, caro e cada vez mais raro leitor, a quinta conquista da Recopa Gaúcha. Não é nada, não é nada … é o que temos por enquanto a festejar. E se tem taça em jogo, eu quero é ganhar!

Dinamarca, voto e ajuda social: a verdade que ninguém te conta!

Trabalho com a ‘caverna do diabo’ aberta à minha frente. Enquanto converso com os ouvintes pelo microfone, na tela do meu computador, centenas de mensagens são despejadas pelo WhatsApp. Entre uma entrevista e outra, chegam informações de todo tipo: agradecimentos, críticas e sugestões de pauta, tanto quanto ofensas pessoais, denúncias infundadas e as correntes que prometem revelar “a verdade escondida” sobre algum assunto.

O que me chama a atenção não é o volume de mensagens — que já faz parte da rotina —, mas a confiança com que muitas delas são enviadas. Ouvintes, pessoas que nos acompanham há anos, repassam informações falsas com a mesma segurança de quem anuncia a previsão do tempo: “Vai chover amanhã, pode se preparar.”

Outro dia, recebi uma mensagem afirmando que, na Dinamarca, toda pessoa que recebe ajuda social perde o direito de votar. O texto ainda sugeria: “Compartilhe se quiser que o Brasil faça o mesmo!” Essas mensagens não apenas espalham desinformação. Elas revelam preconceitos guardados: a ideia de que quem precisa de auxílio social não saberia votar com autonomia ou de que os problemas do país se resumem a um “voto comprado”.

A realidade é que, na Dinamarca, quem recebe assistência do governo não só pode votar como participa ativamente da vida democrática. O país investe em proteção social justamente para garantir dignidade e participação de todos.

Mas por que tantas pessoas continuam acreditando nessas histórias?

Uma das razões é o viés de confirmação. Quando alguém já acredita que programas sociais servem para manipular votos, qualquer mensagem que alimente essa visão será rapidamente aceita. É como se cada um de nós tivesse um filtro invisível que escolhe o que confirmar e o que descartar, conforme nossa conveniência.

Outro ponto é o formato: textos curtos, diretos, carregados de emoção e indignação. Ao provocar raiva ou medo, aumentam a chance de serem repassados antes mesmo de qualquer reflexão.

Há também o recurso de citar países tidos como exemplares — caso da Dinamarca ou da Suécia — para dar um ar de credibilidade. Quem vai verificar se isso realmente ocorre? Quase ninguém. Talvez um jornalista.

Para conter o avanço dessas mentiras, temos três ações à nossa disposição:

Desconfiar. Antes de encaminhar qualquer mensagem, vale perguntar: quem escreveu? Existe alguma fonte oficial? A informação aparece em veículos de imprensa reconhecidos? Ah, você não confia na “grande mídia”? Quem sabe, então, pesquisar nas milhares de fontes disponíveis na internet?

Conversar. Em vez de ironizar quem compartilha, é mais eficaz explicar, com calma, onde está o erro e mostrar a informação correta. Ou seja, despender um tempo do seu dia para ajudar na disseminação da verdade.

Apoiar projetos de checagem. Hoje, várias iniciativas se dedicam a verificar fatos e disponibilizam o resultado gratuitamente.

Receber mensagens faz parte do meu trabalho — muitas nos pautam, e tantas outras nos levam a refletir sobre como estamos praticando o jornalismo. Corrigi-las, também. Mais do que desmentir boatos, é preciso convidar o público a cultivar a curiosidade, questionar, buscar outras fontes. Neste cenário em que a verdade disputa espaço com versões fabricadas, cada um de nós se torna guardião da boa informação.

Em tempo: Sim, o título deste texto foi escrito no melhor estilo “corrente de WhatsApp” — daqueles que gritam para chamar sua atenção. Afinal, se funciona para espalhar boatos, por que não usar para espalhar a verdade?

Quando o céu ameaça, o jogo muda: o alerta que falta no futebol brasileiro

O jogo entre Palmeiras e Al Ahly, pela Copa do Mundo de Clubes, foi interrompido no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não por uma falta dura nem por um apagão no VAR. A partida parou por causa de um alerta meteorológico — que contrastava com o céu azul e o sol que causava um calor absurdo. O aviso chegou pelos celulares dos torcedores, foi exibido no telão e, quase sem discussão, jogadores e público se afastaram do campo: “Para a sua segurança, por favor, deixe o assento externo e a área do campo…”. A orientação era clara, objetiva e respeitada. Era uma questão de segurança, de cuidado com a vida.

A cena, que se repetiu três vezes em três dias durante o torneio, contrasta com o que estamos acostumados a ver no Brasil, onde jogos seguem mesmo com o gramado alagado, raios cortando o céu e torcedores encharcados nas arquibancadas. A bola rola, ainda que boie.

Por aqui, o futebol resiste ao temporal como se fosse uma prova de virilidade nacional. Jogadores deslizando na lama são lidos como heróis épicos e o torcedor que não abandona o estádio, mesmo sob chuva torrencial, vira exemplo de paixão. Poucos se perguntam: e a segurança? E os protocolos? E o direito à proteção?

Aqui, faço uma confissão. Sou apaixonado por jogadores bravos e corajosos, como Kannemann, meu eterno zagueiro do Grêmio, que, numa partida contra o Huachipato, do Chile, pela Libertadores da América, no ano passado, protagonizou uma imagem que me marcou profundamente. Ele aparece com o uniforme branco tomado pela lama — símbolo da entrega total, da luta até o fim, do espírito de um guerreiro. A fotografia é espetacular (lamento não ter descoberto o nome do fotógrafo que fez o registro). Mas ela só é possível, e talvez por isso mesmo tão incômoda, porque há uma estrutura que impõe aos jogadores essa condição extrema. O que leio como bravura também é, em certa medida, um retrato da imprudência.

A diferença de postura entre os dois países não se resume à organização de um evento. Ela revela o quanto o alerta, como política pública, é uma ferramenta poderosa de cultura preventiva. Nos Estados Unidos, sistemas de monitoramento climático estão integrados a eventos esportivos, e a decisão de interromper uma partida é técnica, não emocional. Parte-se do princípio de que nenhuma paixão justifica o risco à integridade física.

No Brasil, os alertas existem — o sistema da Defesa Civil funciona e pode ser acionado por SMS, por exemplo — mas sua articulação com o cotidiano das grandes aglomerações ainda é frágil. O futebol, que movimenta milhões e mobiliza multidões, não tem como rotina a checagem climática como critério para iniciar ou suspender uma partida. Espera-se que o céu caia — literalmente — para tomar alguma decisão.

Esse episódio na Copa do Mundo de Clubes serve como um lembrete: é possível agir antes do pior acontecer. É possível levar o torcedor a sério. É possível interromper um espetáculo esportivo em nome do bem-estar coletivo, sem que isso seja visto como fraqueza ou desrespeito ao jogo.

Quem dera os estádios brasileiros se preparassem para o tempo ruim não apenas com drenagem no gramado, mas com cultura de prevenção. Porque quando a sirene toca e a chuva cai, o que está em jogo é muito mais do que os três pontos. É a capacidade de um país proteger seus cidadãos — dentro ou fora de campo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as marcas estão saindo da memória do consumidor

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A cada dia fica mais difícil para as marcas manterem sua relevância. Um estudo recente comparando os anos 2000 e 2025 mostra que o desconhecimento de marcas entre os consumidores brasileiros saltou de 24% para 36%. Essa mudança de cenário é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

O levantamento, realizado a pedido do jornal Valor Econômico, analisou 1.500 marcas a partir de entrevistas com mais de 40 mil consumidores, utilizando a metodologia de auditoria de marca desenvolvida pela TroianoBranding. “A quantidade de coisas que temos para guardar na memória é infinitamente maior e impossível de guardar tudo”, observou Cecília Russo, explicando que o problema não é desinteresse, mas excesso de estímulos e opções.

Jaime Troiano destacou outro dado preocupante: a queda no índice de marcas idealizadas, aquelas com forte conexão emocional com os consumidores. Esse número caiu de 8% em 2000 para apenas 3% em 2025. “Ficou muito mais difícil para as empresas reterem seus clientes e consumidores”, afirmou Jaime, apontando que o problema vai além das falhas de marketing — é reflexo de relações cada vez mais voláteis e superficiais, também no consumo.

A marca do Sua Marca

Jaime e Cecília mostram que a força das marcas está sendo corroída pela dispersão de atenção e pelo excesso de alternativas. Em um cenário descrito como “arena hostil da modernidade líquida”, a principal lição é clara: as marcas precisam parar, olhar e escutar — com humildade e planejamento — se quiserem continuar vivas na memória do consumidor.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: da quermesse no Limão aos sabores da culinária dos imigrantes

Ligia Baruque

Ouvinte da CBN

Foto: Daniel Fucs Flickr

Meus pais se conheceram em São Paulo, no bairro do Limão, numa quermesse em 1950. Estranham a palavra quermesse? Sim, naquela época festa junina era chamada de quermesse !

Meu pai, descendente de libaneses,  era  de Monte Mór, interior de São Paulo.  Veio trabalhar na capital na primeira fábrica da Ford que começava a produção de caminhões na Barra Funda. Minha mãe, nascida em Bernardino de Campos, também do interior, trabalhava como tecelã numa fábrica têxtil, no Limão

A música que embalou o namoro e o casamento deles foi Três Apitos, de Noel Rosa, que começa com o verso: 

Quando o apito 

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos 

Eu me lembro de você…

Eu nasci no Limão, na casa da minha avó, na zona norte, e fui morar na Vila Prudente, na zona leste. Era onde ficava a fábrica da Ford, que acabara de ser construída, em 1953. Atualmente, no local tem o Shopping da Mooca.

Depois mudamos para Pinheiros, na zona oeste, próximo da Cidade Universitária, onde me formei em Farmácia e Bioquímica, no ano de 1982. A USP naquela época era aberta às pessoas que, assim como os carros e ônibus, entravam e saíam sem controle pelos portões. Hoje, em todas as entradas há guaritas e o acesso é restrito, facilitado apenas a quem trabalha ou estuda na universidade — sinal dos tempos.

Independentemente disso, a USP segue sendo o centro de estudos mais importante de São Paulo, uma referência de ensino para estudantes e professores de todas as partes do mundo.

Agora moro na Vila Mariana, na zona sul. 

Como podem perceber, vivi em todas as regiões, de leste a oeste, de norte a sul. Nos meus 60 anos de vida, acompanhei a despedida dos bondes da Consolação — fiz a última viagem de bonde com a minha avó. Assisti à chegada do metrô, a abertura de avenidas, o começo da construção do Minhocão, e o aumento no número de carros. 

Apesar de a cada dia o trânsito ficar pior, amo esta cidade, construída por imigrantes, que deixaram em cada espaço um pedacinho da sua cultura mesclada com a dos paulistanos. Uma mistura servida à mesa com sabores da culinária italiana, espanhola, alemã, indiana, judaica e, claro, com aqueles pratos da comida libanesa, que vieram juntos com os parentes de meu pai.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Lígia Baruque é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.