Inter 0x0 Grêmio Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre RS
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Gre-Nal desta noite foi uma sucessão de falhas. De um lado o passe curto saía errado, do outro o passe longo era equivocado. Os dribles morriam antes de nascer, travados pela falta de habilidade; e os cruzamentos pela falta de destino. As raras tentativas de chute pouco exigiram dos goleiros — justiça seja feita, o nosso mostrou segurança quando acionado, enquanto o deles protagonizou um erro constrangedor.
Certamente, entre os 452 Gre-Nais disputados ao longo de 117 anos, houve partidas ruins. Minhas lembranças começam nos anos 1970, quando me entendi como torcedor. Ainda assim, fiquei com a sensação de ter assistido ao pior Gre-Nal de todos os tempos. Senão o pior, um dos que mais decepcionaram.
Verade que Gre-Nal ruim costuma ser aquele que se perde. Para quem aprecia o jogo bem jogado, porém, o que vimos no Beira-Rio foi indigesto. Imagino que o torcedor adversário também não tenha saído satisfeito. Eu, como gremista, espero mais. Sempre espero mais. Insisto em não aceitar a ideia de disputar campeonato apenas para evitar o rebaixamento.
Para não dizer que escrevo movido apenas pelo mau humor de um sábado mal aproveitado, há registros positivos. Weverton foi seguro nas saídas e nas intervenções. O time se entregou. Correu, marcou, disputou cada bola como se fosse a última. Ninguém se omitiu. Ainda assim, essa disposição pareceu nascer mais das dificuldades com a bola nos pés do que de uma proposta consistente de jogo — e também das limitações do adversário.
Sob o olhar da tabela, empatar fora de casa em Gre-Nal pode ser considerado ponto ganho, sobretudo em contraste com o empate anterior na Arena. O problema é que já deixamos pontos demais pelo caminho. Com um mínimo de organização e qualidade, era possível ter vencido.
O que mais incomoda é perceber que o que se viu em campo explica o momento do futebol gaúcho. Um clássico travado, de muita disputa e nenhuma técnica, passou a ser aceito quase como padrão. E isso diz muito sobre clubes e torcedores que já se acostumaram a mirar cada vez mais baixo.
O Grêmio ainda precisa evoluir. Luis Castro terá de ajustar posições, dar clareza ao modelo de jogo e exigir mais coordenação coletiva. Aos jogadores cabe algo mais básico: rever fundamentos. Passe, domínio, decisão. Sem isso, não há estratégia que sobreviva.
Porque, no fim das contas, o maior risco não está em empatar um Gre-Nal ruim. Está em se acostumar com ele.
Ameaço escrever este texto desde segunda-feira. Algo indefinido me impedia. Talvez indecisão. Talvez pudor.
Fui escolhido para receber a Medalha Alberto André, um reconhecimento a trajetórias relevantes no jornalismo gaúcho, concedida pela Associação Riograndense de Imprensa.
Uma das razões que me tolhiam o desejo de escrever era a frase que ouvi do falecido ministro Raul Jungmann: medalha não se pede, não se nega e não se conta — ensinamento que me acompanhou desde então. Evidentemente que não a pedi — nem mesmo a vaidade de um leonino teria sido capaz de me levar a cometer essa barbaridade. Menos ainda a neguei. Ao contrário. Aceitei-a. Não imediatamente, porque nos primeiros minutos da ligação que recebi do presidente da ARI, José Nunes, pensei que o convite era para apresentar a cerimônia.
Como não contar? Como não dividir com amigos e conhecidos essa conquista? Há momentos que pedem silêncio. Outros, partilha.
Vaidade à parte — e ela sempre está a nos levar ao pecado —, momentos como esses pedem publicidade. Com escrúpulo e comedimento.
Deixei o Rio Grande do Sul há 35 anos. Vivo em São Paulo há mais tempo do que vivi em minha terra natal. Muitas memórias e valores ainda estão presentes. A casa em que morei da infância até o início da vida adulta segue por lá. Foi onde dormi nas duas noites em que estive em Porto Alegre.
Meus irmãos, Christian e Jacqueline, são presença viva da família criada pela Ruth e pelo Milton. A Saldanha Marinho, a Getúlio Vargas, o viaduto Otávio Rocha, os escombros do estádio Olímpico, a sede da RBS: tudo me remete aos tempos em que morei na capital gaúcha. A linha de ônibus que cruza a perimetral, o ponto de táxi na esquina e alguns endereços que só eu sou capaz de entender o significado me fazem relembrar experiências marcantes — nem sempre positivas, mas bastante representativas.
Voltar à terra para ser homenageado pela trajetória no jornalismo é também um reconhecimento a quem se atreveu a seguir a carreira de meu pai e meus tios. Como fiz questão de lembrar na fala em agradecimento à medalha recebida, sou de uma família de jornalistas. Milton Ferretti Jung é o meu maior referencial — por tudo o que herdei como filho e como jornalista. Meus tios Tito Tajes e Aldo Jung também foram relevantes no trabalho que realizaram nas redações e importantes na minha formação. Dar sequência a essa trajetória me impunha uma enorme responsabilidade.
A Medalha Alberto André foi, para mim, uma certificação. A demonstração de que fui capaz de levar em frente o legado desta família de jornalistas. A certeza de que a escolha, feita em 1981, quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC-RS, apesar de arriscada, foi acertada. Saber que essa mesma medalha esteve no peito de Marques Leonan e Carlos Kober, dois de meus professores na academia, e de Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, duas das minhas referências quando eu ainda era apenas um guri de calça curta, foi motivo de orgulho.
Ver naquele mesmo espaço profissionais com a trajetória de Affonso Ritter, que aos 89 anos destacou em suas palavras o papel preponderante do jornalista, a despeito de todo o avanço tecnológico que assistiu ao longo de sua carreira, me fez acreditar na valorização do ser humano.
Abraçar colegas que estiveram ao meu lado no início de minha carreira, como Flávio Dutra e Cláudia Coutinho, e receber a medalha das mãos de Kátia Hoffman, autora do livro Milton Gol-Gol-Gol Jung, que conta a trajetória de meu pai, foi emocionante.
Diante de todos os sentimentos que se expressaram nesses dias em que estive em Porto Alegre, e mesmo com todas as restrições que me imponho, não registrar esse momento de alegria talvez fosse menos humildade e mais egoísmo. E, neste caso, o silêncio não me pareceria virtude, apenas omissão.
Por isso estou aqui, nesta inconfidência, a dividir com você a felicidade e o orgulho de ser jornalista.
Quando deslocamos o foco para o sentimento de Eu, percebemos que se trata de uma estrutura fractal, ou seja, padrões que se formam e se transformam continuamente pela internalização das experiências, dos vínculos e da qualidade das relações vividas. Por isso, o Eu integra, inevitavelmente, dimensões biológicas, psíquicas e sociais, articulando-as em um movimento constante de construção e reconstrução.
Todavia, ainda vivemos presos a um paradigma reducionista que entende o biológico como a única “verdade” possível. Nesse modelo, cromossomos XX definem uma mulher; XY, um homem; e a cultura somente acrescenta comportamentos esperados. Mas a vida psíquica não cabe nesse binário. Essa é uma limitação de um olhar materialista cartesiano, que enxerga o ser humano somente pelo prisma material e, assim, impõe o determinismo biológico à identidade.
Entretanto, ao migrarmos do olhar mecanicista para o paradigma vibracional, torna-se mais fácil compreender que a identidade se manifesta em pelo menos dois planos: o da realidade materializável e o da realidade psíquica. À experiência humana inclui-se o nível microcósmico do ser, aquilo que não se vê, mas constitui grande parte de quem somos. Por esse olhar, a experiência humana é entendida como um complexo vibratório macromicro, uno, inteiro e indivisível, que só pode ser apreendido por meio de recortes. E cada recorte — biológico, psíquico ou social — revela somente um aspecto da totalidade que somos.
Assim, quando uma pessoa biologicamente classificada como um determinado sexo se sente e se reconhece no sexo oposto, ou quando alguém da espécie humana se sente e se reconhece como pertencente a outra espécie, muitos reagem descartando esse sentimento como exagero, confusão ou patologia. Isso ocorre porque o olhar social costuma se fixar exclusivamente no recorte biológico, ignorando o recorte psíquico, o modo como a pessoa se percebe, se sente e se reconhece internamente. É como se a identidade tivesse que obedecer apenas ao corpo, quando, na verdade, o corpo é apenas uma das camadas que compõem o Eu.
Esse descompasso não se aplica somente a pessoas trans ou therians, mas também àquelas que vivem uma preocupação persistente com supostos defeitos físicos mínimos ou inexistentes, como ocorre na dismorfia corporal. Abrange, ainda, quem é gordo e se percebe magro, quem é considerado bonito e se enxerga feio, quem é inteligente e se sente limitado ou mesmo situações em que alguém procura um profissional de saúde e recebe como resposta que “não tem nada, é psicológico”, reduzindo a psique a um nada. Em todos esses casos, há um descompasso entre a realidade e o que a pessoa está sentindo.
Entretanto, isso não significa abandonar referências. O ser humano precisa de referências para se orientar; sem elas, perde o senso de si. A ideia de que “a pessoa pode ser tudo” pode levar a uma perda de reconhecimento pessoal, pois aquele que pode ser tudo, paradoxalmente, torna-se nada.
Para facilitar a compreensão, podemos recorrer ao exemplo do movimento dos corpos. Desde Galileu, sabemos que todo movimento é relativo; porém, convencionou-se a Terra como sendo fixa a fim de organizar os movimentos no mundo, pois, sem esse ponto de referência, perderíamos a capacidade de descrever qualquer deslocamento que fosse realizado. Da mesma forma, o referencial biológico funciona como esse ponto fixo: os cromossomos XX e XY permanecem constantes, atravessando eras, épocas e culturas, oferecendo um parâmetro estável a partir do qual outras variações podem ser compreendidas.
Em outras palavras: mesmo não sendo possível definir a identidade de uma pessoa a partir de um único olhar, é necessário estabelecer referências de reconhecimento. E a referência biológica é socialmente pertinente. Entretanto, afirmar que ela é a única referência válida significa negar a identidade sob o prisma da realidade psíquica. A forma como uma pessoa adulta sente a si mesma e conduz suas escolhas deve ser respeitada.
Nesse contexto, é importante ressaltar dois referenciais de lógica: a lógica booleana, que opera com dois estados (0 e 1) e é adequada ao referencial biológico; e a lógica fuzzy, que admite infinitos valores entre 0 e 1, sendo adequada ao referencial psíquico, permitindo compreender que entre XX e XY existem inúmeras possibilidades de expressão. Isso se reflete na multiplicidade de termos usados por grupos como LGBTQQICAPF2K+, que buscam nomear nuances que não cabem no binário biológico.
Mas é preciso cuidado, pois nem sempre sentir significa ser. A realidade psíquica não anula a material; contudo, a realidade material, em muitas situações, anula a psíquica. Se alguém se sentir um super-herói capaz de voar e pular de uma janela, os limites da realidade biológica prevalecerão. Da mesma forma, se alguém, sentindo-se um gato, morar na rua e caçar ratos para se alimentar, não chegará a um bom lugar. Tal qual todos que nasceram um dia, mesmo que se sintam imortais, irão falecer. A realidade material impõe limites inegociáveis.
Há ainda outro aspecto importante a considerar. Em qualquer relação, de qualquer ordem, é necessário haver um fiel da balança que permita mediar conflitos de percepção, especialmente em sociedades democráticas. Nesse caso, o elemento que cumpre essa função é o biológico, por ser universal e atravessar o tempo: desde que a espécie humana existe, mulheres possuem cromossomos XX e homens, XY.
Sem esse parâmetro comum, surge um impasse. Se uma pessoa XY afirma à outra que “se sente mulher” e, por isso, deve ser reconhecida como tal, a outra pode responder: “eu não sinto você como mulher, portanto, meu sentimento não a torna mulher”. A pergunta que emerge é: por que o sentir de uma deveria prevalecer sobre o sentir da outra?
Quando não há um critério compartilhado, cada percepção subjetiva se torna absoluta e, portanto, inconciliável. Nesse cenário, o único fiel da balança possível é a biologia, justamente por ser atemporal, universal e independente das variações individuais de sentimento.
Enfim, com certa segurança, pode-se afirmar que o sofrimento surge justamente quando há uma ruptura entre o que a sociedade reconhece e o que o Eu reconhece em si mesmo. Essa fratura pode gerar um vazio profundo, um sentimento de desenraizamento que compromete a própria experiência de existir. Reconhecer a coexistência legítima dos recortes biológico, psíquico e social, respeitando os limites próprios de cada um, é fundamental para reduzir o sofrimento humano e ampliar o espaço de dignidade e compreensão mútua.
Entretanto, negar os limites impostos pela natureza em seus recortes biopsicossociais é perder referências essenciais, abrindo espaço para uma desorientação que não é somente individual, mas pode tornar-se coletiva, a ponto de já não ser possível distinguir o que é fato, o que é experiência e o que é delírio.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Grêmio 0x0 Remo Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS
Weverton comemora defesa de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Há derrotas das quais se tira aprendizado. E há empates que só se lamenta. Se, no meio da semana, busquei na juventude da equipe algum consolo para a perda de pontos fora de casa, do resultado desta noite de domingo restou apenas um ponto na tabela de classificação — e mais nada.
No primeiro tempo, fomos dominados e, não fosse Weverton, teríamos ido para o vestiário em desvantagem. Logo no início, nosso goleiro tirou, com um tapa, a bola que estava em cima da linha. Mais adiante, defendeu uma cobrança de pênalti. Aliás, afora Weverton, poucos apareceram para jogar na etapa inicial.
No segundo tempo, Luis Castro mexeu no time e colocou Arthur, Tetê e Gabriel Mec. Nosso capitão, camisa 8, faz toda a diferença quando está em campo. No mínimo, consegue manter a bola mais sob nosso domínio, e isso reduz o ímpeto do adversário.
Conseguimos pressionar e chegar mais perto do gol — insuficiente, porém, para criar aquilo que os narradores costumam chamar de chances claras. Foram alguns chutes de fora da área, cruzamentos nem sempre com a precisão necessária e um esforço que gerou mais suor do que futebol.
Nosso técnico terá de conversar muito com os jogadores, entender o momento de cada um e equilibrar o elenco para o primeiro compromisso da Sul-Americana, no meio da semana, sem perder o fôlego para o Gre-Nal do próximo fim de semana. Aliás, ter um clássico na sequência pode parecer perigoso para quem ainda busca equilíbrio. Quem conhece a nossa história, porém, sabe: são jogos assim que costumam definir destinos. Que venha o Gre-Nal!
Palmeiras 2×1 Grêmio Brasileiro – Arena Barueri, São Paulo
Pedro Gabriel desarma o adversário. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio teve chances de sair com ao menos um ponto, apesar de jogar fora de casa e diante do líder do campeonato. Infelizmente, a desatenção em uma cobrança de lateral e a guarda baixa da defesa no momento de afastar a bola permitiram a vitória do adversário.
O jogo, porém, não foi perdido por completo. O Grêmio tem lições a tirar e aspectos positivos a ressaltar. Referir-se a Carlos Vinicius é chover no molhado. Nosso atacante não precisa de mais de três bolas no pé para marcar. Hoje, foi efetivo novamente. Na mínima chance que teve, e no espaço quase inexistente entre os zagueiros, livrou-se da marcação e bateu de fora da área para as redes.
O que mais gostei de ver nesta noite foi a aposta de Luis Castro na juventude gremista. O treinador levou a campo ao menos oito jogadores com, no máximo, 24 anos. Cinco vieram da base, e três foram contratados nos últimos tempos.
Na zaga, Viery, com 21 anos, e Gustavo Martins, com 23, têm se consagrado como titulares. A lateral esquerda foi ocupada por Pedro Gabriel, que, aos 18 anos, fazia apenas sua segunda partida entre os profissionais. No meio de campo, Noriega (24), Nardoni (23), Monsalve (22), Zortéa (19) e Gabriel Mec (17) completaram a legião de jovens que esteve em campo. No banco, ainda havia Roger (17), Tiago (18) e Riquelme (19).
Se o Grêmio e sua torcida tiverem paciência, podemos estar assistindo ao nascimento de uma geração de talentos capaz de nos trazer muitas alegrias. São jogadores que ainda precisarão passar por ajustes de posicionamento, desenvolvimento físico e maior entendimento tático para atender às estratégias pensadas pelo treinador. Por isso, ter colegas experientes ao lado e um técnico com visão de futuro será importante.
Com os valores das contratações cada vez mais altos, os times que melhor souberem aproveitar a base tendem a colher resultados significativos. É preciso dar condições para que esses jogadores cresçam e para que os erros e tropeços, inevitáveis nesse processo, sejam vistos como lições próprias do amadurecimento.
“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”
Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.
Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.
A violência que nasce dentro de casa
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.
Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.
Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.
Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.
Escutar sem revitimizar
A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.
Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”
Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”
A palavra da vítima como prova
A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”
Um problema maior do que os números
Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.
A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.
Arthur articula no meio de campo. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O Grêmio encerrou seu período de quaresma. Estava prestes a completar 40 dias sem ser derrotado, em uma sequência de três vitórias, cinco empates e um título gaúcho. Mesmo na partida desta tarde, no Rio de Janeiro, teve chances — poucas, é verdade — de estender essa fase de triunfo até as vésperas da Páscoa. Infelizmente, não conseguiu.
Pagou, sobretudo, por um primeiro tempo muito abaixo do que vinha apresentando. Erros repetidos permitiram que o adversário, em pouco mais de meia hora, estivesse com o placar nas mãos. O time escolhido por Luis Castro para iniciar a partida não funcionou. O gol gremista, ainda na etapa inicial, nasceu mais da força e da precisão de Carlos Vinícius do que de méritos coletivos.
A defesa esteve lenta e espaçada — sem a ajuda dos atacantes que jogam pelos lados. O meio de campo não articulava. Arthur, isolado, tentava segurar a bola e organizar o jogo. Os pontas encontravam dificuldade para superar os marcadores. E os alas chegavam à frente sem intensidade. Pavón foi exceção em alguns momentos, tentando compensar no ataque o que não conseguia entregar na defesa.
Luis Castro enxergou os problemas, mexeu no time no intervalo e conseguiu conter mais o adversário. O Grêmio passou a ter mais posse de bola. Faltou transformar domínio em perigo. Falhas de execução, às vezes em passes simples, impediram que o time avançasse com qualidade.
A melhor chance surgiu quase como um presente. No retorno após seis meses afastado por lesão, Braithwaite aproveitou um erro da defesa, roubou a bola e finalizou forte. Parou no goleiro.
Os três pontos que ficaram no Rio pesam mais quando lembramos dos empates recentes, um deles jogando em casa. Após oito rodadas, o Grêmio segue na primeira página da tabela antes da pausa para os jogos da seleção. Não é um cenário ruim. Exige atenção. A sequência será exigente, com retomada do Brasileiro e início da Copa Sul-Americana.
A despeito da derrota de hoje, o fato é que o Grêmio evoluiu em relação ao início da temporada. Luis Castro dá forma a uma ideia de jogo. Para o treinador, a parada será um período de ajustes e afirmações.
Está evidente que, neste momento, a dupla de zaga titular tem de ter os dois guris, Gustavo Martins e Viery. Nas laterais, ainda será preciso encontrar soluções definitivas, especialmente para substituir Marlon, que ficará fora de três a cinco meses.
No meio, o desafio é encontrar o companheiro ideal que divida com Arthur a responsabilidade de organizar e acelerar o jogo. Nardoni e Léo Perez terão tempo para se adaptar. Noriega voltará. William e Monsalve poderão aprimorar a parte física.
No ataque, Enamorado e Amuzu, por enquanto, são os titulares nas pontas. Tetê ainda carece de adaptação e precisará entender que a forma de o Grêmio jogar exige recomposição rápida. Gabriel Mec é uma alternativa interessante, principalmente se ganhar força para resistir em pé à marcação pesada que sofre. Ainda teremos a opção de testar Carlos Vinícius e Braithwaite juntos, especialmente em momentos de maior pressão ofensiva.
A derrota interrompe a sequência. Não o processo. O Grêmio mostra caminhos. E terá tempo para ajustá-los. Quem sabe, antes mesmo de a Páscoa chegar.
A latinidade ganhou escala global, entrou no centro do entretenimento e passou a funcionar também como marca cultural. O tema foi discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir do impacto provocado pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny no mercado da música e no imaginário do público.
O caso chama atenção porque rompe uma barreira antiga no Brasil. Durante muito tempo, artistas latino-americanos de língua espanhola tiveram dificuldade de ocupar espaço amplo por aqui. Cecília observa que esse cenário mudou de patamar. “A latinidade deixa de ser algo marginal e passa a ser algo de massa, de apelo mais democrático, furando todas as bolhas”, disse. A frase ajuda a entender por que o debate vai além da música. Não se trata apenas de um artista popular, mas de um fenômeno que desloca referências culturais e reposiciona símbolos latinos no consumo global.
No comentário, Cecília lembra que os números reforçam essa mudança. O crescimento de ouvintes brasileiros de Bad Bunny e a disparada de execuções após o Super Bowl mostram como uma presença artística pode ampliar seu alcance quando reúne identidade, repertório visual e conexão geracional. Na leitura dela, o artista “reforça várias lentes do que é o latino”, combinando marca-país, vínculo com a geração Z e os millennials e até um traço político em sua forma de se apresentar.
Essa análise ajuda a entender um ponto importante do universo das marcas: elas não são feitas só de produto, nome ou logotipo. Também são construídas por símbolos, linguagem, comportamento e contexto. No caso de Bad Bunny, entram nessa conta a defesa explícita de sua origem porto-riquenha, o uso do espanhol, a estética vibrante, a dança, as gírias e a sensação de pertencimento que ele oferece ao público.
Jaime acrescenta uma camada que torna o debate mais interessante. Para ele, o sucesso da marca latina de Bad Bunny no Brasil também passou por uma espécie de chancela cultural dos Estados Unidos. “Foram os americanos, ou foi a cultura americana e mais especificamente o maior evento mundial americano, o Super Bowl, quem catapultou o Bad Bunny”, afirmou. A observação traz certa ironia: parte do público brasileiro pode ter se aproximado da latinidade depois de vê-la validada no palco mais poderoso da indústria cultural americana.
A provocação de Jaime toca num traço histórico do Brasil. Muitas vezes, o país se relaciona com a América Latina de maneira ambígua: geograficamente inserido, culturalmente próximo em vários aspectos, mas nem sempre disposto a se reconhecer plenamente como parte desse conjunto. Quando ele diz que é “como se nós tivéssemos de costas para a América Latina”, aponta para uma resistência antiga, agora tensionada pelo sucesso de um artista que transformou sua identidade em força de mercado.
A marca do Sua Marca
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso ensisna que fenômenos culturais não se explicam por uma única causa. A força de uma marca nasce do encontro entre identidade, contexto, linguagem, visibilidade e circulação social. A latinidade, hoje, parece ter deixado de ser apenas uma referência periférica para disputar espaço no centro da cultura de massa. Resta saber se esse movimento é passageiro ou se veio para ficar.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Inter 1×1 Grêmio Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)
Festa do Imortal no Beira Rio Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA
“Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”. A frase de um dos maiores dirigentes que tivemos, Nelson Olmedo, sacramentou a conquista gaúcha mais marcante da história gremista: o título de campeão de 1977. Havia dirigentes e torcedores adversários questionando a vitória devido à confusão no minuto final da partida, que levou à invasão de torcedores tricolores ansiosos por um troféu que estava longe do Olímpico havia oito anos.
Desde aqueles tempos em que eu era um guri de calça curta e camisa tricolor, levado pela mão do pai até as arquibancadas do Monumental, o choro de perdedor é livre. Até aquele 25 de setembro de 1977, eu já havia chorado muito. O fato é que, digam o que disserem, reclamem o que reclamarem, o resultado em campo fala mais alto. E neste 2026, quando já sou um guri de 62 anos, o Grêmio foi maior.
O Imortal teve uma vitória contundente na primeira partida na Arena (3×0) e administrou o resultado na segunda (1×1), na casa do adversário. Para ter dimensão desta conquista: é apenas a terceira vez que fizemos a festa no Beira-Rio — a última havia sido há 20 anos. Foi a primeira desde que o estádio foi reformulado. Claro que isso também tem a ver com o fato de que muitos dos títulos dos últimos anos nós decidimos em nossa casa porque tínhamos campanhas superiores.
O jogo desta noite em Porto Alegre e a postura que o Grêmio adotou estão diretamente ligados ao que aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal na Arena. Não pelo que o adversário alega, mas por aquilo que o Grêmio construiu. A expulsão em pouco mais de meia hora de jogo foi resultado de uma marcação precisa e de um contra-ataque veloz. Aquela escapada de Amuzu, que se repetiria no segundo gol, foi mérito do Grêmio. Assim como foram a pressão na bola, a qualidade na troca de passes, os ataques velozes e a precisão nos chutes que permitiram que o Grêmio chegasse com larga vantagem à partida final.
No jogo deste início de noite em Porto Alegre, o Grêmio teve maturidade e personalidade para encarar o desequilíbrio emocional do adversário. Amuzu foi agredido na primeira tentativa de drible. Arthur, mais uma vez, foi caçado em campo. Monsalve sofreu falta em quase toda jogada. Havia ainda a esperada pressão sobre nosso setor defensivo, com o adversário empurrado pela torcida local. Nesses momentos, Weverton foi gigante em suas defesas — especialmente aquela com o braço direito, aos 12 minutos de partida, impedindo o que seria um gol praticamente feito pelo adversário, que poderia ter mudado a história do jogo.
Além de nosso goleiro, que calou críticos e descrentes, tivemos uma defesa muito segura na marcação, seja pelo sistema armado por Luis Castro, seja pelo ímpeto de nossos jovens zagueiros. Viery (21 anos), com o perdão pelo risco que correu de ser expulso em um lance desnecessário, e Gustavo Martins (23 anos) me fizeram lembrar os tempos de Geromel e Kannemann, guardadas as devidas proporções. Espantaram os perigos que rondaram nossa goleira, deram pouquíssimo espaço para os atacantes dentro da área e ainda contaram com a sorte que acompanha os virtuosos.
Destaque maior, claro, para Gustavo Martins, que mais uma vez foi decisivo não apenas na defesa. Apareceu na frente e marcou o gol nos acréscimos do segundo tempo ao aproveitar uma bola que veio da cobrança de escanteio. Nosso zagueiro já havia sido fundamental em vitórias passadas. Quem não lembra o gol de bicicleta que ele marcou na semifinal do Gaúcho do ano passado, que nos proporcionou disputar o título? O jovem da base entra também para a história do Gre-Nal por ter marcado o 1.200º gol do clássico gaúcho.
Quis o destino que ainda tivéssemos o prazer de lembrar o passado recente de vitórias gremistas quando Kannemann foi sacado do banco para cobrir o buraco deixado por Wagner Leonardo, que havia substituído Viery e acabou expulso no segundo tempo. O argentino, no pouco tempo em que esteve em campo, mostrou sua bravura ao dar um peixinho no pé do adversário na entrada da área. Mesmo ferido, seguiu em campo e foi premiado com a faixa de capitão e o direito de erguer a taça de Campeão Gaúcho de 2026. Nada mais simbólico do que retomar o título estadual com Kannemann em campo.
O Grêmio de Luis Castro ainda tem muitos acertos a fazer e ninguém deve se iludir com o título neste início de ano. A temporada será longa e dura. Precisamos voltar a ser protagonistas no futebol nacional e sul-americano. Missão difícil, considerando o poder econômico dos principais adversários.
Hoje, porém, era noite de lembrar o velho Olmedo. Porque, no fim das contas, o futebol costuma ser simples: o jogo termina, o resultado está no placar e a taça encontra o seu lugar. Desta vez, novamente, no armário tricolor. Como disse o cartola em 1977: “Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”.
Juventude 1 (1) x (4) 1 Grêmio Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul (RS)
Weverton defendeu uma das cobranças de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
O Grêmio está na final do Campeonato Gaúcho. Para muitos, não fez mais do que a obrigação. Eu comemoro. Especialmente diante das circunstâncias. Estar fora da decisão seria um desastre logo no início da temporada. O time está em reconstrução. Busca nova identidade. Testa jogadores recém-chegados. Investe em talentos muito jovens. E tenta superar carências que ainda existem no elenco.
O trabalho realizado por Luis Castro, a quem foi entregue a responsabilidade de refazer o Grêmio, corria riscos caso caíssemos diante do Juventude. E tudo o que o treinador português necessita, consideradas as condições, é tempo, paciência e equilíbrio para promover as mudanças.
A classificação, da forma como veio, ainda não oferece a tranquilidade desejada. Foram dois empates. O primeiro, em casa, quando não conseguimos sustentar a vantagem e fomos incapazes de superar um adversário que terminou com um jogador a menos. O segundo, saindo atrás no placar e escapando, no primeiro tempo e no início da etapa final, de sofrer mais gols. O time tem fragilidades evidentes e carece de definições em algumas posições.
O resultado, ainda assim, pode ser transformador. Oferece ao técnico e aos seus comandados um sinal de confiança. Mostra que a luta insistente e a resiliência diante dos reveses podem ser recompensadas. A coragem de alguns jogadores se sobressaiu.
Na partida desta noite, em Caxias do Sul, houve momentos de superação. Caso de Viery, zagueiro de apenas 21 anos. Em um lance estabanado na área, cometeu pênalti que deixou o Grêmio em desvantagem. Não se abateu. Avançou ao ataque e, sem medo de errar, acertou um chute de virada, de fora da área, para marcar o gol de empate.
Houve lances de revelação. Gabriel Mec, com apenas 17 anos, soltou o talento e deu novo ritmo ao ataque gremista, atuando como um meio-campista mais avançado. Com dribles, finalizações e valentia para enfrentar marcação dura, assumiu protagonismo — como lhe pediu o treinador pouco depois de sua entrada no segundo tempo, recado revelado pela repórter da transmissão do canal Premier. O guri ainda teve personalidade para converter um dos pênaltis na série decisiva.
Houve instantes de confirmação. Weverton, goleiro recém-empossado, sobressaiu-se. Defendeu a primeira cobrança e impôs pressão imediata ao adversário. A bola no travessão, na segunda penalidade, carrega a marca do temor que um goleiro multicampeão costuma provocar.
Houve cenas que só os atentos perceberam. Quando Luis Castro escolhia os batedores, o volante Noriega, posicionado logo atrás, pediu para cobrar. Ao ouvir a confirmação do técnico, respirou fundo, soltou o ar, relaxou os ombros — ritual de quem se prepara para decidir. E decidiu, convertendo a segunda cobrança.
O Grêmio precisará de coragem para atravessar essa longa reconstrução. Mostrou, ao menos nesta noite, que está disposto a merecer a confiança de seus torcedores — inclusive dos que ainda observam com desconfiança.