Avalanche Tricolor: essas mal traçadas linhas

Grêmio 1×2 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Era para sair de campo com os três pontos, manter viva a fantasia da Libertadores e encerrar a temporada ao lado do torcedor com algum alento. Talvez até encontrar uma trégua nessa relação instável, cheia de tropeços, que sustentamos com o futebol gremista ao longo do ano. Uma vitória ajudaria a apagar, ainda que por alguns instantes, os reveses causados por nossas próprias falhas, pelos azares que cruzaram o caminho e pelas arbitragens que nos tomaram pontos valiosos — especialmente, embora não exclusivamente, neste Campeonato Brasileiro.

Acreditava, com uma boa dose de teimosia, que esta Avalanche — escrita tarde da noite, para desespero de quem madruga — pudesse trazer linhas firmes, bem desenhadas, celebrando o renascimento de um time e a promessa de um ano novo mais generoso. A temporada, porém, insiste em esfregar no rosto a realidade que temos evitado encarar. E ironicamente me faz lembrar Lulu Santos, como aquele amigo que aparece na hora errada com uma verdade desconfortável: “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”. Sigo acreditando que será, sim. Só não será agora.

O Grêmio mostrou lampejos de um futebol mais organizado na segunda metade do campeonato. Redescobriu o talento impressionante de Arthur, que precisa ser mantido no elenco se quisermos, em 2026, voltar a ser competitivos. Encontrou também um centroavante eficiente, Carlos Vinícius, cuja ausência por suspensão pesou demais neste jogo.

Há outros jogadores que, recuperados fisicamente, podem contribuir nas competições que começam já em janeiro. E existe a expectativa — sempre ela — de contratações capazes de elevar o nível do time e do grupo.

O placar desta noite, no entanto, praticamente fechou a porta por onde ainda passava uma réstia de sonho: uma combinação improvável de resultados até a última rodada que nos levasse a Liberadores, esperança demais para quem produziu de menos ao longo do ano. A atuação, hoje, nem foi ruim, embora tenhamos sucumbido a um adversário mais consistente na temporada. E ainda apareceram os acasos, sempre prontos para cumprir seu papel de protagonistas — como aquelas mal traçadas linhas que validaram o primeiro gol do Fluminense.

De minha parte, quem sou eu para julgá-las? Se já me vejo às voltas com a dificuldade de desenhar melhor as próprias linhas desta Avalanche, imagine querer analisar as linhas traçadas pelo VAR.

Dez Por Cento Mais: Cláudia Franco propõe uma revolução da longevidade com propósito

Foto de cottonbro studio

“Eu não preciso ter e nem quero ter a cara de 30, porque eu já tive essa cara. Eu quero ter cara de saúde.

Cláudia Franco, Envelheça com Saúde e Propósito

A sociedade brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e um fenômeno demográfico notável aponta para a feminilização da velhice: as mulheres representam a maior parte da população idosa, com 72% dos centenários sendo do sexo feminino. A tendência, no entanto, vem acompanhada de desafios como sobrecarga de trabalho, responsabilidade como cuidadora familiar e, muitas vezes, menor renda. Esse panorama do envelhecimento e a importância das escolhas individuais para uma vida longeva com qualidade são o foco da entrevista com Cláudia Franco, criadora de conteúdo digital, atleta, mentora, modelo 60+ e empresária, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

O confronto com o “Anti-Envelhecimento”

Cláudia Franco, que começou a compartilhar suas reflexões no Instagram ao se aproximar dos 60 anos, confronta a resistência social em aceitar a velhice, muitas vezes mascarada em elogios como “você não parece a idade que tem”. Para ela, essa mentalidade reflete um preconceito incutido na sociedade:

“Eu nunca vi o envelhecer como algo ruim. É o que eu estou me tornando, eu estou me transformando, o ser humano está em transformação desde quando nasce.”

A especialista defende o movimento pró-envelhecimento (pro-aging), em oposição ao termo anti-aging (anti-envelhecimento) frequentemente usado pela indústria.

“Eu sou avessa a esse termo, porque a gente tem que combater aquilo que é ruim, por exemplo, uma doença. Quando a gente fala anti-aging, a gente está combatendo o nosso envelhecimento, um processo natural do ser humano.”

O objetivo do autocuidado, explica, não deve ser o de esconder ou eliminar as marcas da idade, mas sim de garantir a saúde e a preservação da característica individual. A motivação por trás das escolhas de aparência é o ponto central. Por exemplo, cada um define se quer pintar o cabelo ou não, o importante é o seu propósito: “Essa corrida para permanecer com a cara de jovem, isso me incomoda, porque eu acho que é sofrimento. Não tem pior coisa na vida do que você estar desconfortável dentro da própria pele“, afirma.

A lição de casa da maturidade

A maturidade, segundo Cláudia Franco, traz consigo uma grande liberdade por desvincular o indivíduo da necessidade de se adequar a padrões.

“Eu não preciso estar ali encaixada em nenhum padrão, isso é a maior liberdade que uma mulher pode ter. Sabe, você ser feliz e segura com o que você é.”

No entanto, essa liberdade exige um compromisso ativo com a própria longevidade. A entrevistada destaca a importância de o indivíduo buscar autonomia — física, mental e financeira — para evitar a dependência de terceiros. Esse preparo é fundamental, visto que a fase da velhice pode ser a mais longa da vida.

“Eu posso ser longeva, mas não significa que eu vou ser saudável, eu posso ser longeva e estar na cama. Eu quero viver esses meus 20, 30, quem sabe, 40 anos, mas eu quero viver com saúde.”

Cláudia Franco, ao relatar sua própria mudança de vida de São Paulo para o litoral, exemplifica a “faxina” necessária: simplificar a vida, desapegar-se e se preparar financeiramente. Ela ressalta que a maturidade não é uma fase de descanso, mas sim de troca de demandas, mantendo-se em atividade constante.

“Não é uma fase que a gente vai parar e descansar, a gente vai trocar as demandas. A gente não pode parar, porque eu vejo que tem alguém que fala: ‘ah, se parar enferruja’. E é verdade, se você para seu corpo recente.”

A menção do envelhecimento como tema de redação na mais recente edição do ENEM trouxe a discussão para perto de gerações mais jovens, reforçando a urgência em pensar o futuro. Contudo, Cláudia Franco observa que grande parte dos jovens não está ativamente se preparando para envelhecer, enquanto uma parcela dos 50+ já despertou para a necessidade de manter o “veículo funcionando” por décadas à frente. Ao final, ela deixou uma mensagem sobre empatia e acolhimento:

“Quando a gente acolhe o envelhecimento do outro, consegue entender o nosso próprio. Envelhecer está na moda.”

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Mundo Corporativo: Max Xavier, da Delta Energia, explica como a abertura do mercado e a tecnologia podem mudar a relação do brasileiro com a energia

Entrevista online com Max Xavier Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Aproveitar adequadamente esses atributos que a natureza nos deu é fundamental para nós e pode inclusive projetar o Brasil para ser uma liderança energética mundial. E a gente precisa atuar de forma adequada para que essa potencial vantagem competitiva se materialize.”
Max Xavier, Delta Energia

O Brasil pode transformar diversidade de fontes — hídrica, eólica, solar, biomassa e biocombustíveis — em vantagem concreta para consumidores e empresas, desde que avance em regulação, competição e tecnologia. Essa é a visão de Max Xavier, CEO da Delta Energia, que detalha por que ampliar a liberdade de escolha e digitalizar o sistema elétrico tende a alterar do preço à forma de consumir e produzir eletricidade.

Diversificação e visão de longo prazo

Em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Max Xavier conta que a trajetória da Delta começou no racionamento de 2001, quando dois jovens fundaram uma comercializadora no ambiente livre recém-criado. Depois, vieram expansão de carteira e diversificação: geração solar distribuída, térmica, serviços, biocombustíveis e estruturação de fundos. A aposta mais recente mira a abertura ampla do mercado — hoje restrita por regras de elegibilidade — com a criação de uma comercializadora digital. A ideia é atender o consumidor que, no futuro, poderá escolher o fornecedor de energia tal como faz com telefonia ou internet.

Xavier defende a analogia com outro setor: “O setor elétrico brasileiro deveria se espelhar muito no setor de telecomunicações, porque foi essa capacidade de escolha que o empoderou, e através da competição trouxe o setor de comunicação para um patamar bem diferenciado, em benefício do consumidor e da sociedade.”

No campo tecnológico, o executivo destaca a combinação entre novas fontes e digitalização: medidores inteligentes, mobilidade elétrica e baterias — inclusive o uso da bateria do carro para abastecer a casa em emergências — reconfiguram o papel do consumidor, que deixa de ser apenas usuário passivo para também produzir e gerenciar energia.

Brasil potência limpa: condição e tarefa

Para Xavier, o país reúne fatores naturais e industriais para atrair cargas eletrointensivas e ampliar intercâmbios com vizinhos sul-americanos. O passo seguinte é transformar potencial em prática, com planejamento e execução: “Aproveitar adequadamente esses atributos que a natureza nos deu… é fundamental… para que essa potencial vantagem competitiva se materialize.”

O setor privado, afirma, tem papel central desde os anos 1990, quando a necessidade de investimento levou à abertura ao capital. Eficiência operacional e visão de futuro importam em um setor capital-intensivo, de maturação longa e alta complexidade técnica. “Olhar para o futuro… é fundamental”, diz, ao lembrar que decisões de hoje têm efeitos por décadas.

Gente e formação para um sistema mais complexo

A digitalização amplia a demanda por profissionais capazes de cruzar engenharia, dados e estratégia. Na leitura do CEO, formação sólida é condição para navegar tendências e antecipar riscos: “Costumo sempre dizer para as novas gerações que estão chegando no setor elétrico, talvez o grande diferencial seja a qualificação. E as novas gerações, se tiverem essa formação sólida associada a uma visão sistêmica, estratégica e empreendedora, podem se beneficiar muito disso.”

A própria carreira de Xavier — do setor estatal às posições executivas após a privatização — reforça o argumento sobre base técnica, finanças e gestão. O exemplo dos fundadores da Delta, Rubens Parreira e Ricardo Lisboa, ilustra o encontro entre oportunidade, regulação e empreendedorismo, de uma comercializadora nascente a um grupo de energia com diferentes frentes de atuação.

O consumidor no centro

Com a expansão do mercado livre e a disseminação de tecnologia, a dona de casa poderá escolher o fornecedor, administrar geração solar no telhado, armazenar energia e usar a bateria do carro de forma integrada à residência. A tese de Xavier amarra regulação, competição e inovação: abrir espaço para a escolha melhora preço e serviço; redes digitais e armazenadores ampliam a confiabilidade; novas fontes elevam a segurança energética. O conjunto, diz ele, depende de execução consistente para que se traduza em ganho para a sociedade.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: vitória para dormir tarde e acordar sonhando

Grêmio 3×2 Palmeiras
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Fui dormir tarde. E fui dormir feliz. Há muito esperava ver o Grêmio estampado na primeira parte da tabela de classificação. A combinação de resultados nos levou ao nono lugar, talvez a melhor posição até aqui — com o bônus de afastar, de vez, o fantasma maior do rebaixamento.

Na gangorra de emoções que o futebol gremista tem proporcionado nesta temporada, hoje era dia de festa. A despeito da sofrência que nos acompanhou durante todo o primeiro tempo, fomos recompensados no lance final: Amuzu empatou após o toque de cabeça de Wagner Leonardo, que recebeu o lateral cobrado por Marcos Rocha — mérito do nosso jogador, que sabe aproveitar como poucos uma jogada tão subestimada no futebol mundial.

O segundo tempo, com William de volta ao meio, mudou a história da partida. Arthur encontrou alguém à sua altura para tabelar. E, bem tratada, a bola retribuiu. Os dois tomaram conta do setor, balançaram a marcação de um lado para o outro e abriram caminhos para que o time chegasse à área adversária.

Os dois pênaltis nasceram dessa mudança de postura e da qualidade com que o Grêmio passou a tratar a bola. Carlos Vinícius marcou seu décimo gol com a camisa gremista e se consolida como um dos atacantes mais efetivos do campeonato. William — quase dois meses afastado — foi premiado com seu primeiro gol no clube. Duas cobranças seguras.

Durmo feliz e com a sensação de que essa vitória pesa no destino do Grêmio em 2026. Além de deixar o time com os dois pés dentro da Sul-Americana, ainda abre espaço para sonhar com uma última vaga na Libertadores até a rodada final. Mais do que isso, mostrou que, com alguns nomes em forma e em campo, o Grêmio pode ser um time bem melhor no ano que vem. Afinal, já que vou dormir tarde, que me deixem sonhar ao menos até a próxima rodada.

O Cerimonial da Gentileza

Por Christian Müller Jung

Foto: Mauricio Tonetto / SecomRS

Não planejei a profissão que tenho hoje. Cheguei a ela pelos caminhos que a insatisfação abre quando percebemos que algo já não nos serve. Aproveitei o patrimônio biológico que carregava desde sempre: a voz. Fiz o curso de Locução, Apresentação e Animação, acrescentando uma nova formação ao diploma de Publicidade e Propaganda pela PUC-RS.

Enquanto procurava um espaço para exercitar essa nova habilidade,  surgiu a oportunidade de atuar como Mestre de Cerimônias do Governo do Rio Grande do Sul. Ali, entendi que a voz e o cerimonial tinham mais conexão com gentileza do que eu imaginava.

Chego, assim, ao tema central deste texto.

Fui instigado a falar sobre ele em um programa de televisão, no Dia Mundial da Gentileza. Recordei imediatamente a rotina do cerimonial, esse conjunto de formalidades que orienta os atos solenes e exige, antes de qualquer protocolo, lidar com seres humanos: autoridades, convidados, pessoas que entram no Palácio Piratini por razões muito distintas.

Lembro do meu amigo e ex-chefe do Cerimonail, Aristides Germani Filho, apresentando as primeiras instruções aos estagiários: “Aqui todo mundo é Senhor e Senhora.”

Era um resumo elegante do ofício de receber: tratar com atenção, preservar a delicadeza, reconhecer o espaço do outro. Em poucas palavras, ser gentil.

Com o tempo, percebi que gentileza funciona como um distintivo social. Ela aproxima da comunicação não violenta, afasta a arrogância e abre espaço para relações mais transparentes. Falar sobre o tema me fez revisitar atitudes que venho praticando nesses anos de trabalho no Palácio do Piratini: acolher quem chega, perceber angústias escondidas nos gestos, manter a relação institucional do Governo firme e respeitosa.

Falar em público também tem sua dose de gentileza. A forma como colocamos a voz revela estados de espírito. Uma articulação clara acolhe; um tom cansado distancia; a irritação fere. A voz, quando bem usada, é uma ponte — e pode ser uma ponte suave.

Gentileza com quem está acima de nós é bom senso. Com quem trabalha ao nosso lado, é cuidado para evitar ressentimentos que se acumulam em silêncio e viram sabotagens involuntárias. Na vida profissional, ela funciona como instrumento discreto e decisivo.

E há um ponto essencial: escutar. Em uma época em que todos falam com absoluta convicção, a escuta virou raridade. Quem escuta exerce gentileza, mesmo quando discorda. A escuta é o gesto mais simples e, ao mesmo tempo, o mais exigente.

Antes de tudo, precisamos ser gentis conosco. Conhecer limites, saber dizer não, recusar a ideia de que ser gentil é agradar a qualquer custo. Gentileza não é submissão. Também não é manipulação. É autoconhecimento e respeito ao espaço do outro.

Ao longo da vida, encontramos pessoas que já nos conhecem e reconhecem nossas intenções. Mas grande parte dos encontros acontece com quem nada sabe sobre nós. E é nesses encontros que a gentileza se torna cartão de visita.

Alguns estudos mostram que pessoas que cultivam a gentileza relatam níveis menores de estresse e até pressão arterial mais baixa. Há pesquisas que relacionam essa prática à ocitocina: o hormônio produzido no hipotálamo, associado ao vínculo e à empatia. É a lógica da velha metáfora:

“Quando acendo a minha vela apagada na tua vela acesa, ninguém perde; todos ganham luz.”

Gentileza é exercício diário, daqueles que amadurecem com o tempo. E, justamente por ser prática contínua, encontra pela frente muita dureza, quase sempre fruto de ignorância, que não escolhe classe social, nível de escolaridade ou aparência.

Platão escreveu que precisamos de graça e gentileza por toda a vida. Concordo.

E se você chegou até aqui, agradeço pela gentileza da leitura!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

Avalanche Tricolor: o preço de sonhar menos

Botafogo 3×2 Grêmio
Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Gremio x Botafogo
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio vive de pequenas esperanças e grandes frustrações. Uma vitória acolá levanta o ânimo, um empate segura a respiração e as derrotas — sempre tão recorrentes — lembram que a realidade insiste em puxar o time de volta ao chão. Basta um bom jogo para acreditar que a arrancada começou; basta a rodada seguinte para perceber que continuamos no mesmo lugar.

Há quem descreva essa temporada como uma montanha russa. Não me convence. A figura mais honesta é a de um carrossel infantil: gira, gira, e não sai do eixo. Mesmo depois da vitória no meio da semana, sabíamos que o jogo no Rio não autorizava qualquer ousadia. Diante de um adversário organizado, a queda parece escrita antes do apito inicial — e o time age como se também tivesse lido esse roteiro.

As carências do futebol jogado estão expostas para quem quiser enxergar. Frequentemente, sucumbimos à superioridade rival, como se alcançar um nível mais alto fosse algo fora do alcance. A perda de pontos se torna rotina: às vezes um, muitas vezes três, como aconteceu neste sábado.

O maior perigo não é o sobe e desce, mas o hábito que ele produz. Corre-se o risco de aceitar a mediocridade como paisagem fixa. Ganha-se quando sobra espaço, empata-se por acidente e a derrota passa a ser tratada como destino de quem não se preparou para competir mais alto.

O placar da noite reflete exatamente isso. Pode-se lamentar a chance final desperdiçada — aquela bola que parecia pedir para morrer nas redes e foi chutada para longe pelo próprio artilheiro. Ainda assim, não surpreende: entramos em campo desconfiando de que qualquer vitória seria fruto de generosidade do acaso.

O Grêmio corre poucos riscos no campeonato e alimenta ambições igualmente pequenas. O problema é que o Grêmio, esse que honra sua história, nunca foi time de aceitar o mínimo. O incômodo maior não está no resultado, mas no tamanho dos sonhos que estamos deixando de sonhar.

Avalanche Tricolor: o sorriso da vitória

Grêmio 2 x 0 Vasco
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gol de Carlos Vinícius Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“É gol…
Que felicidade!

O verso que atravessou décadas na voz do Trio Esperança ganhou fama nas transmissões esportivas do rádio e ainda ecoa no imaginário do torcedor brasileiro. Mesmo narrando um gol fictício do Flamengo, a música virou trilha de quem vibra diante da bola que estufa a rede. O refrão traduz um gesto simples e universal: o sorriso que surge sem pedir licença quando o time marca.

A quarta-feira, em Porto Alegre, foi guiada por esse sorriso — o de Carlos Vinícius, centroavante à moda antiga, daqueles que vivem da área e para a área. Até o segundo tempo, o Grêmio fazia um jogo em que era melhor, ocupava o campo adversário, trocava passes, mas não encontrava o caminho do gol. Coube ao camisa 9(5) desfazer o nó.

Pavón cruzou, como quem acende uma luz. Carlos Vinícius dominou na marca do pênalti, cercado, sem espaço e sem tempo. Controlou com a direita, girou com a esquerda e bateu forte. A bola entrou. E o estádio abriu o sorriso que estava preso desde o início da partida.

Outro que parece carregar um sorriso como parte do uniforme é Amuzu. O ponta belga, nascido em Gana, trata o drible como diversão e a velocidade como ferramenta. Atacou o jogo inteiro, insistiu, incomodou. No lance que selou a vitória, correu atrás do lançamento de Dodi, deixou a marcação para trás e finalizou com talento acima da média, tirando o goleiro da jogada.

O segundo gol trouxe alívio e alegria. O tipo de alegria que o torcedor reconhece no ato: aquele sorriso involuntário de quem sabe que os três pontos não vão escapar.

Com a vitória na Arena, o Grêmio respira, se afasta do perigo maior, reencontra um lugar mais confortável na tabela e volta a mirar um espaço nas competições sulamericanas. A noite termina e o torcedor se dá o direito de voltar para casa cantarolando pelas ruas de Porto Alegre:

“É gol…
Que felicidade!
É gol o meu time é alegria da cidade…”

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: três lições que as pequenas marcas ensinam sobre permanência

Imagem: divulgação

A força de uma marca pode estar mais perto do chão da rua do que dos luminosos das grandes capitais. A constatação é de Jaime Troiano, que trouxe para o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso as três ideias centrais que pautaram a apresentação dele, ao lado da filha Beatriz Russo Troiano (líder de Estratégia da TroianoBranding), no palco da Latam Retail Show, evento internacional de varejo.

A primeira ideia que surgiu da reflexão sobre as marcas regionais espalhadas pelo Brasil pode ser resumida em uma frase: “A marca sou eu, eu sou a marca.” Isso é resultado da proximidade quase visceral entre empresas locais e seus consumidores. A fronteira entre quem produz e quem compra é tão curta que, muitas vezes, há sempre alguém da família, do bairro ou da rua que já trabalhou ali. Esse vínculo não se inventa em área de marketing; nasce da convivência.

Memória vale mais que disputa por atenção

Jaime trouxe outro ponto central: a corrida por atenção no mundo digital não garante memória. Ele descreveu o bombardeio de estímulos que enfrentamos — stories, reels, notificações, prateleiras de supermercado. Nesse ambiente ruidoso, marcas regionais mostram um caminho simples e eficiente: entrar na memória é mais poderoso do que disputar segundos de atenção. Para ele, marcas fortes, ainda que pequenas, são feitas de rastros emocionais.

Cecília Russo apresentou a terceira ideia para entender o que essas marcas, muitas vezes escondidas do grande público, têm a ensinar: “Quando a empresa carrega como parte da sua razão de ser a família, a essência da marca não é apenas estratégia: é legado.” Muitas empresas regionais nascem de vínculos familiares, e isso altera tudo. A marca é tratada como uma história que não pode ser traída. Evolui, mas não rompe suas raízes. O exemplo das Balas de Banana Antonina, no Paraná, ilustra bem esse espírito: criadas há 50 anos por pai e filho, carregam até hoje a mesma alma.

Essa combinação de proximidade, memória e legado revela uma provocação: e se o futuro das marcas não estiver no tamanho, mas na profundidade da relação que criam?

A marca do Sua Marca

O comentário deixa uma síntese clara: marcas regionais ensinam permanência, fidelidade e respeito às próprias origens. Como disse Jaime, Golias sempre tem algo a aprender com David.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: André Clark, da Siemens Energy, fala do desafio de transformar o potencial energético do Brasil em desenvolvimento

Bastidor da entrevista online de André Clark Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“O Brasil é uma potência energética, não só na produção de energia, mas na cadeia de valor da energia.”
André Clark, VP Siemens Energy

O Brasil está numa posição rara no mundo: tem energia renovável em larga escala, uma malha de transmissão avançada e agora começa a atrair data centers e novos investimentos porque consegue oferecer eletricidade verde e em quantidade. Mas, segundo André Clark, vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina, isso não garante por si só que o país liderará a transição energética, é preciso organizar setor privado, governo e sociedade para implementar o que o mundo já decidiu fazer em clima. Esse foi o tema central da entrevista dele ao programa Mundo Corporativo, na CBN.

Clark lembrou que o país não chegou ao atual patamar por acaso “O Brasil é um país que produz 92% da sua eletricidade de forma renovável. Não chegou aqui à toa e certamente não por acidente. Foi com políticas públicas muito bem feitas que datam da década de 60”, afirmou, citando hidrelétricas, Proálcool, eólica e solar como escolhas feitas ao longo de décadas. Ele também destacou o papel diplomático brasileiro no tema: “O Brasil é um líder geopolítico disso. Na Rio 92 inicia a discussão do conceito de sustentabilidade na sociedade e nos negócios.”

Transição energética não é teoria: é implementação

Ao analisar a preparação do país para a COP30, em Belém (PA), Clark chamou atenção para o fato de que o debate climático está mais difícil no cenário internacional, mas que isso não pode servir de desculpa para a inação. “A humanidade ainda tá lutando para não aquecer mais de 1,5ºC, mas nós estamos perdendo essa corrida e nós vamos ter que correr muito mais, eletrificando os transportes, reduzindo o consumo de hidrocarbonetos e mudando o nosso estilo de vida como pessoa. O planeta não aguenta tudo isso que nós estamos fazendo.”

Para ele, a COP30 será uma conferência de execução: “Ela celebra 10 anos do Acordo de Paris e ela é uma COP da implementação.” Por isso, o setor privado brasileiro precisa chegar unido, com propostas concretas. “A primeira lição de casa do setor privado é se unir em uma agenda comum brasileira e construtiva.”

Clark fez um alerta que interessa diretamente ao país: o mundo, hoje, corre atrás primeiro de segurança energética, e só então de transição energética. O Brasil, ao contrário, vive um momento de excesso de energia renovável — e isso também exige gestão. “O mundo não tá preparado para acumular energia em larga escala. A energia produzida tem que encontrar do outro lado um consumo. Se ele não encontra esse consumo, o operador nacional do sistema tem que fechar aquela fonte.”

Na prática, isso significa que o país precisa acelerar soluções como armazenamento, baterias, hidrelétrica reversível e, principalmente, atrair consumidores intensivos de energia — caso dos grandes data centers e, no futuro, da produção de hidrogênio verde. “Nós estamos vivendo excesso de energia. Por isso que hoje o Brasil começa a atrair data centers, grandes devoradores de energia.”

Cadeia de valor, empregos e formação profissional

Ao falar da atuação da Siemens Energy no Brasil, Clark explicou por que produzir equipamentos no país é questão estratégica: “Tudo que a gente produz são equipamentos ultracríticos para o sistema energético de um país. Ter fabricação no país é um ativo estratégico, é quase uma questão de soberania nacional.” Segundo ele, a presença industrial no Brasil permite atender emergências e ainda exportar.

Esse movimento vem acompanhado de outra transformação: a dos empregos. A transição energética, afirmou, já está criando demanda por mão de obra técnica. “A transição energética vem junto com o que a gente chama de green jobs e esse green jobs, apesar de parecer só um mistério, é eletricista, técnicos em eletrônica, programadores, programadores de sistemas energéticos… coisa que existe hoje, só que em um volume muito maior.” Ele citou, inclusive, a decisão de direcionar recursos para formação no Pará, em vez de levar uma grande comitiva à COP.

Diversidade como proteção empresarial

Na parte final da entrevista, Clark ligou transição energética, cultura e gestão de pessoas. Para ele, empresas que se afastam da sociedade correm mais riscos. “Diversidade nos enriquece, reduz os riscos e nos faz enxergar os momentos em que a sociedade muda. Os grandes incidentes empresariais na última década foram quando a empresa perdeu visão da mudança da sociedade. Diversidade conecta a empresa à realidade da sociedade.”

Ele defendeu que organizações mantenham canais abertos para ouvir mulheres, negros e população LGBTQIAP+ sobre obstáculos internos. “Não é sobre como a gente erra, é sobre como a gente corrige os nossos erros.”

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Avalanche Tricolor: é o que define o Grêmio de 2025

Corinthians 2×0 Grêmio
Brasileiro – Itaquerão, São Paulo (SP)

Gremio x Corinthians
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Termina o jogo e o narrador da TV faz o que manda o protocolo: confere a tabela. É o momento de entender quem sobe, quem desce e quem apenas se arrasta. Confesso que já nem lembro a última vez em que vi o Grêmio entre os dez primeiros. Continuamos teimosamente na segunda página, aquela reservada aos que ainda respiram, mas sem fôlego para correr.

É verdade que o cenário já foi mais dramático; flertamos com a zona do rebaixamento e voltamos vivos. Hoje, o perigo parece distante, menos por mérito nosso e mais pela inércia dos que estão abaixo. O Grêmio melhorou, sim, mas pouco.

Nas últimas dez rodadas, vencemos quatro, perdemos quatro e empatamos duas. Há cinco jogos, seguimos um roteiro previsível: vitória em casa, derrota fora. Faltam sete partidas: quatro na Arena e três longe dela. Algumas complicadas, contra times que ainda sonham com o título. Outras, que pedem apenas o trivial. E o trivial, convenhamos, é o que temos a oferecer.

Nosso destino, portanto, parece traçado: o meio da tabela. E é o que merecemos após uma temporada claudicante. Esperar mais seria pedir clemência a deuses do futebol que andam de má vontade com a gente.

O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche já deve ter percebido alguns delírios recentes deste escrevinhador. Foram surtos de entusiasmo, nada mais. O jogo seguinte sempre se encarrega de nos trazer de volta à realidade, às vezes com crueldade, como na goleada na Bahia.

Por isso, sair de Itaquera com um revés não surpreende. Disseram na transmissão que não perdíamos para o Corinthians, fora de casa, há onze jogos. Bonita estatística, até lembrarmos que ultimamente o Grêmio tem se notabilizado por colecionar marcas históricas negativas.

Em 2025, o meio, o mediano, o quase. É isso que nos cabe. E, infelizmente, é isso que nos define.