Avalanche Tricolor: o dia em que Marlon, em nome do Grêmio, disse “basta!”

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro – Bragança Paulista/SP

Reprodução da imagem do canal Premiere

É precisa e definitiva a entrevista do lateral e capitão interino Marlon, ao fim da partida contra o Bragantino. Talvez uma das mais importantes que algum representante do Grêmio concedeu nos últimos tempos. Pois causa indignação assistir ao Grêmio ser mais uma vez prejudicado por erros de arbitragem – Kannemann foi expulso injustamente, ainda no primeiro tempo, e o pênalti marcado no último lance da partida não existiu.

Da fala de Marlon faço esta Avalanche:

O Grêmio FBPA está sendo categoricamente roubado desde que começou o campeonato. A gente vive numa liga em que você quer melhorar o calendário, mas não tem nem profissionalização dos árbitros. A gente vem de anos e anos de corrupção numa federação onde você não consegue legalizar as coisas. E isso tem muita influência direta no futebol.

Esse pênalti que foi marcado hoje aqui, o que aconteceu com o Grêmio, foi uma baixaria. Isso é sem tamanho, porque não tem critério nenhum. Eu estou com o braço colado. Se eu faço amplitude, a bola bate e volta para frente. A bola desvia no meu peito e vai para fora.

Esse mesmo árbitro marcou uma falta contra a gente, no jogo com o Mirassol, que originou um gol. E o cara do Mirassol está em impedimento, ele vai no VAR e confirma. Na expulsão do Kannemann, ele marca uma jogada que não existe e expulsa o Kannemann, porque já está bravo com ele pelo jogo passado.

Nós tivemos dois pênaltis marcados no clássico Gre-Nal, onde não existe pênalti. Já começa por aí. Foram três pênaltis no jogo. O último pênalti, a gente não pode falar nada porque realmente é. Agora, a gente foi prejudicado contra o São Paulo, contra o Santos, hoje novamente. Tu pode tirar por baixo uns 16, 17 pontos do Grêmio na competição



Não, eu não tenho receio de ser punido. Eu tenho que brigar pela minha instituição. O que está acontecendo com o Grêmio aqui, eu vou falar categoricamente: o Grêmio está sendo roubado, prejudicado. E não só o Grêmio, são outras equipes também. 

Depois o PC Oliveira, que foi um excelente árbitro, diz categoricamente que não é pênalti para o Grêmio, e ele vai dizer hoje que não é pênalti para o Grêmio, como já aconteceu várias vezes. O problema é que isso se repete, repete, repete

Repórter —Ele já disse que não foi pênalti. 

Ele já disse que não foi pênalti, mas isso não vai voltar atrás. Porque daí depois a pressão é dos jogadores que perderam os pontos, é no treinador que perdeu os pontos e a equipe é prejudicada. 

Eu digo, isso não acontece só com o Grêmio. Acontece com outras equipes também e já aconteceu de forma vergonhosa.

CBF profissionalizem os árbitros, melhore a qualidade do teu produto, porque não tem condição de jogar mais assim“.

Dez Por Cento Mais: novo livro de Mariza Tavares fala de escolhas que moldam a velhice


“Os 60 não são os novos 40; são os novos 60.”

Mariza Tavares, jornalista

Viver mais e viver melhor depende de escolhas que começam cedo e seguem por toda a vida: cuidar do corpo, da cabeça, das relações e do bolso. Essa é a defesa de Mariza Tavares, jornalista e escritora, autora de A Vida Depois dos 60 –  Prepare-se para criar a sua melhor versão (Best Seller), que propõe olhar para a longevidade como projeto contínuo, sem romantização e sem fatalismo. Em conversa com Abigail Costa, jornalista e psicóloga, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, Mariza lembra que “a longevidade é uma construção da vida inteira.”

A autora propõe que a longevidade seja encarada como a soma de diferentes “reservas” acumuladas ao longo da vida. A financeira, alimentada por pequenos aportes feitos desde cedo, quando “o tempo conspira a nosso favor”. A física, cultivada por meio do movimento contínuo e da manutenção da força muscular. A mental e a social, fortalecidas pelas conexões que sustentam o ânimo e estimulam o autocuidado. Mariza destaca que estudos de décadas apontam a qualidade das relações como fator decisivo para envelhecer melhor e sintetiza a ideia com uma imagem pessoal: “Dentro de mim eu tenho todas as idades.”


O alerta é direto: adiar decisões tem seu custo, mas começar tarde não impede ganhos. “Mesmo pessoas com um estado fragilizado se recuperam em força muscular com o devido treino.” O verdadeiro risco, segundo Mariza, está em se render aos estigmas: “O mais triste é a gente introjetar aquela coisa de que ‘eu tô muito velho para isso’.”

Trabalho, aposentadoria e combate ao etarismo

A transição do trabalho pago para outras formas de atuação pede preparo, não improviso. Mariza critica a pouca atenção das empresas ao tema e defende políticas que retenham e adaptem funções para profissionais mais velhos. “Nós temos que ser militantes da velhice”, diz, ao apontar microagressões e estereótipos que afastam pessoas 60+ de oportunidades — especialmente mulheres, alvo precoce do idadismo.

A aposentadoria sem projeto pessoal tende a abrir espaço para vazio e isolamento. A saída, segundo ela, está em redes de convivência, mentoria intergeracional e flexibilidade: “Eu posso usar o meu repertório para ensinar.”

Afeto, sexualidade e novas combinações de vida

Mariza propõe tratar sexualidade na maturidade sem tabu, inclusive nas consultas médicas. O foco é ampliar repertório e comunicação entre parceiros, não reduzir a vida íntima a desempenho. “Sexualidade nos acompanha até o final da existência.” Também reconhece arranjos de vida em que muitas mulheres 60+ escolhem autonomia, amizade e viagens em grupo, sem abrir mão de bem-estar para “ter alguém” a qualquer custo.

No fechamento, ela oferece um pequeno ajuste de rota: “10% a mais de confiança em si mesmo.” Pode virar bússola prática: “Vou me divertir 10% mais, vou namorar 10% mais, vou celebrar a vida 10% mais.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

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Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: criatividade, até que ponto

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A criatividade está entre os maiores ativos e também os maiores riscos de uma marca. Quando bem dosada, ela alimenta inovação, diferenciação e conexão com o público. Mas, quando aplicada sem pertinência ou desalinhada da identidade, pode comprometer a credibilidade e até exigir um recuo doloroso, como já aconteceu com marcas de prestígio mundial. Esse foi o tema analisado por Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

Cecília Russo destacou que a criatividade não deve ser gratuita, mas sim pertinente à estatura da empresa. Ela citou a fala de Gustavo Viana, diretor de marketing da Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil: “Se uma ideia ou projeto não atinge essa barra de qualidade, simplesmente não avançamos. Isso garante que apenas o que realmente brilha siga em frente”. Para Cecília, esse princípio vale tanto para grandes organizações quanto para negócios de médio porte: “Marcas não aguentam desaforos”.

Jaime Troiano lembrou o caso da Jaguar, que em certo momento mudou radicalmente sua comunicação e acabou sendo forçada a voltar atrás. “O limite é aquilo que garante que a marca cresça na direção do que é sua identidade, no que se relaciona ao seu propósito. Fora disso, é pura falta de compromisso”, afirmou. Ele reforçou que ser criativo exige respeito pela empresa, pelas pessoas que nela trabalham e pelo público.

Lembre-se que os cães ladram

Para reforçar sua posição, Jaime citou uma frase atribuída a Truman Capote, escritor americano conhecido por obras como A Sangue Frio. A expressão “Os cães ladram e a caravana passa” tem origem árabe e chegou a Capote em uma conversa com o francês André Gide. Diante das críticas que recebia, o autor se mostrava incomodado, até que ouviu do colega a lembrança de que as vozes contrárias sempre existirão, mas não devem desviar o rumo de quem segue firme no seu caminho. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Troiano recuperou a citação para destacar que, no universo das marcas, críticas também fazem parte, mas o essencial é preservar a identidade e o propósito.

A marca do Sua Marca

A principal mensagem é clara: a criatividade é essencial para fortalecer as marcas, mas deve ser usada com responsabilidade, alinhada ao propósito e à identidade. Caso contrário, pode se tornar um risco de intoxicação em vez de alimento.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: do inferno astral ao céu tricolor

Grêmio 3×1 Vitória
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.

Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?

Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.

Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.

Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo. 

Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.

Conte Sua História de São Paulo: o metrô era novidade na ida ao primeiro emprego

Luciana Fátima

Ouvinte da CBN

Na lotação do Metrô

Comecei a trabalhar em 1991, três anos após a inauguração do Metrô Itaquera. Até então, era preciso pegar ônibus direto para a estação Tatuapé. Meu expediente começava às oito da manhã e eu precisava acordar duas horas antes para não me atrasar. A linha 3-vermelha do metrô sempre foi lotada.

Para não sucumbir às agruras do transporte público aprendi logo que eu teria de desenvolver um instinto de sobrevivência. Carregar a bolsa na frente do corpo era mandatório. Não usar sapatos que saíssem fácil dos pés era imprescindível. Pensar rápido e buscar a porta com menos aglomeração, fundamental.

Foi assim que, em um dia de superlotação, encontrei uma brecha no primeiro vagão. Entrei e fui espremida ao longo das 13 estações. Alívio para respirar melhor só na Sé, quando muita gente descia para a baldeação. Chegando ao Anhangabaú, desci do trem, subi as escadas e deparei com um lugar totalmente diferente. Desesperada, olhava e não reconhecia nada.

Enquanto desviava das pessoas que quase me atropelavam, me esforçava para identificar algum prédio familiar. Nada! Será que desci na estação errada? Não! Foi quando lembrei da orientação de uma amiga que me ensinara o caminho no primeiro dia de trabalho: “entre sempre nos últimos vagões, caso contrário sairá do lado errado da estação e vai se perder ao sair para a Sete de Abril”.

Foi como na música dos Titãs: “eu me perdi… na selva de pedra … eu me perdi” 

Depois de voltas e mais voltas na região do Teatro Municipal, atravessei o Viaduto do Chá e encontrei a Líbero Badaró. Ali eu já reconhecia os prédios. Mais alguns metros e chegaria ao meu destino: a rua José Bonifácio, onde era a sede empresa em que trabalhava. Eu estava assustada, desalinhada, suada e atrasada – em pleno período de experiência… E só me dei conta disso ao bater o cartão.

Bater cartão? Antes de começar a trabalhar, essa expressão me era tão abstrata quanto possível. Era um equipamento grande de ferro com um relógio analógico, que controlava os horários da nossa vida – entrada, saída e o intervalo de almoço. Ao lado dele, em um quadro na parede, ficavam os cartões de todos os empregados. Nas primeiras vezes em que bati o meu cartão, não o encaixei no lugar certo e o carimbo da hora saiu errado. Precisei carimbar novamente, sobrepondo os números até acertar o quadradinho. Até hoje não sei como o Departamento Pessoal entendia meus horários.

Eu fazia o possível para não me atrasar. E, depois da lição aprendida, mesmo que só conseguisse entrar nos primeiros vagões do metrô, lá em Itaquera, eu cuidava para atravessar toda a plataforma da estação Anhangabaú e sair do lado certo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Luciana Fátima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua vivência na nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: um gol para Walter Kannemann

Grêmio 1×1 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Reprodução do canal Premiere

Thiago Volpi que me perdoe — e sei que há de entender —, mas se pudesse dedicar esse gol de empate no minuto final, entregaria a autoria a Walter Kannemann. O capitão do Grêmio fez uma partida colossal dentro da área: ganhou todas as disputas, não deixou sobrar espaço para os atacantes e lutou do jeito que só ele sabe lutar.

Logo no primeiro contra-ataque inimigo, ainda no início, foi Kannemann quem se atirou contra o adversário de forma espalhafatosa e necessária, impedindo a finalização certeira contra o nosso gol. A cena parecia a de um guarda-costas se jogando na frente do protegido para deter a bala fatal. No caso, a bola fatal. Minutos depois, já estava ele do outro lado, na área ofensiva, chutando forte e obrigando o goleiro rival a fazer defesa complicada.

Durante toda a partida, foi Kannemann quem mais bem representou o desejo do torcedor: devolver ao Grêmio o caminho da vitória em casa. Nos últimos três jogos na Arena havíamos perdido dois, empatado um e, pior, não marcado nenhum gol — sequência absurda para quem sempre transformou o estádio em diferencial.

Nada, no entanto, foi tão Kannemann quanto o momento em que ele arrancou do árbitro a marcação do pênalti que nos deu o empate. A bola mal havia saído para escanteio e nosso zagueiro já corria em direção ao juiz, gesticulando, denunciando a infração.

Sim, foi ele quem marcou aquele pênalti. Havia árbitro em campo, auxiliar na beira do gramado e VAR com câmeras de todos os ângulos. Mas, sinceramente, duvido que alguém tivesse visto a irregularidade se não fosse a eloquência do nosso capitão. O gestual teatral, a dança quase grotesca imitando o movimento dos homens da barreira, a braçadeira erguida com orgulho quando o juiz o mandou calar — tudo isso foi decisivo para que ninguém ousasse ignorar o que acontecera.

Kannemann brigou como um soldado disposto a morrer pela batalha, até a confirmação da penalidade. Depois, restou a Thiago Volpi a execução perfeita: frio, sereno, certeiro na cobrança, como já havia feito no Maracanã em situação semelhante.

Volpi tem nossos aplausos, claro, pelo que tem feito e decidido a nosso favor. Mas Kannemann, ah, esse merece uma homenagem especial. Foi ele quem transformou o empate em conquista, num jogo em que o resultado teve gosto de alívio diante da fase recente na competição. Ainda não ganhamos em casa, como desejávamos, mas como não vibrar ao assistir à bravura de Kannemann nos permitindo seguir em frente no Campeonato Brasileiro.

Novo livro de Wálter Maierovitch provoca reflexão sobre a indústria da guerra

Algumas frases atravessam os séculos e parecem ganhar vida nova a cada vez que são pronunciadas. “Si vis pacem, para bellum” — “se queres a paz, prepara-te para a guerra” — é uma delas. Wálter Fanganiello Maierovitch a toma como ponto de partida em “O Mercado da Morte: conexões e realidades” e a conduz até o presente, quando já não soa como advertência, mas como justificativa para uma engrenagem global que transforma guerras em negócios.

A opinião do autor, meu amigo de décadas, é direta: o que se convencionou chamar de “indústria de defesa” nada mais é do que a indústria da guerra, abastecida tanto por Estados quanto por traficantes, mercenários e organizações criminosas. Ao longo do livro, desfilam personagens emblemáticos, como Sarkis Soghanalian, o “Mercador da Morte”, e grupos como o Wagner, que na África trocam armas por diamantes. A fronteira entre interesses de Estado e crime organizado se dilui, revelando um mercado em que tudo se compra e se vende, inclusive vidas.

Outro eixo forte da obra é a espionagem. Maierovitch descreve como a “inteligência de Estado” se tornou prática oficializada, mas muitas vezes serve de cortina para assassinatos seletivos e negociações obscuras. O Mossad, a CIA, a Abin — cada qual aparece como peça de um tabuleiro no qual soberania e direitos humanos são frequentemente atropelados.

O livro não poupa as instituições internacionais. Meu colega do quadro “Justiça e Cidadania”, do Jornal da CBN, insiste que a primeira vítima das guerras é o Direito Internacional Público. O Tribunal Penal Internacional e a Corte Internacional de Justiça aparecem como instâncias frágeis, incapazes de conter crimes de guerra ou genocídios. Em vez de freio, funcionam como palco simbólico, em que ordens de prisão são ignoradas e Estados seguem agindo impunes.

Maierovitch traz ainda para o centro da narrativa os conflitos contemporâneos — Rússia e Ucrânia, Israel e Hamas, a escalada com o Irã — tratados como laboratórios do “mercado da morte”. Drones, sistemas de defesa, armas nucleares, propaganda: tudo é testado em campo, e o lucro das empresas cresce na mesma proporção da destruição.

A “Coda” final sintetiza a visão impetuosa do autor. Citando Lampedusa, ele lembra que é preciso mudar tudo para que tudo permaneça como está. O que vale para a política italiana de O Leopardo serve também para o mercado da guerra: mudam-se os atores — gattopardos, leões, chacais ou hienas —, mas a engrenagem continua a mesma. O exemplo do Haiti, onde grupos armados dominam a capital, funciona como alerta de que não se trata apenas de conflitos entre Estados, mas de colapsos sociais que a comunidade internacional se mostra incapaz de conter.

“O Mercado da Morte” é um livro que incomoda, porque mostra que a paz armada é, no fundo, um grande negócio. A leitura sugere que a indignação é o mínimo que nos cabe diante de um sistema que se perpetua à luz do dia. E Maierovitch nos entrega todo esse conteúdo embalado em um texto escrito com esmero. Não me surpreendo: o autor já foi agraciado com o Prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, com a obra “Máfia, poder e antimáfia — Um olhar pessoal sobre uma longa e sangrenta história”.

Participe do lançamento de “O Mercado da Morte”.

O livro “O Mercado da Morte: conexões e realidades” (Editora Unesp) será lançado no “Encontro com os escritores”, promovido pela Universidade do Livro, nesta sexta-feira, dia 26 de setembro, às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade, na rua da Consolação, 74, centro de São Paulo. Para participar, faça aqui a sua inscrição, de graça. Eu terei o privilégio de mediar esta conversa com Wálter Fanganiello Maierovitch.

Avalanche Tricolor: o dia em que o Grêmio voltou a ser Imortal!

Inter 2×3 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre/RS

A foto é do mago das lentes: Richard Dücker @ducker_gremio

É difícil até saber por onde começar. Talvez pelas lágrimas que encheram meus olhos no apito final — daquelas que há muito tempo os resultados e o futebol jogado não me proporcionavam. Penso, porém, que seria egoísta começar por esse sentimento tão meu, após uma partida em que a força do coletivo se expressou de forma gigantesca.

Imagino que muitos artigos de jornais e mesas redondas de fim de domingo se dedicarão às decisões do árbitro que marcou três pênaltis contra o Grêmio. Três! Dois deles sequer percebidos em campo. Ainda expulsou Arthur ao reverter o cartão amarelo que ele mesmo havia considerado correto no momento da jogada. Vamos convir: ao fim, as marcações controversas só tornaram nossa conquista ainda maior. Não gastarei mais do que este parágrafo com esse descalabro.

Poderia começar pelo fim de uma sequência de oito Grenais sem vencer — a última vez havia sido em maio de 2023, na Arena, pelo Campeonato Brasileiro, época em que Suárez era nosso craque (3×1). Na casa do adversário, a distância de uma vitória era ainda maior: março de 2022 (0x3). Mas, convenhamos, o que são estatísticas senão números de um tempo que já passou? O passado é referência, eu sei. Mas não é suficiente para explicar a alegria do presente.

Os personagens do clássico deste fim de tarde de pôr do sol exuberante talvez merecessem o destaque inicial desta Avalanche. Carlos Vinícius, que marcou um gol após um ano e meio, logo em seu primeiro Gre-Nal, empatando a partida depois de termos sofrido o primeiro pênalti. E, para tornar tudo mais dramático, saiu lesionado em seguida. Ou André Henrique, o centroavante com a cara da humildade, que apareceu entre os zagueiros e empatou de cabeça após o segundo gol de pênalti deles — eles só fizeram gol de pênalti, né?

Ou Alysson, que precisou de apenas 45 segundos em campo para disparar, driblar os marcadores e mandar a bola no “fundo do poço” (saudade de ti, pai!). Apenas o segundo dele no time principal. O da virada. O da vitória — mesmo com mais um pênalti para eles antes do apito final.

Ou Willian, que estreou no Gre-Nal, participou diretamente dos dois primeiros gols e pode se transformar em peça importante na arrancada final do campeonato.

Ou Thiago Volpi, que fez ao menos três defesas muito difíceis, especialmente no segundo tempo, e impediu o empate quando já estávamos com um a menos. Teve ainda a sorte de ver a bola explodir no poste no último pênalti cobrado pelo adversário. Sim, foram três pênaltis contra o Grêmio!

Caro e cada vez mais raro leitor: começar esta Avalanche pelas minhas lágrimas, pelas decisões do árbitro, pelo fim de uma invencibilidade ou pelo brilho individual de quem vestiu a camisa do Grêmio não seria justo o suficiente para o feito deste domingo.

Se há algo que precisa ser exaltado logo de início é a retomada de uma mística. Aquele fenômeno que nos acompanha ao longo da história. Que surge quando o possível já não basta. Quando tudo conspira contra nós. Porque nada é maior do que o Grêmio, que volta a ser Imortal.

Sim, o Grêmio Imortal é que deveria abrir esta Avalanche. Mas é melhor eu encerrar por aqui, antes que o árbitro marque mais um pênalti contra a gente.

Dez Por Cento Mais: Daniel Soares fala sobre o valor do vínculo humano na prevenção do suicídio

“Ferramentas fazem, humanos curam.”
Daniel Soares, psicólogo

Setembro nos convida a encarar um tema duro sem perder de vista aquilo que sustenta a vida: sentido, diálogo e presença. Em uma conversa que percorre do consultório às relações cotidianas, o psicólogo e professor Daniel Soares defende que a prevenção começa quando alguém é visto, ouvido e acolhido; e não substituído por respostas automáticas. Esse foi o assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, inspirado no Setembro Amarelo, uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015.

Vínculo, não algoritmo

Para Daniel, falar de prevenção é, antes de tudo, falar de sentido. Ele recorre à logoterapia para lembrar que é possível “dizer sim à vida, apesar de tudo” e “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. Considerando o crescimento de pessoas que têm buscado nos chatbots de Inteligência Artificial ajuda psicológica para soluções de problemas relacionados à saúde mental, ele faz um alerta: “Máquinas não sentem”, e a IApode ajudar com informações, mas não substitui a relação que cura”. O ponto central, resume, está no encontro entre pessoas: “Ferramentas fazem, humanos curam”.

A tecnologia, observa, oferece um “pseudo-relacionamento” que reforça o que o usuário já traz, sem continuidade afetiva: “A IA responde; quem acompanha, se preocupa e permanece é o humano”. Por isso, ele insiste no papel de pais e responsáveis no uso de ferramentas: acompanhamento, limites e, principalmente, conversa.

Como conversar com quem sofre

No dia a dia, o primeiro passo é reconhecer a dor do outro. “Não negue nem minimize o sofrimento”, diz Daniel. Evite atalhos como o “pensa positivo”. Em vez disso, ofereça presença: “Posso te ouvir? Estou aqui com você”. A validação, sem julgamentos, abre espaço para que a pessoa busque ajuda e se reconecte com motivos para viver.

Ele também chama atenção para o envelhecimento e a solidão. Mensagens curtas não substituem um encontro: “Presença, olho no olho, abraço e rotina compartilhada protegem”. Reativar pertencimentos — família, vizinhança, grupos, projetos — ajuda a restituir sentido e continuidade às histórias que cada um carrega.

Ao final, Daniel deixa uma imagem que atravessa a conversa: “A vida é uma viagem, passagem só de ida”. Cabe a cada um, afirma, levar para essa viagem valores, cuidados e gente por perto — e oferecer ao outro a mesma companhia que gostaríamos de receber.

Busque ajuda agora:

Centro de Valorização da Vida – CVV

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais traz uma entrevista inédita para você, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify. Aproveite e coloque o canal entre os seus favoritos para receber alertas sempre que um novo conteúdo for publicado.

Avalanche Tricolor: o zodíaco não explica o Grêmio

Grêmio 0x1 Mirassol
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Arhur comanda o meio de campo em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou do tempo em que Zora Yonara era a autoridade em assuntos astrológicos — hoje seria chamada de influencer zodíaca ou algo do tipo. Suas análises eram motivo de conversa nas rodas de amigos, e o melhor a se fazer era prestar atenção no horóscopo do dia, mesmo que eu fosse um descrente. Cada um adaptava o que ouvia à sua circunstância. Fui tentar esse exercício na Avalanche de hoje para explicar o que vem acontecendo com o Grêmio, que voltou a perder em casa e, nesta segunda-feira, dia 15 de setembro, completará 122 anos.

Descubro que nem a astrologia dá conta de explicar o futebol que deixamos de jogar e a sequência de azares que nos perseguem. Pensei que fosse o tal do inferno astral, mas nem isso explica. Esse período, que antecede o aniversário e costuma ser sinônimo de confusão, não daria conta de justificar 18 meses de futebol capenga e resultados inconsistentes.

A última verdadeira alegria que os gremistas tiveram foi o título do Campeonato Gaúcho, em março de 2024. Alguém lembrará da felicidade recente de assumirmos a gestão da Arena, o que já nos garantiu um gramado de qualidade. Vamos convir, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, que por melhor que isso seja — e acredito que seja —, não influenciou em nada na qualidade do futebol apresentado.

O inferno futebolístico do Grêmio atravessa um tempo que nenhuma sabedoria extraterrena poderia prever. Nesse um ano e meio, uma penca de jogadores foi contratada e já estamos no terceiro técnico. Quando nos iludimos com uma contratação, uma lesão frustra as expectativas — caso mais recente do zagueiro Balbuena. Até mesmo jogadores contestados, mas necessários, como Braithwaite, caem vítimas dessa sina de contusões.

Se conseguimos um resultado mais animador, como na rodada anterior contra o Flamengo, logo a realidade nos joga ao chão com uma derrota caseira. Hoje, tivemos de suportar até jogador sendo substituído por engano.

Adoraria estar aqui comemorando a estreia de Arthur que, claramente, tem qualidade para mudar qualquer meio de campo. Mesmo sem entrosamento, mostrou como conduzir a bola com categoria e fazer o passe com precisão. Seria capaz de contagiar seus colegas de trabalho? Já não sei mais. E chega a me dar arrepio sobrenatural imaginar que ele também possa ser abatido por algum problema físico.

Apesar de tudo, insisto em negar a falência da esperança. Tento crer que, ao comemorarmos mais um aniversário nesta segunda-feira e diante de um clássico Gre-Nal — aquele jogo que dizem poder mudar o destino de qualquer clube —, no próximo domingo, sejamos capazes de iniciar um novo e vitorioso ciclo.

No fim, esperar é o que nos resta — e esperar, para o gremista, nunca foi pouco.