Carlo Acutis: santo de jeans, tênis e rosário

Li hoje, no New York Times, a reportagem da jornalista Elisabetta Povoledo, que me levou até Assis sem que eu saísse da cadeira. Pela tela, entrei no santuário onde está o corpo de Carlo Acutis, um adolescente que morreu em 2006, aos 15 anos, e que, neste domingo, será canonizado no Vaticano pelo Papa Leão XIV.

Enquanto lia, parecia ouvir o murmúrio das orações que Povoledo descreve — em italiano, espanhol, inglês, português. Um coro de línguas diferentes diante de um jovem que será o primeiro santo millennial da Igreja Católica.

E confesso: mais do que os dados, foi a cena que me prendeu. O corpo repousa num túmulo parcialmente transparente. Jeans. Tênis. Jaqueta esportiva. Um rosário nas mãos. Não se vê um manto dourado, não há hábito de freira ou sandálias de frade. Ali está um santo com cara de quem poderia estar passando por nós na rua, mochila nas costas e celular no bolso.

A reportagem conta que um milhão de pessoas visitaram o túmulo de Carlo só no ano passado. A média de idade dos peregrinos caiu “algumas décadas”, disse o bispo de Assis. Jovens que haviam se afastado da Igreja agora se aproximam. Por quê?

Talvez porque Carlo seja deles. Jogava videogame, tinha amigos, ria, rezava, navegava na internet. Entendeu cedo o impacto da rede e decidiu usá-la para espalhar fé. Criou um site para catalogar milagres eucarísticos, antecipando o que muitos adultos ainda não sabem: a internet é só ferramenta; o sentido está no uso que fazemos dela.

A professora Kathleen Cummings, especialista em santos, disse ao Times:

“Num momento em que a sociedade e a Igreja estão preocupadas com o impacto corrosivo da tecnologia, Carlo mostra que é possível usar o digital como ponte, não como barreira.”

Talvez seja isso que atraia tanta gente: Carlo viveu na mesma frequência dos jovens que agora se aproximam dele.

Outro detalhe chama a atenção: a rapidez com que a devoção cresceu. Desde que o corpo de Carlo foi levado a Assis, em 2019, surgiram capelas, escolas e grupos nas redes sociais dedicados a ele. Há dezenas de páginas no Facebook, lembranças espalhadas por lojas e até souvenirs com a imagem do garoto de camisa polo vermelha e mochila.

Ele se tornou símbolo num tempo em que, paradoxalmente, a fé institucional parece perder espaço. Um estudo citado pela reportagem, feito pelo Instituto Giuseppe Toniolo, mostra que 30% dos jovens italianos não têm crença religiosa — o mesmo percentual dos que se declaram católicos praticantes. Carlo, dizem os especialistas, virou um ponto de convergência entre os que buscam espiritualidade e os que se afastaram da Igreja.

Uma peregrina entrevistada pelo Times, Nerea Rano, resumiu talvez o maior segredo da atração que Carlo exerce:

“É fácil rezar para ele porque ele é jovem. Ele fala com os jovens. É como olhar para um espelho.”

Um espelho, penso eu, que devolve a imagem de um santo real, de carne, osso e tênis, com gostos comuns e linguagem próxima. Carlo não fundou escolas, não abriu hospitais, não escreveu tratados de teologia. Vivia a fé no cotidiano. O Papa Francisco dizia que “a santidade está no próximo” e Carlo parecia acreditar nisso com naturalidade.

Neste domingo, na Praça de São Pedro, Carlo será declarado santo. Não sei o que isso mudará para a Igreja — talvez muito, talvez pouco. Mas, para quem lê a história, fica a sensação de que a santidade deixou o pedestal e sentou no banco ao nosso lado.

Santo de jeans, tênis e rosário. Um garoto que entendia de internet e, ainda assim, acreditava profundamente. Talvez por isso, mais do que um exemplo distante, Carlo Acutis pareça um convite próximo: ser santo pode caber na nossa rotina, no nosso feed, no nosso silêncio.

E, de algum jeito, isso me fez pensar que a fé, como a boa comunicação, acontece quando encontramos a linguagem certa.

PS: Se você estiver na cidade em São Paulo, uma das formas de conhecer de perto a história desse jovem é visitar a exposição com informações, imagens e pertences de Carlos Acuti, no Salão Paroquial da Paróquia de Santa Suzana,  na rua David Ben Gurion, 777.

Dez Por Cento Mais:  José Carlos de Lucca fala sobre viver o presente e dar sentido ao tempo

“A vida só acontece agora.”
José Carlos de Lucca

Oscilar entre memórias que pesam e projeções que angustiam tem um custo: rouba o único tempo disponível, o presente. Esse foi o fio condutor da conversa com o escritor e jurista José Carlos de Lucca, que propôs um exercício prático de presença e responsabilidade individual, tema da entrevista concedida ao Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Entre o passado e o futuro

Segundo De Lucca, gastar energia remoendo o que passou e antecipando o que talvez nem aconteça produz um descompasso cotidiano. “Somos um amontoado de passado misturado com um amontoado de futuro”, afirma. O resultado, diz ele, é previsível: “O excesso de passado gera, em regra geral, muita depressão”, enquanto mirar demais o amanhã alimenta ansiedade. A correção de rota começa com um gesto simples: notar quando a mente fugiu e trazê-la de volta. “Se pegou, se observou… dá uma espiadinha no passado, dá uma espiadinha no futuro, mas não fica lá. Volta para aqui.”

Ele recorre a imagens concretas para explicar. Viver grudado no ontem ou no amanhã é como “se movimentar numa cadeira de balanço: você faz força, mas não sai do lugar”. Já o presente pede inteireza: corpo e mente no mesmo lugar. “Viver é participar.”

O ego e o agora

De Lucca sustenta que a mente, guiada pelo ego, resiste à quietude do instante. “O ego precisa se autoafirmar a todo instante” por contraste, conflito ou comparação. No “agora”, muitas vezes não há nada de extraordinário acontecendo, e justamente por isso surge a fuga. O antídoto é cultivar a atenção ao banal que sustenta a vida: o cheiro do café, a conversa sem pressa, a árvore florida que estava na rota de sempre e nunca foi realmente vista. “Qual é a oportunidade agora? Qual é a alegria agora?”

Finitude sem morbidez

Encarar limites — de uma vida, de uma carreira, de um relacionamento — não é convite ao pessimismo, diz o entrevistado, mas condição para escolhas mais claras. “Tudo aqui é finito, é passageiro… tudo é um sopro.” A pergunta que emerge, citando Mário Sérgio Cortella, é direta: “Se você não existisse, que falta você faria?” A resposta não está no currículo, mas nos vínculos que criamos e na marca que deixamos nos outros.

Na prática, a ética do presente se traduz em rituais simples e consistentes. De Lucca recorda conselhos atribuídos a Chico Xavier: começar cada dia como o primeiro e, se isso não bastar, vivê-lo como se fosse o último. “Viva como se hoje fosse o último dia da sua vida.” E amplia: não ser plateia da própria história. “Nós somos a peça. Nós somos o ator principal. Nós somos o diretor.”

O que fazer com o que nos acontece

Ao falar de fracassos e frustrações, De Lucca recorre ao estoicismo: o foco não é o fato em si, mas o uso que fazemos dele. “Não importa tanto o que nos aconteceu; importa o que vamos fazer com o que nos aconteceu.” Trocar o “por que comigo?” pelo “para que isto?” muda a direção da conversa interna — da vitimização para a transformação.

No fim, fica um critério de avaliação que cabe no cotidiano: ao fim de um encontro, o que cada um levou do outro? Se nada mudou, o tempo foi apenas gasto, não vivido. “Dar sentido ao tempo é estar de corpo e alma, sentir a vida pulsando dentro de nós.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.

‘Roubo de boné’ no US Open transforma inocente em alvo de linchamento virtual

Reprodução de vídeo na internet

Foi um gesto rápido, quase instintivo. No último fim de semana, durante o US Open, o tenista polonês Kamil Majchrzak decidiu coroar uma vitória de virada presenteando um garoto, chamado Brock, que estava na plateia, com o chapéu que usara na partida. O menino, nas primeiras fileiras, esticou a mão, mas um adulto avançou antes dele e pegou o boné.

O vídeo do momento se espalhou como pólvora. O homem foi identificado como Piotr Szczerek, CEO da empresa polonesa Drogbruk. Bastaram alguns segundos de exposição para que ele se tornasse um dos personagens mais criticados da internet.

Pressionado, Szczerek pediu desculpas públicas, admitindo o erro e explicando que acreditava que o boné era para seus filhos. Devolveu o chapéu, enviou presentes para Brock e publicou uma retratação. O caso parecia resolvido — mas estava apenas começando.

A fúria da internet

A viralização do vídeo acendeu uma reação coletiva. Milhares de comentários, mensagens e avaliações negativas tomaram as redes sociais. Porém, num detalhe que passou despercebido, parte dessa fúria foi mal direcionada: os “justiceiros digitais” confundiram a Drogbruk, empresa de Szczerek, com a Drog-Bruk (com hífen) — outra companhia de pavimentação polonesa, sem relação alguma com o episódio.

O dono da Drog-Bruk, Roman Szkaradek, acordou no dia seguinte ao jogo com mensagens de estranhos o chamando de “ladrão de chapéu”. Em poucas horas, seus perfis pessoais e os canais da empresa foram inundados com ataques, xingamentos e até ameaças.

“Sou um empreendedor honesto. Construí minha marca por mais de uma década, e, em dois dias, ela foi destruída”, disse Szkaradek ao New York Times.

O bombardeio de avaliações negativas derrubou a reputação online da Drog-Bruk para 1,2 estrelas. Telefone e redes sociais ficaram incontroláveis. Mesmo explicando que não tinha qualquer ligação com o episódio, Roman viu suas tentativas de defesa apenas multiplicarem as ofensas.

Troca de identidades

O equívoco se deu por um detalhe quase imperceptível: Drogbruk e Drog-Bruk são nomes parecidos, separados apenas por um hífen, mas pertencem a empresas distintas, com sedes a mais de 160 quilômetros de distância uma da outra.

Enquanto Piotr Szczerek tentou contornar o erro e reparar o dano com o garoto, Roman Szkaradek segue tentando salvar sua própria reputação — atingida por algo que não fez.

Um especialista ouvido pelo NYT resume bem o fenômeno:

“A internet adora um pouco de caos. E adora ainda mais punir”, afirma Felipe Thomaz, professor da Universidade de Oxford.

O preço do tribunal digital

O episódio evidencia como a reação coletiva nas redes sociais pode atropelar fatos e transformar inocentes em vilões. Um gesto impensado de um adulto virou um incêndio virtual que consumiu duas reputações: a de quem errou — e se desculpou — e a de quem nunca sequer esteve lá.

O garoto Brock, por sua vez, recebeu o chapéu de volta, presentes do tenista e, provavelmente, um aprendizado precoce sobre a velocidade com que a internet transforma histórias simples em tempestades globais.

Até este momento não se tem registro de que os “justiceiros virtuais” tivessem assumido o erro dos ataques indevidos.

Avalanche Tricolor: entre o Sobrenatural e Veríssimo

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Volpi comemora gol de empate. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade” — escreveu Luis Fernando Veríssimo.

Impossível começar um texto, hoje, que se atreva chamar de crônica, sem buscar referência em Luis Fernando Veríssimo, escritor gaúcho que se despediu de nós, neste fim de semana. Ainda mais em um domingo em que o Grêmio desafiou a lógica e empatou com o Flamengo, no Maracanã. Veríssimo, colorado confesso, talvez não comemorasse o resultado, mas com certeza entenderia o improvável — afinal, quem melhor do que ele para traduzir um jogo em que o “ruim que vai para o gol”, como dizia no texto “Futebol de Rua”, vira o herói da noite?

O dia começou com desconfiança. Confesso que temi um desastre desde o início da semana, ainda mais depois da goleada histórica do nosso adversário na última rodada, no Brasileiro. O Grêmio anda claudicante, sem confiança, e vínhamos de um empate em casa contra um time que estava tão mal classificado quanto nós. Nem a Velhinha de Taubaté, personagem crédula de Veríssimo, acreditaria em outro resultado que não fosse o fracasso.

Enfrentar um gigante, dentro de um estádio gigante, lotado por uma torcida gigante, era tarefa hercúlea. Bastaram 18 segundos para que as piores previsões começassem a se desenhar, com o primeiro chute contra o nosso gol. Mal tocávamos na bola e, quando tocávamos, era só para despachá-la o mais longe possível de nossa área. E comecei a dar razão à estratégia: cada tentativa de passe curto se perdia no meio da pressão adversária.

A defesa, no entanto, se virava como podia. O Flamengo envolvia: toque rápido, dribles pela esquerda e pela direita, cruzamentos que vinham de todos os lados. Nossos marcadores — os onze que estavam em campo — espantavam o perigo do jeito que dava. A despeito da superioridade do oponente, fomos para o intervalo com um honroso zero a zero.

O segundo tempo foi estonteante. Vieram os escanteios, um atrás do outro. As defesas impossíveis de Tiago Volpi. A sensação era de que só o Cristo Redentor poderia nos salvar – foi quando lembrei que ele é carioca. Até que, em um raro contra-ataque, em que cheguei a pensar no impossível, mostramos por que estamos tão mal na tabela: o passe errado, a transição lenta e a defesa desorganizada. Para o nosso azar, a bola sobrou para um dos goleadores do campeonato — e o Flamengo abriu o placar. Ali, parecia que restava torcer apenas por uma derrota magra.

Mas o futebol, felizmente, adora contrariar previsões. Foi quando um outro personagem da crônica esportiva brasileira entrou em campo. Claro que não seria obra de Veríssimo — ele jamais evocaria uma de suas criaturas para ajudar o Grêmio. Foi o Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, um tricolor carioca assumido, que resolveu dar uma força. Entregou a Pavón, que havia errado tudo até então, a chance de se redimir: cavar um pênalti na tentativa de cruzamento.

E, em um time que sofre para chegar ao gol, o Grêmio recorreu ao talento improvável de um goleiro. Negando a escrita — ou o escrito por Veríssimo —, Tiago Volpi bateu o pênalti com a frieza de um centroavante e silenciou o Maracanã.

O empate coloca o Grêmio na terceira partida sem derrota no Brasileiro. Ficamos um pouco mais longe daquela zona — você sabe qual — e, incrédulos e crentes, vimos o time conquistar mais um resultado positivo fora de casa: vitória contra o Atlético Mineiro, empate com o Flamengo.

Por mais problemas que tenha, o Grêmio insiste em me surpreender. E, lá do céu, desconfio que Verissimo está sorrindo. Não pelo empate — colorado que era —, mas porque só ele saberia explicar como o futebol de rua, o da pelada, o do improvável, às vezes se sobrepõe ao tal Futebol de Verdade.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam

José Geraldo Leite Coura

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.


Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.

No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.

Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.

Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.  

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Dez Por Cento Mais: Ilvio Amaral e Maurício Canguçu refletem sobre a vida diante do Alzheimer

Imagem da peça Maio, antes que você me esqueça

“Não adianta pesar o que já é pesado.”
Maurício Canguçu, ator

A perda da memória, provocada pelo Alzheimer, não atinge apenas quem recebe o diagnóstico. Ela se espalha pela rotina da família, redefine papéis e exige novas formas de afeto. Foi dessa experiência pessoal que nasceu Maio, antes que você me esqueça, peça protagonizada pelos atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, em cartaz há quase quatro anos. O tema foi assunto da entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Do luto à cena

A ideia de montar a peça surgiu após momentos difíceis vividos pelos dois atores: Ilvio perdeu o pai em consequência do Parkinson, enquanto a mãe de Maurício foi diagnosticada com Alzheimer. “Nós começamos a conversar sobre isso e falamos: vamos pedir para o Jair escrever uma peça para nós dois fazermos”, contou Ilvio, lembrando da parceria com o dramaturgo e neurocirurgião Jair Raso.

Mesmo com o texto pronto em meados dos anos 2000, os atores adiaram a montagem. “Eu disse: ‘não tenho estrutura para fazer essa peça agora’”, recorda Ilvio. Só durante a pandemia, diante das leituras feitas em casa, perceberam que era o momento de encarar o palco. A montagem estreou em formato reduzido, em uma live para a UFRJ, e rapidamente ganhou corpo e público.

O peso da doença e a leveza do afeto

No espetáculo, Ilvio interpreta um pai de 85 anos com Alzheimer, enquanto Maurício faz o papel do filho. A relação conflituosa entre eles se mistura à fragilidade trazida pela doença. “O Alzheimer não é uma doença só do paciente. Ele afeta muito mais quem está em volta, a família que convive todos os dias”, disse Ilvio.

A peça mescla humor e drama. Os atores lembram que, durante o espetáculo, as pessoas riem muito da inocência do personagem com Alzheimer e, em seguida, são levadas a refletir sobre perdão e reconciliação. De acordo com Maurício, o humor não vem de um esforço cômico, mas da própria realidade: “A gente não faz nada para ser engraçado ou emocionante. Nós apenas contamos a história. O público é quem encontra as emoções.”

Entre memória e esquecimento

As histórias de bastidores também revelam a força do tema. Ambos os atores passaram por episódios de amnésia global transitória, uma súbita perda temporária de memória. Para eles, a experiência pessoal reforçou ainda mais o vínculo com o espetáculo.

No palco ou fora dele, a peça desperta identificação imediata. “Tem gente que sai chorando e diz: ‘eu achei que só eu sentia isso em relação à minha mãe’. A peça mostra que não estamos sozinhos nessa experiência”, contou Maurício.

No fim, a reflexão que fica é sobre a permanência do afeto. “Se não há amor e respeito, não tem como ser feliz”, resumiu Ilvio.

Vá ao teatro

Maio, antes que você me esqueça

Teatro Estúdio

R. Conselheiro Nébias,891, São Paulo – São Paulo

Até 14 de Setembro

Sexta e Sábado às 20h30, Domingo às 18h00

Compre seu ingresso aqui

Assista ao Dez Por Cento Mais

Toda quarta-feira, ao meio-dia, tem um novo episódio no canal Dez Por Cento Mais, no YouTube. Você pode ouvir as entrevistas, também, no Spotify.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como o luxo está redefinindo o conceito de exclusividade

Foto de Natalya Rostun

A disputa pelo comprador de imóveis de luxo ganhou um novo patamar: mais do que mostrar plantas, maquetes e apartamentos decorados, as incorporadoras estão investindo alto, muito alto, em experiências para seduzir futuros moradores. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, Jaime Troiano e Cecília Russo analisaram como o mercado imobiliário vem criando estratégias ousadas para se diferenciar e de que forma essas experiências servem de inspiração para as marcas de todos os tamanhos e públicos.

Cecília Russo explica que “elas oferecem aos potenciais compradores aulas de tênis, passeios de lancha e jantares com chefs renomados, antes mesmo de qualquer terra ter sido mexida”. A aposta é ir além do convencional, criando uma sensação imediata de pertencimento ao estilo de vida prometido. Segundo reportagem do Metro Quadrado, incorporadoras passaram a investir mais de 5% do VGV — valor geral de vendas — em ações para criar experiências exclusivas, percentual bem acima dos tradicionais 2% a 3% aplicados na estruturação de estandes, maquetes e apartamentos decorados.

Jaime Troiano amplia a análise ao conectar essa tendência a um fenômeno mais amplo: “As marcas de luxo, assim como em outros patamares do mercado, apoiam-se em produtos cada vez mais similares. Abre-se a necessidade de buscar novas zonas de diferenciação”. Ele cita o exemplo do Terminal BTG, no aeroporto internacional de Guarulhos, inaugurado no fim de 2024, que cobra cerca de R$ 3.000 por pessoa para oferecer três horas de serviços exclusivos: sala com decoração de alto padrão, catering de chef premiado, raio-X e alfândega privativos, além de acesso direto ao avião por carro particular. Para o BTG, a experiência reforça o posicionamento de uma marca que vai além dos serviços bancários.

Segundo os comentaristas, o movimento atende não só a uma estratégia de negócios, mas também a uma necessidade humana. Para Cecília, trata-se de “antecipar os sonhos e tangibilizar os desejos do comprador no presente”. Jaime complementa que viver e compartilhar essas experiências “diferencia incorporadoras e, ao mesmo tempo, diferencia as pessoas”, uma vez que postar nas redes sociais e falar sobre elas também gera prestígio pessoal e publicidade indireta para as marcas.

A marca do Sua Marca

A principal lição do comentário é clara: a busca por diferenciação dita o jogo. Cada mercado e cada público exigem estratégias específicas para criar experiências que aproximem consumidores do futuro que desejam viver.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: uma vitória a Fernandão

Atlético MG 1×3 Grêmio
Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Balbuena comemora o gol da virada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

17 de agosto de 2025. Guarde essa data, torcedor gremista! Tende a ser definitiva nos destinos do Grêmio, nesta titubeante temporada que estamos encarando. Para o calendário futebolístico, é o início da metade final do Campeonato Brasileiro. Um momento crucial para as pretensões de qualquer clube, em especial daqueles que, como nós, estão na parte de baixo da tabela. Se há um momento de reação, a hora é agora. E o Grêmio reagiu!

Lá em Minas, em momento de extrema tensão e pressão, superou-se e venceu de virada o adversário que contava com o apoio maciço de sua torcida. O Grêmio foi a campo depois de ter sido alvo de injustificáveis agressões por parte de um grupo violento de pessoas que se identifica como gremista. Esses trogloditas, que têm de ser expulsos da Arena e do clube, se sócios forem, invadiram a área reservada à delegação no aeroporto Salgado Filho, antes do embarque para Belo Horizonte. Atacaram o ônibus, ameaçaram agredir os jogadores e feriram Luis Fernando Cardoso, conhecido como Fernandão, segurança do Grêmio e da seleção brasileira.

Fernandão é uma dessas personagens que surgem no futebol e ganham destaque sem precisar entrar em campo ou jogar bola. Seu caráter e a excelência do seu trabalho se expressaram ao longo do tempo. Está onde o Grêmio estiver — menos neste fim de semana, quando precisou ficar em Porto Alegre, afastado pela violência da qual foi vítima. Seguidamente é visto na beira do gramado na saída dos jogadores; sempre que aparece alguma treta no caminho para os vestiários, lá está ele para proteger a todos. Ao contrário do que possa estar no imaginário de qualquer um de nós, é o tipo de segurança que está lá para cuidar das pessoas, não para agredir.

Lembro do carinho com que Fernandão tratou meu pai quando fomos à Arena do Grêmio comemorar seus 80 anos de vida. No fim da partida, estávamos a caminho do vestiário, onde o pai receberia de presente uma camiseta do tricolor, das mãos da diretoria e da comissão técnica. Fomos parados em uma das barreiras necessárias para controlar a movimentação de pessoas. E, sem que precisássemos dizer uma só palavra, assim que ele percebeu a presença do pai fez questão de se dirigir até nós e pedir licença a todos para que dessem passagem ao que ele tratou como uma lenda do jornalismo esportivo: “este é o grande Milton Ferretti Jung”. Um ato singelo que ficou no coração de todos nós.

Fernandão já deverá estar de volta à ativa para receber a delegação que chegará em Porto Alegre com uma rara vitória fora de casa na bagagem. Rara e muito importante, especialmente pela maneira como foi construída. Havia uma aparente consistência defensiva quando tomamos o primeiro gol — e como temos levado golaços nestes últimos tempos.

Parecia que estávamos prestes a assistir a mais uma derrota. Porém, sem desistir, conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, com Edenilson cabeceando para as redes depois de uma cobrança de escanteio. No segundo tempo, mais uma vez, de uma bola que veio do escanteio, Balbuena aproveitou a sobra e virou o placar a nosso favor. Receosos — gato escaldado tem medo de água fria — só acreditamos que a vitória seria nossa após Aravena completar nas redes uma assistência de André Henrique, a partir de jogada iniciada por Riquelme no meio de campo.

Essa vitória — e por isso convido você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a registrar a data de hoje — pode ser o ponto de inflexão que o Grêmio precisava para se recuperar de uma temporada ruim. Que seja também uma vitória dedicada ao Fernandão, símbolo de proteção, caráter e resistência gremista.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: queijos e vinhos brasileiros conquistam espaço e reconhecimento

Foto de Ray Piedra

Os vinhos e queijos brasileiros vêm ampliando seu prestígio e disputando espaço com marcas tradicionais de outros países. Entre o gole para se aprofundar no sabor e o degustar das lascas cortadas sobre a tábua, Jaime Troiano e Cecília Russo foram inspirados a falar das mudanças feitas pelos produtores nacionais, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

Jaime Troiano lembrou que, até pouco tempo, também via com ressalvas os vinhos nacionais, mas reconhece que essa percepção mudou: “De marcas nacionais que eram associadas ao garrafão, passaram a valorizar a especialidade, a uva e o terroir. Ou seja, colocaram o foco naquilo que gera valor perceptual”. Ele destacou investimentos em rótulos, embalagens e experiências de visitação, como ocorre em regiões consagradas da França e da Itália. Citou ainda um marco recente: o rótulo Casa Tés 2022 foi o único brasileiro selecionado para o World’s Best Sommeliers’ Selection 2025, no Reino Unido.

Cecília Russo apontou que o movimento é semelhante no setor de queijos artesanais: “A gente come o sabor do queijo, mas a experiência começa com os olhos”. Ela ressaltou marcas que investiram em apresentação, pontos de venda qualificados e posicionamento, criando um espaço entre o queijo artesanal e o industrial. Casos como o queijo Cuesta, da Pardinho, que conquistou medalhas na França e nos Estados Unidos, reforçam o avanço do setor.

A marca do Sua Marca

Bons produtos, aliados a estratégias de marketing consistentes e à intenção clara de elevar padrões, podem transformar mercados — mesmo os mais competitivos. Que o sucesso de queijos e vinhos brasileiros inspire outros setores a buscar o mesmo caminho.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: com os olhos mais velhos e abertos

Fluminense 1×0 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi um fim de semana de reencontro, abraços e presença da família. Completei 62 anos, na sexta-feira, e recebi a visita dos meus parentes de Porto Alegre. Um deles, meu irmão, ainda mora na casa da Saldanha, onde praticamente nasci. É o endereço vizinho ao saudoso estádio Olímpico, ambos parte de um território afetivo que ainda pulsa em mim — cenário de muitas das minhas histórias da infância e adolescência, algumas já confessadas nesse espaço.

Brinquei nas calçadas da Saldanha, joguei taco, bola de gude e futebol; andei de bicicleta, pulei corda (sempre desajeitado) e fiz mais um monte dessas coisas comuns para a época. O trajeto até o estádio, sem precisar da companhia dos pais, era sinal de autonomia, mesmo que a distância não fosse grande. Considerando que no início nem atravessar a rua era permitido, quando fui autorizado a ir ao Olímpico sozinho era como se tivessem expedido minha carteirinha de “gente grande”.

No Olímpico, vivenciei momentos marcantes. E não estou falando apenas das emoções dos dias de futebol. Fiz amizades, tive aprendizados, amadureci nas perdas e me lambuzei nas conquistas. Uma série de situações com as quais me deparei jogando futebol e basquete, mas, também, conversando com pessoas mais velhas, compartilhando confidências com mais jovens e observando o comportamento humano.

Parcela do que sou depois de mais de seis décadas de vida foi construída por lá. Isso explica por que o Grêmio se tornou tão importante para mim. Por outro lado, o tempo me fez trocar o fanatismo insano pela paixão racional. Gritava com o juiz antes mesmo do apito, encontrava um culpado externo para cada tropeço em campo e acreditava que bastava vestir a camisa para vencer. Hoje, continuo fanático — não perco um jogo, sofro a cada passe errado, vibro com cada gol. Mas minha paixão ganhou um contorno mais racional. Passei a entender melhor o que somos capazes de entregar, a reconhecer as limitações do time e a aceitar que, muitas vezes, a culpa não está lá fora, mas dentro de casa. Sigo acreditando, mas com os pés no chão e os olhos abertos.

E o que vi na noite de sábado, no Maracanã, me deixou pouco confiante em relação ao que podemos alcançar nas próximas rodadas do Campeonato Brasileiro — que as mudanças ocorram o mais breve possível. Consola saber que, na sala de casa, aqui em São Paulo, de onde assisti ao Grêmio, eu estava cercado pela família que veio comemorar meu aniversário.