O sentimento de confiança

Por Beatriz Breves

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Confiar é acreditar na capacidade de alguém. Se acredito na sua capacidade de ser amigo, confio na sua amizade. Se acredito que você consegue guardar um segredo, confio no seu sigilo. Posso também confiar na fidelidade de uma pessoa. Em cada caso, a confiança nasce da credibilidade que atribuímos ao outro e fortalece o vínculo que construímos com ele.

Mas a confiança também pode se voltar para nós mesmos. Podemos acreditar na nossa capacidade de enfrentar uma situação, tomar decisões ou lidar com as dificuldades da vida. Como, então, se constrói esse sentimento?

Para inspirar confiança, é preciso ser verdadeiro. A honestidade e a transparência permitem que o outro conheça aquilo que podemos oferecer. É difícil confiar em alguém que se mostra dissimulado ou diz uma coisa e faz outra.

Quando se trata de confiar em si mesmo, o caminho também passa pela verdade, mas pode ser mais difícil. Muitas vezes, nós nos escondemos de nós mesmos. Olhar para dentro exige reconhecer qualidades e capacidades, mas também limites e aspectos que não gostamos de ver. Se evitamos esse encontro, podemos deixar de perceber os recursos que temos e acabar nos sentindo inseguros.

Confiar em si, portanto, não significa acreditar que somos capazes de tudo. Significa nos conhecer o suficiente para reconhecer nossas possibilidades e nossos limites.

Há também a confiança cega, que, a meu ver, se aproxima mais da idealização do que da confiança. Quando consideramos alguém sempre verdadeiro, sempre fiel, sempre incapaz de falhar, deixamos de enxergar essa pessoa como um ser humano. Além disso, certas situações podem revelar aspectos dela que ainda não conhecíamos. Confiar exige olhar para o outro como ele é, com suas qualidades, dificuldades e contradições.

Quando a confiança se quebra, recuperá-la pode ser muito difícil. Até porque a confiança não se constrói rapidamente; vai se formando aos poucos, nas experiências compartilhadas e na continuidade do vínculo.

Particularmente, gosto de pensar na confiança como uma peça preciosa. Se ela se quebra, talvez seja possível restaurá-la. A peça pode até ficar bonita, e podemos passar longos períodos sem lembrar do que aconteceu. Mas, diante de um pequeno abalo, geralmente volta a lembrança de que ela já foi restaurada.

O perdão pode ajudar a reconstruir uma relação, mas não apaga necessariamente sua história. Há confianças que podem ser restauradas; outras, não. Cada pessoa precisa avaliar o que aconteceu, o que mudou e se deseja continuar aquele vínculo.

A confiança, seja no outro, seja em nós mesmos, não se constrói de uma vez. Ela se forma dia após dia e exige disposição para continuar olhando para si e para o outro, mesmo quando aquilo que encontramos não é fácil de ver. É assim que podemos nos tornar mais verdadeiros conosco e, pouco a pouco, confiar mais em nós mesmos e também no outro.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Procrastinação: o que estamos adiando?

Beatriz Breves

Todos adiamos alguma tarefa de vez em quando. O problema começa quando o adiamento se repete, traz prejuízos e nos impede de avançar naquilo que é importante para nós. Nesses momentos, vale perguntar: estamos evitando apenas a tarefa ou também o que sentimos diante dela?

Do ponto de vista psicológico, procrastinar é adiar algo que precisa ser feito. Isso pode acontecer porque a tarefa exige um esforço para o qual a pessoa não se sente em condições, ainda que não perceba claramente o motivo. Medo, insegurança, perfeccionismo, angústia e outros sentimentos podem se combinar e tornar a ação desconfortável. Adiar, então, oferece um alívio imediato, mesmo quando sabemos que a decisão trará dificuldades depois.

Podemos imaginar a mente humana como um grande oceano. Na superfície está aquilo que percebemos conscientemente. Abaixo dela, há experiências e sentimentos que também participam de nossas decisões. Por isso, alguém pode saber que precisa começar uma tarefa e, ainda assim, não compreender por que continua evitando-a. O medo de falhar, a sensação de incapacidade ou a vergonha, por exemplo, podem estar presentes sem que sejam imediatamente reconhecidos.

Não existe um único sentimento por trás da procrastinação. Em uma pessoa, o medo pode vir acompanhado de autocrítica; em outra, a insegurança pode se somar à frustração. Ansiedade, tristeza, raiva e culpa também podem fazer parte dessa experiência. Mais útil do que procurar uma explicação igual para todos é perguntar: o que esta tarefa desperta em mim?

O medo merece atenção especial. Ele tem uma função de proteção: nos ajuda a reconhecer riscos e a tomar cuidado. Entretanto, quando se torna intenso a ponto de paralisar a ação, pode contribuir para o adiamento. Às vezes, a pessoa não teme apenas falhar. Pode temer se expor, acertar e ter de lidar com novas expectativas, ou enfrentar as consequências de uma decisão.

É comum que a procrastinação seja confundida com preguiça ou falta de força de vontade. Afinal, vemos a tarefa que não foi feita, mas não enxergamos facilmente o que se passa no mundo interno de quem a adiou. Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade, esse julgamento pode aumentar a autocrítica e a culpa. A pessoa passa a se censurar por não agir, sem compreender o que a está impedindo.

Quando o adiamento se torna frequente, seus efeitos podem alcançar diferentes áreas da vida. Prazos perdidos e tarefas acumuladas prejudicam o trabalho. A sensação de não conseguir cumprir o que foi planejado pode abalar a confiança em si. Nos relacionamentos, responsabilidades adiadas podem gerar conflitos e desgaste. Essas consequências, por sua vez, podem intensificar a ansiedade e tornar ainda mais difícil começar. Forma-se um ciclo.

Por isso, a expressão “vencer a procrastinação” nem sempre ajuda. Ela sugere uma batalha contra um inimigo, quando o adiamento pode ser uma forma sutil de comunicação do nosso mundo interno. Antes de lutar contra ele, talvez seja preciso escutá-lo. O que estou evitando? O esforço da tarefa? A possibilidade de errar? O julgamento dos outros? Aquilo que sentirei se tentar?

Reconhecer esses sentimentos não significa esperar até que todo desconforto desapareça. Significa compreendê-lo melhor para poder agir mesmo sem se sentir inteiramente à vontade. Quando a procrastinação provoca sofrimento significativo ou compromete atividades importantes, buscar ajuda profissional pode ser um caminho para explorar o que sustenta esse comportamento.

Na perspectiva do Eu Fractal, podemos compreender a procrastinação crônica como um padrão que, ao longo da vida, foi incorporado à maneira de a pessoa sentir e agir. Padrões enraizados não se modificam de um dia para o outro, mas podem mudar. E, nesse percurso, voltar a adiar uma tarefa não significa que todo o caminho tenha sido perdido. Pode ser uma oportunidade de perceber o que ainda é difícil e experimentar uma nova forma de lidar com isso.

Talvez o primeiro passo não seja perguntar “como faço para nunca mais procrastinar?”, mas “o que o meu adiamento está tentando me mostrar?”

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de renúncia

Beatriz Breves

A ação de renunciar traz consigo o sentimento de renúncia, ainda que nem sempre ele seja percebido conscientemente. Trata-se de um sentimento muito mais comum do que se imagina e ao qual, talvez justamente por estar tão presente nas  escolhas cotidianas, acabamos prestando pouca atenção.

A renúncia é um sentimento frequentemente associado ao sacrifício de si mesmo. Entretanto, não aparece apenas nas grandes decisões da vida. Está presente sempre que, diante de duas ou mais possibilidades, escolhemos uma delas e, consequentemente, renunciamos às demais.

Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que esteja amando e receba uma proposta de trabalho bastante promissora em outro país, com a condição de partir sozinha.

Diante dessa situação, terá de fazer uma escolha: permanecer por amor ou aceitar a oportunidade profissional.

Qualquer que seja a decisão, algo será deixado de lado. Haverá uma renúncia.

Se escolher permanecer, renunciará à oportunidade profissional e a tudo aquilo que ela poderia proporcionar. Se escolher partir, renunciará à permanência com a pessoa amada e às experiências que aquela relação poderia oferecer.

É justamente aí que a renúncia revela algo comum no universo dos sentimentos: ela não vibra isoladamente, mas pode coexistir com outros sentimentos.

O sentimento de renúncia pode se associar, ao mesmo tempo, ao grupo das tristezas e ao das alegrias. Uma escolha pode trazer satisfação, entusiasmo e esperança e, ao mesmo tempo, pesar, saudade e tristeza por aquilo que não foi escolhido.

Isso demonstra que sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir em nós.

No exemplo acima, a escolha é bastante evidente. O que muitas vezes não percebemos é que estamos fazendo escolhas a todo instante e, por meio delas, vivenciando o sentimento de renúncia, ainda que não tenhamos consciência disso. Até mesmo permanecer na rotina envolve renúncia.

Quando alguém acorda pela manhã e decide ir trabalhar, pode pensar: “Eu não tenho escolha. Se não trabalhar, posso ser demitido. E como vou viver?”. Ainda assim, mesmo diante de circunstâncias que limitam suas possibilidades, a pessoa toma uma decisão.

Ao ir trabalhar, aquela pessoa renuncia a outras possibilidades e, também, às experiências e aos sentimentos que poderiam acompanhá-las.

Isso não significa que desejemos conscientemente todas as alternativas que deixamos de viver. Significa apenas que toda escolha delimita um caminho e exclui outros.

Nesse movimento, a renúncia, tanto como ação quanto como sentimento, se faz presente. Junto ao ato de renunciar, coexiste o sentimento de renúncia.

Talvez seja por isso que algumas decisões, mesmo quando sabemos que foram acertadas, deixem em nós uma pequena tristeza, uma saudade ou a sensação de que alguma coisa ficou para trás.

A renúncia nos mostra, portanto, que escolher não é apenas decidir o que queremos viver, mas também aceitar aquilo que deixamos de viver.

Por isso, a renúncia é um dos sentimentos que nos ensina a colocar na balança, com cuidado, as nossas escolhas, pois cada uma delas estará sempre colorida pela presença do sentimento de renúncia.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Deixar-se sentir

Beatriz Breves

É comum ouvir alguém dizer que precisa se livrar de um sentimento ruim. A raiva incomoda, a inveja envergonha, o medo parece fraqueza, a tristeza pesa. Diante do que dói, surge o desejo de apagar, esquecer ou expulsar imediatamente aquilo que se sente.

Vivemos em uma cultura que valoriza o bem-estar rápido e costuma tratar os sentimentos considerados desagradáveis como falhas a serem corrigidas. Por isso, cada pessoa encontra sua própria forma de fuga: trabalha demais, come além da conta, bebe, viaja, ocupa-se compulsivamente, mergulha nas redes sociais ou procura qualquer estímulo capaz de anestesiar, ainda que por pouco tempo, aquilo que não consegue sustentar.

Essas estratégias podem produzir alívio imediato, mas raramente transformam a experiência. O sentimento pode se afastar da consciência e continuar atuando silenciosamente, muitas vezes retornando sob outras formas: tensão, irritação, cansaço, ressentimento ou repetição de padrões que a pessoa não compreende.

Um sentimento não desaparece porque foi negado. Ele encontra outro  destino quando pode ser reconhecido, nomeado e elaborado. Por isso, a questão fundamental não é sentir ou deixar de sentir, mas aprender a permanecer diante daquilo que se sente sem ser destruído por isso.

Pode parecer uma contradição, mas talvez seja justamente aí que comece a transformação.

Muitas vezes, não sofremos somente pelo sentimento em si, mas pela guerra que travamos contra ele. Sentimos tristeza e nos cobramos alegria. Sentimos medo e nos acusamos de fraqueza. Sentimos raiva e tentamos sufocá-la antes de compreender o que ela denúncia. Assim, ao sofrimento original, acrescentamos outro: o de rejeitar internamente aquilo que já está acontecendo em nós.

Amadurecer emocionalmente não significa controlar tudo o que se sente, nem transformar cada dor em serenidade imediata. Significa desenvolver a capacidade de sustentar uma experiência interna sem implodir nem explodir.

Implodir é “engolir” o sentimento sem lhe dar palavra. É guardar tudo dentro de si, acumulando tensões, culpas, ressentimentos e dores que permanecem sem elaboração. Explodir, por outro lado, é descarregar impulsivamente aquilo que ainda não foi compreendido, lançando sobre o outro uma intensidade que primeiro precisaria encontrar sentido dentro de si.

Nos dois casos, o sentimento não é transformado: ele é somente retido ou despejado.

O processo se parece com a alimentação. O que é engolido sem mastigação pode pesar; o que é rejeitado de imediato não nutre. Entre a recusa e a voracidade, existe um tempo necessário de assimilação.

Com os sentimentos, acontece algo semelhante.

É preciso permanecer em contato com eles por tempo suficiente para escutá-los. Alguns trazem sabores doces; outros, amargos. Alguns confortam; outros desorganizam. Ainda assim, todos carregam alguma informação sobre a forma como fomos tocados pela vida.

Quando uma pessoa consegue sofrer sem abandonar a si mesma, algo essencial começa a se formar. O sofrimento deixa de ser somente dor bruta e passa a se tornar experiência. Uma experiência verdadeiramente elaborada amplia o conhecimento sobre si, sobre os próprios limites e sobre os vínculos que a constituem.

A raiva pode revelar limites que precisam ser protegidos. O medo pode indicar fragilidades que pedem cuidado. A tristeza pode expressar a importância de algo que foi perdido. Até mesmo os sentimentos considerados negativos, por serem desagradáveis de sentir, podem carregar informações preciosas sobre nossa maneira de existir, desejar, amar e nos defender.

Permitir que um sentimento realize seu trabalho psíquico não significa permanecer preso ao sofrimento. Significa oferecer a ele um espaço interno onde possa ganhar forma, linguagem e direção.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, os sentimentos não são obstáculos ao desenvolvimento humano; são parte fundamental dele. Cada sentimento expressa uma forma de organização da experiência e, quando acolhido com honestidade, pode abrir um caminho de compreensão e transformação.

Aquilo que inicialmente se apresenta como dor pode revelar uma necessidade. O que parecia ressentimento pode indicar uma ferida ainda sem “escuta”. O que surgia como angústia pode apontar para algo que precisa ser reorganizado. Nesse movimento, os sentimentos deixam de ser forças que nos dominam e passam a se tornar vias de amadurecimento.

Sentir, portanto, não é fraqueza. É uma capacidade humana fundamental.

Deixar-se sentir é uma forma profunda de cuidado consigo mesmo, porque implica não fugir de si quando mais se precisa de presença.

Por fim, somente aquilo que pode ser sentido pode ser compreendido; e somente aquilo que pode ser compreendido pode, de fato, ser transformado.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de renovação

Beatriz Breves

Foto: Mílton Jung

Uma analogia que faço com o sentimento de renovação é aquela sensação que temos quando, após um dia atribulado, chegamos em casa, tomamos um banho quente e trocamos a roupa suada por uma roupa limpa.

Parece que alguma coisa dentro da gente também se modifica. A gente se sente renovado.

E como é bom quando algo acontece, trazendo essa sensação de estarmos “novinhos em folha”! Talvez porque a renovação seja um sentimento que nos faz sentir a vida como se, de alguma maneira, estivéssemos renascendo.

Entretanto, não é todo dia que nos sentimos assim. De fato, são poucos os momentos em que entramos verdadeiramente em contato com o sentimento de renovação.

E isso é curioso, porque todos os dias vivenciamos a renovação. A todo instante recebemos novos estímulos da vida, novas experiências acontecem e o próprio corpo está continuamente se modificando e renovando suas células.

Ainda assim, na maior parte do tempo, não nos sentimos renovados. Ao contrário, muitas vezes nos sentimos como se carregássemos coisas velhas e inúteis dentro da gente.

Talvez a pergunta a ser feita seja: por que não conseguimos sentir a renovação que continuamente acontece em nós?

Uma das possibilidades que me ocorre é que tenhamos a tendência de sobrepor à renovação o sentimento de apego ao que já passou. Afinal, renovar implica, de alguma maneira, deixar o antigo ir para o novo poder chegar.

E talvez paguemos um preço alto quando não conseguimos deixar o antigo ir, permanecendo afetivamente ligados às mesmas imagens, às mesmas experiências e às mesmas formas de sentir.

Como diz o ditado, se “tudo o que é bom dura pouco”, pouco tempo após uma experiência de renovação podemos novamente nos sentir sobrecarregados. É como se não soubéssemos, ou não conseguíssemos, sustentar a transformação que a renovação nos propõe. E, assim, muitas vezes acabamos nos sentindo cansados, envelhecidos ou até ultrapassados diante da própria vida.

Quem sabe, se ficássemos mais atentos, poderíamos entrar em contato com o sentimento de renovação e, assim, aproveitar mais o que somos. Afinal, assim como o sol que nasce e se põe em renovação todos os dias, assim também somos nós.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de sem graça

Por Beatriz Breves

Sentir-se sem graça é um sentimento muito interessante, pois pode provocar diferentes variações na pessoa. Fazendo uma analogia com as cores, é como se não possuísse um colorido próprio e adquirisse a tonalidade dos sentimentos aos quais se agrega.

É justamente aí que, pelo menos em minha experiência subjetiva, pode ser observado o aspecto mais interessante desse sentimento.

Como sentimento originário, antes de se agregar a outros, o sentir-se sem graça parece apresentar-se sem uma cor definida. Talvez seja precisamente essa ausência de cor que provoque certo mal-estar interno: o próprio incômodo de sentir-se sem graça. Pode ser por isso que ele necessite agregar-se a outros sentimentos, a fim de conferir alguma tonalidade ao que está sendo sentido e, quem sabe, modificar aquele incômodo inicial.

As possibilidades são muitas.

Uma pessoa pode se sentir sem graça, e esse sentimento se aliar ao sentir-se desconcertado. Assim como se sentir sem graça e se agregar ao sentimento de vergonha. E também se sentir sem graça diante de determinada situação, e esse sentimento se associar ao de constrangimento. Enfim, são várias as possibilidades.

Em outras circunstâncias, o sentimento de se sentir sem graça pode agregar-se a sentimentos relacionados ao desinteresse ou à falta de vivacidade. Um filme pode gerar o sentimento de sem graça por ter sido experienciado como chato. Uma situação pode ser sentida como insossa, sem brilho ou sem vida. Uma conversa, uma atividade ou um acontecimento podem provocar essa mesma sensação por terem sido percebidos como cansativos ou desinteressantes.

Assim, dependendo do grupo de sentimentos ao qual se agregue, o sentir-se sem graça pode assumir diferentes tonalidades e produzir as mais variadas consequências.

Entretanto, há algo em comum entre todas essas manifestações. Mantendo a analogia com as cores, podemos dizer que o sentimento de se sentir sem graça é, originalmente, incolor. Por isso, de alguma maneira, ele seria “obrigado” a assumir a cor do sentimento ao qual se agrega.

Podemos aprender algo importante com isso.

Como o sentimento de se sentir sem graça se apresenta inicialmente como um incômodo ainda sem contornos definidos, ele pode funcionar como um sinal, ou seja, como um chamado para prestarmos atenção ao que está acontecendo em nós a fim de buscarmos identificar o que precisa ser movimentado para conferir um colorido mais bonito à nossa vida.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Quem lidera?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Fugir da dieta. Perder horas e horas no celular. Tomar um vinho ou alguns drinks para relaxar.

Comprar “porque eu mereço”. Explodir “porque não aguento mais”. Dormir “porque estou esgotado”.

Quando você faz essas coisas, quem escolhe o que você faz?

Quando você age, quem está na liderança?

Podemos não perceber, mas tomamos centenas de microdecisões ao longo do dia que, no fim, influenciam muitos dos resultados da nossa vida.

De repente, gastamos mais do que deveríamos, comemos mais do que gostaríamos, brigamos por tudo e com todos. Agimos por impulso e perdemos a consciência sobre nossas escolhas.

É gigantesco o preço por não conhecermos nosso mundo interior, por não percebermos o que sentimos e como esses sentimentos influenciam nossas atitudes. Aumentamos o risco de fazer escolhas das quais podemos nos arrepender. Surgem mágoas, perdas e frustrações.

Fugir das emoções também pode nos afastar dos nossos objetivos, nos distanciar de nossos sonhos. Fugir de nós mesmos compromete a autoliderança.

É preciso coragem. Olhar para dentro, perceber os movimentos que ocorrem e entrar em contato com os sentimentos que nos inundam costuma ser assustador. Quanto menos fazemos isso, mais medo temos, mais ficamos presos nos vícios aqui fora.

É aí que entra a coragem emocional. A essência da liberdade e das conquistas. É olhar para as emoções, compreender o que elas têm a dizer e, usando essa força como combustível, acelerar rumo à sua meta — fazer o que precisa ser feito para construir a vida que deseja viver.

Coragem emocional também é trabalhar agora para desfrutar momentos de realização e sucesso. Quem mergulha em seu próprio universo traz à tona uma versão sólida e potente de si mesmo.

Então, me conta: você tem coragem?

Quem lidera você?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A dor e a ciência do sentir

Por Beatriz Breves

A dor costuma ser compreendida como um sintoma. Seja física ou emocional, ela é geralmente vista como um sinal de que algo não vai bem no organismo ou na vida psíquica. Entretanto, sob a perspectiva da Ciência do Sentir, a dor não é somente um sintoma. Como todo sentir, ela constitui uma forma de expressão da própria existência.

Ao longo da história da ciência, diferentes paradigmas moldaram a forma como compreendemos o ser humano. Até o fim do século XIX, predominava a visão mecanicista, inspirada na física newtoniana, segundo a qual a natureza funcionaria como uma grande máquina regida por leis determinísticas. Nesse contexto, o corpo humano passou a ser concebido como um mecanismo composto por partes, cujas funções poderiam ser analisadas isoladamente.

No século XX, entretanto, essa visão mostrou-se insuficiente para explicar diversos fenômenos da realidade. A Teoria da Relatividade introduziu a noção de um espaço-tempo dinâmico e dependente do observador. Pouco depois, a Física Quântica revelou que a relação entre observador e fenômeno observado não pode ser completamente dissociada. Mais do que novas teorias físicas, esses desenvolvimentos inauguraram uma forma de compreender a realidade, marcada pela interdependência, pela complexidade e pela superação das separações rígidas.

Inspirada por essa ampliação de perspectiva, a Ciência do Sentir propõe que o ser humano não seja compreendido como uma soma de partes independentes — corpo de um lado e mente de outro —, mas como uma unidade organizada de experiência.

Nesse contexto, a dor física e a dor emocional não constituem fenômenos separados que posteriormente interagem entre si. São diferentes formas pelas quais uma mesma organização existencial se manifesta. O que chamamos de corpo e o que chamamos de psiquismo correspondem a níveis distintos de expressão de uma mesma realidade vivida.

Um exemplo ilustrativo é o caso de Martinha (Breves, 2015). Após o desaparecimento do filho, ela passou anos convivendo com dores abdominais que se intensificaram progressivamente e foram acompanhadas por hipertensão arterial, culminando na necessidade de uma cirurgia de vesícula.

Diferentes perspectivas poderiam interpretar essa situação de maneiras distintas:

  1. Na visão organicista tradicional, a dor seria compreendida exclusivamente como consequência da doença física, entendida como resultado de alterações biológicas localizadas no organismo.
  2. Na visão psicológica clássica, a dor física seria considerada uma manifestação indireta do sofrimento emocional provocado pelo desaparecimento do filho, assumindo-se uma primazia do psicológico sobre o corporal.
  3. Na psicossomática contemporânea, corpo e psiquismo seriam vistos como sistemas distintos, porém interdependentes, cuja interação contribuiria para o aparecimento tanto dos sintomas físicos quanto do sofrimento emocional.
  4. Na perspectiva da Ciência do Sentir, não se trata de estabelecer uma relação causal entre corpo e mente, mas de reconhecer que ambos expressam uma mesma organização vivencial. A dor física e a dor psíquica constituem modos distintos de manifestação de uma experiência existencial profundamente marcada pela perda.

A notícia do desaparecimento do filho não produz somente sofrimento psicológico nem somente alterações corporais. Ela reorganiza a totalidade da experiência da pessoa. Essa reorganização pode manifestar-se simultaneamente como sofrimento emocional, alterações fisiológicas, mudanças relacionais, transformações identitárias e diversos outros desdobramentos.

A dor, portanto, deixa de ser compreendida somente como um sinal de disfunção. Ela passa a ser reconhecida como uma forma de expressão do viver. Não é algo que simplesmente acontece ao indivíduo; é uma experiência que emerge da maneira singular como sua existência se organiza diante das circunstâncias da vida.

Sob essa perspectiva, saúde, doença e sofrimento deixam de ser fenômenos isolados para serem compreendidos como diferentes configurações da experiência humana. A dor torna-se, assim, uma linguagem do existir — uma linguagem que, embora frequentemente associada ao sofrimento, também revela a profundidade dos vínculos, das perdas, dos conflitos e dos processos de transformação que constituem a vida humana.

Referência bibliográfica

BREVES, Beatriz. A fronteira do adoecer — Por que você adoece? 2. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Relacionamentos em transformação

Por Beatriz Breves

Sou do tempo em que era o homem quem pedia a moça em namoro. Se o namoro “firmasse”, viria o noivado — com aliança na mão direita —, seguido do casamento de véu e grinalda, quando a aliança passaria para a mão esquerda.

Simples assim. Ou, pelo menos, assim parecia.

A separação já existia, mas era chamada de desquite. O casal deixava de viver junto, porém o vínculo matrimonial não era dissolvido. O divórcio somente se tornou possível no Brasil em 1977, quando eu já tinha 20 anos.

Sou também do tempo em que o homem era considerado o chefe da família e detinha poder legal sobre a mulher. O Código Civil de 1916 incluía a mulher casada entre as pessoas relativamente incapazes. Para trabalhar, viajar e praticar diversos atos da vida civil, ela dependia da autorização do marido.

Em 1962, quando eu tinha cinco anos, o Estatuto da Mulher Casada modificou essa condição. A mulher deixou de ser considerada civilmente incapaz em razão do casamento e passou a ter maior autonomia sobre sua vida.

Entretanto, foi somente com a Constituição de 1988, quando eu tinha 31 anos, que a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres foi plenamente estabelecida.

O novo Código Civil, em vigor desde 2003, consolidou essa igualdade nas responsabilidades conjugais e, em 2006, a Lei Maria da Penha ampliou a proteção da mulher contra a violência doméstica.

Portanto, durante boa parte da minha vida, convivi com modelos sociais bastante rígidos, que determinavam como homens e mulheres deveriam se comportar, o que lhes era permitido desejar e até que lugar deveriam ocupar dentro de uma relação.

Isso não significa que os relacionamentos fossem verdadeiramente simples. Significa apenas que havia um roteiro previamente estabelecido. As relações já recebiam uma forma antes mesmo de as pessoas começarem a vivê-las.

Hoje, aos 69 anos, percebo quanto esse cenário mudou.

Não pretendo discutir se mudou para melhor ou para pior. Houve ganhos fundamentais e também surgiram novos desafios. O que me chama a atenção é que, enquanto antes havia praticamente um único caminho reconhecido, hoje encontramos inúmeras formas, circunstâncias e dinâmicas de relacionamento.

Diante de tantas possibilidades, fiz o que costumamos fazer quando queremos compreender alguma coisa: perguntei à internet quais tipos de relacionamento existem atualmente. Encontrei pelo menos 34 denominações.

  1. Monogâmico – Exclusividade entre duas pessoas.
  2. Longa duração – Vínculo mantido por muitos anos.
  3. Intercultural – União entre culturas diferentes.
  4. À distância – Parceiros vivem em lugares distintos.
  5. Distância temporária – Separação física por período limitado.
  6. LAT – Casal que não divide residência.
  7. Slow dating – Aproximação afetiva gradual.
  8. Poligâmico – União com vários cônjuges.
  9. Poliamoroso – Múltiplos amores consensuais.
  10. Trisal – Relação amorosa entre três pessoas.
  11. Aberto – Casal com liberdade sexual acordada.
  12. Namoro não exclusivo – Namoro sem exclusividade acordada.
  13. Solo-poliamor – Poliamor com autonomia individual.
  14. Anarquia relacional – Vínculos sem hierarquias predefinidas.
  15. Híbrido – Combinação de diferentes formatos relacionais.
  16. Casual – Envolvimento sem compromisso duradouro.
  17. Amizade colorida – Amizade com envolvimento sexual.
  18. Friends with benefits – Amizade com benefícios sexuais.
  19. Situationship – Vínculo afetivo sem definição.
  20. Relação de conveniência – União mantida por vantagens práticas.
  21. Relação de fachada – União sustentada pelas aparências.
  22. Virtual – Relacionamento vivido principalmente online.
  23. Sugar – Companhia associada a benefícios materiais.
  24. Coparentalidade – Parceria voltada à criação dos filhos.
  25. Contrato relacional – Vínculo baseado em acordos explícitos.
  26. BDSM – Práticas consensuais de poder e prazer.
  27. Espiritual – União baseada em conexão espiritual.
  28. Dependência financeira – Vínculo sustentado por necessidade econômica.
  29. Agamia – Vínculos fora do modelo de casal.
  30. Assexual – Relação sem centralidade do sexo.
  31. Queerplatônica – Vínculo profundo além da amizade convencional.
  32. Apoio mútuo – Relação baseada em cuidado recíproco.
  33. Codependente – Dependência emocional com perda de autonomia.
  34. Tóxico – Vínculo que provoca danos recorrentes.

A lista é longa e provavelmente ainda está incompleta. Sob a expressão “tipos de relacionamento”, a internet reúne formatos de vínculo, circunstâncias de vida, acordos afetivos, práticas sexuais e também maneiras saudáveis ou prejudiciais de se relacionar.

Essa mistura revela, por si só, a complexidade do nosso tempo e mostra que o nome dado a uma relação já não é suficiente para compreendermos como ela se constitui.

Se antes havia um roteiro único, agora existem muitos caminhos possíveis.

A liberdade conquistada foi fundamental. Ela permitiu que as pessoas questionassem papéis impostos, reconhecessem diferentes formas de amar e construíssem vínculos mais compatíveis com aquilo que sentem e desejam.

Entretanto, a liberdade não elimina a necessidade de alguma organização. Talvez a sensação de que hoje “vale tudo” não resulte da diversidade dos relacionamentos, mas da confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade. Um vínculo pode assumir muitas formas, mas todas elas produzem efeitos sobre as pessoas envolvidas.

Quando duas pessoas se vinculam, algo começa a se constituir entre elas. Formam-se maneiras de se aproximar e de se afastar, ritmos de convivência, expectativas, limites, silêncios, acordos explícitos e acordos que jamais foram pronunciados.

Pouco a pouco, cada relação adquire um modo próprio de existir, que não pertence inteiramente a uma pessoa nem à outra, mas àquilo que ambas produzem no encontro.

Essa organização não é definida pelo nome dado ao relacionamento. Todo vínculo, tradicional ou não, organiza-se de alguma maneira. A diferença não está entre relações organizadas e desorganizadas, mas nas formas de organização que elas assumem e nos efeitos que produzem sobre as pessoas envolvidas.

Um casamento pode organizar-se de maneira rígida, assimétrica ou dolorosa, enquanto um vínculo que não corresponde aos modelos tradicionais pode organizar-se com clareza, reciprocidade e cuidado.

O desafio contemporâneo talvez seja justamente este: não retornar à rigidez do passado, mas compreender que relações flexíveis não precisam ser relações sem forma.

Sou do tempo em que a forma vinha antes do encontro. Hoje, é o encontro que precisa descobrir a sua forma.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de paciência

Por Beatriz Breves

Si creo en mi plan, no habrá por que estar de otra manera

Foto: Ed Visoso Flickr

A paciência é um sentimento geralmente atribuído aos sábios, às pessoas amadurecidas e experientes. Normalmente, o jovem não tem muita paciência. A juventude tende a ser mais impaciente. Vamos adquirindo paciência com o tempo e com as experiências da vida — com suas exceções, naturalmente.

A paciência é um sentimento capaz de acolher e favorecer o estabelecimento de relações marcadas pelo aconchego. Ela agrega outros sentimentos e atitudes, como a tolerância, a perseverança, a confiança e a resignação. Talvez seja por isso que, algumas vezes, dizemos:

— Nossa, fulano tem uma santa paciência!

É a maneira de reconhecer que aquela pessoa consegue administrar determinada situação de um modo que poucos conseguiriam.

Também podemos falar na arte da paciência. Ela se revela na forma como a pessoa lida com a vida: na capacidade de administrar as situações, perceber o tempo certo, saber esperar quando é preciso e avançar quando chega o momento. Conduzir a vida com paciência, calma e tranquilidade é uma arte — e também um aprendizado.

No mundo de hoje, vivemos uma situação muito interessante. A velocidade das informações e das comunicações pela internet exige de nós muita paciência, principalmente das gerações mais antigas.

Se não respondemos imediatamente a uma mensagem, se levamos um pouco mais de tempo, a pessoa do outro lado já começa a ficar impaciente. Eu diria que um minuto, hoje, equivale a um dia ou até a uma semana de antigamente.

Sou do tempo em que telefonávamos para a casa de alguém. A pessoa que atendia anotava o recado e, somente quando o destinatário chegava em casa, tomava conhecimento de que alguém havia ligado. Só então retornava a ligação.

Depois veio a secretária eletrônica — que, provavelmente, muita gente mais jovem nem chegou a conhecer. Hoje, temos o WhatsApp, e tudo se tornou imediato.

A paciência também precisou mudar o seu ritmo, o seu timing. Para as gerações mais antigas, é preciso muita paciência para acompanhar o mundo moderno, pois os jovens já nascem inseridos nele.

Por isso, faço um trocadilho: santa paciência para lidar com tantas transformações, reaprendizados e mudanças de ritmo!

Só mesmo com a arte da paciência.

E, ainda assim, haja paciência!

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.