O sentimento de pai não percorre a estrada da genética, mas a autoestrada do coração.
Uma rodovia que, em simultâneo à sinalização das leis, emana o bálsamo do amor incondicional, transformando o vínculo em presença, cuidado e proteção.
Desde os primeiros quilômetros dessa jornada, revela-se uma das mais belas magias da vida: aquela que faz coexistirem o pai humano com suas limitações e o pai herói, visto pelos olhos do(a) filho(a).
Coexistência que serve de alicerce para a estrutura da personalidade e para a construção dos valores pessoais, nutrindo sentimentos que fortalecem o ser humano: confiança, coragem, segurança e esperança.
PAI, uma palavra de apenas três letras que, com simplicidade e beleza, abriga em si mesma o verdadeiro significado do sentimento de pai — Proteção, Amor e Inspiração.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
Ao longo da história, o sofrimento humano, inclusive aquele que se manifesta por meio das doenças, foi explicado de maneiras muito diferentes. Ora era atribuído a castigos divinos, à influência de espíritos ou ao desequilíbrio dos humores corporais; ora, a defeitos biológicos ou a alterações psicológicas.
Cada época desenvolveu suas próprias formas de compreender o sofrimento. Existe, porém, algo particularmente significativo nesse percurso: toda concepção de doença reflete uma concepção de ser humano.
Quando predominava a crença de que o mundo era governado por forças sobrenaturais, as doenças eram atribuídas à ação dos deuses ou dos espíritos.
Na Grécia Antiga, ocorreu uma mudança importante. Filósofos e médicos passaram a buscar explicações naturais para as doenças. A própria histeria, por exemplo, era compreendida como decorrente de alterações relacionadas ao útero, que se acreditava deslocar-se pelo corpo feminino e provocar diversos sofrimentos. Embora hoje essa explicação nos pareça estranha, ela revela como cada época procura interpretar o sofrimento humano a partir dos conhecimentos e das concepções de que dispõe.
Hipócrates, considerado o pai da medicina, procurou compreender o adoecimento como resultado de desequilíbrios próprios da natureza humana, inaugurando uma forma de pensar que influenciaria a medicina por séculos.
Quando a ciência moderna passou a compreender a natureza como uma máquina, o corpo humano também passou a ser visto dessa forma: uma máquina composta por peças que poderiam falhar. Essa visão trouxe avanços extraordinários para a medicina. Entretanto, ao separar corpo e mente, também contribuiu para uma compreensão fragmentada do ser humano.
Durante muito tempo, a doença física foi tratada como um problema do corpo, e o sofrimento psíquico, como um problema da mente, como se fossem duas realidades distintas que apenas ocasionalmente se influenciassem. Hoje, porém, essa separação mostra-se cada vez mais insuficiente.
Quando uma pessoa enfrenta uma grande perda, uma situação de estresse intenso ou um sofrimento prolongado, não é apenas sua mente que é afetada. Seu corpo também responde. Da mesma forma, uma doença física importante modifica aquilo que a pessoa sente, seus pensamentos, suas relações e a maneira como percebe a própria vida.
A questão mais importante talvez não seja descobrir se a doença começou no corpo ou na mente, mas reconhecer que estamos falando da mesma pessoa.
É a partir dessa compreensão integrada do ser humano que se desenvolve a Ciência do Sentir: uma perspectiva que procura compreender a experiência humana sem separar aquilo que, na vida vivida, se manifesta de maneira indissociável.
Sob essa perspectiva, o ser humano não é um corpo que possui uma mente, nem uma mente que habita um corpo. É uma unidade de experiência. Aquilo que chamamos de físico e aquilo que chamamos de psíquico são formas diferentes pelas quais a vida se manifesta.
Isso não significa negar a importância da medicina, da biologia ou da psicologia. Significa reconhecer que nenhuma dessas áreas, isoladamente, consegue dar conta de toda a complexidade do viver humano.
O maior desafio da atualidade talvez não seja escolher entre corpo e mente, nem apenas conhecer cada vez mais as partes que compõem o ser humano. O desafio é recuperar a capacidade de enxergar a pessoa em sua totalidade.
Exames revelam órgãos. Diagnósticos descrevem doenças. Tratamentos combatem sintomas. Tudo isso é necessário e fundamental.
Mas quem sofre, quem espera, quem teme, quem luta e quem sonha é sempre um ser humano.
Por trás de cada diagnóstico existe uma história, uma forma singular de sentir, de amar, de sofrer e de existir. E talvez seja justamente aí que resida o maior desafio: cuidar sem perder de vista a pessoa.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
O sentimento de aceitação funciona como um fertilizante que se mistura à irrigação dos demais sentimentos. E não importa se são considerados prazerosos ou não, como o amor e o carinho ou o ódio e a inveja. Sentir aceitação é necessário para um sentimento poder germinar e se desenvolver, caso contrário, nenhum deles encontraria terreno emocional fértil para crescer.
Assim, quando um sentimento permanece ecoando na gente, sempre é interessante pensar qual o sentimento que está sendo irrigado com o de aceitação. Até porque, dependendo dos sentimentos que estiverem investidos com aceitação, seja em dupla, trio, etc., essa reflexão poderá servir de grande ajuda tanto na amplificação daqueles que estão nos dando bons frutos, quanto na transformação daqueles que estão nos dando maus frutos.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
O sentimento de perda pode ser compreendido por muitos ângulos, pois se estende por um amplo espectro de experiências humanas. Entretanto, quando descemos às suas profundezas, encontramos uma dor muito particular: a perda nos lembra, de forma quase brutal, que não somos donos de nada. Ela escancara nossa condição transitória na vida. Hoje acreditamos possuir algo — uma pessoa, um trabalho, um sonho, uma posição social ou até mesmo uma rotina — e, por vezes, muito rapidamente, tudo isso se desfaz.
Existem muitos tipos de perda. A mais evidente é a perda de alguém querido. Mas também podemos perder um emprego, um relacionamento, a dignidade, um projeto de vida, uma condição física ou o afeto de alguém que deixa de nos amar. Cada uma dessas situações costuma despertar outros sentimentos: tristeza, desespero, carência, solidão, insegurança ou luto. O sentimento de perda nunca vem sozinho. Ele agrega um conjunto de sentimentos que pode conduzir tanto ao crescimento pessoal quanto ao sofrimento profundo, dependendo da forma como a pessoa consegue elaborá-lo.
Contudo, é importante diferenciar o fato da perda do sentimento de perda. Nem toda perda produz sofrimento. O que realmente importa não é aquilo que foi perdido em si, mas o valor que a pessoa atribuía ao que perdeu. Muitas vezes, acredita-se que a questão central está no acontecimento objetivo. Não está. O elemento decisivo é o investimento afetivo realizado naquilo que se perdeu.
Um exemplo simples ajuda a compreender essa diferença. Uma pessoa obesa, ao perder peso, dificilmente experimentará tristeza por essa perda. Ao contrário, poderá sentir alegria, esperança, satisfação ou alívio. Nesse caso, houve uma perda concreta, mas não um sentimento de perda. Isso mostra que o sofrimento não decorre automaticamente do desaparecimento de algo, mas do significado que esse algo possuía para quem o perdeu.
Essa distinção revela um aspecto fundamental no campo dos sentimentos: acontecimentos não são sentimentos. Perder é um fato; sentir a perda é uma experiência subjetiva. Muitas vezes, as pessoas confundem o acontecimento com o sentimento correspondente, como se um determinasse, necessariamente, o outro. Não determina. O que produz o sentimento não é o fato em si, mas o significado que lhe é atribuído. É por isso que uma mesma situação pode gerar tristeza em uma pessoa, alívio em outra e até alegria em uma terceira. O acontecimento pertence à realidade objetiva; o sentimento pertence à forma como cada pessoa experiencia essa realidade.
Há também perdas que surpreendem. Uma pessoa pode ganhar na loteria e, algum tempo depois, sentir saudade da vida que levava antes. Pode mudar de carreira em busca de realização pessoal e, mais tarde, perceber que sente falta da antiga rotina, dos colegas ou da identidade construída ao longo dos anos. Em certas situações, aquilo que parecia representar um ganho traz consigo a sensação de que uma parte de si ficou para trás.
Entre todas as formas de perda, uma das mais dolorosas talvez seja a perda do tempo. O sofrimento surge quando a pessoa olha para trás e percebe que não realizou aquilo que desejava ou acreditava poder realizar, sentindo que as oportunidades passaram e não retornarão. Trata-se de uma dor profunda, difícil de elaborar, porque está associada à própria percepção da finitude da existência.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como lidar com a perda?
A resposta, embora pareça simples, é uma das tarefas mais difíceis de realizar: aceitar. Aceitar que nada nos pertence definitivamente, que tudo é transitório, que a vida é constituída por um movimento contínuo de encontros e despedidas, de conquistas e renúncias, de ganhos e perdas.
Esse processo de aceitação exige recursos internos importantes. Fé, esperança, confiança, paciência e capacidade de suportar a dor fazem parte do caminho. Não existe uma fórmula universal. Cada pessoa encontrará sua própria maneira de atravessar aquilo que perdeu e de reconstruir sua relação com a vida.
Mas a perda também pode se tornar um ponto de transformação. Quando a pessoa possui recursos internos para enfrentar o sofrimento, ela não fica aprisionada na revolta, na vingança ou no vazio da desesperança. Aos poucos, consegue transformar a experiência em aprendizado. Aquilo que inicialmente parecia apenas destruição pode revelar-se uma oportunidade de crescimento, amadurecimento e renovação.
Talvez seja por isso que a vida esteja continuamente nos ensinando que perder e ganhar são movimentos inseparáveis. O tempo todo, algo se encerra enquanto algo novo começa. O tempo todo, deixamos partes de nós para trás e construímos novas formas de ser e existir.
No fim das contas, é a aceitação que nos permite seguir adiante. A vida é feita desse movimento permanente entre perdas e conquistas. E é justamente nesse movimento que aprendemos, pouco a pouco, a viver.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
A chatice é um daqueles fenômenos humanos que todos reconhecem imediatamente, mas poucos conseguem definir com precisão. Dependendo da situação, ela pode manifestar-se tanto como uma característica percebida em alguém quanto como uma experiência vivida por nós mesmos. Talvez seja justamente essa dupla natureza que a torne tão interessante.
Uma das formas mais comuns de experimentá-la ocorre quando a chatice se instala na própria vida. A rotina, a repetição e a sensação de que nada muda podem produzir uma experiência emocional marcada pela monotonia, pelo cansaço e pela estagnação.
Nessas circunstâncias, a chatice configura-se como um fenômeno complexo. Não se trata de um sentimento único, mas de uma experiência constituída por diferentes sentimentos, entre eles o tédio, o desânimo, a falta de interesse e a perda de vitalidade. É como se a vida perdesse movimento e ficássemos aprisionados em um ciclo que não se transforma.
A chatice também pode surgir na relação com o outro — aquela pessoa cuja presença desperta, quase instantaneamente, um suspiro interno. Afinal, o que torna alguém chato?
Não existe uma fórmula exata. Ainda assim, dois aspectos costumam estar presentes: a dificuldade de perceber o impacto que se causa nos outros e de estabelecer uma verdadeira conexão afetiva.
A pessoa considerada chata costuma não perceber os sinais da relação. Conta piadas sem notar se alguém riu, repete histórias já conhecidas, insiste nos mesmos assuntos, corrige excessivamente, critica, vigia ou fala longamente sem considerar o interesse de quem a escuta. De certo modo, sua atenção permanece concentrada em si mesma, enquanto o outro vai desaparecendo da cena relacional.
Curiosamente, muitos desses “chatos profissionais” são pessoas gentis, educadas e até afetuosas. Talvez por isso seja tão difícil lidar com eles. Frequentemente sentimos desconforto sem conseguir explicar exatamente a origem desse incômodo.
Entretanto, há ainda uma terceira forma de experimentar esse fenômeno: quando nós mesmos nos tornamos chatos.
Sim, isso acontece com todos nós.
Há momentos em que estamos mais irritados, repetitivos, impacientes ou excessivamente centrados em nossas próprias preocupações. Isso não nos transforma automaticamente em pessoas chatas. O problema surge quando esse modo de funcionamento se torna predominante e persistente, fazendo com que nossa presença seja frequentemente vivida pelos outros como cansativa ou desgastante. Mas como perceber isso?
O primeiro passo é preservar o senso crítico. A simples capacidade de perguntar “Será que estou sendo chato?” já demonstra uma abertura importante para o outro. Observar as reações das pessoas também ajuda. Desinteresse, desconexão, respostas breves ou impaciência podem sinalizar que estamos insistindo em algo que perdeu significado na relação.
Sem dúvida, o antídoto para essa condição é a conexão afetiva. Quando existe troca genuína, curiosidade pelo outro e envolvimento emocional, a conversa ganha vida. O que torna uma interação interessante não é necessariamente o tema abordado, mas a qualidade da presença compartilhada.
Sob essa perspectiva, a chatice talvez possa ser compreendida como uma perda de movimento do sentir. Quando a experiência deixa de circular, quando a curiosidade desaparece e a relação se torna excessivamente repetitiva, surge a sensação de enfado que reconhecemos como chatice.
Entretanto, por mais incômoda que seja, ela possui uma função importante: funciona como um sinal de alerta. Quando a vida perde o brilho, quando nos tornamos excessivamente repetitivos ou quando as relações parecem esvaziadas de vitalidade, algo está nos dizendo que chegou o momento de renovar, transformar ou criar novas possibilidades.
Nesse sentido, a chatice não é apenas um problema. É também um convite ao movimento.
Pode ser a vida que pede renovação. Pode ser uma relação que precisa de novos caminhos. Pode ser a necessidade de voltar a sentir aquilo que se tornou automático.
Quando escutada, a chatice deixa de ser apenas um incômodo e passa a indicar onde a vida está pedindo transformação.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
O vitimismo funciona como um abrigo cujas portas e janelas não se abrem para fora, onde a pessoa se esconde de si mesma.
Nesse abrigo, os mantos são vestes pesadas e densas, cujas estampas carregam as cores da injustiça, como se cada tonalidade fosse sobreposta para ocultar as falhas que não se ousa encarar.
Senso de responsabilidade de quem se sente vítima? Esse escorre por entre os dedos. Sem falar que os próprios erros também permanecem em gavetas trancadas a sete chaves.
Na parede, há um quadro em aquarela cuja pintura insiste em mostrar uma dor e um sofrimento sempre mais profundos do que os dos outros.
Em seu idioma particular, sustenta a narrativa de sempre diminuir o outro. Não por maldade declarada, mas por uma necessidade silenciosa de parecer maior do que acredita poder ser.
Hábil em construir histórias tão bem contadas e tão bem sentidas, por vezes enganam até a própria autora, que, com uma convicção quase teatral, atrai afagos na tentativa de alimentar um vazio que nunca se sacia.
É um sentimento que nasce da insegurança, mas cresce regado por pequenas doses de arrogância. Por vezes, no calor do sofrimento, refresca-se à sombra da inveja; por outras, no frio da solidão, aquece-se no fogo da raiva.
De fato, o vitimismo impõe um grande sofrimento. Uma dor que só pode ser transformada quando, cansada de repetir o mesmo enredo, a pessoa encontra coragem para se olhar sem autopiedade.
E seria nesse instante — frágil, raro e luminoso — que o vitimismo começa a perder força, oferecendo, enfim, uma possibilidade de mudança, para que a pessoa encontre espaço para se assumir e, assim, ser com as qualidades e os defeitos próprios de um ser humano.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.
— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.
Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.
O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.
Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:
— Acho muito triste a cadeira de rodas
Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.
Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:
— E você não está numa cadeira de rodas.
Ela suspirou fundo:
— Graças a Deus!
Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?
Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.
Foi então que eu disse a Rosa:
— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.
Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:
— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!
Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.
Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.
Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?
Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.
Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.
E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.
A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..
Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.
Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.
Com dificuldade e constrangimento, respondeu:
— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.
Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..
Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.
Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:
— Estou começando a colher o que você plantou!
Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.
Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.
Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.
E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.
Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.
Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.
Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.
Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad
Muitas vezes, a polarização entre duas ou mais pessoas se torna inegável. É comum que cada lado tente convencer o outro de que detém a verdadeira versão dos fatos. Nesse movimento, amizades antigas se rompem, famílias se desentendem, casais se afastam; enfim, pessoas queridas se perdem ao longo da busca pela suposta “verdade”.
A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam até provocar um verdadeiro curto-circuito nas relações.
Costumo dizer que, quando estamos falando de pessoas de boa índole, a opinião em si importa muito menos do que parece. Na maioria das vezes, tratando-se do mesmo assunto, o que muda não é a essência da ideia, mas o ângulo a partir do qual cada um enxerga a situação.
É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, se estiverem frente a frente, cada uma com o número voltado para si, verão coisas diferentes: para uma, trata-se de um 6; para a outra, de um 9. Embora estejam diante do mesmo símbolo, encontram-se, ao mesmo tempo, diante de dois números distintos. Ambas acreditam estar certas e, sob a perspectiva em que se posicionam, realmente estão. Assim, duas pessoas podem contemplar o mesmo ideal e, ainda assim, interpretá-lo de maneiras completamente diferentes.
A polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o rumo dos próprios ideais e, portanto, de si mesmo. Soma-se a isso a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, tornando o caminho para o diálogo mais árduo. Assim, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, ataca; em vez de perguntar, julga.
Há, porém, algo ainda mais curioso nessa metáfora e que muito pode nos ensinar. Quando aproximamos a visão do 6 da visão do 9, contemplamos o número 69. Nesse encontro, não há mais disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementaridade, simbolizando integração, reciprocidade e a possibilidade de duas perspectivas coexistirem. Não se trata de transformar o 6 em 9 ou o 9 em 6. Cada um permanece o que é. Trata-se de reconhecer que ambos podem compor algo maior quando colocados, lado a lado, de forma harmoniosa.
Talvez seja justamente essa a habilidade que falte a algumas pessoas: a capacidade de transformar o embate em encontro; lembrar que discordar não significa desarmonia; aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho; trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. Quando percebemos que o ideal é comum, mesmo que as ideias sejam divergentes, abrimos espaço para o diálogo, para a convivência e para a construção conjunta.
No fim das contas, entre os números 6 e 9 existe apenas um giro de perspectiva. E, quando esse giro acontece, o que antes separava passa a unir. É nesse movimento que nasce o número 69 — não como consenso, mas como convivência possível e amadurecida.
Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos, dotados de grande complexidade, com um mundo interno repleto de sentimentos que, se não forem bem administrados, podem gerar disputas, segregação e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, na verdade, o número é 96. E isso não seria necessariamente destrutivo ou ruim. Pelo contrário: é justamente entre a integração e a divergência que emergem novos caminhos, ampliando horizontes e dando origem a novas ideias.
O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias também podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. É essa ética compartilhada que fortalece o ideal comum e as relações.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
O apego tem sua raiz no sentimento de posse, no desejo humano de manter por perto aquilo ou aquele que nos é significativo, manifestando-se como vontade de proximidade, necessidade de presença ou até sensação de posse. Pode ser por pessoas, objetos, memórias, ideias ou até mesmo doenças. O apego tem como essência a tentativa de garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe.
O desapego nasce do sentimento de liberdade, no desejo humano de não se sentir prisioneiro de nada da vida. Mas que não se confunda o desapego com o sentimento de indiferença. De fato, é um sentimento que, tal como o apego, tenta garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe, pela via oposta à do apego.
Fato é que, em tese, o sentimento é de que, se o apego nos acorrenta, o desapego nos liberta; se o apego nos torna escravos, o desapego nos restitui a liberdade; se o apego funciona como um preenchimento ilusório, o desapego funciona como uma plenitude igualmente ilusória; se o apego atravanca o coração, o desapego expande o espírito. Em essência, apegar‑se é tentar reter o tempo; desapegar‑se é tentar fluir com ele.
Mas, quando digo “em tese”, digo porque o desapego absoluto também pode se tornar uma forma de encarceramento interior, um recolhimento excessivo em si mesmo. Um certo grau de apego é necessário, por ser ele que funda laços, sustenta relações e alimenta o afeto. Uma criança precisa se vincular aos pais e os pais precisam se vincular aos filhos, e todo vínculo tem uma “pitada” do sentimento de apego. O problema surge quando o apego se transforma em dependência, controle pelo medo da perda. Da mesma maneira, o desapego levado ao extremo esvazia a existência, pois quem não se prende a nada não cria raízes, não se envolve, não se permite sentir.
O amor talvez seja o exemplo mais claro dessa dualidade. Há amores que florescem no desapego, desejando o bem do outro, mesmo que isso signifique seguir caminhos distantes. E há amores que se perdem no excesso de apego, quando a necessidade sufoca o próprio sentimento. Não há receita: cada relação precisa descobrir sua própria medida entre conservar e permitir partir.
O segredo está em reconhecer a transitoriedade da vida. Aceitar que tudo se transforma, que nada é permanente, pode assustar, mas também liberta. Afinal, desapegar é permitir que a vida siga seu fluxo, enquanto se apegar é tentar conter o inevitável. E, entre um e outro, existe o caminho da maturidade emocional: a capacidade de sentir profundamente sem se aprisionar, de amar sem dominar, de viver sem tentar deter o tempo. Difícil? Sim. Mas não impossível. E quem disse que viver seria fácil? Não é, mas, apesar de tudo, é muito bom.
Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.
Um exemplo indiscutível de que é pelo vínculo que nos constituímos são as conhecidas “crianças selvagens” — aquelas que, por circunstâncias extremas, se relacionaram e, portanto, se vincularam, no início de suas vidas, predominantemente com animais e não com seres humanos. Observa-se que, nesses casos, a criança criada por um cão demonstrou comportar-se como um cão; por lobos, como um lobo; por galinhas, como uma galinha. Assim, cada criança revelou identificação e comportamento conforme o modelo oferecido pelo animal que a acolheu. Em outras palavras, cada uma espelhou sua identidade no vínculo estabelecido durante o seu processo de formação e desenvolvimento, evidenciando o poder que as relações exercem sobre a construção do Eu.
Sem dúvida, esses casos servem como constatação de que os vínculos que construímos ao longo da vida, especialmente os primeiros, são os que oferecem os elementos mais decisivos na constituição de quem somos. São eles que moldam nossas percepções, influenciam nossas escolhas e estruturam o Eu que nos tornamos — ou, mais precisamente, o Eu que sentimos ser.
Não é difícil compreender esse processo, já que é desde a fecundação — ou seja, desde o início dos vínculos — que se pode perceber a trama das relações: com a mãe, com o pai, com irmãos, amigos, colegas, professores, parceiros etc. Alguns vínculos são intensos e transformadores; outros, frágeis e superficiais. Todos, porém, participam, de algum modo, da construção e da evolução da nossa identidade, do nosso Eu.
Dessa forma, desenvolver vínculos e, sobretudo, qualificá-los é fundamental para vivermos com mais saúde, autonomia e bem-estar biopsicossocial. Relações saudáveis funcionam como alicerces que sustentam nosso crescimento, fortalecem a autoestima e ampliam nossa capacidade de enfrentar desafios. Quando cultivamos vínculos de qualidade, abrimos espaço para sentimentos genuínos de pertencimento, amparo e valor pessoal — elementos essenciais para uma vida mais equilibrada e significativa.
A qualidade das relações
Se a relação é a base do vínculo, é a qualidade dessa relação que determina se ele será construtivo ou não. Uma relação pode gerar um vínculo capaz de cuidar, amparar e construir, assim como pode gerar intoxicação, maus-tratos e destruição. Dependendo de como é vivida, a mesma interação que nutre pode ferir; a que acolhe pode sufocar.
Nesse contexto, surgem questões fundamentais: o que leva uma pessoa a desenvolver vínculos saudáveis, aqueles que promovem crescimento? E o que leva alguém a estabelecer vínculos destrutivos, que ferem, sufocam e desgastam? Como transformar padrões relacionais que se repetem ao longo da vida, mesmo quando já não fazem mais sentido?
Essas perguntas revelam a complexidade do universo relacional. Para respondê-las, é preciso reconhecer que os vínculos se formam nos encontros entre, pelo menos, duas pessoas que carregam consigo memórias, expectativas, medos, aprendizados e feridas — uma combinação de experiências alegres e dolorosas de uma história pessoal. A qualidade do vínculo dependerá, em grande medida, do que cada um traz e de como isso se manifesta na relação. Cada encontro é, portanto, um entrelaçamento de mundos internos que podem entrar em conflito ou encontrar harmonia.
Lembro de um amigo que, em uma roda de conversa, recorrendo ao humor, dizia que, para um casal dar certo, era fundamental que as “loucuras” de cada um se encaixassem. Apesar do tom leve, há nisso uma verdade consistente. Relacionamentos saudáveis não exigem perfeição, mas sintonia: a capacidade de reconhecer as singularidades do outro, acolhê-las e construir um ritmo possível entre duas subjetividades que nunca serão idênticas.
Comunicação: o que se diz sem palavras
É justamente nesses emaranhados que a comunicação ganha centralidade — não apenas a comunicação verbal, mas, sobretudo, a não verbal. Grande parte do vínculo se constrói na linguagem silenciosa dos gestos, dos olhares, das pausas. Esses elementos dizem muito no encontro com o outro. É nesse território sutil que se constroem confiança, acolhimento e presença — ou, no sentido oposto, distância, tensão e insegurança.
Quando conseguimos construir vínculos que respeitam nossa singularidade e a do outro, abrimos espaço para relações que nutrem, fortalecem e ampliam quem somos. Talvez seja aí que resida uma das maiores capacidades humanas: a de se transformar por meio do encontro com o outro, fazendo de cada relação uma oportunidade de crescimento e reinvenção.
Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.