O sentimento de sem graça

Por Beatriz Breves

Sentir-se sem graça é um sentimento muito interessante, pois pode provocar diferentes variações na pessoa. Fazendo uma analogia com as cores, é como se não possuísse um colorido próprio e adquirisse a tonalidade dos sentimentos aos quais se agrega.

É justamente aí que, pelo menos em minha experiência subjetiva, pode ser observado o aspecto mais interessante desse sentimento.

Como sentimento originário, antes de se agregar a outros, o sentir-se sem graça parece apresentar-se sem uma cor definida. Talvez seja precisamente essa ausência de cor que provoque certo mal-estar interno: o próprio incômodo de sentir-se sem graça. Pode ser por isso que ele necessite agregar-se a outros sentimentos, a fim de conferir alguma tonalidade ao que está sendo sentido e, quem sabe, modificar aquele incômodo inicial.

As possibilidades são muitas.

Uma pessoa pode se sentir sem graça, e esse sentimento se aliar ao sentir-se desconcertado. Assim como se sentir sem graça e se agregar ao sentimento de vergonha. E também se sentir sem graça diante de determinada situação, e esse sentimento se associar ao de constrangimento. Enfim, são várias as possibilidades.

Em outras circunstâncias, o sentimento de se sentir sem graça pode agregar-se a sentimentos relacionados ao desinteresse ou à falta de vivacidade. Um filme pode gerar o sentimento de sem graça por ter sido experienciado como chato. Uma situação pode ser sentida como insossa, sem brilho ou sem vida. Uma conversa, uma atividade ou um acontecimento podem provocar essa mesma sensação por terem sido percebidos como cansativos ou desinteressantes.

Assim, dependendo do grupo de sentimentos ao qual se agregue, o sentir-se sem graça pode assumir diferentes tonalidades e produzir as mais variadas consequências.

Entretanto, há algo em comum entre todas essas manifestações. Mantendo a analogia com as cores, podemos dizer que o sentimento de se sentir sem graça é, originalmente, incolor. Por isso, de alguma maneira, ele seria “obrigado” a assumir a cor do sentimento ao qual se agrega.

Podemos aprender algo importante com isso.

Como o sentimento de se sentir sem graça se apresenta inicialmente como um incômodo ainda sem contornos definidos, ele pode funcionar como um sinal, ou seja, como um chamado para prestarmos atenção ao que está acontecendo em nós a fim de buscarmos identificar o que precisa ser movimentado para conferir um colorido mais bonito à nossa vida.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Quem lidera?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Fugir da dieta. Perder horas e horas no celular. Tomar um vinho ou alguns drinks para relaxar.

Comprar “porque eu mereço”. Explodir “porque não aguento mais”. Dormir “porque estou esgotado”.

Quando você faz essas coisas, quem escolhe o que você faz?

Quando você age, quem está na liderança?

Podemos não perceber, mas tomamos centenas de microdecisões ao longo do dia que, no fim, influenciam muitos dos resultados da nossa vida.

De repente, gastamos mais do que deveríamos, comemos mais do que gostaríamos, brigamos por tudo e com todos. Agimos por impulso e perdemos a consciência sobre nossas escolhas.

É gigantesco o preço por não conhecermos nosso mundo interior, por não percebermos o que sentimos e como esses sentimentos influenciam nossas atitudes. Aumentamos o risco de fazer escolhas das quais podemos nos arrepender. Surgem mágoas, perdas e frustrações.

Fugir das emoções também pode nos afastar dos nossos objetivos, nos distanciar de nossos sonhos. Fugir de nós mesmos compromete a autoliderança.

É preciso coragem. Olhar para dentro, perceber os movimentos que ocorrem e entrar em contato com os sentimentos que nos inundam costuma ser assustador. Quanto menos fazemos isso, mais medo temos, mais ficamos presos nos vícios aqui fora.

É aí que entra a coragem emocional. A essência da liberdade e das conquistas. É olhar para as emoções, compreender o que elas têm a dizer e, usando essa força como combustível, acelerar rumo à sua meta — fazer o que precisa ser feito para construir a vida que deseja viver.

Coragem emocional também é trabalhar agora para desfrutar momentos de realização e sucesso. Quem mergulha em seu próprio universo traz à tona uma versão sólida e potente de si mesmo.

Então, me conta: você tem coragem?

Quem lidera você?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A dor e a ciência do sentir

Por Beatriz Breves

A dor costuma ser compreendida como um sintoma. Seja física ou emocional, ela é geralmente vista como um sinal de que algo não vai bem no organismo ou na vida psíquica. Entretanto, sob a perspectiva da Ciência do Sentir, a dor não é somente um sintoma. Como todo sentir, ela constitui uma forma de expressão da própria existência.

Ao longo da história da ciência, diferentes paradigmas moldaram a forma como compreendemos o ser humano. Até o fim do século XIX, predominava a visão mecanicista, inspirada na física newtoniana, segundo a qual a natureza funcionaria como uma grande máquina regida por leis determinísticas. Nesse contexto, o corpo humano passou a ser concebido como um mecanismo composto por partes, cujas funções poderiam ser analisadas isoladamente.

No século XX, entretanto, essa visão mostrou-se insuficiente para explicar diversos fenômenos da realidade. A Teoria da Relatividade introduziu a noção de um espaço-tempo dinâmico e dependente do observador. Pouco depois, a Física Quântica revelou que a relação entre observador e fenômeno observado não pode ser completamente dissociada. Mais do que novas teorias físicas, esses desenvolvimentos inauguraram uma forma de compreender a realidade, marcada pela interdependência, pela complexidade e pela superação das separações rígidas.

Inspirada por essa ampliação de perspectiva, a Ciência do Sentir propõe que o ser humano não seja compreendido como uma soma de partes independentes — corpo de um lado e mente de outro —, mas como uma unidade organizada de experiência.

Nesse contexto, a dor física e a dor emocional não constituem fenômenos separados que posteriormente interagem entre si. São diferentes formas pelas quais uma mesma organização existencial se manifesta. O que chamamos de corpo e o que chamamos de psiquismo correspondem a níveis distintos de expressão de uma mesma realidade vivida.

Um exemplo ilustrativo é o caso de Martinha (Breves, 2015). Após o desaparecimento do filho, ela passou anos convivendo com dores abdominais que se intensificaram progressivamente e foram acompanhadas por hipertensão arterial, culminando na necessidade de uma cirurgia de vesícula.

Diferentes perspectivas poderiam interpretar essa situação de maneiras distintas:

  1. Na visão organicista tradicional, a dor seria compreendida exclusivamente como consequência da doença física, entendida como resultado de alterações biológicas localizadas no organismo.
  2. Na visão psicológica clássica, a dor física seria considerada uma manifestação indireta do sofrimento emocional provocado pelo desaparecimento do filho, assumindo-se uma primazia do psicológico sobre o corporal.
  3. Na psicossomática contemporânea, corpo e psiquismo seriam vistos como sistemas distintos, porém interdependentes, cuja interação contribuiria para o aparecimento tanto dos sintomas físicos quanto do sofrimento emocional.
  4. Na perspectiva da Ciência do Sentir, não se trata de estabelecer uma relação causal entre corpo e mente, mas de reconhecer que ambos expressam uma mesma organização vivencial. A dor física e a dor psíquica constituem modos distintos de manifestação de uma experiência existencial profundamente marcada pela perda.

A notícia do desaparecimento do filho não produz somente sofrimento psicológico nem somente alterações corporais. Ela reorganiza a totalidade da experiência da pessoa. Essa reorganização pode manifestar-se simultaneamente como sofrimento emocional, alterações fisiológicas, mudanças relacionais, transformações identitárias e diversos outros desdobramentos.

A dor, portanto, deixa de ser compreendida somente como um sinal de disfunção. Ela passa a ser reconhecida como uma forma de expressão do viver. Não é algo que simplesmente acontece ao indivíduo; é uma experiência que emerge da maneira singular como sua existência se organiza diante das circunstâncias da vida.

Sob essa perspectiva, saúde, doença e sofrimento deixam de ser fenômenos isolados para serem compreendidos como diferentes configurações da experiência humana. A dor torna-se, assim, uma linguagem do existir — uma linguagem que, embora frequentemente associada ao sofrimento, também revela a profundidade dos vínculos, das perdas, dos conflitos e dos processos de transformação que constituem a vida humana.

Referência bibliográfica

BREVES, Beatriz. A fronteira do adoecer — Por que você adoece? 2. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Relacionamentos em transformação

Por Beatriz Breves

Sou do tempo em que era o homem quem pedia a moça em namoro. Se o namoro “firmasse”, viria o noivado — com aliança na mão direita —, seguido do casamento de véu e grinalda, quando a aliança passaria para a mão esquerda.

Simples assim. Ou, pelo menos, assim parecia.

A separação já existia, mas era chamada de desquite. O casal deixava de viver junto, porém o vínculo matrimonial não era dissolvido. O divórcio somente se tornou possível no Brasil em 1977, quando eu já tinha 20 anos.

Sou também do tempo em que o homem era considerado o chefe da família e detinha poder legal sobre a mulher. O Código Civil de 1916 incluía a mulher casada entre as pessoas relativamente incapazes. Para trabalhar, viajar e praticar diversos atos da vida civil, ela dependia da autorização do marido.

Em 1962, quando eu tinha cinco anos, o Estatuto da Mulher Casada modificou essa condição. A mulher deixou de ser considerada civilmente incapaz em razão do casamento e passou a ter maior autonomia sobre sua vida.

Entretanto, foi somente com a Constituição de 1988, quando eu tinha 31 anos, que a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres foi plenamente estabelecida.

O novo Código Civil, em vigor desde 2003, consolidou essa igualdade nas responsabilidades conjugais e, em 2006, a Lei Maria da Penha ampliou a proteção da mulher contra a violência doméstica.

Portanto, durante boa parte da minha vida, convivi com modelos sociais bastante rígidos, que determinavam como homens e mulheres deveriam se comportar, o que lhes era permitido desejar e até que lugar deveriam ocupar dentro de uma relação.

Isso não significa que os relacionamentos fossem verdadeiramente simples. Significa apenas que havia um roteiro previamente estabelecido. As relações já recebiam uma forma antes mesmo de as pessoas começarem a vivê-las.

Hoje, aos 69 anos, percebo quanto esse cenário mudou.

Não pretendo discutir se mudou para melhor ou para pior. Houve ganhos fundamentais e também surgiram novos desafios. O que me chama a atenção é que, enquanto antes havia praticamente um único caminho reconhecido, hoje encontramos inúmeras formas, circunstâncias e dinâmicas de relacionamento.

Diante de tantas possibilidades, fiz o que costumamos fazer quando queremos compreender alguma coisa: perguntei à internet quais tipos de relacionamento existem atualmente. Encontrei pelo menos 34 denominações.

  1. Monogâmico – Exclusividade entre duas pessoas.
  2. Longa duração – Vínculo mantido por muitos anos.
  3. Intercultural – União entre culturas diferentes.
  4. À distância – Parceiros vivem em lugares distintos.
  5. Distância temporária – Separação física por período limitado.
  6. LAT – Casal que não divide residência.
  7. Slow dating – Aproximação afetiva gradual.
  8. Poligâmico – União com vários cônjuges.
  9. Poliamoroso – Múltiplos amores consensuais.
  10. Trisal – Relação amorosa entre três pessoas.
  11. Aberto – Casal com liberdade sexual acordada.
  12. Namoro não exclusivo – Namoro sem exclusividade acordada.
  13. Solo-poliamor – Poliamor com autonomia individual.
  14. Anarquia relacional – Vínculos sem hierarquias predefinidas.
  15. Híbrido – Combinação de diferentes formatos relacionais.
  16. Casual – Envolvimento sem compromisso duradouro.
  17. Amizade colorida – Amizade com envolvimento sexual.
  18. Friends with benefits – Amizade com benefícios sexuais.
  19. Situationship – Vínculo afetivo sem definição.
  20. Relação de conveniência – União mantida por vantagens práticas.
  21. Relação de fachada – União sustentada pelas aparências.
  22. Virtual – Relacionamento vivido principalmente online.
  23. Sugar – Companhia associada a benefícios materiais.
  24. Coparentalidade – Parceria voltada à criação dos filhos.
  25. Contrato relacional – Vínculo baseado em acordos explícitos.
  26. BDSM – Práticas consensuais de poder e prazer.
  27. Espiritual – União baseada em conexão espiritual.
  28. Dependência financeira – Vínculo sustentado por necessidade econômica.
  29. Agamia – Vínculos fora do modelo de casal.
  30. Assexual – Relação sem centralidade do sexo.
  31. Queerplatônica – Vínculo profundo além da amizade convencional.
  32. Apoio mútuo – Relação baseada em cuidado recíproco.
  33. Codependente – Dependência emocional com perda de autonomia.
  34. Tóxico – Vínculo que provoca danos recorrentes.

A lista é longa e provavelmente ainda está incompleta. Sob a expressão “tipos de relacionamento”, a internet reúne formatos de vínculo, circunstâncias de vida, acordos afetivos, práticas sexuais e também maneiras saudáveis ou prejudiciais de se relacionar.

Essa mistura revela, por si só, a complexidade do nosso tempo e mostra que o nome dado a uma relação já não é suficiente para compreendermos como ela se constitui.

Se antes havia um roteiro único, agora existem muitos caminhos possíveis.

A liberdade conquistada foi fundamental. Ela permitiu que as pessoas questionassem papéis impostos, reconhecessem diferentes formas de amar e construíssem vínculos mais compatíveis com aquilo que sentem e desejam.

Entretanto, a liberdade não elimina a necessidade de alguma organização. Talvez a sensação de que hoje “vale tudo” não resulte da diversidade dos relacionamentos, mas da confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade. Um vínculo pode assumir muitas formas, mas todas elas produzem efeitos sobre as pessoas envolvidas.

Quando duas pessoas se vinculam, algo começa a se constituir entre elas. Formam-se maneiras de se aproximar e de se afastar, ritmos de convivência, expectativas, limites, silêncios, acordos explícitos e acordos que jamais foram pronunciados.

Pouco a pouco, cada relação adquire um modo próprio de existir, que não pertence inteiramente a uma pessoa nem à outra, mas àquilo que ambas produzem no encontro.

Essa organização não é definida pelo nome dado ao relacionamento. Todo vínculo, tradicional ou não, organiza-se de alguma maneira. A diferença não está entre relações organizadas e desorganizadas, mas nas formas de organização que elas assumem e nos efeitos que produzem sobre as pessoas envolvidas.

Um casamento pode organizar-se de maneira rígida, assimétrica ou dolorosa, enquanto um vínculo que não corresponde aos modelos tradicionais pode organizar-se com clareza, reciprocidade e cuidado.

O desafio contemporâneo talvez seja justamente este: não retornar à rigidez do passado, mas compreender que relações flexíveis não precisam ser relações sem forma.

Sou do tempo em que a forma vinha antes do encontro. Hoje, é o encontro que precisa descobrir a sua forma.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentimento de paciência

Por Beatriz Breves

Si creo en mi plan, no habrá por que estar de otra manera

Foto: Ed Visoso Flickr

A paciência é um sentimento geralmente atribuído aos sábios, às pessoas amadurecidas e experientes. Normalmente, o jovem não tem muita paciência. A juventude tende a ser mais impaciente. Vamos adquirindo paciência com o tempo e com as experiências da vida — com suas exceções, naturalmente.

A paciência é um sentimento capaz de acolher e favorecer o estabelecimento de relações marcadas pelo aconchego. Ela agrega outros sentimentos e atitudes, como a tolerância, a perseverança, a confiança e a resignação. Talvez seja por isso que, algumas vezes, dizemos:

— Nossa, fulano tem uma santa paciência!

É a maneira de reconhecer que aquela pessoa consegue administrar determinada situação de um modo que poucos conseguiriam.

Também podemos falar na arte da paciência. Ela se revela na forma como a pessoa lida com a vida: na capacidade de administrar as situações, perceber o tempo certo, saber esperar quando é preciso e avançar quando chega o momento. Conduzir a vida com paciência, calma e tranquilidade é uma arte — e também um aprendizado.

No mundo de hoje, vivemos uma situação muito interessante. A velocidade das informações e das comunicações pela internet exige de nós muita paciência, principalmente das gerações mais antigas.

Se não respondemos imediatamente a uma mensagem, se levamos um pouco mais de tempo, a pessoa do outro lado já começa a ficar impaciente. Eu diria que um minuto, hoje, equivale a um dia ou até a uma semana de antigamente.

Sou do tempo em que telefonávamos para a casa de alguém. A pessoa que atendia anotava o recado e, somente quando o destinatário chegava em casa, tomava conhecimento de que alguém havia ligado. Só então retornava a ligação.

Depois veio a secretária eletrônica — que, provavelmente, muita gente mais jovem nem chegou a conhecer. Hoje, temos o WhatsApp, e tudo se tornou imediato.

A paciência também precisou mudar o seu ritmo, o seu timing. Para as gerações mais antigas, é preciso muita paciência para acompanhar o mundo moderno, pois os jovens já nascem inseridos nele.

Por isso, faço um trocadilho: santa paciência para lidar com tantas transformações, reaprendizados e mudanças de ritmo!

Só mesmo com a arte da paciência.

E, ainda assim, haja paciência!

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentir e o sentido

Por Beatriz Breves

Foto de Khoa Võ no Pexels

De onde viemos? Para onde vamos? Existe vida além da morte? A morte é o fim? O universo possui um propósito? Existe um sentido para a existência?

Essas perguntas acompanham a humanidade desde seus primórdios. Filósofos, cientistas, religiosos, poetas e pessoas comuns, em diferentes épocas e culturas, buscaram respostas para os grandes mistérios da vida. Talvez porque, em algum momento, todos nós nos deparamos com a mesma inquietação: qual é o sentido de existir?

A busca por respostas costuma acontecer por meio do pensamento. Refletimos, formulamos teorias, construímos explicações e criamos narrativas capazes de dar significado à experiência humana. Entretanto, por mais importantes que sejam, as respostas intelectuais parecem nunca encerrar completamente a questão.

Talvez isso aconteça porque o sentido da vida não seja somente algo a ser pensado, mas, quem sabe, também algo a ser vivido.

Existe uma dimensão da existência que antecede as palavras, os conceitos e as explicações. É a dimensão do sentir.

O sentir atravessa os tempos, as culturas, as crenças e as diferenças entre os povos. Sabemos reconhecer o amor, a tristeza, a alegria, o medo, a esperança ou a saudade em relatos escritos há séculos, mesmo quando pertencem a sociedades muito diferentes da nossa. Os conceitos mudam. As teorias mudam. As formas de interpretar o mundo mudam. Mas o sentir permanece como uma das experiências mais universais da condição humana.

Se nos sentimos em paz, o mundo parece mais acolhedor. Se estamos tomados pela angústia, tudo ao redor pode parecer ameaçador. Quando amamos, a vida ganha cores diferentes. Quando sofremos uma perda, o próprio tempo parece modificar seu ritmo.

Isso acontece porque não vivemos somente em um mundo de fatos. Vivemos em um mundo de experiências.

É o amor que sentimos por alguém, a ternura por um animal, a amizade compartilhada, a alegria de um encontro, a dor de uma despedida ou a esperança diante do futuro que vão tecendo o sentido singular de cada existência.

Por isso, talvez não exista um único sentido da vida válido para todos. Existem sentidos que emergem da forma como cada pessoa vive, sente e se relaciona com o mundo.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, o sentido não é algo que encontramos pronto, escondido em algum lugar do universo. Ele nasce da própria experiência de existir, da condição de estar vivo. Surge dos vínculos que construímos, das escolhas que fazemos, dos desafios que enfrentamos e da maneira como somos afetados pela vida.

Os sentimentos funcionam como uma espécie de bússola existencial. Eles não apenas revelam o que é importante para nós; também orientam nossa relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Talvez o sentido da vida não seja uma resposta definitiva para uma pergunta eterna, mas o próprio movimento de sentir, viver, transformar-se — enfim, de estar vivo.

E talvez seja justamente por meio do sentir que cada um de nós possa experimentar algo maior: a percepção de que não estamos separados da vida, mas somos uma de suas expressões singulares, uma forma única pela qual o universo se torna experiência de si mesmo.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

“Sinto Muito!”: puxe a cadeira e sente-se com Nina Ferreira

Sinto Muito, livro de Nina Ferreira

Nina Ferreira se expõe nas páginas deste blog. Mensalmente passa por aqui, planta uma semente, oferece uma dose de conhecimento e nos ajuda a nos reconhecermos. Em seus textos, ela nos convida a pensar a vida. Não a dos outros. A nossa. Essa que temos de encarar assim que levantamos da cama — ou, para falar a verdade, quando ainda estamos nela e, às vezes, de onde não queremos jamais sair. A vida que acontece na realidade, como ela escreveu em um dos artigos publicados aqui desde junho de 2023. 

Leia os textos da Dra. Nina Ferreira publicados no Blog do Mílton Jung

Feitos seus ensaios, Dra. Nina entendeu que precisava ir além. E lançou ‘Sinto Muito’ (Ed Labrador), livro no qual conta a história de nove sentimentos: tristeza, medo, raiva, vergonha, mágoa, culpa, vaidade, inveja e preconceito. Para isso, arrisca-se no terreno da ficção. Transforma-os em personagens. Os batiza com nomes próprios e cria narrativas que os tornam gente como a gente. Assim como nós, enfrentam dilemas no trabalho, na família e no casamento. Têm de encarar suas dúvidas e encontrar coragem para seguir em frente. 

À medida que avançamos pelos capítulos, deparamo-nos com um espelho no qual surge nossa imagem e semelhança. Nina também está naqueles personagens e sofrimentos. Ao narrar o que o outro sente, a médica revela algo de si mesma. E permanece ao nosso lado durante a leitura, oferecendo caminhos, nos orientando, a partir do conhecimento acumulado em mais de 16 anos dedicados à saúde mental e da experiência construída na medicina e na psicoterapia.

Médica psiquiatra, Nina trabalhou em diferentes ambientes da saúde mental, de plantões de emergência e internações psiquiátricas ao atendimento em CAPS e consultório. Sua formação ajuda a explicar uma característica que aparece no livro.  Ela própria reconhece que carrega, de um lado, a estruturação lógica e pragmática vinda da formação médica, e, de outro, uma atuação terapêutica centrada na emoção e nos sentimentos. “Sinto Muito!” surge desse encontro. Há método na organização dos capítulos e sensibilidade na maneira de contar histórias. E há uma preocupação de teronar o conhecimento acessível.

Li “Sinto muito!” antes de o livro estar impresso. Nina me deu a oportunidade de escrever o prefácio. Uma tarefa arriscada, que requer sensibilidade. Prefaciar um livro é se intrometer na relação entre o autor e seus leitores. Dá medo, vergonha, um pouco de culpa pelo estrago que podemos cometer involuntariamente. É preciso cuidar para que a vaidade e a inveja não se expressem na tentativa de ser mais importante que o autor e sua obra. Para evitar que esses sentimentos intereferissem na minha tarefa, aceitei o convite e ocupei a cadeira vazia que aguarda cada leitor na mesa em que os personagens do livro se encontram no capítulo final.

Aproveite esta oportunidade que a Dra Nina nos oferece. Puxe a cadeira, sente-se com a gente e leia “Sinto Muito!” (Editora Labrador) que está em pré-venda na Amazon.

Sentimento de pai

Por Beatriz Breves

Imagem de um pai com o filho recém-nascido deitado sobre seu peito

O sentimento de pai não percorre a estrada da genética, mas a autoestrada do coração.

Uma rodovia que, em simultâneo à sinalização das leis, emana o bálsamo do amor incondicional, transformando o vínculo em presença, cuidado e proteção.

Desde os primeiros quilômetros dessa jornada, revela-se uma das mais belas magias da vida: aquela que faz coexistirem o pai humano com suas limitações e o pai herói, visto pelos olhos do(a) filho(a).

Coexistência que serve de alicerce para a estrutura da personalidade e para a construção dos valores pessoais, nutrindo sentimentos que fortalecem o ser humano: confiança, coragem, segurança e esperança.

PAI, uma palavra de apenas três letras que, com simplicidade e beleza, abriga em si mesma o verdadeiro significado do sentimento de pai — Proteção, Amor e Inspiração.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Enxergando a pessoa


Por Beatriz Breves

Foto de Anna Shvets

Ao longo da história, o sofrimento humano, inclusive aquele que se manifesta por meio das doenças, foi explicado de maneiras muito diferentes. Ora era atribuído a castigos divinos, à influência de espíritos ou ao desequilíbrio dos humores corporais; ora, a defeitos biológicos ou a alterações psicológicas.

Cada época desenvolveu suas próprias formas de compreender o sofrimento. Existe, porém, algo particularmente significativo nesse percurso: toda concepção de doença reflete uma concepção de ser humano.

Quando predominava a crença de que o mundo era governado por forças sobrenaturais, as doenças eram atribuídas à ação dos deuses ou dos espíritos.

Na Grécia Antiga, ocorreu uma mudança importante. Filósofos e médicos passaram a buscar explicações naturais para as doenças. A própria histeria, por exemplo, era compreendida como decorrente de alterações relacionadas ao útero, que se acreditava deslocar-se pelo corpo feminino e provocar diversos sofrimentos. Embora hoje essa explicação nos pareça estranha, ela revela como cada época procura interpretar o sofrimento humano a partir dos conhecimentos e das concepções de que dispõe.

Hipócrates, considerado o pai da medicina, procurou compreender o adoecimento como resultado de desequilíbrios próprios da natureza humana, inaugurando uma forma de pensar que influenciaria a medicina por séculos.

Quando a ciência moderna passou a compreender a natureza como uma máquina, o corpo humano também passou a ser visto dessa forma: uma máquina composta por peças que poderiam falhar. Essa visão trouxe avanços extraordinários para a medicina. Entretanto, ao separar corpo e mente, também contribuiu para uma compreensão fragmentada do ser humano.

Durante muito tempo, a doença física foi tratada como um problema do corpo, e o sofrimento psíquico, como um problema da mente, como se fossem duas realidades distintas que apenas ocasionalmente se influenciassem. Hoje, porém, essa separação mostra-se cada vez mais insuficiente.

Quando uma pessoa enfrenta uma grande perda, uma situação de estresse intenso ou um sofrimento prolongado, não é apenas sua mente que é afetada. Seu corpo também responde. Da mesma forma, uma doença física importante modifica aquilo que a pessoa sente, seus pensamentos, suas relações e a maneira como percebe a própria vida.

A questão mais importante talvez não seja descobrir se a doença começou no corpo ou na mente, mas reconhecer que estamos falando da mesma pessoa.

É a partir dessa compreensão integrada do ser humano que se desenvolve a Ciência do Sentir: uma perspectiva que procura compreender a experiência humana sem separar aquilo que, na vida vivida, se manifesta de maneira indissociável.

Sob essa perspectiva, o ser humano não é um corpo que possui uma mente, nem uma mente que habita um corpo. É uma unidade de experiência. Aquilo que chamamos de físico e aquilo que chamamos de psíquico são formas diferentes pelas quais a vida se manifesta.

Isso não significa negar a importância da medicina, da biologia ou da psicologia. Significa reconhecer que nenhuma dessas áreas, isoladamente, consegue dar conta de toda a complexidade do viver humano.

O maior desafio da atualidade talvez não seja escolher entre corpo e mente, nem apenas conhecer cada vez mais as partes que compõem o ser humano. O desafio é recuperar a capacidade de enxergar a pessoa em sua totalidade.

Exames revelam órgãos. Diagnósticos descrevem doenças. Tratamentos combatem sintomas. Tudo isso é necessário e fundamental.

Mas quem sofre, quem espera, quem teme, quem luta e quem sonha é sempre um ser humano.

Por trás de cada diagnóstico existe uma história, uma forma singular de sentir, de amar, de sofrer e de existir. E talvez seja justamente aí que resida o maior desafio: cuidar sem perder de vista a pessoa.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Sentimento de aceitação

Por Beatriz Breves

Stupid photo
Foto: Conan no Flickr

O sentimento de aceitação funciona como um fertilizante que se mistura à irrigação dos demais sentimentos. E não importa se são considerados prazerosos ou não, como o amor e o carinho ou o ódio e a inveja. Sentir aceitação é necessário para um sentimento poder germinar e se desenvolver, caso contrário, nenhum deles encontraria terreno emocional fértil para crescer.

Assim, quando um sentimento permanece ecoando na gente, sempre é interessante pensar qual o sentimento que está sendo irrigado com o de aceitação. Até porque, dependendo dos sentimentos que estiverem investidos com aceitação, seja em dupla, trio, etc., essa reflexão poderá servir de grande ajuda tanto na amplificação daqueles que estão nos dando bons frutos, quanto na transformação daqueles que estão nos dando maus frutos.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad