Temos o direito à tristeza

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Bruno Bueno no Pexels

A pandemia não é mais uma condição recente, no entanto, a impressão que temos é que a cada semana os fatos se renovam, infelizmente, sem trazer alívio ou contento. Atitudes desgovernadas, baixa adesão da população aos meios de distanciamento social, números que selam um momento muito doloroso. Diante desse cenário, torna-se difícil, por mais otimistas e esperançosos que sejamos, conseguirmos manter as emoções sempre positivas.Mas deveria ser assim?

Num mundo que se acostumou a buscar soluções imediatas e simplistas para lidar com as dificuldades da vida e a estampar nas diversas fotos que alimentam as redes sociais um excesso de felicidade, sentir tristeza, raiva ou solidão parecem ultrajantes.

Robert Leahy, um dos maiores estudiosos em Terapia Cognitiva, alerta para a busca pelo perfeccionismo emocional. Para o autor, há uma crença – errônea – de que as emoções devem ser boas, felizes e descomplicadas. Isso nos torna incapazes de tolerar a tristeza, a frustração e outros sentimentos desagradáveis, desconsiderando que justamente esse leque de emoções é que nos permitiu a adaptação aos riscos e às demandas da vida em um mundo repleto de escassez e perigo, como aquele vivenciado por nossos ancestrais pré-históricos.

O distanciamento das emoções dolorosas se assemelha a uma ingenuidade emocional, capacitando a negação da realidade, e restringindo, portanto, nossas decisões voltadas para a solução dos problemas atuais de maneira realista e produtiva.

Essa supressão dos sentimentos e a cobrança por atitudes constantemente positivas têm sido apontadas como “positividade tóxica”, termo cunhado a fim de nos alertar sobre os riscos da invalidação de sentimentos, próprios ou de terceiros, através de frases como: “good vibes only” (em tradução literal, boas vibrações apenas). 

Na contramão do benefício, atitudes como essa, em geral, aumentam a percepção de inadequação, gerando culpa e vergonha pelos sentimentos experimentados.

Não falo sobre cultivar os sentimentos que são desagradáveis, mas sobre vivenciá-los integralmente, compreendendo que fazem parte da existência humana. 

Nada dura para sempre. Nem as situações nem as emoções. Que saibamos viver nossas dores, com respeito e compaixão, e que isso nos permita o crescimento e a construção de dias melhores, para que também possamos vivenciar plenamente  os momentos de gratidão e de felicidade.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Louco pra correr pro abraço!

 

Por Christian Müller Jung

 

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Fui instigado a escrever algumas linhas pelo meu irmão Mílton. Não tenho o hábito de escrever quando estou em casa, normalmente arrumo tempo no trabalho na espera entre uma agenda e outra. A questão é que neste momento precisamos ficar em casa!

 

Gosto de estar por aqui, porém a determinação de não sair parece criar uma áurea nebulosa que não me permite relaxar. Faço o de sempre. Atividades que normalmente fazemos quando moramos em uma casa: retoco a pintura, lixo alguma parede, conserto o degrau da escada, rejunto o piso de basalto do pátio … pequenos ajustes para preencher o tempo, ocupar a cabeça e disfarçar o peso das informações.

 

Cada toque de mensagem no celular nesses dias tem sido um novo susto, que vem acompanhado de mais uma medida do Governo; mais um áudio de um médico qualquer que jamais ouvimos falar, mas que fala pelos cotovelos; mais um vídeo com o Marcos Mion e aquele visual de quem brigou com o barbeiro.

 

Claro que o problema não é visual, mas o conteúdo do vídeo: um alerta catastrófico do que poderemos vivenciar em alguns dias se as medidas que estão sendo tomadas não forem observadas com seriedade pela população. Como se diz aqui no sul: “me caiu os butiá do bolso“!

 

Lembro sempre como seria bom se tivesse mantido a terapia. A gente fraqueja. Mas como tudo na vida sempre tem o lado bom.

 

Nunca achei que a falta de uma abraço fosse tão significante. Sinto falta de tudo, de tudo aquilo que até poucos dias estava ao meu alcance e eu passava sem dar muita atenção: o passeio das pessoas, as bicicletas se enfileirando entre os carros e os malabaristas nos semáforos. Aliás, como será que tá essa gente que vive sempre nessa corda banda da vida!

 

Do meu pátio, consigo enxergar toda a metade do prédio que construíram faz pouco tempo aqui na frente de casa. São apartamentos bonitos e bem caros, diferentes da realidade da minha rua quando fui apresentado a ela, há 52 anos. Quase não tenho mais os vizinhos de antigamente uns entregaram os terrenos em troca de uma boa oferta em dinheiro, outros entregaram os pontos e já partiram desta para uma melhor. E lá do pátio, tentando me distrair com rejunte do piso, olho pra cima, vejo alguém na janela ou na sacada e sinto uma baita vontade de gritar.

 

Um grito de afeto que fica engasgado. Não sei o que essa gente que não me conhece iria pensar, mas independentemente da minha angústia ou loucura, tenho me sentido pronto para vivenciar cada detalhe, cada pequena criatura que queira tão somente dividir o espaço nesse planeta, só pelo simples fato de estar viva.

 

E lá vai mais uma dupla de sabiás tomar banho no prato d’água da minha Golden Retriever. Ela não se importa. Sem sequer dar um latido, divide o pote que muitas vezes fica seco pela bagunça que os pássaros fazem. Talvez saiba lidar melhor com essas coisas para as quais deveríamos dar mais atenção sem que tivéssemos que ficar enclausurados para reconhecer: o poder das pequenas coisas do dia a dia.

 

Dizem que a gente aprende no amor ou na dor. A vida tem disso. Nos apronta algumas para nos ensinar o valor de algo tão simples como o direito de sair à rua só para ver alguém sorrindo!

 

Não vejo a hora de correr para o abraço!

 

Christian Müller Jung é publicitário, mestre de cerimônia e meu irmão

De descuido

 

Por Maria Lucia Solla

 

Solla

 

dorme sentinela
atentada
ignora meu desatino
me larga me solta
me esquece
malvada

 

faz ouvido de mercador
ao meu grito
deixa pra lá meu jeito aflito
shhhhhh
quieta
fecha os olhos e dorme

 

me deixa perdida
liberta
ferida
aberta

 

deixa que o sangue jorre
na carne
na essência
que a dor aumente
que ensurdeça o mundo
num grito indecente

 

escancara meu peito
deixa livre a loucura
do meu sentimento
que já nem sei
honestamente
se sou eu que sinto
ele
ou se é ele que sente
eu

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Como a minha avó

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Não canso de me encantar com a magia da vida. A todo instante, a cada sensação, experiência, presença, ausência, a cada tudo e a cada nada. Encantamento. Impossível convencer alguém de que vida é magia, ou de qualquer outra coisa. Convencimento é coisa íntima, que se faz a sós, cada um a seu modo. E que sempre é diferente. Novidade. Nova idade interior. É um movimento surpreendente, que alinha fatos, organiza dados e, plim, acontece. Imagino uma vitamina de vivências levadas ao processador interno, acionado pela coragem e perfeitamente ajustado ao nosso mecanismo perfeito, que clica quando é hora e pronto.

 

Convencimento pede flexibilidade e é flexível. Mostra-se quando os ponteiros se abraçam, quando a busca frenética faz uma pausa para o devido descanso. O ócio criativo, talvez. Então um dia assim de repente, ao anoitecer, ou ao amanhecer, acionado por um abraço, uma despedida amorosa, um sonho, um acidente, uma canção, ou por qualquer coisa vinda de qualquer lugar, a ficha cai. E a gente vai em frente meio bamba no início, mas maravilhada ao longo do caminho. É como andar de bicicleta.

 

Aqui, neste idílio com o Mar, meus processos internos clicam com maior frequência e intensidade. O mar clama e declama para mim. Eu ouço. Ouço tudo mais claramente: as cores das palavras, do silêncio, do quebrar das ondas nas pedras, do espreguiçar da Valentina. Percebo o pulsar da vida, ora aqui, ora ali. Nas minhas preces peço coragem para continuar mudando, conquistando e me desapegando. Para aproveitar mais uma entre tantas oportunidades que a vida me oferece de recomeçar todo dia com alegria, gratidão, gratidão, gratidão e muita garra.

 

Como acredito que o pensamento pode ser amigo ou inimigo, tenho exercitado a escolha de cada um, como fazia a minha avó Grazia com os grãos de feijão.

 

E você, como sente a vida?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De bem com a TPM

 

FRISO VERMELHO

 

Por Abigail Costa

TPM, uma companheira de décadas.
Chegou assim, CHEGANDO, nem pediu licença, entrou e ficou.
Por diversas vezes tentei deixá-la de fora da minha vida, mas se tem alguém fiel a mim, é a bendita.

No começo me desesperava.
Meu Deus, até ontem estava tudo bem! Agora estou me sentindo péssima.

E a coitada da mamãe que mesmo fazendo “de um tudo” pra me agradar, nada estava bom. Sem falar da sensação de vítima, coitada, rejeitada e INCHADA de fato!

Resumi o que se pode escrever sobre ela. Tem tantos outras impublicáveis.

Se o conselho é “procure um médico”, “terapias complementares”, “blá-blá-blá…” já procurei, já tomei, já fiz.

Com o passar do tempo resolvi tirar proveito, sim, até o ruim, se espremer do lado certo, vinga. Sei quando minha amiga-mensal está se aproximando. Primeiro aviso aos mais chegados. Segundo não sou, estou me sentindo coitada. Agora vem a parte melhor. Faço uso dela, LITERALMENTE.

O que poderia passar por mais um incomodozinho, resolvo, falo, deixo bem claro.
Interessante é a vontade de botar pra fora o que me incomoda, sem medo….
O que antes poderia ser um “isso nem vale a pena retrucar”, com a minha fiel escudeira vale.

É mais que um anti-qualquer-coisa que sara a gente.
É seguro, é legitímo.
É uma coragem que você não sabe de onde vem.
Às vezes o som da própria voz surpreende.

Como me sinto depois?
De alma lavada.
Sem pedido de desculpas, pra mim é claro.

Em tempo: já me despedi da minha… mês que vem tem mais.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung, ao menos uma vez por mês sob o efeito da TPM.

Terminar o dia em paz

 

Abigail Costa

Um dos prazeres em ser jornalista é conhecer gente. Todo o dia tem uma pessoa nova. A semana toda ouvindo histórias de encher os olhos de otimismo, outras que são a cara da dor de tanta amargura.

– Oi, prazer, como vai?

– Eu? indo né filha, a vida você sabe…

Começou por aí já sei que é melhor nem esticar a conversa. Dispenso o cafezinho e vamos direto ao assunto. É o tempo de ligar o microfone, duas ou três perguntas e fui.

Se já sei que não vou gostar do enredo pra que aceitar a dança?

Estou em fase de seleção. Quem oferece otimismo pra esse lado. Pessimismo, senhor? Lá atrás da fila, por favor.

Sabe que tem funcionado. A volta pra casa é mais leve. Isso acaba atraindo outros na mesma sintonia.

Tive o prazer de conhecer pais, mães, irmãos dos Mamonas Assassinas. Treze anos depois do acidente áereo, os filhos deixaram saudade, claro! Tristeza não.

Em nenhum momento ouvi:

Por quê? Justo com eles?

A lembrança é amorosa e você se pega quase que “enrolando” para o assunto render mais.

De volta pra casa penso que eles apesar do sofrimento pela perda, não se alimentaram do problema, não ficaram doentes.

Bom demais terminar o dia em paz.

Aprendizado que satisfaz a alma da gente.


Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung quando está em paz.