O sentimento de perda

Por Beatriz Breves

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O sentimento de perda pode ser compreendido por muitos ângulos, pois se estende por um amplo espectro de experiências humanas. Entretanto, quando descemos às suas profundezas, encontramos uma dor muito particular: a perda nos lembra, de forma quase brutal, que não somos donos de nada. Ela escancara nossa condição transitória na vida. Hoje acreditamos possuir algo — uma pessoa, um trabalho, um sonho, uma posição social ou até mesmo uma rotina — e, por vezes, muito rapidamente, tudo isso se desfaz.

Existem muitos tipos de perda. A mais evidente é a perda de alguém querido. Mas também podemos perder um emprego, um relacionamento, a dignidade, um projeto de vida, uma condição física ou o afeto de alguém que deixa de nos amar. Cada uma dessas situações costuma despertar outros sentimentos: tristeza, desespero, carência, solidão, insegurança ou luto. O sentimento de perda nunca vem sozinho. Ele agrega um conjunto de sentimentos que pode conduzir tanto ao crescimento pessoal quanto ao sofrimento profundo, dependendo da forma como a pessoa consegue elaborá-lo.

Contudo, é importante diferenciar o fato da perda do sentimento de perda. Nem toda perda produz sofrimento. O que realmente importa não é aquilo que foi perdido em si, mas o valor que a pessoa atribuía ao que perdeu. Muitas vezes, acredita-se que a questão central está no acontecimento objetivo. Não está. O elemento decisivo é o investimento afetivo realizado naquilo que se perdeu.

Um exemplo simples ajuda a compreender essa diferença. Uma pessoa obesa, ao perder peso, dificilmente experimentará tristeza por essa perda. Ao contrário, poderá sentir alegria, esperança, satisfação ou alívio. Nesse caso, houve uma perda concreta, mas não um sentimento de perda. Isso mostra que o sofrimento não decorre automaticamente do desaparecimento de algo, mas do significado que esse algo possuía para quem o perdeu.

Essa distinção revela um aspecto fundamental no campo dos sentimentos: acontecimentos não são sentimentos. Perder é um fato; sentir a perda é uma experiência subjetiva. Muitas vezes, as pessoas confundem o acontecimento com o sentimento correspondente, como se um determinasse, necessariamente, o outro. Não determina. O que produz o sentimento não é o fato em si, mas o significado que lhe é atribuído. É por isso que uma mesma situação pode gerar tristeza em uma pessoa, alívio em outra e até alegria em uma terceira. O acontecimento pertence à realidade objetiva; o sentimento pertence à forma como cada pessoa experiencia essa realidade.

Há também perdas que surpreendem. Uma pessoa pode ganhar na loteria e, algum tempo depois, sentir saudade da vida que levava antes. Pode mudar de carreira em busca de realização pessoal e, mais tarde, perceber que sente falta da antiga rotina, dos colegas ou da identidade construída ao longo dos anos. Em certas situações, aquilo que parecia representar um ganho traz consigo a sensação de que uma parte de si ficou para trás.

Entre todas as formas de perda, uma das mais dolorosas talvez seja a perda do tempo. O sofrimento surge quando a pessoa olha para trás e percebe que não realizou aquilo que desejava ou acreditava poder realizar, sentindo que as oportunidades passaram e não retornarão. Trata-se de uma dor profunda, difícil de elaborar, porque está associada à própria percepção da finitude da existência.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como lidar com a perda?

A resposta, embora pareça simples, é uma das tarefas mais difíceis de realizar: aceitar. Aceitar que nada nos pertence definitivamente, que tudo é transitório, que a vida é constituída por um movimento contínuo de encontros e despedidas, de conquistas e renúncias, de ganhos e perdas.

Esse processo de aceitação exige recursos internos importantes. Fé, esperança, confiança, paciência e capacidade de suportar a dor fazem parte do caminho. Não existe uma fórmula universal. Cada pessoa encontrará sua própria maneira de atravessar aquilo que perdeu e de reconstruir sua relação com a vida.

Mas a perda também pode se tornar um ponto de transformação. Quando a pessoa possui recursos internos para enfrentar o sofrimento, ela não fica aprisionada na revolta, na vingança ou no vazio da desesperança. Aos poucos, consegue transformar a experiência em aprendizado. Aquilo que inicialmente parecia apenas destruição pode revelar-se uma oportunidade de crescimento, amadurecimento e renovação.

Talvez seja por isso que a vida esteja continuamente nos ensinando que perder e ganhar são movimentos inseparáveis. O tempo todo, algo se encerra enquanto algo novo começa. O tempo todo, deixamos partes de nós para trás e construímos novas formas de ser e existir.

No fim das contas, é a aceitação que nos permite seguir adiante. A vida é feita desse movimento permanente entre perdas e conquistas. E é justamente nesse movimento que aprendemos, pouco a pouco, a viver.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Chatice, um fenômeno humano

Por Beatriz Breves

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A chatice é um daqueles fenômenos humanos que todos reconhecem imediatamente, mas poucos conseguem definir com precisão. Dependendo da situação, ela pode manifestar-se tanto como uma característica percebida em alguém quanto como uma experiência vivida por nós mesmos. Talvez seja justamente essa dupla natureza que a torne tão interessante.

Uma das formas mais comuns de experimentá-la ocorre quando a chatice se instala na própria vida. A rotina, a repetição e a sensação de que nada muda podem produzir uma experiência emocional marcada pela monotonia, pelo cansaço e pela estagnação.

Nessas circunstâncias, a chatice configura-se como um fenômeno complexo. Não se trata de um sentimento único, mas de uma experiência constituída por diferentes sentimentos, entre eles o tédio, o desânimo, a falta de interesse e a perda de vitalidade. É como se a vida perdesse movimento e ficássemos aprisionados em um ciclo que não se transforma.

A chatice também pode surgir na relação com o outro — aquela pessoa cuja presença desperta, quase instantaneamente, um suspiro interno. Afinal, o que torna alguém chato?

Não existe uma fórmula exata. Ainda assim, dois aspectos costumam estar presentes: a dificuldade de perceber o impacto que se causa nos outros e de estabelecer uma verdadeira conexão afetiva.

A pessoa considerada chata costuma não perceber os sinais da relação. Conta piadas sem notar se alguém riu, repete histórias já conhecidas, insiste nos mesmos assuntos, corrige excessivamente, critica, vigia ou fala longamente sem considerar o interesse de quem a escuta. De certo modo, sua atenção permanece concentrada em si mesma, enquanto o outro vai desaparecendo da cena relacional.

Curiosamente, muitos desses “chatos profissionais” são pessoas gentis, educadas e até afetuosas. Talvez por isso seja tão difícil lidar com eles. Frequentemente sentimos desconforto sem conseguir explicar exatamente a origem desse incômodo.

Entretanto, há ainda uma terceira forma de experimentar esse fenômeno: quando nós mesmos nos tornamos chatos.

Sim, isso acontece com todos nós.

Há momentos em que estamos mais irritados, repetitivos, impacientes ou excessivamente centrados em nossas próprias preocupações. Isso não nos transforma automaticamente em pessoas chatas. O problema surge quando esse modo de funcionamento se torna predominante e persistente, fazendo com que nossa presença seja frequentemente vivida pelos outros como cansativa ou desgastante. Mas como perceber isso?

O primeiro passo é preservar o senso crítico. A simples capacidade de perguntar “Será que estou sendo chato?” já demonstra uma abertura importante para o outro. Observar as reações das pessoas também ajuda. Desinteresse, desconexão, respostas breves ou impaciência podem sinalizar que estamos insistindo em algo que perdeu significado na relação.

Sem dúvida, o antídoto para essa condição é a conexão afetiva. Quando existe troca genuína, curiosidade pelo outro e envolvimento emocional, a conversa ganha vida. O que torna uma interação interessante não é necessariamente o tema abordado, mas a qualidade da presença compartilhada.

Sob essa perspectiva, a chatice talvez possa ser compreendida como uma perda de movimento do sentir. Quando a experiência deixa de circular, quando a curiosidade desaparece e a relação se torna excessivamente repetitiva, surge a sensação de enfado que reconhecemos como chatice.

Entretanto, por mais incômoda que seja, ela possui uma função importante: funciona como um sinal de alerta. Quando a vida perde o brilho, quando nos tornamos excessivamente repetitivos ou quando as relações parecem esvaziadas de vitalidade, algo está nos dizendo que chegou o momento de renovar, transformar ou criar novas possibilidades.

Nesse sentido, a chatice não é apenas um problema. É também um convite ao movimento.

Pode ser a vida que pede renovação. Pode ser uma relação que precisa de novos caminhos. Pode ser a necessidade de voltar a sentir aquilo que se tornou automático.

Quando escutada, a chatice deixa de ser apenas um incômodo e passa a indicar onde a vida está pedindo transformação.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O sentimento de vitimismo

Por Beatriz Breves

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O vitimismo funciona como um abrigo cujas portas e janelas não se abrem para fora, onde a pessoa se esconde de si mesma.

Nesse abrigo, os mantos são vestes pesadas e densas, cujas estampas carregam as cores da injustiça, como se cada tonalidade fosse sobreposta para ocultar as falhas que não se ousa encarar.

Senso de responsabilidade de quem se sente vítima? Esse escorre por entre os dedos. Sem falar que os próprios erros também permanecem em gavetas trancadas a sete chaves.

Na parede, há um quadro em aquarela cuja pintura insiste em mostrar uma dor e um sofrimento sempre mais profundos do que os dos outros.

Em seu idioma particular, sustenta a narrativa de sempre diminuir o outro.  Não por maldade declarada, mas por uma necessidade silenciosa de parecer maior do que acredita poder ser.

Hábil em construir histórias tão bem contadas e tão bem sentidas, por vezes enganam até a própria autora, que, com uma convicção quase teatral, atrai afagos na tentativa de alimentar um vazio que nunca se sacia.

É um sentimento que nasce da insegurança, mas cresce regado por pequenas doses de arrogância. Por vezes, no calor do sofrimento, refresca-se à sombra da inveja; por outras, no frio da solidão, aquece-se no fogo da raiva.

De fato, o vitimismo impõe um grande sofrimento. Uma dor que só pode ser transformada quando, cansada de repetir o mesmo enredo, a pessoa encontra coragem para se olhar sem autopiedade.

E seria nesse instante — frágil, raro e luminoso — que o vitimismo começa a perder força, oferecendo, enfim, uma possibilidade de mudança, para que a pessoa encontre espaço para se assumir e, assim, ser com as qualidades e os defeitos próprios de um ser humano.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

6 ou 9, uma questão de perspectiva

Por Beatriz Breves

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Muitas vezes, a polarização entre duas ou mais pessoas se torna inegável. É comum que cada lado tente convencer o outro de que detém a verdadeira versão dos fatos. Nesse movimento, amizades antigas se rompem, famílias se desentendem, casais se afastam; enfim, pessoas queridas se perdem ao longo da busca pela suposta “verdade”.

A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam até provocar um verdadeiro curto-circuito nas relações.

Costumo dizer que, quando estamos falando de pessoas de boa índole, a opinião em si importa muito menos do que parece. Na maioria das vezes, tratando-se do mesmo assunto, o que muda não é a essência da ideia, mas o ângulo a partir do qual cada um enxerga a situação.

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, se estiverem frente a frente, cada uma com o número voltado para si, verão coisas diferentes: para uma, trata-se de um 6; para a outra, de um 9. Embora estejam diante do mesmo símbolo, encontram-se, ao mesmo tempo, diante de dois números distintos. Ambas acreditam estar certas e, sob a perspectiva em que se posicionam, realmente estão. Assim, duas pessoas podem contemplar o mesmo ideal e, ainda assim, interpretá-lo de maneiras completamente diferentes.

A polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o rumo dos próprios ideais e, portanto, de si mesmo. Soma-se a isso a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, tornando o caminho para o diálogo mais árduo. Assim, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, ataca; em vez de perguntar, julga.

Há, porém, algo ainda mais curioso nessa metáfora e que muito pode nos ensinar. Quando aproximamos a visão do 6 da visão do 9, contemplamos o número 69. Nesse encontro, não há mais disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementaridade, simbolizando integração, reciprocidade e a possibilidade de duas perspectivas coexistirem. Não se trata de transformar o 6 em 9 ou o 9 em 6. Cada um permanece o que é. Trata-se de reconhecer que ambos podem compor algo maior quando colocados, lado a lado, de forma harmoniosa.

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte a algumas pessoas: a capacidade de transformar o embate em encontro; lembrar que discordar não significa desarmonia; aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho; trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. Quando percebemos que o ideal é comum, mesmo que as ideias sejam divergentes, abrimos espaço para o diálogo, para a convivência e para a construção conjunta.

No fim das contas, entre os números 6 e 9 existe apenas um giro de perspectiva. E, quando esse giro acontece, o que antes separava passa a unir. É nesse movimento que nasce o número 69 — não como consenso, mas como convivência possível e amadurecida.

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos, dotados de grande complexidade, com um mundo interno repleto de sentimentos que, se não forem bem administrados, podem gerar disputas, segregação e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, na verdade, o número é 96. E isso não seria necessariamente destrutivo ou ruim. Pelo contrário: é justamente entre a integração e a divergência que emergem novos caminhos, ampliando horizontes e dando origem a novas ideias.

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias também podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. É essa ética compartilhada que fortalece o ideal comum e as relações.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Os sentimentos de apego e desapego

Beatriz Breves

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O apego tem sua raiz no sentimento de posse, no desejo humano de manter por perto aquilo ou aquele que nos é significativo, manifestando-se como vontade de proximidade, necessidade de presença ou até sensação de posse. Pode ser por pessoas, objetos, memórias, ideias ou até mesmo doenças. O apego tem como essência a tentativa de garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe.

O desapego nasce do sentimento de liberdade, no desejo humano de não se sentir prisioneiro de nada da vida. Mas que não se confunda o desapego com o sentimento de indiferença. De fato, é um sentimento que, tal como o apego, tenta garantir segurança e continuidade, um movimento interno que busca preencher as faltas que a vida por muitas vezes nos impõe, pela via oposta à do apego.

Fato é que, em tese, o sentimento é de que, se o apego nos acorrenta, o desapego nos liberta; se o apego nos torna escravos, o desapego nos restitui a liberdade; se o apego funciona como um preenchimento ilusório, o desapego funciona como uma plenitude igualmente ilusória; se o apego atravanca o coração, o desapego expande o espírito. Em essência, apegar‑se é tentar reter o tempo; desapegar‑se é tentar fluir com ele.

Mas, quando digo “em tese”, digo porque o desapego absoluto também pode se tornar uma forma de encarceramento interior, um recolhimento excessivo em si mesmo. Um certo grau de apego é necessário, por ser ele que funda laços, sustenta relações e alimenta o afeto. Uma criança precisa se vincular aos pais e os pais precisam se vincular aos filhos, e todo vínculo tem uma “pitada” do sentimento de apego. O problema surge quando o apego se transforma em dependência, controle pelo medo da perda. Da mesma maneira, o desapego levado ao extremo esvazia a existência, pois quem não se prende a nada não cria raízes, não se envolve, não se permite sentir.

O amor talvez seja o exemplo mais claro dessa dualidade. Há amores que florescem no desapego, desejando o bem do outro, mesmo que isso signifique seguir caminhos distantes. E há amores que se perdem no excesso de apego, quando a necessidade sufoca o próprio sentimento. Não há receita: cada relação precisa descobrir sua própria medida entre conservar e permitir partir.

O segredo está em reconhecer a transitoriedade da vida. Aceitar que tudo se transforma, que nada é permanente, pode assustar, mas também liberta. Afinal, desapegar é permitir que a vida siga seu fluxo, enquanto se apegar é tentar conter o inevitável. E, entre um e outro, existe o caminho da maturidade emocional: a capacidade de sentir profundamente sem se aprisionar, de amar sem dominar, de viver sem tentar deter o tempo. Difícil? Sim. Mas não impossível. E quem disse que viver seria fácil? Não é, mas, apesar de tudo, é muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Vínculos: o que nos forma, o que nos transforma


Por Beatriz Breves

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Um exemplo indiscutível de que é pelo vínculo que nos constituímos são as conhecidas “crianças selvagens” — aquelas que, por circunstâncias extremas, se relacionaram e, portanto, se vincularam, no início de suas vidas, predominantemente com animais e não com seres humanos. Observa-se que, nesses casos, a criança criada por um cão demonstrou comportar-se como um cão; por lobos, como um lobo; por galinhas, como uma galinha. Assim, cada criança revelou identificação e comportamento conforme o modelo oferecido pelo animal que a acolheu. Em outras palavras, cada uma espelhou sua identidade no vínculo estabelecido durante o seu processo de formação e desenvolvimento, evidenciando o poder que as relações exercem sobre a construção do Eu.

Sem dúvida, esses casos servem como constatação de que os vínculos que construímos ao longo da vida, especialmente os primeiros, são os que oferecem os elementos mais decisivos na constituição de quem somos. São eles que moldam nossas percepções, influenciam nossas escolhas e estruturam o Eu que nos tornamos — ou, mais precisamente, o Eu que sentimos ser.

Não é difícil compreender esse processo, já que é desde a fecundação — ou seja, desde o início dos vínculos — que se pode perceber a trama das relações: com a mãe, com o pai, com irmãos, amigos, colegas, professores, parceiros etc. Alguns vínculos são intensos e transformadores; outros, frágeis e superficiais. Todos, porém, participam, de algum modo, da construção e da evolução da nossa identidade, do nosso Eu.

Dessa forma, desenvolver vínculos e, sobretudo, qualificá-los é fundamental para vivermos com mais saúde, autonomia e bem-estar biopsicossocial. Relações saudáveis funcionam como alicerces que sustentam nosso crescimento, fortalecem a autoestima e ampliam nossa capacidade de enfrentar desafios. Quando cultivamos vínculos de qualidade, abrimos espaço para sentimentos genuínos de pertencimento, amparo e valor pessoal — elementos essenciais para uma vida mais equilibrada e significativa.

A qualidade das relações

Se a relação é a base do vínculo, é a qualidade dessa relação que determina se ele será construtivo ou não. Uma relação pode gerar um vínculo capaz de cuidar, amparar e construir, assim como pode gerar intoxicação, maus-tratos e destruição. Dependendo de como é vivida, a mesma interação que nutre pode ferir; a que acolhe pode sufocar.

Nesse contexto, surgem questões fundamentais: o que leva uma pessoa a desenvolver vínculos saudáveis, aqueles que promovem crescimento? E o que leva alguém a estabelecer vínculos destrutivos, que ferem, sufocam e desgastam? Como transformar padrões relacionais que se repetem ao longo da vida, mesmo quando já não fazem mais sentido?

Essas perguntas revelam a complexidade do universo relacional. Para respondê-las, é preciso reconhecer que os vínculos se formam nos encontros entre, pelo menos, duas pessoas que carregam consigo memórias, expectativas, medos, aprendizados e feridas — uma combinação de experiências alegres e dolorosas de uma história pessoal. A qualidade do vínculo dependerá, em grande medida, do que cada um traz e de como isso se manifesta na relação. Cada encontro é, portanto, um entrelaçamento de mundos internos que podem entrar em conflito ou encontrar harmonia.

Lembro de um amigo que, em uma roda de conversa, recorrendo ao humor, dizia que, para um casal dar certo, era fundamental que as “loucuras” de cada um se encaixassem. Apesar do tom leve, há nisso uma verdade consistente. Relacionamentos saudáveis não exigem perfeição, mas sintonia: a capacidade de reconhecer as singularidades do outro, acolhê-las e construir um ritmo possível entre duas subjetividades que nunca serão idênticas.

Comunicação: o que se diz sem palavras

É justamente nesses emaranhados que a comunicação ganha centralidade — não apenas a comunicação verbal, mas, sobretudo, a não verbal. Grande parte do vínculo se constrói na linguagem silenciosa dos gestos, dos olhares, das pausas. Esses elementos dizem muito no encontro com o outro. É nesse território sutil que se constroem confiança, acolhimento e presença — ou, no sentido oposto, distância, tensão e insegurança.

Quando conseguimos construir vínculos que respeitam nossa singularidade e a do outro, abrimos espaço para relações que nutrem, fortalecem e ampliam quem somos. Talvez seja aí que resida uma das maiores capacidades humanas: a de se transformar por meio do encontro com o outro, fazendo de cada relação uma oportunidade de crescimento e reinvenção.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Você está se desconectando de si mesmo?

Por Beatriz Breves

Foto deVera Emilie A Bomstad on Pexels.com

Vivemos em uma época em que sentir parece ter se tornado secundário. Muitas pessoas cresceram sem aprender a reconhecer seu mundo interno e, por isso, enfrentam ansiedades difíceis de nomear e desejos que nunca chegam a se concretizar. Ao mesmo tempo, o mundo externo oferece estímulos infinitos, enquanto nossas possibilidades reais de realização, limitadas pela própria condição humana, são bem menores. Esse descompasso fragiliza o sentimento de identidade, enfraquecendo o senso de eu.

O avanço acelerado da internet e da inteligência artificial intensificou esse cenário. A hiperconectividade tornou-se parte do cotidiano: trabalhamos, estudamos, nos informamos e nos entretemos por meio de telas. Embora isso amplie o acesso ao conhecimento e facilite a comunicação, também traz desafios profundos.

Fato é que, se, por um lado, estar sempre conectado democratiza informações e estimula novas formas de criatividade, por outro, pode nos afastar de nós mesmos. A mesma tecnologia que potencializa experiências e resolve problemas também favorece a dependência digital, reduz o tempo dedicado à vida off-line, prejudica a concentração e enfraquece as relações presenciais.

É nesse ponto que surge a necessidade urgente de resgatar o sentir: aquilo que vivenciamos internamente diante de cada experiência. Em uma sociedade que valoriza excessivamente a razão e o intelecto, o sentir é frequentemente negligenciado, como se o cérebro fosse a única fonte das experiências humanas. Talvez a vida seja mais ampla do que isso.

O resgate do sentir

A ciência do Sentir propõe que o sentir é a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. A partir dessa compreensão, ela nos convida a uma mudança de perspectiva: deixar de enxergar o ser humano somente por uma ótica estritamente materialista, abrindo espaço para uma visão vibracional, que integra sensibilidade, subjetividade e presença. Essa mudança amplia a nossa compreensão da realidade ao reconhecer que o mundo interno é tão importante quanto o mundo externo. Afinal, quando priorizamos somente o que acontece fora de nós e ignoramos o que se passa dentro — ou seja, o que estamos sentindo —, desconectamo-nos da própria subjetividade; e isso pode gerar vazio, desorientação e perda de sentido.

Perda de sentido que se torna cada vez mais comum quando se observa, especialmente neste início de terceiro milênio, pessoas negligenciando suas necessidades afetivas, entregando-se ao consumismo e permitindo que um ideal robótico se sobreponha ao humano. Em outras palavras, vemos indivíduos se abandonando, o que, inevitavelmente, se transforma em sofrimento.

Nesse contexto, a Psicomplexidade, como proposta pela ciência do Sentir, ganha relevância ao nos convidar a integrar pensamento e sensibilidade, a desenvolver empatia por nós mesmos. É curioso: fala-se muito em empatia pelo outro, mas raramente se discute a empatia por si mesmo, ou seja, a capacidade de ocupar o próprio lugar interno, acolher os sentimentos que estão sendo vivenciados, reconhecer as necessidades do momento e estabelecer uma conexão profunda consigo mesmo.

Em tempos de hiperconectividade, esse movimento é essencial. Precisamos estar atentos para não nos abandonarmos, não ignorarmos nossas necessidades afetivas, não nos deixarmos levar pelo consumismo nem permitir que o ideal robótico se sobreponha ao humano, pois, quando isso acontece, o sofrimento se torna inevitável.

O protagonismo diante da tecnologia

Fato é que precisamos nos escutar e nos respeitar enquanto humanos, renunciando ao ideal do “ser robótico” que o mundo contemporâneo tenta nos impor. Isso não significa rejeitar a tecnologia, que é bem-vinda e responsável por avanços importantes, mas assumir o protagonismo diante dela, em vez de permitir que determine o modo como vivemos.

Enfim, escutar-se e respeitar-se significa não permitir que o que sentimos seja abafado, que as máquinas nos sirvam de espelho para definir como vivemos, sentimos ou nos relacionamos. Significa, sobretudo, não rejeitar a nossa própria humanidade, não nos desconectarmos de nós mesmos.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de felicidade


Por Beatriz Breves

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Felicidade: qual ser humano não quer ser feliz? Arrisco-me a dizer que a felicidade talvez seja um dos sentimentos mais cobiçados entre as pessoas.

Há quem diga que felicidade não existe. Há quem diga que felicidade só acontece em alguns momentos. Mas há também quem diga que a felicidade é um sentimento que se instala permanentemente ao fundo, na vida da gente.

Muitas pessoas perguntam: como alguém pode ser feliz? Qual seria a receita para alcançar a felicidade?

A verdade é que não existe uma fórmula pronta. E isso porque não há uma receita única capaz de servir a todos. O ser humano não é uma máquina na qual se insere um programa que funciona da mesma maneira em todos os computadores. Cada ser humano é único em sua sensibilidade e subjetividade. Por isso, o caminho é cada um buscar dentro de si os ingredientes para ser feliz.

De fato, dinheiro não compra felicidade, mas é inegável que a falta de dinheiro, quando não se tem o mínimo para as necessidades básicas — por exemplo, se há fome, miséria ou ausência do mínimo para viver com dignidade —, afasta-nos, e muito, da felicidade.

A felicidade é um entre os milhares de sentimentos que coexistem, se misturam e se influenciam mutuamente, embora a maioria das pessoas desconheça essa complexidade. Seria como se cada indivíduo fosse o maestro de sua própria orquestra de sentimentos, regendo a peça musical do seu Eu, composta por sentimentos que variam em intensidade, ritmo e profundidade.

Portanto, ser feliz é aprender a se ouvir enquanto pessoa e, assim, tornar-se capaz de ir compondo o seu Eu com cada vez mais qualidade. Ser feliz é também, e antes de tudo, reconhecer-se humano, com tudo o que isso envolve — solidariedade, egoísmo, esperança, desilusão —, enfim, um ser sensível que é e pertence à natureza. Ser feliz é, dia a dia, poder explorar e, assim, ampliar o reconhecimento interno do mundo dos sentimentos.

É dessa forma que a receita se faz pessoal e individualizada, revelando-se na capacidade de aprender a transitar pelos sentimentos e, assim, reger a música em permanente construção que cada um de nós é.

Quando a noite chegar, como costumo sugerir, vale perguntar a si mesmo o que fez ao longo do dia e, mais ainda, o que sentiu em cada uma dessas ações. Esse simples gesto abre a oportunidade de reconhecer que, muito mais do que um corpo material, somos um complexo vibracional, capaz de perceber sensações e sentimentos.

A felicidade é um conjunto de sentimentos e, ao mesmo tempo, um esteio para eles, assim como o resultado de sua própria interação. O sentimento de felicidade é, na verdade, uma aliança com a vida: uma complexidade interna que nos permite experimentar a alegria de viver, aquela alegria simples e profunda que, quando se manifesta, nos faz verdadeiramente felizes.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Entre o que sentimos, o que somos e o que a realidade permite

Por Beatriz Breves

Foto de Jorj on Pexels.com

Quando deslocamos o foco para o sentimento de Eu, percebemos que se trata de uma estrutura fractal, ou seja, padrões que se formam e se transformam continuamente pela internalização das experiências, dos vínculos e da qualidade das relações vividas. Por isso, o Eu integra, inevitavelmente, dimensões biológicas, psíquicas e sociais, articulando-as em um movimento constante de construção e reconstrução.

Todavia, ainda vivemos presos a um paradigma reducionista que entende o biológico como a única “verdade” possível. Nesse modelo, cromossomos XX definem uma mulher; XY, um homem; e a cultura somente acrescenta comportamentos esperados. Mas a vida psíquica não cabe nesse binário. Essa é uma limitação de um olhar materialista cartesiano, que enxerga o ser humano somente pelo prisma material e, assim, impõe o determinismo biológico à identidade.

Entretanto, ao migrarmos do olhar mecanicista para o paradigma vibracional, torna-se mais fácil compreender que a identidade se manifesta em pelo menos dois planos: o da realidade materializável e o da realidade psíquica. À experiência humana inclui-se o nível microcósmico do ser, aquilo que não se vê, mas constitui grande parte de quem somos. Por esse olhar, a experiência humana é entendida como um complexo vibratório macromicro, uno, inteiro e indivisível, que só pode ser apreendido por meio de recortes. E cada recorte — biológico, psíquico ou social — revela somente um aspecto da totalidade que somos.

Assim, quando uma pessoa biologicamente classificada como um determinado sexo se sente e se reconhece no sexo oposto, ou quando alguém da espécie humana se sente e se reconhece como pertencente a outra espécie, muitos reagem descartando esse sentimento como exagero, confusão ou patologia. Isso ocorre porque o olhar social costuma se fixar exclusivamente no recorte biológico, ignorando o recorte psíquico, o modo como a pessoa se percebe, se sente e se reconhece internamente. É como se a identidade tivesse que obedecer apenas ao corpo, quando, na verdade, o corpo é apenas uma das camadas que compõem o Eu.

Esse descompasso não se aplica somente a pessoas trans ou therians, mas também àquelas que vivem uma preocupação persistente com supostos defeitos físicos mínimos ou inexistentes, como ocorre na dismorfia corporal. Abrange, ainda, quem é gordo e se percebe magro, quem é considerado bonito e se enxerga feio, quem é inteligente e se sente limitado ou mesmo situações em que alguém procura um profissional de saúde e recebe como resposta que “não tem nada, é psicológico”, reduzindo a psique a um nada. Em todos esses casos, há um descompasso entre a realidade e o que a pessoa está sentindo.

Entretanto, isso não significa abandonar referências. O ser humano precisa de referências para se orientar; sem elas, perde o senso de si. A ideia de que “a pessoa pode ser tudo” pode levar a uma perda de reconhecimento pessoal, pois aquele que pode ser tudo, paradoxalmente, torna-se nada.

Para facilitar a compreensão, podemos recorrer ao exemplo do movimento dos corpos. Desde Galileu, sabemos que todo movimento é relativo; porém, convencionou-se a Terra como sendo fixa a fim de organizar os movimentos no mundo, pois, sem esse ponto de referência, perderíamos a capacidade de descrever qualquer deslocamento que fosse realizado. Da mesma forma, o referencial biológico funciona como esse ponto fixo: os cromossomos XX e XY permanecem constantes, atravessando eras, épocas e culturas, oferecendo um parâmetro estável a partir do qual outras variações podem ser compreendidas.

Em outras palavras: mesmo não sendo possível definir a identidade de uma pessoa a partir de um único olhar, é necessário estabelecer referências de reconhecimento. E a referência biológica é socialmente pertinente. Entretanto, afirmar que ela é a única referência válida significa negar a identidade sob o prisma da realidade psíquica. A forma como uma pessoa adulta sente a si mesma e conduz suas escolhas deve ser respeitada.

Nesse contexto, é importante ressaltar dois referenciais de lógica: a lógica booleana, que opera com dois estados (0 e 1) e é adequada ao referencial biológico; e a lógica fuzzy, que admite infinitos valores entre 0 e 1, sendo adequada ao referencial psíquico, permitindo compreender que entre XX e XY existem inúmeras possibilidades de expressão. Isso se reflete na multiplicidade de termos usados por grupos como LGBTQQICAPF2K+, que buscam nomear nuances que não cabem no binário biológico.

Mas é preciso cuidado, pois nem sempre sentir significa ser. A realidade psíquica não anula a material; contudo, a realidade material, em muitas situações, anula a psíquica. Se alguém se sentir um super-herói capaz de voar e pular de uma janela, os limites da realidade biológica prevalecerão. Da mesma forma, se alguém, sentindo-se um gato, morar na rua e caçar ratos para se alimentar, não chegará a um bom lugar. Tal qual todos que nasceram um dia, mesmo que se sintam imortais, irão falecer. A realidade material impõe limites inegociáveis.

Há ainda outro aspecto importante a considerar. Em qualquer relação, de qualquer ordem, é necessário haver um fiel da balança que permita mediar conflitos de percepção, especialmente em sociedades democráticas. Nesse caso, o elemento que cumpre essa função é o biológico, por ser universal e atravessar o tempo: desde que a espécie humana existe, mulheres possuem cromossomos XX e homens, XY.

Sem esse parâmetro comum, surge um impasse. Se uma pessoa XY afirma à outra que “se sente mulher” e, por isso, deve ser reconhecida como tal, a outra pode responder: “eu não sinto você como mulher, portanto, meu sentimento não a torna mulher”. A pergunta que emerge é: por que o sentir de uma deveria prevalecer sobre o sentir da outra?

Quando não há um critério compartilhado, cada percepção subjetiva se torna absoluta e, portanto, inconciliável. Nesse cenário, o único fiel da balança possível é a biologia, justamente por ser atemporal, universal e independente das variações individuais de sentimento.

Enfim, com certa segurança, pode-se afirmar que o sofrimento surge justamente quando há uma ruptura entre o que a sociedade reconhece e o que o Eu reconhece em si mesmo. Essa fratura pode gerar um vazio profundo, um sentimento de desenraizamento que compromete a própria experiência de existir. Reconhecer a coexistência legítima dos recortes biológico, psíquico e social, respeitando os limites próprios de cada um, é fundamental para reduzir o sofrimento humano e ampliar o espaço de dignidade e compreensão mútua.

Entretanto, negar os limites impostos pela natureza em seus recortes biopsicossociais é perder referências essenciais, abrindo espaço para uma desorientação que não é somente individual, mas pode tornar-se coletiva, a ponto de já não ser possível distinguir o que é fato, o que é experiência e o que é delírio.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.