Conte Sua História de São Paulo: tentando desvendar-te em cada noite fria

 

 

Neide Lopes Ciarlariello
Ouvinte da CBN

 

 

 

 

No Conte Sua História de São Paulo vamos ouvir o soneto da ouvinte da CBN Neide Lopes Ciarlariello, paulista, filha de paulistanos e neta do cantor paulista Paraguassu. Neide está com 80 anos, é poeta, pertence a Academia Contemporânea de Letras de São Paulo e a Real Academia de Letras do Rio Grande do Sul:
 

 

Intrinsicamente ligadas, eu e tu amada minha
Tão bela! Sonho que percorro em cada via
Em cada esquina, em cada praça em cada vinha.
Te absorvo passo à passo, noite e dia
 

 

Na incansável busca do teu cerne
Tentando desvendar-te em cada noite fria
Eu não consigo, por mais que me aderne
No rastro prateado daquela estrela guia.
 

 

Pedantife de esmeraldas de Fernão
Cinzelada pela força do trabalho
És única nesse turbilhão, és joia rara
 

 

Emoldurada em ouro pelo sol
Minha São Paulo!
Minha terra!
Meu torrão!
 

 

Neide Lopes Ciarlariello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie suas lembranças da cidade para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Quintanares: Ninguém foi ver se era ou se não era

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos – 1940
Narração de Milton Ferretti Jung

 

XXV [NINGUÉM FOI VER SE ERA OU SE NÃO ERA]

 

Ninguém foi ver se era ou se não era.
E isto aconteceu lá no tempo da Era.
Mas, no teu quarto havia, mesmo, uma Chymera.
De bronze? De verdade? Ora! Que importa?

 

Foi quando Quem Será bateu à tua porta.
“Entre, Senhor, que eu já estava à sua espera…”
(Naquele tempo, amigo, a tua vida era
Como uma pobre borboleta morta!)

 

E Quem Será cumprimentou, falou
De coisas e de coisas e de coisas,
Bonitas umas, tristes outras como loisas…

 

E todo o tempo em que ele nos falou,
A Chymera a cismar: “Como é que Deus deixou
Haver, por trás do Sonho, tantas, tantas coisas?”

 

Quintanares foi apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: A ciranda rodava no meio do mundo

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em A Rua dos Cataventos – 1940
Interpretação de Milton Ferretti Jung

XXIV [A CIRANDA RODAVA NO MEIO DO MUNDO]

 

A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo, cantava…

 

Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo…
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo…

 

E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo…
E quando a ciranda por fim terminava

 

E o silêncio, em tudo, era mais profundo,
Nosso Senhor esperava… esperava…
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

 

Quintanares foi apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: “Escrevo diante da janela aberta”

 

 

Poesia de Mário Quintana
Narração de Milton Ferretti Jung

 

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

 

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…

 

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

 

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando.

 

Publicado em A Rua dos Cataventos